Mostrar mensagens com a etiqueta Viriato Caetano Dias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Viriato Caetano Dias. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, agosto 16, 2010

África-crise económica e de valores democráticos, ou mais oportunidades que se perdem (miséria/desgraça para os jovens no futuro)

Por Zacarias Abdula

Caro Viriato,

Gostei do artigo.
Reflecte a complicada situação em que África se encontra hoje, novamente à mercê dos "aproveitadores" das circunstâncias.
Parece a menina "ingénua desprotegida" que sai da aldeia, com o único intuito- "arranjar dinheiro para alimentar os seus, que não têm para onde se virar".
Não vai durar, porque apanhará todo tipo de "doenças crónicas e fatais", como se da vida real se tratasse.
Agora com desastres naturais, ficará sujeita a comprar trigo e arroz a peso de oiro (Paquistão, Rússia, China, Vietname).

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

Ilha de Moçambique - estudo da Fortaleza de São Sebastião e a Capela de Nossa Senhora do Baluarte

(século XVI a XIX)

Por Viriato Caetano Dias

Resumo

O presente trabalho constitui um estudo sobre a ilha de Moçambique: Fortaleza de São Sebastião e a Capela de Nossa Senhora do Baluarte, no período compreendido entre os séculos XVI e XIX, período esse marcado pela dominação colonial portuguesa em Moçambique.
A importância da ilha de Moçambique começou a revelar-se com o estabelecimento do Tratado da Índia e com os acontecimentos navais no Oriente. Em 1544 -1545, quando D. João de Castro foi mandado governar a Índia, verificou, perante o suceder das ocorrências, da urgência de se levar a efeito a fortificação do porto e da ilha em geral. Foi assim que, em 1558, sob batuta de Miguel de Arruda, começa a construção da Fortaleza de S. Sebastião, a maior da África Austral.
Esta fortaleza era muito importante para Portugal, porque a ilha de Moçambique tinha-se tornado o entreposto da permuta de panos e missangas da Índia por ouro, escravos, marfim e pau preto de África, e era da ilha que partiam todas as viagens comerciais para Quelimane, Sofala, Inhambane e Lourenço Marques (actual Maputo), mas também para os principais mercados europeus, de Lisboa para Génova, Veneza e Flandres. Para além dos portugueses outros concorrentes europeus apareceram na corrida pelo controlo das rotas comerciais das especiarias da Índia, como foi o caso dos franceses, ingleses e holandeses, estes inclusive tentaram ocupar a ilha por duas vezes, em 1607 e 1608 e, não o conseguindo, devastaram-na pelo fogo.
A Capela de Nossa Senhora do Baluarte foi construída muito antes da Fortaleza de S. Sebastião. De estilo medieval clássico português, o Manuelino, com abobada cruzadas, é o edifício mais antigo preservado em Moçambique. Aquando da sua fundação em 1522, por D. Pedro de Castro, a capela tinha como principal objectivo defender o canal que dá acesso ao porto da ilha, mas também servia de local de culto. Depressa, tornou-se a “espinha dorsal” da colonização portuguesa, através de campanhas / missões de submissão dos povos autóctones locais.
A importância económica, associada a questão de natureza, fundamentalmente, geo-estratégica - cidade insular - , determinara à escolha da ilha de Moçambique para a primeira capital dos territórios de Moçambique, directamente subordinada, de 1509 a 1752, à jurisdição do vice-rei da Índia até 1898, quando Mouzinho de Albuquerque transferiu a capital para Lourenço Marques (Maputo), devido às manifestas insuficiências da ilha para continuar a desempenhar eficazmente o papel de capital.

Leia aqui o estudo na íntegra.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

Dialogando sobre o termo descobrimento


A FACE DO DIÁLOGO

Por Viriato Caetano Dias

“A história da humanidade está marcada pela lei dos mais fortes, pela força dos mais poderosos sobre os mais fracos e, em muitas regiões do mundo, esse domínio arrasta-se até hoje” - Judite de Sousa, jornalista portuguesa.
Começo a presente reflexão com uma advertência pontual: procurarei não “lamber as feridas do passado”, tão-pouco historizar os factos. Em tempo de crise (como este em que vivemos) não se pode dar ao luxo de extenuar a mente dos leitores com factos que julgo serem de domínio de todos. Nem de criar contendas, porque paz completa entre os Homens!
Vamos então – em detrimento destas “ladainhas” – ao que mais interessa!
Reza a História que entre o século XV até ao início do século XVI, Portugal fez-se ao mar à procura de novas rotas de comércio e parceiros para sustentar o crescente capitalismo burguês europeu, tornando-se assim no primeiro país do continente europeu a “descobrir” o Caminho Marítimo para a Índia! A todo este processo chamam “descobrimentos.”
E para imortalizar esta proeza, o Governo português tem estado a promover de lésa-lés, no país e no estrangeiro, a grande aventura portuguesa no mundo. E julgo bem que o faça.
Porém, como poderão ter se apercebido, aspei o termo “descobrir” por não concordar com ele, pois, entendo por “descobrimento” uma outra coisa, e não aquela que os manuais de História de Portugal e da Europa em geral concebem. Para essas fontes, “descobrimento” significa “desenterrar” aquilo que antes estava escondido, ou ainda, acto de descobrir terras ignoradas.
Ora, ter de (trata-se de uma imposição) aceitar este conceito de “descobrimento” tal como está, seria o mesmo que dizer que fora dos europeus, nós, os restantes povos do globo, somos produtos do “descobrimento” europeu, o que não corresponde a verdade.
Que não fosse a coragem de Vasco da Gama ou de qualquer outro aventureiro, os restantes povos jamais seriam conhecidos ou até mesmo “civilizados”.
Esta afirmação também não corresponde a verdade.
Percebido assim, estes termos valem um insulto crasso à memória desses povos e, quiçá, uma aberração a verdade histórica dos factos. Nada neste mundo, para além do fogo e de outras técnicas, é fruto de descobrimento do Homem. Descobrir é diferente de achar, que significa, em síntese, encontrar. São dois termos/conceitos diferentes. Há que saber separar “alho de bugalho”, a menos que os linguistas da língua portuguesa queiram atribuir-lhe o mesmo significado. Este foi talvez o grande “erro” de Camões, que morreu sem que antes tivesse esclarecido cabalmente o sentido de alguns conceitos, entre os quais o de “descobrimento”. Aqui está mais uma razão para que o grupo de trabalho responsável pelo Acordo Ortográfico comece já a explorar.
Este mundo sempre foi conhecido. As sondas da história provam exactamente isso, que a dita aventura europeia em territórios alheios foi feita em função de informações disponíveis, sólidas ou não, sobre a existência de outros povos e lugares. Pois ninguém navega sobre o nada, ainda que não tivessem certezas absolutas. Sendo assim (é minha opinião) que no lugar de se chamar “descobrimento” passasse a usar “chegada”. A ser assim, estaríamos a colocar a verdade dos factos nos pés da História, o que seria uma recompensa justa e legitima ao passado.
Mas atenção: esta mudança de nome não tira o real valor da aventura portuguesa no mundo. Não se pode falar da História do Mundo sem falar de Portugal.
Os feitos dos portugueses, quer se queira, quer não, mudou a visão do mundo em vários domínios. Basta lembrar que a própria língua portuguesa, nascida de um pequeno povo do litoral europeu e que irradiou sobre os quatro continentes do Mundo, é um bem preciso a ter em conta. A “língua de Camões” (a verdade seja dita) funciona, no nosso país em particular, como um semáforo linguístico. Sem ela, não tenhamos dúvida, as guerras étnicas já teriam causado vítimas mortais.
Ainda sobre a utilização do termo “descobrimento” escrevi, em 2004, uma carta ao meu estimado amigo Prof. José Hermano Saraiva, cujos trechos aqui transcrevo (sem a sua permissão): “Há na sua carta um ponto que me surpreendeu: foi a sua dúvida sobre o descobridor do Caminho Marítimo para a Índia. O que eu afirmei, e todos os historiadores dizem é que o Caminho Marítimo da Europa até à Índia, foi descoberto em 1498 por Vasco da Gama. (sublinhado meu). “Colombo nunca esteve na Índia, nem sequer sabia onde era a Índia. Na sua célebre viagem de 1492, descobriu as Antilhas, ignorando o tamanho do planeta, julgou ter chegado à Índia. Comunicou isso aos Reis católicos que o premiaram, mas quando chegou a notícia que a verdadeira Índia era aquela, a que Vasco da Gama chegara, os Reis católicos mandaram prender Colombo, que regressou a Espanha com ferros nos artelhos.”
De uma análise atenta aos trechos pode-se tirar duas ilações. Primeira, o Prof. Saraiva é cauteloso nos factos. Prefere falar de um caminho marítimo da Europa até à Índia, que foi descoberto por Vasco da Gama em 1498. De facto, até que se prove em contrário, nenhum outro europeu tinha até então, à excepção do refinado, percorrido esta rota. Em história como na vida, quando as coisas ganham consenso, há que “dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” Segunda, o Prof. não usa o termo “descobrimento” em relação a viagem de Da Gama à Índia, mas sim, “chegada”; porém, peca logo a seguir ao usar este mesmo termo “descobrimento” em relação a chegada de Colombo às Antilhas. Ora, as Antilhas sempre existiram e não é produto de Colombo nem de qualquer outro aventureiro.
Talvez em jeito de conclusão tentasse explicar o que seria uma descoberta. Para além do fogo que o Homem descobriu há muito, muito tempo porque (em matéria de antiguidade precisão haver não tem, disse Fernão Lopes), cito: a electricidade, o telefone, a Internet, a vacina contra o sarampo, contra a poliomielite, mas ainda falta por descobrir a vacina contra a corrupção, contra o nepotismo, o comodismo, o HIV/SIDA, a malária, etc. O que o Homem não descobriu: a Terra ou povos alheios, a ida à Lua (alguns dizem que é uma descoberta dos americanos, meu santo Deus!), as pegadas de dinossauros (porque é sabido que estes animais habitaram sobre a terra).
Para isso, recomenda-se, sempre que possível, a utilização do termo achar.
Tudo isto leva-me a concluir que a História do Mundo deve ser reescrita, caso contrário continuaremos a emitir diplomas aos nossos estudantes com realidades que muitas vezes estão ao serviço de quem as escreveu e de quem as promove, em detrimento da realidade dos factos. E deve começar agora! Já!

Zicomo kwambiri (muito obrigado).

CORREIO DA MANHÃ – 02.12.2009

domingo, novembro 29, 2009

TETE, TERRA DOS MISTÉRIOS!


Por Viriato Caetano Dias

“Um homem pode viajar para Roma ou Jerusalém, mas transporta no seu coração os valores da sua pátria: o mesmo acontece comigo.” Paulo Coelho, escritor brasileiro.

Seria injusto que depois de algum tempo na “estrada literária” não dedicasse uma reflexão em torno da minha terra, Tete. Os “mizimos” (espíritos dos antepassados) que velam pelas almas dos filhos da terra, não me teriam perdoado por um eventual esquecimento, ou por uma suposta falha de memória. Nem com o habitual e tradicional sacrifício de entrega de um “mbuzi” (cabrito) bode e de cor preta aos “espíritos veladores”, fosse qual fosse a defesa, a minha “pena” não teria sido suspensa. Teria sido condenado de qualquer forma!

