segunda-feira, julho 07, 2008

Quem é quem na África Austral?

Por Manuel de Araújo

Pelos sinais que temos vindo a receber, não estaríamos muito errados se desde já começássemos a prever que Oldemiro Baloi e Armando Emílio Guebuza iriam reconhecer Mugabe. Estaria positivamente feliz se este meu vaticínio fosse contrariado!
E razões não faltam.

O primeiro ensaio sobre a possível posição de Guebuza veio de Lusaka onde fontes diplomáticas na região, asseguraram-nos, para surpresa nossa, que Guebuza foi o maior defensor de Mugabe!

Depois foi a proibição da manifestação da sociedade civil, conjuntamente organizada pela Liga dos Direitos Humanos e pelo Centro de Estudos Moçambicanos e Internacionais (CEMO); A entrevista de Jorge Rebelo ao semanário Savana, só veio a dissipar algumas zonas de penumbra sobre aquilo que poderia vir a ser o posicionamento da Frelimo, e quiçá do Governo de Guebuza. Será que as vozes sensatas como a da mama Graça (Machel) já não são ouvidas no partido Frelimo?

E por último, veio a terreiro, segundo órgãos de informação pública, o porta-voz do partido a que ambos pertencem (Oldemiro e Armando) ao anunciar sem vergonha na cara que o partido Frelimo havia congratulado a ZANU-PF e Robert Mugabe pela sua vitória!

Que a Frelimo congratule a quem quer que seja, não me aquece nem arrefece, tanto mais que essa tem sido a linha com que se cosem suas acções na Província de Tete, Sofala e Manica, num autêntico ensaio ao que assistiremos nas eleições de 2009, quando o povo decidir dar o cartão vermelho a AEG! (Armando Emílio Guebuza)

O que espero ansiosamente é a posição do meu ESTADO, do meu GOVERNO e do meu PAÍS! O meu Estado não pode continuar mudo perante a morte lenta de um povo irmão! O compromisso de Moçambique, não foi, não é, e não deve ser com os facínoras, os déspotas sejam quem forem! O compromisso do Estado Moçambicano deve ser a defesa dos interesses nacionais de Moçambique conforme determinados pela Constituição de Republica. O compromisso de Moçambique, tanto ontem, hoje e amanhã deve ser para com o Povo Irmão do Zimbabwe, que hoje como ontem enfrenta a opressão, a violação sistemática dos seus direitos mais elementares – o direito à vida, à livre circulação, à opinião; o direito à expressão e o direito a uma vida normal e ao bem estar social.

Onde anda a sociedade civil moçambicana? Terá feito tudo ao seu alcance para apoiar o povo irmão do Zimbabwe? Onde anda a solidariedade moçambicana forjada durante a luta de libertação nacional, consolidada durante a luta pela democracia? Onde anda a juventude do meu país? Onde anda o Conselho Nacional da Juventude do meu país?

Não me calarei enquanto o povo irmão do Zimbabwe sofre! Nem que fique só e/ou rouco, pois quando uma causa e justa não importa o número, o que importa é a justeza da causa!

E tenho dito.

sábado, julho 05, 2008

Contrato com o governo para fazer filhos

Escutei da RM (Rádio Moçambique), na sua missão da tarde da sexta-feira, o governador de Inhambane a falar com um tom de zanga num comício popular. Também se pode ler aqui. Do discurso ouvi algo assim: vocês fazem muitos filhos, depois vem reclamar ao governo que não têm condições para sustentá-los. Vocês fizeram contrato com o governo para fazerem muitos filhos? Isto deixou-me com muitas interrogações como:

Há algum contrato em Moçambique para fazer filhos mesmo para um ou dois?

Quem tem o direito de fazer filhos em Moçambique? Por outras palavras, o pobre está condenado a não fazer filhos?

Será o discurso do governador articulado à política do governo moçambicano ou é a opinião pessoal do governador? Por outras palavras, há uma política de família do tipo da China, onde cada família tem o direito de um determinado número de filhos? Se existe essa política é do conhecimento público? Existindo, como se garante para se efectivá-la: bastará com o tom de zanga aos produtores de filhos. Concretamente, há distribuição de anti-conceptivo ou que os pobres evitem fazer filhos, não fazendo o sexo?

