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segunda-feira, agosto 13, 2012

“Participei, por isso testemunho”, Sérgio Vieira, pág. 257,258 e 259( A morte de Eduardo Mondlane)

Passaram-se mais de quarenta anos desde o dia em que uma bomba, pre­parada na Beira pelo sinistro inspector da PIDE, Casimiro Monteiro, assas­sinou Eduardo Chivambo Mondlane, Presidente da FRELIMO. Muito do que descrevo já o Presidente Chissano declarou na Assembleia da República, contudo, pareceu-me útil, no meu exercício de memória, pôr os pontos nos is, para ajudar o fim da especulação com boa ou má-fé. A essência dos dados, incluindo a origem da bomba, na época, a INTERPOL, a pedido do governo tanzaniano investigou e difundiu.
Não se tratou de um caso único, infelizmente, o assassinato de Mon­dlane pelos colonialistas. Os assassinatos de Mondlane e Amílcar Cabral respectivamente em 1969 e 1973, o ataque à República da Guiné em 1970 ocorreram durante o consulado de Marcelo Caetano. Dificilmente se pode aceitar que o Presidente do Conselho de Ministros ignorasse estas acções e não as houvesse caucionado antes, ou depois. Já em 1965 a PIDE assassinara em Espanha o general Humberto Delgado.
Casimiro Monteiro, de origem goesa, preparou na Beira um livro arma­dilhado com uma bomba, numa obra do marxista Plekhanov. Antigos colegas da PIDE de Casimiro Monteiro, incluindo Rosa Casaco, reconheceram esta acção. Rosa Casaco afirma ainda que este seu colega disparou, mortalmente, contra o general Delgado. Ignora-se quem instruiu Casimiro Monteiro para preparar a armadilha contra Mondlane, se um membro do governo central ou da colónia, se o comando das forças armadas em Moçambique, ou da PIDE, ou se tudo se reduziu a uma conjura local com Jardim e Cristina.
No Malawi, no consulado português em Blantyre, dirigido por Jaime Pombeiro de Sousa, um associado de Jorge Jardim que lá se encontrava, por acaso ou deliberadamente, Orlando Cristina, entregou um pacote a um sacerdote belga, o padre Pollet, que missionara muitos anos em Sofala e aí travara amizade com o padre Mateus Pinho Gwenjere. Orlando Cristina pediu ao padre Pollet, que ia para a Tanzânia, que levasse o embrulho para a fronteira e aí buscasse alguém da FRELIMO, para que o remetesse a Silvério Nhungu ou a Urias Timóteo Simango em Dar-es-Salaam. Assim fez o sacerdote e, encontrando na fronteira de Songea Samuel Rodrigues Dhlakhama, que já conhecia, solicitou-lhe que entregasse o volume a Simango ou a Nhungu.
De nenhum modo se pode afirmar que o padre Pollet, com quem ainda falei depois do assassinato de Mondlane, conhecesse o conteúdo e o objectivo do embrulho. Ele mencionou-me que Cristina lho entregara e o remetera a Samuel Rodrigues Dhlakhama, que encontrara por acaso. Igualmente, nunca se encontraram quaisquer dados sobre o envolvimento do cônsul Jaime Pombeiro de Sousa, que dirigia o consulado em Blantyre. O padre Pollet disse-me que após os eventos as circunstâncias lhe criaram suspeição, encontro no consulado português e a entrega do embrulho por Cristina, conhecido como agente português. Ele, como missionário na região de Sena, necessitava de estar em contacto com as autoridades e sempre que ia a Blantyre cumpri­mentava o cônsul ou outro representante do consulado. Se revoltado pela sua instrumentalização, se pela idade ou saúde, o padre Pollet retirou-se de Moçambique.