Muitos antes de mim o fizeram – se calhar com a mesma pretensão, ou talvez não, admirados pelo seu encanto natural, atribuíram-lhe (a Tete) características ímpares na nossa bela e densa pátria amada – Moçambique. O Dr. David Aloni foi um deles. Chamou-lhe no seu livro “CENTELHAS, Tópicos para uma Reflexão” de “terra dos mistérios.” Com uma capital – estou a citar o Dr. Aloni – que não deixa de ser a única e legítima princesa do grande Zambeze, com a sua portentosa e artística ponte a ligar Matundo com a vetusta cidade. A velha e histórica cidade de Tete goza de um tão raro privilegio de estar situada mesmo nas barbas de uma das mais raras maravilhas de obras de engenharia – a Hidroeléctrica de Cahora-Bassa.

Não só tem Tete a barragem de Cahora-Bassa, como também possui o grande Zambeze, as minas de carvão de Moatize, a rica fauna, a sua poderosíssima cultura (a dança “Nhau”, por exemplo, foi classificada pela UNESCO património imaterial da humanidade), a sua riquíssima história a que se junta a do país em geral, a sua temperatura de fazer inveja a qualquer um. É, no fundo, um ponto nefrálgico do turismo nacional e, sobretudo, para quem por recomendações médicas necessita de descanso e de paz. Mas atenção: a maior riqueza de Tete (modesta à parte), não é a Hidroeléctrica de Cahora-Bassa, nem as minas de carvão de Moatize. A maior riqueza que Tete possui é, sem sombra de dúvida, a generosidade do seu povo. O povo nyungwe é um povo de uma bondade invulgar, imbatível, anti-raça. Convive com todos os outros povos com alto sentido de irmandade, porque é um povo de extrema bondade, como diria o falecido artista plástico português, António Charruas “que na vida podemos combater tudo, menos a bondade de um povo.” A bondade de um povo (enfatiza o mestre Charruas) nunca falece. Um povo assim (digo eu) está condenado ao progresso.

Foi justamente a generosidade do povo “nyungwe”que mobilizou os guerrilheiros da FRELIMO na grande marcha sobre o Zambeze rumo à Independência Nacional, com a célebre canção “tiende pamodzi nantima umodzi, tiambukhe Zambeze nantima umodzi” o que quer dizer, numa tradução livre “todos juntos e com um só coração atravessemos o Zambeze.” Era proibido um soldado não saber cantar as letras desta canção. O povo, mui sabedor, fazia-lhes o coro tal e qual as “batidas” do ritmo musical do saudoso Thazi ou de Eugénio Mucável (já falecidos). E vemos! A música (penso eu) tem um duplo sentido, primeiro funciona como uma espécie de bálsamo para espantar os “maus espíritos” e, segundo, serve também de “musealização” das nossas emoções, sejam ela de alegria ou de tristeza.
Das “escavações” feitas à memória dos anciãos da terra, não há um único comício em que Samora Machel não tivesse entoado com o povo esta canção. Era uma espécie de segundo Hino-Nacional. Talvez venha daí a alegoria – para aqueles que acreditam em representações fantasiosas, tal como eu – não foi Machel à Mbuzine sem antes despedir-se do seu povo em Tete. Foi a última visita que um Chefe de Estado fez à uma província do país. Por isso mesmo que ainda hoje os ensinamentos de Samora Machel no que toca aos valores da pátria estão acima de qualquer interesse pessoal do povo nyungwe. E o povo nyungwe não costuma desfazer pactos!

Conta Arune Valy nas suas habituais crónicas radiofónicas, que a Província de Tete para além de abundante em “crocodilos misteriosos”, as águas do grande Zambeze também purificam às almas do seu povo e dos seus visitantes de eventuais “espíritos maus.” Diz-se que quem beber daquela água é quase certo que para lá voltará. Daí que se acredita, também, que os mortos um dia voltarão à escalar Tete. São mitos que valem a pena ter em conta, afinal a História não é senão a sucessão de mitos.

As poucas notícias de que disponho sobre Tete apontam para um desenvolvimento franco e assinalável, não obstante algumas situações de “primitivismo” de que falarei mais adiante. As minhas fontes falam na existência de mais escolas (no meu tempo, em 1990, haviam pouquíssimas), falam de mais unidades sanitárias, falam ainda da entrada em breve do funcionamento do carvão de Moatize, da construção de uma segunda ponte (já está em curso a reabilitação da ponte Samora Machel), da energia eléctrica que já chega em quase todos os distritos da província, da reabilitação de estradas e pontes, e de outras infra-estruturas, como bancos, casas de comércio, hotéis. É claro que não me esqueci do comboio que em breve voltará a apitar nas linhas-férreas de Tete. Às vezes é preciso despir às rivalidades políticas e saber dizer “tatenda (obrigado) Governo de Moçambique por estas e outras iniciativas boas”. Falta ainda fazer mais, de resto, a verdade seja dita, a obra de nenhum governo é completa!

Tal como reza o adágio popular “não há bela sem senão”, Tete não foge à regra. À semelhança de outras províncias do país, Tete está refém de um certo primitivismo mental de alguns dos seus dirigentes. Enquanto o Governo não “mandar” para a reforma às ferramentas do passado, o país estará condenado a perder as batalhas do presente. Temos o exemplo muito claro do Vale de Zambeze cujo timoneiro é, por sinal, um tetense. Lá diz o velho ditado: “santos de casa não fazem milagres”. Pois é, não fazem. O Coronel e ancião Sérgio Vieira está a ver estrelas em tempo de chuva, num projecto que era suposto dinamizar a economia nacional em todas a sua plenitude. É mais um daqueles projectos criados para “o inglês ver”, “português dançar” e o “moçambicano bater palmas” como sóis dizer-se!

É também sabido que Tete é (pelo menos até ontem) o maior criador de gado bovino e caprino do país, daí o refrão popular “Há mais cabritos em Tete do que pessoas” mas, mesmo assim, o seu povo não come queijo, não toma leite e ainda por cima, têm uma dieta alimentar das mais péssimas em todo o país segundo dados não oficiosos disponíveis na Internet. Nem sequer há industria de transformação de matéria prima, a partir de peles de animais para o fabrico do calçado e outros derivados. A única que havia faliu há mais de 10 anos! O que é que se passa afinal? Será que o empresariado tetense foi mordido pela mosca tsé-tsé?

A outra área de interesse local seria a cerâmica. Os tetenses já não constroem casas com recurso à tijolo convencional (é mais barato, seguro e consciente). No pico das hecatombes naturais que assolou a Província de Tete nas décadas de 80 e 90, a Cerâmica sempre foi uma das principais fonte de sobrevivência das famílias e de receitas local. A Cerâmica era o nosso petróleo. Tudo isto ficou para as gavetas da História, esquecido ou ignorado!

Parafraseando o Professor José Hermano Saraiva, a CERÂMICA não é senão barro amassado em talento. Ora, em [Tete] não falta nem barro nem talento, muito menos água. O que falta é o espírito organizado, empresarial que ponham estes valores a render o quanto valem.

Com tantas saudades assim, só posso lá voltar!

Zicomo Kwambiri (muito obrigado)

quarta-feira, novembro 25, 2009

Compulsando sobre a corrupção

Por Viriato Caetano Dias

Nos tempos em que os homens rudes imperavam, os bandidos nas cruzes penduravam. Hoje que vivemos na época das luzes, no peito dos bandidos penduram cruzes – António Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados de Portugal

Dei comigo na semana passada a estudar o “Fenómeno Corrupção”. Recorri a vários livros científicos, compêndios, obras religiosas, artigos de opinião e mais alguma coisa para tentar perceber este fenómeno macabro que não pára de causar vítimas mortais no mundo todo. Até os mais imbuídos na matéria, inclusive aqueles que faziam da corrupção uma esteira (modo) de vida, não foram poupados.
Consultei a todos eles. Apenas houve uma única excepção no rol dos programados: os curandeiros.
Difícil foi encontrar um curandeiro que me pudesse fazer compreender através daquele seu mundo da mistificação e da magia o motivo que leva um “vampiro” (porque não tenho outro nome a dar a um corrupto que não seja este) a alimentar-se do sangue do seu próximo. Ninguém dos meus “inquiridos” deu-me, para já, uma explicação plausível que não me levasse a concluir que a corrupção mais não é do que um alimento (maná) sempre apetecível dos políticos.
Não há vacina que a combata, nasceu com os homens.
Nós somos, enfim, “herdeiros” de Caim. Não há outra explicação.
Não há um dia que passa em que a minha refeição é tomada sem um caso de corrupção. Podemos dizer que este é o ano de fartura para os jornalistas que não disfarçam o sorriso ao abrirem os seus telejornais, ou quando escrevem os seus editoriais sobre os casos de corrupção. Ao fazê-lo, aplicam-lhe os melhores métodos do ofício nunca antes vistos, tudo para anunciar a “boa nova” aos destinatários. Os noticiários radiofónicos, sem querer ficar atrás da festa, descrevem o cenário como se estivessem a relatar uma partida de futebol daquelas de “cortar o coração”.
Tudo isto têm uma explicação: se no passado recente os ladrões de patos eram levados às cruzes, actualmente o cenário é o contrário, são os proprietários dos patos ou “filhos” destes que às cruzes vão. Os maus exemplos vêm de todos os lados, de Moçambique, de Timor-Leste, de Portugal, da França, até mesmo de “locais santos”, como é caso do Vaticano! O vício, a ganância, a ambição desmedida, o desejo ardente pelo poder tornam as pessoas vulneráveis ao mal. A moralidade, a ética, a deontologia profissional e religiosa são bens que nos dias de hoje perderam a cotação.
“Num val´pena, Muna, a corrupção é o que está a dar aqui no país da marrabenta! Dizia um amigo meu, ao telefone, de Nampula.
Não compreendo como é que aquelas pessoas que fazem da inteligência uma profissão para dirigir “massas” e promover o bem-estar social possam, instigadas pelo dinheiro, meter-se em labirintos da corrupção, destruindo não só a si, mas também os pilares de desenvolvimento dos países que representam. O pior de tudo é que essas mesmas pessoas são portadoras de um programa de governação repleto de versos e prosas tão lindas, tão lindas de fazer inveja a Luís Vaz de Camões.
Palavras douradas, mas que não combatem a corrupção, pelo contrário, promovem-na. Tudo não passa de discursos esfarrapados para saciarem os seus estômagos à custa do povo que dizem representar.
Uma cambada de oportunistas sem bandeira, sem escrúpulos nem moral.
Basta olhar para o julgamento do “Caso Aeroportos de Moçambique” para perceber o quão o Estado foi burlado por pessoas instruídas. Não tiveram pena nenhuma de minimizar o sofrimento de milhões de pessoas que estão a braços com a miséria um pouco por todo o país. Dinheiro que daria para construir muitas escolas, hospitais, reabilitar estradas, etc., foi usado para multiplicar os apetites pessoais de certas “castas” familiares e partidárias. Tinha razão o músico Jeremias Nguenha quando dizia que “estes gajos comem sozinhos e deixam o povo a chupar o dedo”. Disse o meu amigo. Para depois acrescentar:
“De tanto a barriga avançar (feito poderosos de todo o terreno) até lhes saem corcundas, tal é o efeito da riqueza transbordante. Outro até tem lábios cor-de-rosa”, rematou.
A corrupção no nosso país não é um assunto de hoje nem deve ser vista a partir do “Caso Aeroportos de Moçambique”, que é apenas mais um, dentre vários, denunciados e repudiados pelo povo e pela Comunidade Internacional. Não é por acaso que Moçambique ocupa o 130º lugar (2,5 pontos), uma descida de quatro pontos em relação ao igual período do ano passado, no ranking dos países mais CORRUPTOS do mundo, de acordo com os últimos dados divulgados na semana passada pelo Índice de Percepção da Corrupção 2009, da ONG Transparência Internacional. É caso para dizer que algo vai mal no nosso país, ou será que é do “óculo de madeira” – dirão alguns – que transformou o “capim seco em palha?”
Faz parte da natureza dos mortais seguir os maus exemplos das coisas más, tal como o alcoolismo, a prostituição e o tabagismo, a corrupção é um vírus que gera habituação e contágio nas pessoas, principalmente entre os políticos. É assim que, em Portugal, a corrupção está a deixar o país numa situação de profunda crise de que há na memória dos portugueses.
De acordo com a mesma fonte, Portugal está no 35º lugar com 5,8 pontos, uma diferença não muito grande – como poderá parecer – em relação a Moçambique.
A jovem nação de Timor-Leste não fica atrás.
Ocupa o 143º com 2,2 pontos. Bastou a descoberta do petróleo ser anunciada naquele país irmão para os políticos encarrapitarem-se pelo poder. Vejam o caso de Xanana Gusmão, um líder histórico da resistência Maubere e 2º presidente da República Democrática de Timor-Leste, 1º depois da ocupação indonésia; de presidente depressa passou a 1º ministro, numa eleição descrita por muitos como tendo sido fraudulenta, ganha, aliás, pela Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (FRETILIN), do nosso bem conhecido amigo Mari Bim Amude Alkatiri. Gusmão, actual Primeiro-Ministro de Timor-Leste, ocupa, simultaneamente, os cargos de Ministro da Defesa Nacional e dos Recursos Minerais e Energia. Tanto poder nas mãos de um só homem que, à semelhança do seu homólogo português, Eng.º José Sócrates, é acusado no seu país de tráfico de influência e corrupção.
A França não foge à regra. Ocupa o 24º com 6,9 pontos. Jacques René Chirac, antigo presidente francês, está a contas com a justiça do seu país, pois é acusado também de prática de corrupção. O Vaticano, como no desporto, cada vez mais a surpreender-nos pela negativa. Ora porque o padre X ou Y é acusado de tráfico de armas, de corrupção passiva, de abuso sexual de menores, etc.; no futebol idem, não são poucos os casos que acompanhamos de dirigentes desportivos corruptos. Na semana passada foi notícia na SIC Notícias e na RTP-Internacional casos de dirigentes e árbitros acusados de corrupção desportiva. A FIFA prometeu tomar medidas!