Supondo que esta política não do governo moçambicano, tem um governante o direito de transmitir e tornar ordem a sua opinião individual num comício?

quinta-feira, julho 03, 2008

As duas posições de Sharm el-Sheikh

Em Sharm el-Sheikh, no Egipto, sairam duas posições em relação o regime do déspota Mugabe (leia aqui). Uma posição projectando regimes e presidentes africanos para toda a vida, optaram por não criticar a Robert Mugabe. Um dos membros deste grupo, Omar Bongo, Presidente do Gabão e o governante mais antigo de África e o sétimo do mundo chegou de afirmar que Robert Mugabe fora eleito. Thabo Mbeki, o suposto mediador da crise do Zimbabwe insiste que o seu projecto de manter Mugabe no poder se ponha em prática. Outros ficaram silenciosos. Talvez a posição destes líderes africanos seja a prova de mãos sujas de que Robert Mugabe alertou aquando a sua partida ao Egipto.

A outra posição é constituida por aqueles que criticaram duramente a Robert Mugabe, chegando a propôr a sua exclusão da SADC. Esta foi a proposta do Vice-Presidente do Botswana, Mompati Merafhe. O Presidente senegalês, Abdoulaye Wade, classificou de "nula" a segunda volta das presidenciais zimbabweanas. Outros chefes de Estado que criticaram severamente a Robert Mugabe foram os de Nigéria, Libéria, Quénia e Serra Leoa.

Atendendo que Robert Mugabe disse que estava preparado para desafiar aqueles líderes africanos que pensam que têm mãos mais limpas do que as dele (veja aqui), só posso concluir que os líderes que o criticaram severamente têm sim, mãos limpas que ele, ou então Mugabe não sabe nada deles. Na verdade, Robert Mugabe não os desafiou.

Chega!

ONDAS DO CHIVEVE

Por Eliseu Bento

O Zimbabwe continua a ser motivo de todas as conversas em todo o mundo. Agora, com a já terminada cimeira da União Africana, o nosso vizinho subiu ainda mais na agenda mundial dividindo as opiniões mais abalizadas, se quisermos, dos líderes sobretudo do nosso Continente.

Vale a pena aludir aqui ao pronunciamento do Presidente do Gabão que foi capaz de dizer que Robert Mugabe tinha sido eleito pelo que devia ser simplesmente aceite como tal.

Para nós aqui neste modesto espaço este posicionamento foi simplesmente vergonhoso, mas também pode ser motivo de elogios. Pelo menos o estadista gabones, o mais antigo no poder, pode ter sido coerente consigo mesmo e pode ter tido a coragem que os outros não têm de dizer o que lhes vai na alma, embora naturalmente pensem da mesma maneira.

Merece elogios o gabones porque disse o que realmente pensa e tem estado a fazer ao longo de todos os anos em que se mantém no poder. Portanto, só nos resta agradecer-lhe a coerência e a diplomacia ruidosa em contraste com as diplomacias silenciosas que aos olhos de muitos nunca tomam uma posição, pelo menos prática.

Ou seja, estamos mais ou menos claros que muitos estadistas africanos mantêm-se no poder porque só eles e as suas elites estão interessados nisso. Não é preciso dizer que vale tudo nesses casos, como valeu agora no Zimbabwe e valeu num passado pouco recente no Quénia.

E os exemplos são vários e ainda vamos ter outros neste continente potencialmente pobre não apenas na matéria mas também, e sobretudo, no espírito.

Para nós, Morgan Tsvangirai até devia ir para casa. Devia ir para a reforma, porque em nosso modesto entender ele já conseguiu ser a expressão máxima do sentimento e da vontade do povo zimbabweano ao vencer os escrutínios do passado dia 29 de Março.

Tsivangirai ganhou as eleições aos olhos de todo o mundo. Portanto, já destronou Mugabe, o resto são histórias. Tsivangirai já está na história por isso para nós devia ir para casa descansar porque, efectivamente, já cumpriu a sua missão.