Chegado a Dar-es-Salaam, Samuel Rodrigues Dhlakhama telefonou a Nhungu, que lhe marcou um encontro num quarto de hotel (não me recordo do nome), que ficava junto à representação do MPLA em Dar-es-Salaam. Dhlakhama entregou o embrulho a Nhungu, que estava acompanhado por Simango. Num dos dias seguintes, quando o Presidente Mondlane estava a sair do escritório, dirigindo-se para Oyster Bay, para a casa de Betty King onde trabalhava muitas vezes na ausência dela e do marido, o escritor Willy Sunderland, Nhungu voltou-se para uma camarada, a Rosaria, que estava afecta à nossa representação na capital tanzaniana e disse: Corre para o carro do Presidente e entrega-lhe este embrulho. Esqueci-me de lho dar, Tratava-se de um volume, com a forma de um livro, embrulhado sob a forma de vim pacote postal, com selos soviéticos e tanzanianos, e endereçado a Mondlane. Ao abrir o pacote a armadilha funcionou, matando instantaneamente o Presi­dente, a bomba dilacerou-lhe o ventre e o tórax, segundo me narraram.
Dhlakhama, quando transportou o embrulho, este estava dirigido a Nhungu e não se assemelhava a um objecto chegado via correio, segundo declarou à comissão de inquérito. A Rosaria, segundo também declarou à mesma comissão, lembra-se de que recebeu um pacote, com a aparência de que vindo através dos correios, com selos e carimbos, endereçado a Mondlane e que Nhungu lhe entregara para remeter ao Presidente. Samuel Dhlakhama sempre insistiu nos seus depoimentos de que o pacote entregue a Nhungu lhe parecia muito maior do que a dum simples livro, ainda que volumoso. Pessoalmente, Samuel Dhlakhama e Rosaria, além de outras pessoas, confir­maram vários destes factos e a comissão de inquérito, que eu dirigi, constatou, por unanimidade, não haver qualquer indício que apontasse para o facto de eles não haverem agido de boa fé ou conhecessem o conteúdo do pacote antes do desfecho fatal, embora houvessem transmitido, depois dos eventos, suspeitas sobre o acontecido. A comissão considerou-os livres de qualquer suspeita e inocentes.
Simango reconheceu os factos, embora declarasse ao CC, em Abril de 1969, que ignorava o conteúdo do embrulho entregue a Silvério Nhungu, na sua presença, no hotel.
Lázaro Nkavandame afirmou a amigos e correligionários em Mtwara, a 1 de Fevereiro de 1969, que havia recebido um telefonema de Simango, para estarem atentos e fazerem uma festa quando recebessem boas notícias. Fizeram a festa a 3 de Fevereiro depois de receberem um telefonema de Dar-es-Salaam! Quando procurado pela polícia tanzaniana, Lázaro atravessou a fronteira e entregou-se às forças armadas coloniais com alguns dos seus colegas, ini­ciando, então, uma actividade colaboracionista com o inimigo, indicando a este onde bombardear aldeias, escolas, hospitais e fazendo apelos à deserção através da rádio e gravações difundidas por altifalantes nos aviões.
No dia 3 de Fevereiro, Samora estava em Moçambique e tomou conheci­mento da tragédia pelos noticiários da rádio tanzaniana. Marcelino acabava de chegar de Moçambique, e não se deslocara ainda ao escritório.
Espero que os factos, que se podem verificar, ajudem a separar o trigo do joio e contribuam para pôr termo aos mitos de heroicidade de traidores e de satanismo de inocentes.