Sobre este fenómeno – Corrupção –, escreveu Manuel Caldeira Cabral, no Jornal de Negócios de Portugal do dia 19 de Novembro corrente (estou a citar), enquanto houver pessoas que, com a sua decisão, podem fazer com que outros ganhem ou percam milhares ou milhões de euros, há incentivos à corrupção (sic).
Cá por mim, nem que se aumentem as molduras penais, nem que se fiscalizem as pessoas, nem que se implementem as melhores práticas de gestão, nem que se consultem os curandeiros dos mais “perigosos” que existem, a corrupção levará sempre a melhor. Só há uma única vacina letal contra a corrupção (não falha) que é o VOTO POPULAR!

Kicomo Kwambiri (Muito obrigado)

CORREIO DA MANHÃ – 25.11.2009

segunda-feira, novembro 23, 2009

A GOVERNAÇÃO ELECTRÓNICA E O PAPEL DAS TICs NO DESENVILVIMENTO DO PAÍS


Por Viriato Caetano Dias


Por melhor que sejam as intenções do Governo de tornar a máquina administrativa mais célere, a pobreza absoluta que não dá tréguas ao povo moçambicano, há-de sempre condicionar o sucesso dessas intenções. É assim que grandes projectos com pernas para andar, nunca chegam sequer a gatinhar. A governação electrónica – no meio desses projectos – é uma excepção.

A Governação Electrónica é mais uma, dentre várias “inovações”, que o “Homem” do século XXI inventou. Mas, esqueceu-se de lhe atribuir um “conceito global”, tal como cão é cão e gato é gato. Cada governo, cada país, a seu belo prazer, vai-lhe atribuindo conceitos diferentes, de acordo com a vontade dos seus perfilhados. É assim que acontece, na prática, quando uma “inovação” nasce sem um “pai”, como as nossas crianças, órfãs de pai e/ou mãe, estão nesta vida “maledita”, coitadas, só e só!

Cá por mim, a Governação Electrónica não é mais do que o uso das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) no sector público e não só – pretende-se que seja uma estratégia conjunta do Governo, o Sector Privado, a Sociedade Civil e as Comunidades Rurais – para a melhoria de vida dos moçambicanos e do país em geral.

Desde 2002 que o Governo tem apostado na Governação Electrónica, entre os mais diversos objectivos realizáveis, destaco apenas dois: (1) “Proporcionar acesso universal à informação a todos os cidadãos para melhorar o seu nível e desempenho na educação, ciência e tecnologia, saúde, cultura. Entretenimento e nas suas actividades em geral” (2) “Criar uma rede electrónica do Governo que concorra para aumentar a eficácia e eficiência das instituições do Estado e contribua para a redução dos custos operacionais e melhoria da qualidade de serviços prestados ao publico.”

Estou em altura e em condições de assumir (porque uma parte muito ínfima da minha vida profissional está ligada às TICs) que o Governo já superou em mais de 50% os objectivos acima mencionados, estando, neste momento, a superar os restantes. Julgo não estar equivocado nem a exagerar, muito menos a desinformar a ninguém, quando digo que o acesso às TICs atingiu, só em 2009, mais de 50% da população activa no país. É uma autêntica “revolução tecnológica” que os factos não escondem.

Ver um filme de ´Amitabh Bachchan’ já não constitui um sonho para muitas crianças / adultos que nas décadas de 80 e 90, lutavam por um lugar no Cine Kudeka, em Tete. Lembro-me da azáfama das pessoas em conseguir um assento naquele Cine. Era com se tivessem ganho uma passagem para o paraíso. Actualmente, este desejo passou para a história “das memórias individual e/ou colectiva.” Os telemóveis, que no inicio de 1999 (não tenham a menor dúvida), constituíam uma espécie de “apartheid tecnológico” entre as “castas”. Hoje a realidade é bem diferente, falar de Portugal com o meu amigo “Mandvezo” no Distrito de Zóbwè, em Tete, deixou de ser um mito! Assim como deixou de ser mito ter o mundo em nossas mãos.

Certamente que não estou esquecido que as TICs “lavaram” a imagem de algumas instituições públicas e privadas, que quando fossem visitadas pelos cidadãos, difícil era alguém sair de lá, sem deixar “um recado” aos serviços. Era frequente ouvir-se dizer palavras como estas: “estes gajos não trabalham nada, pá! Estes gajos são preguiçosos, isto só pode estar a acontecer em Moçambique! Estou aqui há mais de 4 horas na “fila indiana” à espera da minha vez para ser atendido, ou ainda, o meu chefe ainda não chegou / assinou os documentos; ora porque a certidão X ou Y não estava pronta, ora porque a mesma certidão tinha que ser emitida em Zumbo quando a pessoa estava em Maputo, ora porque o registo criminal demorava, no mínimo, 9 meses para chegar ao destinatário” etc., etc., etc., por outro lado – da parte dos funcionários – tínhamos outra realidade, a seguinte: “toda esta demora é porque o estafeta não foi levantar ou depositar a encomenda nos correios, estou com dores de coluna devido a esta lastimável máquina de escrever, ora porque as telecomunicações com a capital Maputo eram deficitárias devido ao mau tempo, ora porque a maquina de calcular tinha acabado pilha, ora porque “hoje” não há voo para mandar estes documentos à Lichinga, ora, ora, ora!

Tudo isto mudou. Uma das grandes transformações no sector público tem a ver com a mudança de mentalidade dos seus funcionários. Um simples aparelho (computador) é capaz de controlar a tudo e a todos, sem distinção da cor ou cargo que a pessoa ocupa. A pontualidade e a perfeição passaram a ser as palavras de ordem, quer no sector público como no privado. A emissão de documentos deixou de levar meses e até mesmo anos. Qualquer funcionário, querendo, pode aceder à rede electrónica do governo ou ao portal (extensivo ao público em geral) para pretensões diversas. As conferências, graças ainda às TICs, podem ser dadas via on-line, e o envio de documentos, despachos, relatórios, dossier, etc., deixou de dependente da temperatura ou do voo disponível! Uma mudança total e completa. Ah! Até os jornais electrónicos são um produto a ter em conta da Política de Informática do Governo. Com o seu aparecimento na sociedade, qualquer um, onde quer que a pessoa esteja, pode ter acesso ao jornal via on-line, racionalizando custos e não só (aqui está o essencial) ajuda no meio ambiente.

É sabido, porém, que qualquer iniciativa nova, principalmente num país como o nosso, com uma taxa de analfabetismo a rondar na casa dos 70 % (carece de confirmação) as pessoas não vêem com bons olhos a mudança e, quando tal acontece, o descontentamento é maior. De resto não é um caso isolado do nosso país. Em qualquer sociedade, independentemente do grau académico do seu povo, não há receita que resista a pretextos de mudanças. Tem sido assim, infelizmente, em alguns sectores dentro do Aparelho do Estado, a existência de alguns funcionários que fazem do primitivismo tecnológico das coisas uma esteira para glórias suas e das gerações vindouras. Pior ainda quando essa resistência vem de cima (do topo), associado à superstição, os objectivos até então traçados para sortir efeitos desejados, são forçados a fracassar. Volta-se à estaca zero!

Não compreendo como é que o Portal do Governo distrital de Alto Molócuè, bem como dos Governos Provinciais (com a excepção de Manica, Maputo-Cidade e Maputo-Província) criados há mais de 1 ano pela Unidade Técnica de Implementação da Política de Informática estejam tão esquecidos e tão ignorados pelos seus beneficiários. Uma ferramenta que poderia - bem aproveitada e aplicada como deve ser - mitigar a pobreza absoluta nas províncias e no país em geral virou “património da desgraça” do povo. O pior de tudo, “para o inglês ver”.

É aqui, nas TICs, onde o futuro do país começa!

Zicomo kwambiri (muito obrigado)


terça-feira, novembro 17, 2009

ERA UMA VEZ UMA UNIVERSIDADE CHAMADA MUSSA BIN BIQUE

Por Viriato Caetano Dias

“Um castelo sem rei, uma ilha sem mar, uma ponte sem rio.” Dito popular Alentejano.

Quanto a Universidade Mussa Bin Bique o cenário é este: um reitor sem universidade, uma universidade sem instalações, um currículo sem alunos.

A presente reflexão surge de uma reportagem divulgada no Correio da Manhã, na edição nº 3193 do dia 13/11/09 com o tema: “Caos na Universidade Mussa Bin Bique”. Uma reportagem que me fez recuar no tempo e no espaço – aquela província que eu amo em todos os sentidos e que faço dela a minha terceira base, depois de Maputo, e Tete, esta última minha terra natal. A Província de Nampula é, em si, um museu da História Nacional. Um museu a céu aberto que vale sempre a pena visitar. Um museu, diga-se de passagem, carregada de histórias más e boas (também não conheço outra finalidade de um museu de História Nacional que não seja a exposição de acontecimentos bons e maus). A História, aliás, não é mais do que o somatório de coisas boas e más. É também conhecida como a terra das “muthianas orera”, embora “muthianas orera” sejam todas as mulheres moçambicanas.