Está mais do que claro que os zimbabweanos já disseram o que querem e tudo quanto seja diferente disso estará a ser-lhes imposto pela vontade de alguém que tem a felicidade de receber apoios e aplausos de alguns talvez insensíveis ao sofrimento do povo zimbabweano.

Continua no entanto a fazer mossa a forma como os outros estadistas até aceitam que Mugabe lhes falte respeito ao não acatar as suas recomendações. Foi assim que declinou a sua participação numa cimeira na Zâmbia enviando pessoal menor. E isso terá mesmo provocado desavenças entre ele e Levy Mwanawasa, o que tudo indica que ainda não foi ultrapassado. Foi o que aconteceu muito recentemente quando do encontro da “troika” que se reuniu na Suazilândia na qual sugeriam o adiamento da segunda volta das eleições. E mesmo depois disso!

Os observadores da SADC já disseram que os resultados destas eleições não reflectem a vontade do povo zimbabweano mas nem isso cabe nos ouvidos das elites zimbabweanas.
Estranho é que, de facto, os outros líderes aceitem isso, alguns, infelizmente a maioria que acaba sendo suficiente para se calhar legitimar o perdedor Mugabe.

Uma palavra de apreço para a diplomacia do Botswana que tomou uma posição rígida negando-se a reconhecer os resultados da segunda volta das eleições do dia 27 de Junho.

O presidente de Moçambique, Armando Guebuza, disse esta terça-feira no Egipto que as partes beligerantes no Zimbabwe se deviam sentar à mesma mesa para encontrarem uma saída. Disse ainda que a SADC estava bastante preocupada com o que está a acontecer.

Teremos que esperar para vermos se Mugabe vai desta vez acatar com estes pronunciamentos e preocupações porque, de facto, já chega!

Vem nos à memória a cimeira Europa-África em Lisboa na qual praticamente Robert Mugabe foi levado ao colo pelos seus amigos estadistas africanos contra a vontade de muitos outros africanos principalmente os martirizados zimbabweanos.

Aliás, nessa altura se disse que a sua presença na cimeira só serviria para reforçar a sua posição, o que equivalia a dizer que continuaria a fazer das suas no país condenando ainda mais o seu povo ao sofrimento, o que podia não suceder se os outros chefes tomassem outra posição.

quarta-feira, julho 02, 2008

TRÊS DÉCADAS DE DEBATES CONDICIONADOS

Ou quando os Comícios servem de «Cover-ups»...

Canal de Opinião: por Noé Nhantumbo

Beira (Canal de Moçambique) - A tentativa de fazer da figura de comício um meio privilegiado de comunicação com os cidadãos, uma vez chamados de povo, outras vezes de massas populares, desvirtua a democracia e torna-a um espectáculo medíocre. No lugar de manifestação e auscultação genuína dos anseios dos cidadãos ficamos com um exercício de falsa auscultação, onde se apresentam queixas razoáveis no entender dos que dirigem os comícios e se recebem as respostas consideradas convenientes.

Nada é mais claro do o título numa situação de governo democrático.
As malhas tecidas pelo governo, a sua acção concreta, as suas opções, nada deve colocá-lo numa situação de entidade inquestionável e logo longe da responsabilização.

O comício popular tão querido dos socialistas é a maneira mais refinada de ultrajar a democracia e tirar sentido ao direito do cidadão de saber o que faz quem o governa, como são utilizados os fundos públicos, como é que o governo do país procede em seu nome nos fóruns internacionais. Quando o método é o comício fica sempre um vazio no capítulo das respostas. Por um lado ninguém se atreve a fazer pronunciamentos significativos que questionem a ordem do dia numa reunião desse tipo. Por outro lado, os cidadãos organizados pelas estruturas omnipresentes dos partidos não tem a coragem suficiente para se colocarem no pódio e lá desferirem ataques demolidores contra aqueles que estão dirigindo tais encontros.

O direito de conhecer que os cidadãos em princípio possuem e que é um dos fundamentos da democracia, não se realiza pela via do comício e é por saberem disso que os governantes oligárquicos optam sempre por esta forma de comunicação de massas.