Retirado do Moçambique para todos (14.08.2012)

Nota: Siga o link para ler a réplica de Barnabé Ncomo, autor do livro Uria Simango: Um homen, Uma causa

segunda-feira, agosto 06, 2012

Pouco da nossa História: Cartão de Membro da Frelimo de Samora Machel


Reflectindo: Veja que quem assinou o cartão foi Silvério Nungo. Quem foi Silvério Nungo?

SITUAÇÃO SOMBRIA NA FRELIMO

Por Uria T. Simango

A Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) foi formada em Junho e 1962 como resultado da fusão de três organizações políticas: UDENAMO, MANU e UNAMI. As pessoas que finalmente trouxeram esta unidade, e  que há quatro anos desertaram, são os senhores Mateus Mmole, presidente da MANU, Adelino Gwambe, presidente da UDENAMO e muitos outros que na época estavam em Dar-Es-Salam.
A unificação dessas organizações foi o mais importante acontecimento realizado pelo povo na luta contra o colonialismo português. Este acontecimento encontrou uma forte oposição de elementos individualistas que entendiam que este processo podia diminuir-lhes a possibilidade de alcançar posições importantes na política. Este processo, que visava juntar, fortificar e dar uma impressionante força a luta contra o colonialismo e o imperialismo, não agradou aos inimigos da liberdade e da independência. Contudo, apesar dos esforços empreendidos para evitar a formação da Frente de Libertação, o desejo do povo moçambicano realizou-se. Ler mais

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

SOBRE QUARENTA ANOS DEPOIS DE UM CRIME

Carta a Muitos Amigos

Por Sérgio Vieira

Passaram-se quarenta anos desde o dia em que uma bomba, preparada na Beira pelo sinistro inspector da PIDE, Casimiro Monteiro, assassinou Eduardo Chivambo Mondlane, Presidente da Frelimo. Muito do que descrevo já o Presidente Chissano declarou na Assembleia da República, pareceu-me pois útil, no meu exercício de memória, pôr os pontos nos is , para ajudar o fim da especulação com boa ou má fé. A essência dos dados, incluindo a origem da bomba, na época, a INTERPOL a pedido do governo tanzaniano investigou e difundiu.

Casimiro Monteiro, de origem goesa, preparou na Beira um livro com uma bomba armadilhada, numa obra do marxista Plekhanov. Ignora-se quem o instruiu para tal. No Malawi, no consulado português em Blantyre, dirigido por Jaime Pombeiro de Sousa, um associado de Jorge Jardim, Orlando Cristina entregou um pacote a um sacerdote belga, o Padre Pollet, que missionara muitos anos em Sofala e aí travara amizade com o Padre Mateus Pinho Gwenjere. Orlando Cristina pediu ao Padre Pollet, que ia para Songea, que levasse o embrulho para essa fronteira e aí buscasse alguém da FRELIMO, para que o remetesse a Silvério Nhungu ou a Urias Timóteo Simango em Dar-es-Salam. Assim fez o sacerdote e, encontrando na fronteira Samuel Rodrigues Dhlakama, que já conhecia, solicitou-lhe que entregasse o volume a Simango ou Nhangu.
De nenhum modo se pode afirmar que o Padre Pollet, com quem ainda falei depois do assassinato de Mondlane, conhecesse o conteúdo e o objectivo do embrulho. Ele mencionou-me que Cristina lhe entregara e o remetera a Samuel Rodrigues Dhlakama, que encontrara por acaso. Igualmente nunca se encontraram quaisquer dados sobre o envolvimento do Cônsul Jaime Pombeiro de Sousa, que dirigia o Consulado em Blantyre. O Padre Pollet disse-me que, após os eventos, as circunstâncias lhe criaram suspeição, encontro no consulado português e entrega do embrulho por Cristina, conhecido como agente português. Ele, como missionário, na região de Sena, necessitava de estar em contacto com as autoridades e sempre que ia a Blantyre, cumprimentava o cônsul ou outro representante do consulado. Se revoltado pela sua instrumentalização, se pela idade ou saúde, o Padre Pollet retirou-se de Moçambique.