Lembro-me de como reagi quando me disseram que aquele “edifício” em minha frente – aquilo não é nenhum edifício, mas sim uma residência familiar em alto estado de usura – funcionava o campus da Universidade Mussa Bin Bique. Confesso que fiquei profundamente indignado com a realidade que me tinham “obrigado” a aceitar. No mínimo, acho eu, qualquer cidadão tem o direito a boa vista, a boa estética. São princípios básicos do património e da arte. Mas esta é uma outra história que não quero maçar ao leitor, será discutida ocasionalmente.

Mas como é que uma universidade pode funcionar numa residência familiar e naquelas condições de autêntico improviso mental? Ao lado da universidade, digo, da moradia, para além de estarem outras habitações do género, encontrava-se (pelo menos até à data do meu desembarque em Portugal) uma bomba de gasolina. Um delirante desses que vemos no Iraque / Afeganistão e por ai em diante com nicotina na cabeça pode muito bem causar vítimas humanas a lamentar. “Estudantes da Mussa Bin Bique em Nampula assados pelas chamas de uma gasolineira” seria o título desse telejornal (que o diabo maldito seja surdo e mudo). Nem mesmo a FIR que se encontra instalado nas proximidades da UMB (sigla da Mussa Bin Bique) escaparia a tragédia.

Uma moradia é sempre uma moradia. Um edifício é um edifício. Que não haja confusão. Imagina agora o leitor uma universidade a funcionar numa vivenda familiar. Sem espaço, sem condições de salubridade, enfim, estavam lá, na altura em que vivi em Nampula, a frequentar a UMB mais de quatro centenas de estudantes. É assim que queremos que o país ande para a frente quando as nossas universidades funcionam a meio gás. Nem mesmo o arrendamento de um escritório das Obras Públicas foi capaz de mitigar o sofrimento dos estudantes e do corpo docente. Percebe-se agora o porquê dos nossos doutores e engenheiros, na sua grossa maioria, ocupam os melhores lugares no ranking dos títulos com défice académico. Estamos na cauda, apesar da nossa nata científica ser boa. Que miséria cerebral.

Um “chamuale” (amigo meu) que me servia de GPS para me indicar as vias das principais artérias da capital do Norte, perante o meu pasmo (visível na cara), sem papas na língua, disse-me: “Já sei o que se passa na sua cabeça. Esta a rir esta comédia da UMB. Será que o Muna (é como sou chamado em alguns círculos de amizade) não sabe que as universidades no nosso país funcionam em regimes de turnos? Eu explico-te. Uma vez que elas não tem onde colocar os seus estudantes, porque garagens e dependências foram todas ocupadas pelos nigerianos, congoleses, zimbabweanos, somalianos, tanzanianos, etc., os putos lá na escolinha são obrigados a conviverem com os futuros doutores / engenheiros no mesmo recinto escolar e, por vezes, na mesma carteira (daquelas que herdamos dos nosso avós), mas com finalidades diferentes. Ou seja, os primeiros (os “putos”) têm a vida facilitada com a passagem automática, já os aspirantes à classe dos doutores / engenheiros bastam-lhes o sacrifico de cumprir três anitos de escolaridade zás tornaram-se em senhores intocáveis. Mal daquele que se esquecer em colocar o prefixo “Dr” ou “Eng.º” antes do apelido de família, recebe logo um chega para lá senão mesmo um pontapé. Em alguns casos, menos grave, “os putos” são obrigados a irem mais cedo à casa para ceder lugares aos “cotas”. Aqui na Mussa Bin Bique, infelizmente, a realidade não foge à regra. É a mesma coisa. A madeira que a província possui é toda ela exportada para a China. Os estudantes universitários, se o Muna não sabia, sentam-se no chão. Os professores são supersónicos tal e qual aqueles aviões mais velozes do mundo. Será que lá de onde o Muna vem (acabava de chegar do Maputo) as coisas também funcionam assim?” Finalizou. Que santa ignorância do meu amigo, os tais aviões nem sequer existem mais. Foram banidos por falhas técnicas na sua construção! Foi só um pensamento, que mal soltei.

Não lhe respondi nem “A” nem “B”. Limitei-me a dizer-lhe o que eu sabia, que não há regras sem excepção. Mas também estava ciente dos problemas da minha estimada UP -Universidade Pedagógica. Acabava de me aborrecer com a UP pelo facto do seu então reitor, o Dr. Carlos Machili, na véspera da sua despedida tinha desencadeado uma autêntica revolução que deitou abaixo a credibilidade da instituição. Numa turma concebida para 45 estudantes encontravam-se o dobro, por vezes, o triplo. A própria concessão da UP, vocacionada para a formação de professores, tinha descoberto a reitoria outra vocação, a de enriquecimento. Cursos que nada tinham a ver com a instituição foram criados, estudantes satélites existiam em números indescritíveis, materiais de ensino eram uma miragem a ponto de haver em toda a delegação de Nampula apenas 1 único livro da História de Moçambique. Não sei em que pé está hoje a UP Nampula e Maputo, mas quero felicitar alguns dos seus docentes que foram uma autêntica “salva-vidas”. São eles os Doutores Francisco Zacarias Mataruca e Hipólito Sengulane, este último actual Director da Faculdade de Ciências Sociais. Há mais! O que não posso é citar todos os “bombeiros” e salvadores das honras da casa.

Tive noites de insónia porquanto julgava que o MEC (Ministério da Educação e Cultura) não tinha conhecimento daquela universidade, ou melhor, das condições que eu acabava de ver as quais me recusava em aceitar. O conhecimento – esta vacina que cura todos os males que infesta impiedosamente o país, nomeadamente a pandemia da Sida, a erosão mental de alguns políticos e não só, a cólera, etc.) – parecia estar a ser a ser tratado como mercadoria e transmitido como se fosse alimento pronto para a refeição. É uma dúvida que ficou porque, confesso, não cheguei de “furar” aquele corredor humano que dão acesso aos quartos, perdão, às salas da vivenda, digo, da UMB.

Concordo que uma universidade não necessita de ter um campus universitários para funcionar em pleno (dependendo de casos), até porque actualmente muitas são as universidades espalhadas pelo mundo inteiro que leccionam à distância, por correspondência, tanto quanto os tribunais por falta de “espaço” fazem os seus julgamentos em espaços públicos, em escolas, etc. Aceita-se que uma universidade (não é o caso da UMB) sem campus universitário possa existir e funcionar em pleno. Não vejo nenhuma inconveniência nisso. O que é deplorável e inaceitável é ter no país uma universidade que funciona numa vivenda familiar. Isso passou a todas as marcas. Não foi para isso que a UMB foi autorizada a funcionar, para dar diplomas à toa. É uma aberração.

O ainda Ministro da Educação e Cultura, Dr. Aires Ali, apesar do seu esforço abnegado em arrumar a casa, tentando corrigir os erros dos seus antecessores, esforço esse que não encontra êxito porque alguns dos seus “fiscais” vão enchendo a pança a troco da incompetência daqueles quem tanto mal fazem ao país. Pergunto se os inspectores concordam que uma universidade deva funcionar numa garagem de viaturas? A menos se lá estivessem a estudar os seus filhos. A inspecção não funciona, começa e termina nos aeroportos quando (dai) recebem encomendas chorudas dos tais violadores da lei. Um relatório improvisado é coisa que não custa muito fazer. Em Moçambique, parafraseando o escritor Daniel da Costa, faz-se primeiro o check-in e só depois é que a mala é arrumada. Ou seja, aprova-se a funcionalidade de um determinado estabelecimento de ensino e só depois, nunca antes, é que são exigidos os requisitos. Inimigo do progresso científico e do povo é o adjectivo correcto a dar a esses inspectores malandros.

Sempre defendi e defendo que o MEC não deve funcionar em função da realidade alheia. Cometemos muitos erros porque não são feitos estudos de base, quer dizer, de viabilidade. A passagem automática e o processo de Bolonha, modesta à parte, um processo que eu conheço e domino, por exemplo, são sem dúvida uma mais-valia para o país, mas não são exequíveis numa sociedade como a nossa em que falta praticamente tudo, equipamentos, professores qualificados, materiais de ensino, etc. A pouca qualidade de que dispomos não é motivo para nos enlaçarmos num projecto deste. A ideia de que os erros se tornam perfeitos com o tempo, tal como o amadurecimento do vinho, já não serve. É preciso corrigir os alicerces de baixo sob pena do tecto se desmoronar com o tempo. Na verdade é o que se vê, pequenas tempestades não deitam abaixo aquilo que se constrói com o tempo e sacrifício, pelo contrário, são as obras improvisadas que mais sofrem. E ainda há quem chame de primatas os velhos do campo!

A Universidade Mussa Bin Bique veio mostrar ao pelouro da educação que há falhas graves no que concerne à inspecção. Não houve rigor na aprovação daquela universidade. Uma universidade que o reitor é um comerciante de radjá “made in Moçambique”, produto nacional e com selo e tudo. Não se conhecem os docentes, nem o futuro dos estudantes. É tudo salve-se quem puder. O que conta é o canudo. O resto que se lixe. Há que colocar um freio naquilo. O meu lamento vai para aqueles estudantes que com o mísero salário mínimo nacional, deles e/ou dos seus encarregados de educação, pagam as propinas e as mensalidades para realizarem um sonho comum: tornar Moçambique melhor!

É assim que queremos vencer a pobreza absoluta?

PS1: O Bairro Francisco Manyanga na Cidade de Tete está de luto. Morreu Sérgio Vicente, um jovem amigo com quem partilhei a minha juventude na Rua Emília Daússe. Amava a vida como ninguém e sabia transmiti-la a quem pelo cansaço dos mistérios do sofrimento via no stress e na frustração uma maneira de viver. Um amigo sempre presente e de coração aberto. Sportinguista nato (foi o nosso único desacordo, sendo eu do Benfica), mas não vicioso. Não o sabia doente. Só a distância entre Moçambique e Portugal onde me encontro a estudar que impede de regar às flores da tua última morada. Sei que me tens comigo onde quer que tu estejas. Até breve amigo Sérgio!

PS2: Em memória de Sérgio Vicente e como forma de chorar a sua perda, não haverá nos próximos 30 dias o espaço “PS”. Junto minhas às lágrimas dos habitantes do Bairro Francisco Manyanga, e a família enlutada vai o meu profundo pesar.

PS3: Por último e como não podia deixar de ser, uma felicitação especial aos “Mambas” pela vitória de 1/0 frente a sua congénere da Tunísia. Quando a atitude e a responsabilidade, associado ao trabalho árduo, são chamados a impor-se face a um determinado objectivo, os resultados são sempre positivos. Assim foi, venceu o trabalho e o orgulho nacional. Até no CAN de 2010.

Zicomo kwambiri (muito obrigado)

domingo, novembro 15, 2009

“SIBINDY, NÃO FAÇA LÁ ISSO, PÁ!”

Por Viriato Caetano Dias

“Há homens que se caracterizam nomeadamente por terem uma alta pressão sanguínea nas palavras e anemia nos actos.” Martin Luther King, prémio Nobel da Paz (1964).

Estava tudo aposto para reflectir em torno da governação electrónica no país, uma promessa que fiz aos leitores há bastante tempo. Acontece, porém, que para não expirar a validade da conserva, resolvi deixar de “jejum” alguns leitores que estavam – espero que ainda estejam – ansiosos pela temática. Não tem que se entristecerem por isso, até porque quanto mais demorado for a fermentação do vinho, melhor é a sua doçura. Para semana (espero não puder defraudar novamente aos leitores), cá estarei com o aludido tema.

Devo o plágio do título desta reflexão ao nosso humorista-mor, Nelson de Sousa, ou simplesmente, ‘Chaguatica N’dero’, que em língua nhungwe (tradução livre) quer dizer “pensamento cortado ou atrofiado”. Tal como os japoneses fazem, agradecerei ao “empréstimo” do título ao visado só no final desta reflexão! Mas não com o “Domo arigato”, e sim em minha própria língua (nhungwe).