Ninguém nega a necessidade e existência de arranjos que pela sua natureza e sensibilidade devem ser ou permanecer secretos. Mas isso não significa que comissões parlamentares especificas não tenham o direito e obrigação de receber informação atempada sobre tais operações ou assuntos. Um governo democrático não pode em nenhuma circunstância colocar-se numa situação de independência absoluta para com os outros órgãos do poder.

O fundamento da democracia repousa na responsabilização e na obrigação que os titulares dos diferentes órgãos públicos tem de responder aos cidadãos pelas vias estabelecidas.

As acções dos governantes não podem nem devem aparecer encobertas num manto de secretismo de justificações que nunca colam. É mentira e inaceitável quando nos dizem que não devemos saber quanto é que pagaram a firma de advogados que aconselhou o governo no negócio da Hidroeléctrica de Cabora Bassa. Assim como é inaceitável que o Parlamento não saiba como são negociados os recursos minerais deste país.

Não é por acaso que em São Tome se criou uma entidade responsável por negociar e comunicar os resultados a volta do dossier petróleo.

A democracia é algo concreto que obedece a regras e a procedimentos controláveis.
Anunciar num comício que Cabora Bassa é nossa é uma coisa relativamente simples. Mas os moçambicanos não são tão ingénuos que não queiram saber como foi feito tal transferência, quais são as contrapartidas, modalidades de pagamento, a estrutura de accionistas, o modelo de gestão concebido, tudo isso e mais.

Não basta dizer que assinamos um contrato de exploração do carvão de Moatize com a Vale do Rio Doce e depois se fecharem em copas. Como governo tem a obrigação de informar ao Parlamento quais foram os contornos do negócio e o que o país vai efectivamente receber em termos de contrapartidas financeiras. Há que saber como anda o assunto das areias pesadas de Moma e de Chibuto. O tempo em que selavam contratos com a União Soviética de pesca ou de exploração pedras preciosas e ninguém chegava a saber o que tinha sido feito e como, não é propriamente este.

Passam trinta e três anos de independência. Demasiado tempo para que se continue com a prática socialista do comício como instrumento privilegiado de debate que como sabemos não é. Não se pode negar que o meio é adequado para comunicar com populações pouco letradas. Mas não se deve esgotar o tema por aí e ficar a coberto disso para realizar actos fora do escrutínio democrático estabelecido.

Está sendo negada aos moçambicanos a oportunidade de debater os seus problemas e de sugerirem soluções. As chamadas organizações da sociedade civil seguem uma linha de orientação e de acção que as afasta dos cidadãos. Tornam-se ninhos úteis para a comunicação dos anseios dos governantes e nunca se as encontra debatendo em profundidade os desvios que vemos anualmente anunciados pelo Tribunal Administrativo. A qualidade de serviços de policiamento que possuímos é tratada de maneira leve. As discrepâncias entre o que a lei diz e a prática no que se refere a compra e venda de talhões urbanos para a construção são ignorados. Milhões de hectares de terra repousam nas mãos de uns poucos cidadãos e quando surge a oportunidade, vemos os mesmos estabelecendo parcerias para a construção de refinarias de petróleo.

Essa maneira de gerir os assuntos nacionais, essa maneira de governar o bem comum, a nação, está longe dos critérios democráticos que nos dizem de boca cheia que abraçam.

As decisões marcadamente top-down, a ausência efectiva de debates visando construir consensos e sentido de pertença, estão se tornando em verdadeiros constrangimentos neste país.

Os cover-ups valem por si mas nunca substituem a verdade.
Embora nem sempre digerível e de aceitação fácil, a verdade deve ser um objectivo e critério de avaliação do que os governantes fazem. O que lhes parece serem saídas porque proporcionam lucros e mais poderes podem estar a ser os becos sem saída de amanhã.

Ninguém é perfeito e os nossos governantes também não são super-homens. Reconhecê-lo não faz mal a ninguém.