Chegado a Dar-es-Salaam, Samuel Rodrigues Dhlakama telefonou a Nhungu, que lhe marcou um encontro num quarto de hotel (não me recordo do nome), que ficava junto à representação do MPLA em Dar-es-Salaam. Dhlakama entregou o embrulho a Nhangu, que estava acompanhado por Simango. Num dos dias seguintes, quando o Presidente Mondlane estava a sair do escritório, dirigindo-se para Oyster Bay, para casa de Betty King, onde trabalhava muitas vezes na ausência dela e do marido, o escritor Willy Sunderland, Nhungu voltou-se para uma camarada, a Rosária,que estava afectada à nossa representação na capital tanzaniana e disse: Corre para o carro do Presidente e entrega-lhe este embrulho. Esqueci-me de lhe dar. Tratava-se de um volume, com a forma de um livro, embrulhado sob a forma de um livro, com selos soviéticos e tanzanianos, e endereçado ao Presidente. Ao abrir o pacote a armadilha funcionou, matando Mondlane instantaneamente, a bomba dilacerou-lhe o tórax.

Dlakama quando transportou o embrulho, este estava dirigido a Nhungu e não se assemelhava a um objecto chegado via correio, segundo declarou a uma comissão de inquérito. A Rosária, segundo também declarou à mesma comissão, lembra-se que recebeu um pacote, com a aprência de vindo através dos correios, com selos e carimbos, endereçado a Mondlane. Pessoalmente, Samuel Dlakama e Rosária, além de outras pessoas, confirmaram este factos e a comissão de inquérito, que eu dirigi, constatou, por unanimidade, não haver qualquer indício que apontasse para o facto de eles não haverem agido de boa fé ou conhecessem o conteúdo do pacote antes do evento fatal, embora houvessem transmitido, depois dos eventos, suspeitas sobre o conteúdo. A Comissão considerou-os livres de qualquer suspeita e inocentes.

Simango e alguns dos seus colaboradores reconheceram os factos, embora Simango declarasse ao CC, em Abril de 1969, que ignorava o conteúdo do embrulho entregue a Silvério Nhungu, na sua presença no hotel.
Lázaro afirmou, a amigos e correligionários em Mtwara, a 1 de Fevereiro de 1969, que havia recebido um telefonema de Simango, nas vésperas do assassinato de Mondlane, para estarem atentos e fazerem uma festa quando recebessem boas notícias.

Fizeram a festa a 3 de Fevereiro depois de receberem um telefonema de Dar-es-Salaam! Quando procurado pela polícia tanzaniana, Lázaro atravessou a fronteira e entregou-se às forças armadas coloniais com alguns dos seus colegas, iniciando então uma actividade colaboracionista com o inimigo, indicando a este onde bombardear aldeias, escolas, hospitais e fazendo apelos à deserção através da rádio e gravações difundidas por altifalantes nos aviões.

O assassinato de Mondlane pelos colonialistas não se tratou de um caso único, infelizmente. Os assassinatos de Mondlane e Amílcar Cabral, respectivamente em 1969 e 1973, o ataque à República da Guiné em 1970, ocorreram durante o consulado de Marcello Caetano. Dificilmente se pode aceitar que o Presidente do Conselho de Ministros ignorasse estas acções e não as houvesse caucionado antes, ou depois.

Espero que os factos, que se podem verificar, ajudem a separar o trigo do joio e contribuam para pôr termo aos mitos de heroicidade de traidores e de satanismo de inocentes.
Um abraço a todos que prezam os ensinamentos de Mondlane.

P.S.: Lamento, depois de celebrarmos a memória do grande lutador Martin Luther King Jr., o plagiador local do sonho abandone o seu ponto de referência e revista-se do manto de Obama de Moçambique.
Como escreveu Engels, quando a História se repete, fá-lo como caricatura.
Precisa Moçambique, a democracia Nacional e a FRELIMO dum verdadeiro número um à cabeça da oposição, um histrião não serve. Consta que o edil da Beira se prepara para organizar um verdadeiro partido que agregue as forças sãs da oposição, que merece melhor.
A expulsão que vitimou o edil não conta. Coragem engenheiro e como César atravessando o Rubicão, saiba galgar o Chiveve.
Um abraço à seriedade e ao patriotismo, SV


DOMINGO - 08.02.2009

Retirado na sua íntegra do Moçambique para todos

Nota do Reflectindo:

Releiam a carta de Sergio Vieira e reflictam comigo