Vamos ao que interessa, antes que essa “conserva” comece já a feder.

Yacub Sibindy é a marca de momento. Nunca em nenhum país do mundo, depois do terrorista Bin Lader, um político conseguiu em tão pouco tempo, estar no centro das atenções das pessoas, como o fez Yacub Sibindy e pelas piores razões. Nem mesmo Jesus Cristo ou Ala que vivem, duma ou doutra maneira, em nossos corações como símbolos de bondade e de fé, foram tão ignorados ante a perturbação mental – não quero acreditar que seja outra coisa – de quem até já se predispôs alguma vez para ser o presidente de todos os moçambicanos. O que seria de nós, moçambicanos, se Sibindy fosse o presidente do país? Nem quero calcular o inimaginável, senão seria eu a ter perturbações mentais e não o nosso político, que como relíquia (estátua) na oposição, até lhe fica bem o estilo.

Nem mesmo a corrupção óssea, a alta de preços dos combustíveis, a criminalidade, a fraude fiscal, a tuberculose e outras pandemias que se julgavam erradicadas e que estão a reaparecer, o burocratismo, o comodismo, a inércia, enfim, nada disto comoveu os principais órgãos de informação nacional, incluindo alguns analistas e estudiosos, que não se cansam de denunciar e de lutar contra estes males porque, Sibindy, a marca do momento, foi a conserva mais consumida. E não era para menos. As peripécias da “novela Sibindy” remetem a uma análise profunda sobre o conceito de Oposição. Afinal o que é Oposição (entenda-se Oposição como uma estrutura política)? Os politólogos saberão responder-me a esta questão? Até que ponto a nossa Oposição terá fôlego para desempenhar o seu papel? Razão terá quem alguma vez disse (estou a citar um político anónimo) que “em todas as democracias, o povo têm a Oposição que merece).

Pessoalmente não vejo nenhuma inconveniência política nem moral que impeça Sibindy de se filiar à Frelimo, até porque é de salutar que hajam no país políticos que apoiem (oxalá) o programa do Governo, afinal o objectivo de todos os moçambicanos é o mesmo: vencer a pobreza absoluta e apostar no progresso social, tecnológico, etc. Esta foi a causa porque se bateu Eduardo Mondlane e todos aqueles que no seu direito de cidadania fizeram, fazem e farão pelo país. Cada um deve fazer a sua parte para que o país seja cada vez melhor. Aquilo que queremos que o país seja no futuro depende daquilo que fazemos hoje. Não há tempo a perder.

Os políticos e os partidos estão livres de se acasalarem. O povo, desde que seja para o seu bem, está sempre disposto a receber o rebento dessa relação. O que a mim causou estranheza – creio que a plateia do social também, é a forma como este “matrimónio” foi feito. Em apenas um mês quanto durou esta novela eleitoral foi suficiente para vermos até que ponto andamos em matéria de personalidade. A troco de alguns vinténs – supostamente para pagar dívidas – o “titio” Sibindy (como lhe chamam a seiva da nação) foi capaz de vender o seu próprio cônscio. Não imagina, caro leitor, o que seria de Sibindy como presidente do país (porque como presidente do PIMO é aquilo que se vê), era capaz de vender o país para saldar à sua dívida pessoal, dívida esta de rajá e de outras especiarias, das suas muitas falidas lojas. Gente altamente ambiciosa e com “nicotina” no cérebro – porque o contrário, só podia ser uma doença senil – é capaz de prostituir-se mentalmente em troca de fosse o que fosse. Infelizmente, Sibindy não é o único insensato neste país, pululam de lixeira em lixeira, com intenções obscuras, semeando dor nas pessoas, em busca de apetites pessoais. Como ele, há tantos por ai.

Também não entendo como é que um partido que têm como programa de governação o combate a corrupção possa, no corredor do poder, promover este mal. Se é que um dos militantes do partido deu dinheiro a um certo político ambulante para fazer campanha a favor desse partido, num país onde a justiça funciona a 101 %, no mínimo, era caso para averiguações e, havendo provas de corrupção, a justiça tinha que ser chamada a agir. Assim não vamos longe, o combate a corrupção não pode sonegar para uns em detrimento de outros, é uma guerra que deve ser travada em todos os campos de batalha e de forma imparcial. E digo mais, se é que o tal empresário tem muita “massa”, acredito que sim, não era má ideia que fosse doar essa “massa” nos infantários da minha terra (Tete), que estão a braços com dificuldades financeiras de vária ordem. É um desafio que deixo ao presidente eleito, Armando Guebuza, o combate a corrupção e ao tráfico de influência devem ser travado com medidas duras e de forma exemplar.

Não faz muito tempo que um “chamuale” (amigo meu) observou no seu blogue o seguinte: mal o PIMO foi capaz (durante a sua existência como partido político) de organizar um conselho nacional, ou uma reunião de quadros, pode agora querer organizar uma celebração da vitória eleitoral de um partido que nem sequer é dele, porque o seu não concorreu por ter sido excluído juntamente com o MDM e outros! Seria ridículo ver Daviz Simango, Afonso Dhlakama nessa caravana! Custa-me acreditar que todo isto esteja a acontecer no meu país, vindo de uma casta de pessoas com “cinza na cabeça”, e porquê não, os nossos pilares! Quão pilares enferrujados e caducos. Será da tensão alta ou baixa que provavelmente estejam a padecer? Ainda que a Frelimo tenha ganho as eleições de Outubro (ainda não promulgadas pelo Conselho Constitucional), não acho que se deva gastar rios de dinheiro para festejar o que já era previsível que acontecesse (com a Oposição que temos ainda vamos muito longe de ver outro partido no poder), porquanto o país precisa de mais escolas mas com qualidade, de mais hospitais, de mais e mais emprego para os moçambicanos. Precisa de boas estradas. Precisa de um país melhor, onde não falte quem trabalhe a terra.

Caro leitor, a política é isto, um jogo de interesses. Os políticos são capazes de jurar de pés juntos servir o povo. Mentira. Na hora da verdade esquecem-se do povo. Em todo o lado, a política é um jogo complicado, só há santos no céu. O pior de tudo é que a nicotina do poder vicia, quando se está lá, ninguém quer sair. O poder é um vírus terrível. Apelo aos cientistas que ao descobrirem medicamentos contra a SIDA façam-no em relação a política.

Quanto ao Sibindy, se não quiser seguir às pegadas de Wehia Ripua, seu colega nos tempos em que a Oposição era mais oposição, deve abster-se de vender o seu cônscio. Em política, disse o actual Primeiro-ministro de Portugal, Eng.º José Sócrates, cada partido deve pedalar a sua própria bicicleta. Não faça lá isso, pá! O Sibindy pode muito bem conquistar o eleitorado se trabalhar a serio, é assim, aliás, com o trabalho que a Frelimo ganha as eleições, por bem ou por mal. A vitória, disse Samora Machel, prepara-se e conquista-se.

Uma vez chegado ao fim da presente reflexão (como o prometido é devido) quero aqui agradecer ao mestre do programa “O Riso não paga Impostos” pela inspiração mas, sobretudo, pelo “empréstimo” do título que a ele me atrelei. Não há melhor forma de agradecer a alguém que dizer em seu próprio idioma, praticamente o mesmo que o do “Chaguatica N´zero”, sendo ele de Manica e eu de Tete, com um: Zicomo kwambiri (muito obrigado).

PS: Esta semana recebi uma notícia da zona onde nasci e cresci. Morreu um dos filhos mais queridos do bairro e meu amigo pessoal, de nome Sérgio Vicente. Não revejo aquele bairro sem a sua alegria contagiante, sem o seu humor, sem aquele amigo com quem partilhei uma parte da minha juventude e não foi pouca. Aquele sportinguista nato mas não vicioso. O Bairro Francisco Manyanga na Cidade de Tete está de luto. Faz tempo que já lá não vou, mas junto-me àqueles que por ele choram. Em memória de Sérgio Vicente, nos próximos trinta dias, deixo de colocar nos meus artigos de reflexão o “PS”. Até breve amigo Sérgio.

quarta-feira, novembro 11, 2009

A PATOLOGIA DA RENAMO


Por Viriato Caetano Dias

“É preciso saber servir os homens tal como eles são e nunca conceber um poder sem limites” António de Oliveira Salazar, ex. estadista português

A pedido do seu editor, aceitei o convite para fazer parte do leque dos colunistas deste jornal - Correio da Manhã, com a certeza de que o débito do meu raciocínio não cairá entre as paredes (oxalá) e que provoque nos leitores uma espécie de “convulsão” ao diálogo. É este o sentido das minhas reflexões. Mais não tem outro objectivo que não seja o diálogo. O diálogo é um bem tão precioso que herdei dos meus antepassados e faço dele, uma munição para o combater de todo o mal que infesta a este mundo, o país em particular. O amigo leitor não tenha dúvida, o mal que infesta este mundo são causados pelas mentes diabólicas que se julgam de mais superiores que às outras. O homem, esse animal político, ao invés de multiplicar-se de esforços com o intuito de combater as hecatombes e promover o diálogo, vão em busca do absurdo. Do nada. Veja que o homem fabricou a bomba atómica com o objectivo único de destruir a si mesmo. Calha ela estar nas mãos de um delirante, será o fim da festa.

Alguns deverão ser tentados a perguntar o porquê de ter começado esta reflexão com uma frase do ditador português, António de Oliveira Salazar. Quis espevitar o amigo leitor ao diálogo e, nalgum momento, picar “o porco que dorme”. É absurdo vindo de quem vem: de Salazar! Que não fosse a podridão da cadeira que o tombou, a ele e ao regime, se calhar morreria com o próprio Estado português, como alguns ditadores pensam! Ninguém é eterno. Os Estados permanecem, morrem as pessoas e os regimes.

É preciso colocar as pessoas a falar, a opinar e a tirar ilações daquilo que vê, lê e acredita, até certo ponto para sabermos a quanto andamos em matéria de diálogo. Quem sabe, assim medimos também o tamanho da nossa ignorância. E não tenha dúvida, ninguém sabe tudo. Quanto mais se investiga, disse o historiador José Hermano Saraiva, mais se descobre que afinal não se sabia.

Este é tempo de fazer balanço do desempenho da Renamo e do seu líder, Afonso Dhlakama que saíram derrotados, a ZERO, nas eleições de 28 de Outubro, até para avivar a memória dos mais incautos. Passado este ciclo eleitoral, embora os resultados ainda não tenham sido promulgados oficialmente por quem de direito, devo assumir uma posição sobre o actual estado do Partido, tão-somente por ser um património público. Quer se queira, quer não: a Renamo é um património público nacional, porquanto é graças a ela que a liberdade de expressão é uma realidade no país.

A pesadíssima derrota da Renamo (porque de Dhlakama já se esperava, depois daquela acrobacia gratuita e barata para mostrar ao povo que ele ainda é o temido leão de Maringué, não lhe podia esperar outra sentença que não fosse a derrota esmagadora) veio confirmar que, finalmente, não só o país está doente como está a própria Renamo. Uma derrota que deixou a Renamo sem leme e à beira de desaparecer no xadrez político nacional ou então, no mínimo, limitar-se-á a fazer estatística. E não me enganei quando escrevi “Mambas ou Nhanzalumbos”, que nem sempre a atribuição de nomes as coisas públicas reflectem os valores que a definem. A perdiz, para além de não estar a mostrar o seu real valor, perdeu leme!