Simplicidade, humildade, austeridade, capacidade de mostrar coerência e uso criterioso dos bens públicos que lhes estão confiados, moralidade pública e privada de alto nível são o que os cidadãos pretendem ver dos seus governantes.
A chefia da nação deve ser capaz de mostrar o exemplo e exigir dos seus colaboradores o mais alto nível de desempenho e de condições morais para o exercício de suas funções.

O que os outros fazem no capítulo do rastreio aos seus governantes deve se tornar prática entre nós. Sem uma equipa governamental livre de suspeitas de corrupção e nepotismo, sem governantes limpos não se pode construir uma democracia credível.
Mesmo que tenham o suporte e cobertura do chefe, os governantes devem deixar a arrogância de lado e mostrar que são, afinal, servidores bem pagos de um povo que espera deles desempenho de qualidade e não manobras ou cover-ups. Os moçambicanos não querem continuar a pagar altos salários para ministros-empresários.

As mentiras que enchem páginas dos jornais, as aparições programadas na televisão, vendem uma imagem que não se possui. Esta exploração oficial da mentira atrasa o desenvolvimento do país e lesa os moçambicanos.

Existe uma grosseira interferência na comunicação social pública que é obrigada a difundir posições muitas vezes fora de contexto e mesmo mentiras.

Existe uma comercialização crescente da vida pública, os esquemas persistem em comandar aquilo que se faz na esfera público-governativa. Isso corrói o tecido social, mina o desenvolvimento nacional e impede que os moçambicanos usufruam com dignidade o que fazem por seu país e o que seu país pode fazer eles.

Fonte: Canal de Moçambique (2008-07-01 07:01:00)

terça-feira, julho 01, 2008

HERANÇAS CONDICIONANDO O PRESENTE

O alinhamento de Mbeki ou dos Santos, Mugabe ou outros lideres não é fortuito...

Canal de Opinião: por Noé Nhantumbo

Beira (Canal de Moçambique) - A natureza e tipo de comportamento que vemos sendo exibido por lideranças em África é alguma coisa de suma importância para compreender determinados factos do presente. As ditaduras sanguinárias que apoquentam povos tem as suas origens na chamada ditadura do proletariado que durante alguns anos floresceu e passeou a sua classe em nossos países. Os movimentos de libertação foram apanhados no centro da confrontação este-oeste. Isso não determinou só práticas subsequentes mas também culturas.

Se antes não era perceptível o que escondia o populismo, isso não é sinónimo de que já não havia elementos de intolerância e totalitarismo em acção.

O recurso à prisão, deportação, controle policial dos cidadãos, eliminação física, eram já marcas registadas da actuação de alguns governos.

Angola, Zimbabwe, Etiópia, Tanzânia, Moçambique, são alguns dos países em se viran sistemas políticos centralizadores sendo implementados. Rapidamente os povos se viram confrontados com uma autoridade governamental pouco tolerante para aqueles que tinham opinião diferente.

O que vemos hoje em termos de posicionamento de alguns líderes, se é que esse nome merecem, não é mais do que todo o comportamento, que já tinham, a vir à superfície. O acolhimento do ditador de Adis Abeba em Harare tem de ser visto como a protecção de um companheiro de armas. O silêncio quando se verificam atropelos aos preceitos democráticos em qualquer dos países da antiga irmandade socialista em África faz parte de antigas estratégias que eram determinadas e comandadas a partir de Moscovo. Só que estes governos ditatoriais foram deixados órfãos por um regime que ao desmoronar, não deixou qualquer herança registada em termos de protecção aos seus satélites africanos. Aqui na região, os governos, uma vez desaparecida a União Soviética, optaram por se fecharem entre eles, assinando verdadeiros protocolos de auto-protecção.

Um velho combatente pela independência de Moçambique, Mariano Matsinhe, veio a público recentemente, afirmar que se convidado iria a Harare assistir à tomada de posse de Mugabe, que a ZANU era amiga da Frelimo e outras coisas do mesmo tipo.

Não se questiona amizades por serem históricas. Questionam-se comportamentos presentes que acabam sendo lesivos aos cidadãos de determinado país. O que aquele veterano (Mastinhe) disse não é por acaso. Há laços demasiado fortes entre as lideranças de nossos países. Há sobretudo uma recusa frontal em admitir uma alternância no poder por meios democráticos. Afinal no socialismo dito científico que praticavam, a figura de eleições com mais que um concorrente, multipartidarismo, alternância democrática eram palavras ignoradas.