E ficou demonstrado recentemente que a Renamo continua longe de constituir uma alternativa, de merecer a confiança da maioria dos moçambicanos para ser governo. É preciso, na minha maneira de ver, duas alternativas para salvar a Renamo: ou submete-se à uma operação para extrair o tumor maligno que anda nas cabeças dos seus quadros, ou então, terá que substituir o seu maior tumor, o seu líder, Sr. Afonso Dhlakama. Mesmo os clubes mais mediáticos no mundo do futebol, face aos resultados negativos que apresentam, mudam de treinadores. A Renamo que é um grande clube na oposição moçambicana continua, infelizmente, a apostar na sua velha raposa (em Afonso Dhlakama) para conquistar o que há muito perdeu, aliás, nunca teve. Em política, é proibido usar as armas do passado para conquistar as lutas de hoje (parabéns o Dr. Namburete por fazer jus a esta regra).

Na política, um partido ou um líder que não consiga resultados pode estar condenado ao fracasso. Acontece, porém, que Afonso Dhlakama já é um fracassado político, nem que concorra por mais 15 anos há-de sempre perder as eleições. Nesse sentido, terei de concordar com as palavras da jornalista portuguesa, Judite de Sousa que diz que “na política, a medida dos resultados é a vitória de uma eleição.” E, por seu turno, Armando Guebuza, mesmo que descanse por 5 anos sairá ganhador. O segredo está no trabalho e na organização. “Os índices de popularidade são normalmente garantia de êxito e de qualidade” (estive a citar Judite de Sousa).

Dirão alguns que Dhlakama trabalha, dá a volta o país todo. Sim, falar é fácil, difícil é convencer o eleitorado. Dhlakama deixou de convencer o eleitorado desde 1999, quando alguém lhe disse que o povo estava com ele “forever”. A partir daí deixou de fazer aquilo que em política deve ser feito de forma descontinuada: o contacto com o povo, independentemente de ter ou não idade para votar. As de hoje são os eleitores do amanhã. Dhlakama é um político populista. Age em função das sondagens feitas e com base no cálculo feito e NUNCA, mas NUNCA por convicção. Come com os olhos, ou seja, quanto mais gente vê nos seus comícios, mais convencido fica de que já ganhou as eleições. Mentira! Nem todos que dizem “viva Dhlakama, viva Renamo” são potenciais eleitores seus e do seu partido.

Uma vez quis saber do saudoso Dr. David Aloni (meu eterno mestre) a razão do desaire da Renamo (não tinha passado muitos anos em que ele tinha sido injustamente “encostado” nas listas para a “escolinha do barulho” – Parlamento) ao que me respondeu com um dossier. Não sei se ainda tenho guardado este documento, certo é que precisei de algumas semanas para consumi-lo na íntegra. Era um dossier com as suas intervenções no partido, a cabala de que era alvo por parte dos seus colegas, enfim, nunca antes divulgado (sei que estava na forja um livro neste sentido).
Depois de ler e perceber o dossier, combinou-se que nos encontrávamos na sua residência, na MATOLA, sempre aos Domingos. Disse-me, sem rodeios, que estava agastado com a situação interna no partido. Era difícil expor as suas ideias num meio em que a bajulação era o Pão-Nosso de cada dia. Quando foi chefe do gabinete do líder, confessou-me, tinha de travar uma guerra sem quartel para que o partido deixasse de acomodar os interesses pessoais dos camaradas, e que passasse a trilhar os caminhos do progresso científico. A conversa terminou quando lamentava por todos sentidos o facto dos secretários-gerais da Renamo saírem de pessoas que não compreendem patavina de academia. Defendia que a Renamo devia e deve apostar na juventude, na educação principalmente, para chegar ao poder. Não foi ouvido, nem compreendido.
A se confirmar a queda da Renamo, (apelo ao presidente do Município de Maputo para a necessidade premente de arranjar outro local, que não seja o esgotado Cemitério de Lhanguene, para enterrar a perdiz) onde já lá jazem partidos como o PAMOMO, PADEMO, MONAMO, PPLM, SOL, MOMOMO (se não existiu, pelo menos houve intenção para o seu rebento) e mais recentemente, o PIMO, PDD, ECOLOGISTA, PUP (meu Deus) e família ilimitada! Os partidos funcionam como algumas seitas religiosas, quanto maior for a gritaria dos seus pastores, maior é o número de crentes que ela possui. E há, curiosamente, partidos com um único membro, que é o seu fundador, que nem a si vota, é o caso do PIMO. É com esta desorganização toda que querem chegar na Ponta vermelha?
Voltamos ao líder da Renamo. Começou por expulsar um dos rostos mais visíveis e idolatrados do partido, claro, a seguir dele – Dhlakama. Depressa perdeu as eleições autárquicas de 2008, também a ZERO, com uma excepção: o seu cordeiro venceu no município da Beira, onde a Renamo se diz dono. Muito recentemente, esfregou as mãos de alegria indescritível quando soube que o MDM tinha sido excluído em 9 dos 13 círculos eleitorais, pensando que o seu partido teria o estatuto de sua maior força partidária no parlamento (ainda o é, mas com uma dúzia de deputados). O feudo de Dhlakama está em perigo! E não acaba por aqui. Recentemente, o líder da Renamo ameaçou arder o país, caso os resultados eleitorais não lhe forem favoráveis. Meus Deus.

Não sabemos o que resta desta Renamo. Nem eu sei. Mas posso dizer uma coisa: o caminho que a Renamo está a trilhar não levará a lugar nenhum que não seja à cova. Se não podem fazer nada pelo partido, ao menos façam – senhores quadros sénior da perdiz – em memória dos que tombaram para que hoje ostentassem os 4x4. Matsangaissa, Aloni, Quitine e tantos outros, ninguém merece esta paga.

Zicomo kwambiri (muito obrigado)

segunda-feira, novembro 09, 2009

POR MAIS 5 ANOS!


Por Viriato Caetano Dias

“A matemática eleitoral é das mais difíceis disciplinas. A não ser quando da equação resultar um vencedor claro.” Luís Manete, jornalista português

Hoje vou desiludir alguns dos meus leitores que me pediram ao longo da semana passada, para que eu fizesse um comentário especulativo sobre os resultados eleitorais de 28 de Outubro que dão vitoria à Frelimo e o seu candidato às presidenciais Armando Emílio Guebuza. Dizem querer ouvir de mim as causas primeiras e últimas da derrota eleitoral do MDM e da Renamo, mas também compreender a razão da vitória (ainda não promulgada) da Frelimo e de Guebuza, como se eu na verdade fosse detentor de um carimbo que outorgasse a verdade nas coisas. Eu costumo dizer, em jeito de brincadeira, que mais não sou do que o último vagão de um comboio, que está atrelado à cabina do maquinista, neste caso, à luz dos ensinamentos de Deus, dos mais velhos e até mesmo das crianças!

Herdei dos mais velhos o ensinamento de que prognóstico, só depois do jogo jogado. Antes, nem pensar! Não faço, nem com 600 diabos, qualquer investimento em matéria de diagnósticos daquilo que mal foi oficialmente promulgado até porque, caso houve no país e no estrangeiro, em que foguetes lançado antes da hora custou caro ao suposto atrevido. Em política, como no desporto, não se brinca com prognósticos, por isso, remeto aos meus colegas de ofício e à plateia do social esta missão, sem antes pedir desculpas aos desiludidos. Que pena! Recuar não é fugir...

Sem querer avaliar a derrota dos vencidos e a vitoria dos vencedores (entrego a mão à palmatória em caso de um eventual incumprimento da promessa feita), Armando Guebuza e o seu partido Frelimo poderão ser confirmados vencedores destas eleições, uma vez que a nossa oposição continua a faz o “jogo de caranguejo” – a tentativa de um escapar da bacia é o esforço adicional de outro para o deitar abaixo – é uma patologia sem cura! Creio que é uma herança herdade do estrangeiro, mas com uma originalidade moçambicana. A desorganização da nossa oposição é prémio para a Frelimo se perpetuar no poder. O problema até não está propriamente na oposição como um conjunto, mas sim nos ambiciosos políticos que fazem dela um terreno fértil para ganharem estatutos de empresários. Quão empresários esfomeados mentais! É só alguém lançar um partido, lá estarão eles feito lombrigas a feder, tal e qual a lixeira mal escoada do Hulene! Que descalabro, Jesus!

A se conformar a vitória eleitoral de Guebuza e do seu partido Frelimo, por razões que eu desconheço, que não pela vontade do povo moçambicano (porque às eleições em África, na sua maioria, não são nem justas nem transparentes, mas tendem a ser livres. Não sou eu quem o diz, são os relatórios. Eu apenas limito-me a seguir às pegadas desses relatórios, embora com algumas reticências) dará, repito, à Guebuza e a Frelimo, o direito de governarem por mais 5 anos na “Roode Hoek” (em inglês “Reuben Point”), actualmente “Ponta Vermelha”, nome dado pelo Engº holandês Konick, no período da ocupação holandesa (1720-1730).

Há uma semana que ando a falar com os botões da minha “esfarrapada camisa” para tentar (é mesmo tentar) perceber as razões da vitória do programa da Frelimo (praticamente o mesmo desde há 34 anos), mas sem encontrar uma explicação plausível que me ajudasse na minha intenção, talvez ai pudesse auxiliar de facto alguns dos meus leitores. As perguntas que os botões da minha “esfarrapada camisa” não deram as respostas mas que, provavelmente, Guerra Junqueiro dará são estas:
1. O país continua a depender da ajuda externa para colocar a máquina administrativa do Estado a andar para a frente, embora de forma deficitária. A velocidade da nossa economia não está nem no 8 nem no 80. Está muito abaixo das expectativas do povo. O povo, este eterno vivente confiou, ainda assim, no programa eleitoral da Frelimo! Porquê será?

2. As manifestações de 5 Fevereiro que causaram vítimas humanas e materiais a lamentar foram, na minha maneira de ver, o culminar de uma crise aguda há muito anunciada pelos termómetros do país que é o estômago de cerca de 22 milhões de moçambicanos, aqueles que mais sofrem na carne o duro decreto governamental de todo o tipo de dor, e de outras hecatombes naturais. Mesmo assim, o povo votou no programa da Frelimo! Porquê será?

3. A corrupção continua a disparar de índice e cada vez mais a ter seguidores de luxo, dentro e fora do país; a educação é um fardo que também continua a feder, tal como a justiça e o desemprego. O país continua a arder! Não precisa o líder da Renamo, Afonso Dhlakama, sujar às suas mãos. O povo, esta muralha de ferro, ainda assim, votou no programa da Frelimo. Porquê?

4. No desporto, a nossa selecção nacional de futebol (os “Mambas”), que em principio devia ser um chamariz para o nosso maravilhoso país além fronteira e, acima de tudo, constituir o orgulho de todos nós – moçambicanos –, infelizmente, mesmo com o seu perigosíssimo veneno, os “Mambas” continuam a ser presa fácil das suas congéres em clara desvantagem económica que às outras selecções nacionais (para aqueles que advogam que os bons resultados vêm apenas de investimentos financeiros e não de atitude e responsabilidade, aqui está um facto que prova o contrário). Os “Mambas” que eu até já propus chamar-se “Nhanzalumbos” (serpente apararentemente inofensivo) está à beira do colapso. A corrupção já chegou no desporto. Mesmo assim, venceu o programa eleitoral da Frelimo. Porquê?

5. Os “sibindianos” não param de se multiplicar e a infestar cada vez mais o “bom” ambiente democrático que se vivia no país. Gente como ele, a troco de dinheiro, vende o próprio cônscio. É uma patologia grave quanto cedo for o combate, melhor é a pureza da sociedade. Uma das doenças patalogias que mais vítimas fazem no país, depois da SIDA é, sem dúvida, gente como os “sibindianos”, cansados de pescar em águas turvas, tentam agora com a pouquíssima sorte que ainda lhes resta, para vender a própria alma. Que erosão mental! O povo, que sabe de tudo isto, ainda assim votou no programa eleitoral da Frelimo. Porque o fez?

Repito o aviso: não me venham perguntar a mim porque será que o povo votou no programa eleitoral da Frelimo, porquanto nem eu seria capaz de responder. Talvez a plateia do social, ou talvez não! Mas há um morto que nos pode ajudar a responder estas e outras questões colocadas: Guerra Junqueiro! Sim, ele mesmo, o poeta português...

Eis as respostas:

"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora,
aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias,
sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai;
um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que
um lampejo misterioso da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta. (sublinhado meu)

Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,
não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha,
sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima,
descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação,
da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador; e este, finalmente,
tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções,
incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos,
iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero,
e não se malgando e fundindo, apesar disso,
pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

(Guerra Junqueiro, 1896).

PS1: Dhlakama é o máximo. É recordista no dito pelo não dito. Deve estar a quer amealhar um prémio com estas suas estultices. Eu não sei quem na Renamo tenha poder para o conter, mas aconselho a dona Rosária, sua esposa, para o fazer. É triste ver um ancião como Dhlakama que o destino lhe conferiu à coroa de “pai da democracia” e obreiro da liberdade de imprensa no país e com muita vénia (que não se negue este facto) esteja a alimentar-se de si mesmo, do seu próprio sangue, da sua própria desgraça, feito “chicomba” animal que, na falta de comida, come-se a si mesmo.

PS2: O artigo “Manuel de Araújo seria a escolha ideal” publicado na semana passada, “invadiu” a minha caixa de entrada (e-mail) com mensagens de felicitações de várias estirpes, umas mais suculentas que as outras... Para aqueles que, ao invés de discutir ideias (também não sabem fazer outra coisa do que caçar a desgraça do próximo) como é o caso de um A... (não vale a pena promover a sua identidade), porém, os “socos” que me deu foram todos arroteados. Os socos injustos criam em mim e não só (creio que em qualquer outra pessoa que segue de forma incondicional o farol da razão), uma espécie de anestesia. É claro, as críticas construtivas são sempre bem-vindas. A todos vós, dito em minha língua mãe “zicomo kwabiri”. Muito obrigado!

PS3: Li com alguma indignação os pronunciamentos do Sr. Okay Machisa, director da Associação Zimbabueana de Direitos Humanos que acusa Mugabe de ser o problema do Zimbabwe. Sempre que leio comentários disparates desta natureza, lembro-me da frase filosófica de Jean-Marié Cotteret, estudioso francês, que disse (estou a citar): “mais vale por vezes calar-se do que ser conduzido, através de uma entrevista difícil, a dizer o que não quer ou o que não pode dizer.”

quinta-feira, novembro 05, 2009

Manuel de Araújo seria a escolha ideal


Por Viriato Caetano Dias

Há factos que me surpreendem para os quais gostaria de encontrar uma razão lógica. A política, à semelhança de futebol, é um jogo sem lógica.”
Estava a caminho de Faro para exercer o meu direito de voto quando o meu telemóvel tocou. Era um amigo que queria me transmitir a notícia do dia no país que tinha a ver com o facto do nome do Eng.º Venâncio Mondlane ter sido indigitado para o cargo de Secretário-Geral (SG) do Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Mal disse “bom-dia” para eu desconfiar, à partida, que o que vinha do outro lado do continente era uma notícia, já em si, irresoluta. Mas não constituía, para mim, uma novidade, até porque dia antes, na véspera do escrutínio, tinha lido no site “Moçambique para todos” do meu generoso amigo Fernando Gil, a mesma notícia, citando o Diário de Notícias.
Todavia, ainda que nada neste mundo me surpreenda, confesso que queimei alguns minutos da viagem, entre o apreciar a linda paisagem da terra do poeta António Aleixo (o autor do celebre verso: Sei que pareço um ladrão, mas há muitos que eu conheço que, sem parecer o que são, são aquilo que eu pareço), e compreender a razão da hipotética escolha do Eng.º Venâncio para o cargo de SG do MDM.
Como não sou alheio ao MDM, sendo que, naturalmente, dei provimento a notícia do dia em detrimento da paisagem, até porque estava em condições de fazer as duas coisas em simultâneo – meditar e compreender a engenhosa magnitude da paisagem de Faro – foi o que aliás, mais tarde, acabei mesmo por fazer. Os versos de António Aleixo que tinha imbuído em Nampula, no tempo da academia, ajudaram-me, outrossim, a encontrar várias saídas para tamanha incompreensão da notícia.
Há uma enorme crise de visão a longo prazo que alguns partidos, às vezes até é o próprio Estado, revelam ao confiar os cargos de tamanha responsabilidade a certas pessoas sem o merecer, ou seja, em função dos títulos e apelidos de família que elas ostentam, em detrimento de quem tenha muita experiência e conhecimento de causa. Os títulos e os apelidos de família valem aquilo que valem. Nem sempre os títulos académicos são sinónimos de sabedoria.
Quando assim acontece – só por milagres é que o nosso Aparelho do Estado não tomba – é porque estamos perante uma situação de tráfico de influências, o Estado está à deriva.
Estou em crer que o Eng.º Venâncio Mondlane não se atrelou em títulos nem no facto de ser filho de um dos militantes da Frelimo para si impor na plateia do social.
Deve ter ralado muito coco – como alguns moçambicanos – para merecer o que é. Mas, verdade seja dita, o cargo de SG não é tarefa fácil, no mínimo, exige-se de alguém que tenha – acredito que o Eng.º Venâncio não tem – estômago de ferro e testa de betão para engolir tantos sapos. Pessoalmente tenho as minhas dúvidas se o Engº Venâncio teria tripas suficientes para levar o MDM ao poder, apesar do seu invejável currículo na área bancária. O crédito que possui na área bancária junta-se a de um excelente comunicador, arte que exerce com imparcialidade e isenção. Mas falta-lhe ser por dentro o MDM. Não basta pretender ou querer ser, é preciso ser. Falta-lhe, digo eu, uma certa originalidade e carisma. Para se exercer a docência, por exemplo, é preciso que o “bicho” esteja na massa do sangue da pessoa e não a solidariedade para com à área. Na escolha de uma profissão a caridade não deve ser um elemento fundamental, mas sim a competência merecida e reconhecida.
Foi precisamente o cargo para SG que levou à morte política de muitos políticos de gabarito, bem como dos seus respectivos partidos que, infelizmente, jazem no túmulo da desgraça como são os casos do PADEMO, FUMO, PAMOMO, PPLM, e muito recentemente o PDD, PIMO e companhia, LTD. Não compreenderam que ser SG é um cargo de alta responsabilidade e coragem, eu diria mesmo, de alto risco, qualquer passo em falso pode ser fatal, quer para a pessoa que o exerce quer para o partido que representa.
É que o cargo de SG não deve ser confundido com o de comentador ou de porta-voz do partido. São realidades totalmente diferentes.
Ora vejamos, eu entendo que um comentador de televisão (sem qualquer intenção de fazer pouco ao Engº Venâncio) é aquele que faz a especulação dos factos, suposições, advinhas. É, no fundo, uma espécie de um curandeiro científico, enquanto um porta-voz é aquele que vende o programa do partido, faz eco ao pensamento do partido e defende-o, quando necessário, dos possíveis ataques públicos contra o partido. Mas atenção, não deve ser um papagaio como, aliás, se pode ver em alguns. Já o SG é o denominador comum, é aquele que tem o xadrez político do partido. É o SG quem, finalmente, conhece e organiza a base, porque ele, já em si, é uma base, para além de ser é uma espécie de pêndulo que executa toda uma função para a transmissão das horas.
O desaire político da Renamo fez com que muitos dos seus quadros de proa abandonassem aquele partido da oposição. Uma boa parte deles filiou-se ao MDM. Outros tantos ficaram órfãos políticos à espera de uma possível adopção (fica dado o anúncio). Finalmente um terceiro grupo, não sendo fanático do partido nem da política, mas emprestada a esta ingrata missão, apenas para servir de veículo para a difícil satisfação das reais necessidades do povo. Dentre os quais (depois de passar a lupa e a pente fino) resgato à figura do Dr. Manuel de Araújo.
Estamos a falar de um jovem político de mão, um académico que jamais renunciou a academia. Defendeu de forma peremptória e sacrificada os interesses do povo na última legislatura na “escolinha de barulho”, claro, no parlamento.
Seria uma figura consensual no estandarte do partido, mas também a nível da plateia do social, visionário e de uma personalidade forte; o Dr. Manuel de Araújo (pessoalmente não o conheço de lado nenhum, nunca vi nem sequer faço a ideia da sua morfologia humana a não ser, francamente, através de uma foto sua de meio corpo postado no seu blogue, bem como através de obra feita) é um chamariz. Seria a minha aposta para tomar às rédeas do MDM.
O Dr. Manuel de Araújo não só seria um bom SG do MDM como também um estratega político para promover a imagem do partido além fronteiras.
Uma coisa é certa, o xadrez politico nacional é jogado no exterior. Os tempos que correm, para uma África à deriva e cada vez mais sangrenta, é fundamental construírem aliados fortes para garantir a sustentabilidade do partido.
A arrogância e o conformismo ficaram para lá da história. É tempo da “nova geração” mostrar os seus dotes. E não venham dizer que a “nova geração” não serve para nada, porque é esta mesma geração, a nova, que tem vindo a multilicar-se de esforços para salvar alguns anciões, mas também alguns jovens, de muitas enfermidades como a malária, a tuberculose, o cancro, a menopausa, a infertilidade, etc., e, por outro lado, para que usufruam das tecnologias de ponta, o que antes era um sonho irrealizável.
A ser verdade esta notícia - não concordando com o nome do Eng.º Venâncio Mondlane - cabe, porém, unicamente, ao MDM decidir.

PS: Tanto Anibalzinho como Afonso Dhlakama, ambos gozam de prorrogativas do Estado moçambicano. O primeiro já confessou ter morto Carlos Cardoso, para além de se ter escapulido por três vezes das masmorras do país, fuga esta que teve envolvência de altos quadros da PRM como ele mesmo, mais tarde, viria a confirmar; o segundo, o líder da Renamo, inconformado com os resultados eleitorais de 28 de Outubro, ameaçou incendiar o país caso os órgãos eleitorais não decidam inverter os resultados ao seu favor. Perante tudo isto é a PGR que continua a dormir, ou melhor, a bocejar.

domingo, novembro 01, 2009

A PROLIFERAÇÃO DE IGREJAS VERSUS IGREJAS PROLIFERADAS

Por Viriato Caetano Dias

“Quando o ouro entra pela porta das catedrais, sai a fé pelas janelas”, Citando Hernâni de Carvalho, jornalista português

À semelhança de “Mugabe, o meu Escolhido” que publiquei há duas semanas, a reflexão de hoje também promete ser polémica, tanto assim foi que alguns leitores, ofendidos com a minha dissertação decidiram, em bloco, cortar relações comigo. Uma sentença dura e injusta. Condoído, apresento as minhas condescendências aos lesados. Afinal somos todos pecadores.