Os nossos governantes de hoje transportam consigo comportamentos daqueles dias em que era proibido ter opinião diferente, que era considerado reaccionário qualquer cidadão que se atrevesse a manifestar um ponto de vista diferente da linha ou das orientações emanadas dos respectivos regimes.

Se alguma aparência de aceitação dos preceitos democráticos pode sobressair nos discursos, isso em geral é porque ainda não foram confrontados com uma séria possibilidade de perderem o poder.

É só recordar o caso das eleições autárquicas na Beira. Mesmo vencido o partido no poder, atrasou o reconhecimento dos factos e foi necessário um autêntico exercício de vigilância e protecção das urnas para se tornar impossível a manipulação. Os órfãos socialistas rapidamente se tornaram capitalistas e é só ver como eles próprios e sua prole actua e procede no quotidiano.

Aqueles princípios que alegadamente guiavam a luta pela independência foram esquecidos e enterrados logo que se conquistou o poder.

Nos dias de hoje, a dificuldade de compreender as linhas com que o nossos governantes se cozem, as alianças que mantém com os seus pares da região e do mundo, a arrogância e desprezo a que lançam hoje seus povos; todo um comportamento completamente distante daquilo que propalavam que queriam implantar em nossos países, era uma mentira. Ou tudo foi esquecido. Tudo o que é feito hoje por eles tem em vista um afastamento cada vez maior relativamente aos cidadãos. O capital deles reina e quem não consegue comer na mesa principal do banquete através de serviços prestados come as migalhas que caem para o chão. A dignidade dos povos passou a ser verbo morto. Para estes governantes, os mesmos que trouxeram a independência para nossos países, o objectivo principal da governação, a agenda que lhes preocupa é o enriquecimento rápido e com recurso a qualquer meio. Se não fosse esse o caso, já teríamos muitos ministros exonerados pois suas práticas estão longe da agenda que diziam ter aquando das eleições. Muitos dos elementos que fazem parte do governo parece que estão lá para assegurar que as coisas e interesses do chefe sejam protegidas e promovidas. Alguns dos negócios feitos ultimamente confirmam que não há interesse em separar os poderes democráticos e que não há interesse em separar interesses privados dos públicos. Que assim, nas aguas turvas, se colhe melhor.

As diversas tentativas em estabelecer uma agenda económica para o país aparecem quase sempre conotadas com interesses bem identificados das famílias sempre presentes nos grandes negócios. Nada disto é novo. Em Moscovo quando o mercado se tornou aberto, quando o capitalismo chegou ao Kremlin, procedeu-se do mesmo modo. Os bolos mais apetitosos foram abocanhados por pessoas ligadas à nomenclatura e as migalhas para os outros.

Compreendem-se as mudanças históricas, a globalização e a necessidade de se alinhar em novas dinâmicas. Mas não se compreende como é que pessoas que ontem empunhavam a foice e o martelo, através do uso de orientações e outros sistemas característicos do populismo se tornaram praticantes de um autêntico fascismo de esquerda.

É possível abraçar o sistema de mercado e ao mesmo tempo nivelar o campo de modo a os outros cidadãos tenham emprego, habitação, educação e saúde.

Sujeitar toda uma maioria a salários que na prática só compram dois sacos de arroz não pode ser chamado governar com consciência nacional.

Promover uma multiplicação inaceitável de práticas lesivas só porque isso permite que se continue a enriquecer é uma maneira medíocre de ver e fazer as coisas.

As heranças aceitam-se ou recusam-se. Porque o fardo despótico e de intolerância herdado do passado recente não serve os cidadãos e o desenvolvimento de nossos países, aqueles que de facto são lideranças continuarão a luta pela sua eliminação.