Nunca pensei que a situação política do Zimbabwe (que eu acho normal e necessária, porque entendo que qualquer país precisa conhecer momentos baixos na vida para que, num futuro breve, possa trilhar no farol do progresso) fosse ser uma munição para essa “guerra” fútil. Que mais pode um “arcabouço” humano, como eu, pedir neste oceano de lágrimas se não a amizade dos amigos? Uma amizade bem formada pode ser, seguramente, um binóculo de ver longe, por isso, reforço aqui o apelo de Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (João, 15,12).

E não pretendo, de maneira nenhuma, lançar outra polémica e/ou criar contendas desnecessárias com quem quer que seja, embora o meu ponto de vista nesta reflexão poderá causar, em certas pessoas / circunscrição pouco habituadas a separar o trigo do joio, um mau estar com consequências previsíveis. O meu inconformismo crónico recusa-se a calar perante os factos apresentados, ainda assim, lanço a sonda do diálogo à plateia do social, para um debate de ideias. Este é o objectivo das minhas reflexões, o diálogo!

Acontece, porém, que no lugar de se contruir e/ou reabilitar fábricas, industrias e outras infra-estruturas para o desenvolvimento sustentável do país, destruídas pela guerra de desestabilização, nalguns casos de libertação nacional, mas sobretudo, pela acção do homem (já basta dizer corrupção), uma vez que boa parte delas foram entregues à nomenclatura do regime no poder em compensação aos anos em que estiveram nas matas de Nachingueia, Madjedje, Chai, etc., no ofício da PAZ para os moçambicanos surgem, actualmente, nesses lugares, igrejas. Não se sabe muito bem donde é que elas vêm, quem são os seus donos, se estão registadas, se pagam ou não impostos, enfim, certo é que elas existem e não param de se multiplicar. Vivem como as sanguessugas, chupando o sangue dos crentes incautos. Em nome de Deus tudo fazem para esvaziar do bolso dos crentes o mísero salário mínimo nacional.

Muitas delas para lograrem credibilidade no seio dos crentes incautos mandam colocar dois ou três anúncios nos jornais de maior circulação no Bairro (o jornal de maior circulação nos bairros é a comunicação feita boca-a-boca) em como a tal igreja fora fundada em mil, cento e tal (a ideia é colocar sempre os anos mais longínquos para darem a entender que ela é antiquíssima), por um Grande (no dizer deles, Grande significa aquele que teve um “encontro de trabalho” com Jesus Cristo) Missionário, de preferência dos EUA! Falam em números de crentes muito aquém das expectativas para também darem a entender que a tal igreja (s) é “the best”, muito concorrida devido aos seus milagres religioso. Não falha, dizem eles: “faz cego ver, paralítico andar, cura doenças como a HIV/SIDA, etc.” Em menos de 15 a 30 dias tornam-se em verdadeiras “igrejas cogumelos”, com todo aquele aparato que se vê e crê. Não interessa se elas funcionam numa capoeira de galinhas, num curral de cabritos, num cabaré ou numa fábrica sem tecto, ou num quarto cedido por um senhorio para aumentar à sua renda mensal. A sua morfologia é composta, muita das vezes, por ex. reclusos, gatunos, violadores de mulheres e de crianças de reconhecido mérito e diploma-mor na praça do crime. As regras são iguais com às dos chapeiros. Se com os chapeiros à admissão é feita em função de actos de boçalismo, por outro lado, a ociosidade da pessoa é que mais ordena. De resto o hino das duas classes é o mesmo “que se lixe o povo”. Daí que a passagem de uma classe para a outra é automática, isto é, não requer requisitos nem estágios complexos, záz!

Não restam sombras de dúvidas que o negócio mais rentável e sustentável nosso país é a abertura de igrejas (não se excluem mesquitas, templos, capelas ou coisas do género). Que raio de proliferação? Desde que o seu fiscal morreu no misterioso acidente de Mbuzine em 1986, a sua regulamentação virou estrada sem semáforo. O país possui mais igrejas / mesquitas do que industrias para absorver o exército de desempregado que pululam pelas artérias das cidades. Coitado dos nossos licenciados, deita-se muito conhecimento sem qualquer perspectiva de emprego, porque as tecnologias do progresso foram substituidas pelas igrejas.

Queria eu que essas igrejas fossem vectores do progresso científico e religioso, que mobilizassem as pessoas, por exemplo, na produção da riqueza, na sensibilização para a contrução de uma sociedade livre de perigos ambientais, que fossem instituições de benevolência, mitigando a dor dos pobres e dos órfãos; se assim fosse, confesso, teriamos um país diferente, o galo até estaria a cantar de outra maneira. Mas como disse o historiador José Hermano Saraiva, “a bondade é um bem que nos dias de hoje perdeu a cotação.” O material substituiu o espiritual. Foi neste mundo que o homem virou mercadoria, e é neste mundo onde o homem continua a destruir-se a si mesmo. Faz-me lembrar “chicomba” (perdoem-me os fiscal da língua nyungué se escrevi mal o nome) é um animal que na falta de alimento come-se a si mesmo.

Mal menores têm o nosso país se compararmos com outros países, onde o nome do Omnisciente / Omnipotente é invocado pelos maus motivos: morte, destruição, expropriação, violação dos direitos humanos, enfim, um desfile de atrocidades. Para tudo o que se faz no mundo, o nome de Deus está na ponta da língua, como se alguma vez Deus fosse assassino ou tivesse outorgado os seus filhos a cometerem o mal. Seria ele um péssimo pai! Já não basta a maldade que fizeram ao Seu Filho quando, em praça pública e sem qualquer piedade, fizeram dEle (Jesus) a refeição do dia. Como posso eu me esquecer a recomendação da minha bússola literária, Arrone Fijamo: “há que ter cuidado com os homens, principalmente aqueles que te parecessem dedicar grandes amizades.”

Comecemos por Iraque, já lá vão 6 anos após a queda do regime ditatorial de Saddam Hussein que se morre feito cordeiro no matadouro, sem dó nem devoção. Os bombistas não perdoam a ninguém: adultos, velhos e crianças são tudo menos nada arrasado pelos ares. Matam com o corão nas mãos, como se este livro sagrado fosse nicotina para estimular as suas acções hediondas.

Abrindo um parentises, onde é que anda o Sr. Bush e os seus aliados que destruiram um país minimamente organizado? Deve estar no Texas, na sua terra natal, à espera de um Prémio-Nobel qualquer! A secretaria dos prémios deve estar por ai a rasurar ou a fabricar uma cláusula a ver se lhe dão um prémio. Será que o Sr. Mo Ibraimo se esqueceu dele? O seu comparsa tenta a sua sorte na presidência da União Europeia, para se juntar ao seu amigo das Lajes. E ainda há quem diga que Mugabe é dos piores!

A Palestina que desde a sua fundação foi sempre palco de guerras. Foi lá que mataram Cristo. A paz naquele sítio nunca! O Afeganistão não foge à regra, os interesses de países imperialistas, os tais fiscais dos Direitos Humanos não param de regar os corpos do povo afegão com bombas. Quão cubais em teste das armas de destruição maciça! Nem as mesquitas são poupadas. Por outro lado estão os talibãs que se dizem radicais do Islão e lutam por uma voz no clube dos países mais ricos do mundo. É uma questão de dualidade de critérios: dois pesos e duas medidas. “Se eles (o Ocidente) podem ter armas nucleares porque é que nós não teríamos”? É complicado este mundo! Há que dar razão a Carlos Fino, a violência só tem gerado mais violência. Cada uma das partes parece sempre pensar que tem a arma mais poderosa, que pode causar o maior dano e assim impor a sua vontade.

Nos EUA os casos de pedofilia praticados pelos padres católitos vão aumentam dia após dia. Os padres católicos usam o nome de Deus para se prostituirem. Os seus apetites sexuais são materializados nas crianças, coitadas, estas “presas humanas” só conseguem denunciar já grandes. A batina eclesiástica esconde muitas coisas, esconde fundamentalmente um esqueleto cheio de pecados. O Vaticano mesmo sabendo desses cometimentos, limita-se a pedir desculpas e, nalguns casos, indeminiza às vítimas. É este mesmo Vaticano que nada pode fazer quando Bush e os seus aliados decidiram, em bloco, atacar o Iraque. Já dissemos que este quarteto ainda espera por prémios que não deverá tardar por muito tempo. Alguém pergunta pela ONU? A história do genocídio do Ruanda, de Timor (só para citar) aconteceu nas barbas das Nações Unidas sem que este organismo da paz fizesse algo quando a ferida ainda estava fresca. Os interesses determinam o curso da política, bem como a sorte de alguns países “sacatepwés”, que em calão na língua nyungué quer dizer “sem valor”. Haverá um Estado sem valor?

Agora é a vez do Brasil! De lá chegam-nos a história da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) que é recordista em termos de processos nos comarcas (tribunais) do Brasil e não só. Não são poucos os crentes que se queixam à justiça dos países onde a igreja é acausada de burla, coação e prostituição religiosa. O seu proprietário, segundo as fontes brasileiras, é actualmente um dos homens mais ricos do Brasil. O Sr. Macedo (Bispo Macedo como é carinhosamente tratado) passeia a sua classe ante as favelas do Rio de Janeiro, do Mafalala, só para citar, a “arder” de fome e fedo. Onde está a caridade do Vaticano e da IURD para acabar com às fomes no Brasil, em Moçambique e no mundo? Se os dízimos não existissem creio que o mundo não teria mais do que meia dúzia de igrejas / mesquitas.

Em Portugal um padre de Covas do Barroso é acusado de Tráfico e uso ilegal de armas de fogo, foi absorvido depois de 2 dias de intensas interrogações! Esta notícia deixou-me arrepiadíssimo e obrigou-me a colocar dois dedos na testa, se realmente vale a pena frequentar as igrejas ou não? Se um padre é traficante de armas, qual é o ensinamento que dá aos seus crentes? Esta a dizer, indirectamente, que todos nós temos o direito de traficar arma, o resto que se dane. Que se lixe Deus! Bons tempos fora os meus em que os padres desempenhavam com estima e dedicarão o seu sacerdócio, sem mácula. Eram tempos difíceis aqueles da guerra, tempos férteis para a prática destes males depravados, mas sobre eles pesava a responsabilidade, o dever de um sacerdote e o valor de ser um bom educador. Saudades tuas padre Cirilo, no seu eterno sono! Um abraço ao Padre Emílio, agora na Diocese de Quelimane, que me ensinou que uma mão suja não se cortar, mas si lavar, e a rapaziada de Napipine, em Nampula, a descobrir o caminho da escola. Fica aqui a minha homenagem a este grande homem ao serviço de um país. Também há gente boa neste mundo! Que o diga o povo de Nampula.

Os exemplos não param por aqui, eu é que me fico por aqui, reconhecendo que para tudo na vida há sempre uma excepção.

PS1: Foi com profunda tristeza que recebi a notícia da morte do Jornalista da Rádio Moçambique (RM) – Tete, Alberto Camacho perecido a 22/10/09, vítima de doença. É, sem dúvidas, um vazio que deixa para a RM e para os seus ouvintes, como eu, que tinha em Alberto Camacho um jornalista exímio. Paz à sua alma. Até já, Camacho!

PS2: Espero publicar em dose dupla, ainda esta semana, uma reflexão sobre a hipotética escolha do Engº Venâncio Mondlane para o cargo de Secretário-Geral do partido Democrático de Moçambique (MDM).

PS3: Obrigado a todos que me tem enviado informações diversas sobre a actualidade moçambicana e internacional, assim como pedidos para a abordagem destes e de outros temas... Estamos juntos, sempre!