Fonte: Canal de Moçambique (2008-06-30 06:25:00)

Nota:

Amizade faz muitos de cegos e mudos. Mariano Matsinhe não é o único. Isso se pode provar pelo silêncio de muitos perante a situacão do Zimbabwe.

domingo, junho 29, 2008

Elites sufocam académicos

Parece mentira mas é uma constatação. 33 anos depois da Independência Nacional, a 25 de Junho de 1975, o que era impensável para muitos é uma realidade evidente a olho nu: as elites sufocam os académicos; razão pela qual, está em vista para os próximos dias, a realização de um encontro entre os representantes de várias instituições públicas para debater o medo que paira entre os estudantes do Instituto Superior de Administração Pública (ISAP) que, quando solicitados pela direcção daquele estabelecimento do ensino, a divulgarem publicamente os melhores trabalhos de pesquisa académica, recusam com receio de represálias por parte das respectivas chefias, de acordo com dados revelados na segunda-feira, numa palestra, sobre a contribuição da Formação em Administração Pública para a profissionalização e melhoria do desempenho da Função Pública.

No decurso das actividades da comemoração do 23 de Junho, "Dia Africano da Função Pública", este ano celebrado sob o lema: "Por uma Função Pública Orientada para Resultados", Agostinho Manganhele, docente e coordenador do módulo Moçambique: História, Políticas e Cultura, no ISAP, afirmou, na apresentação de apenas três melhores trabalhos de pesquisa académica, das tantas dezenas que se têm vindo a solicitar desde ano passado, que "os estudantes que possuem os melhores trabalhos de pesquisa e realizados nos seus locais de trabalho, quando solicitados pela direcção do ISAP a autorização para a publicação, recusam alegando represálias por parte das respectivas chefias".

Contudo, Almiro Lobo, director do ISAP, corroborando com seu colega docente, afirmou que "aqueles trabalhos, no âmbito da Reforma do Sector Público, em curso e já na sua 2ª fase, ajudam a avaliar o nível de implementação da mesma. Portanto, a direcção do ISAP, em respeito aos direitos do autor, continua a exortar os estudantes, a autorizarem a publicação da pesquisa, nem que fosse sob condição de anonimato pois, possuem ainda a dimensão de avaliar os desafios e mudanças do Aparelho do Estado", sublinhou e avançando que "deverá-se programar um encontro com os representantes das instituições públicas para se dissipar as referidas ameaças".

Entretanto, Agostinho Manganhele, docente do módulo Moçambique: História, Políticas e Cultura, mesmo assim, apresentou um trabalho de pesquisa académica, denominado em Redes Sociais: recrutamentos dos funcionários públicos: o caso do Instituto Nacional de Segurança Social (INSS, no qual, o estudante Artur Pedro Massango, faz a abordagem da problemática que ancora na preocupação das elites, controladores do Estado e das instituições públicas que, tudo fazem para reforçar as suas redes de clientelismo, procurando resistir à mudanças, sobretudo, na contratação de novos quadros.

Como estratégias, segundo explica o trabalho de Massango, citado pelo seu professor: "os recrutados para as instituições que estas elites dirigem, são no geral membros das suas redes sociais e/ou parentes e, porque a maior parte destes indivíduos, mostram-se incompetentes, com qualificações académicas duvidosas, o Instituto Nacional de Segurança Social afigura-se na rede de instituições que funcionam mal".

O brilhante estudante, na óptica dos seus mestres, constatou que este funcionamento das instituições públicas no geral e do INSS em particular, "é a razão dos graves problemas que administração pública enfrenta no seu todo pois, no caso do INSS, a maior parte destes indivíduos se mostram incompetentes, com qualificações académicas duvidosas, fazem com que esta instituição, sub tutela do Ministério do Trabalho(MITRAB), se afigura em suma na rede do mau funcionalismo do Aparelho do Estado, uma prática que pode ser também encontrada em várias áreas do funcionamento do Estado moçambicano, entanto que uma entidade.

LICHINGA

Outro exemplo é da estudante proveniente da província nortenha do Niassa, Natércia Macuácua que traz uma abordagem com enfoque nos factores culturais. A base para esta
discussão, se acomoda fundamentalmente na problemática ligada à manipulação de etnicidade pelas elites gestoras do poder e não só, a autora enfatiza, igualmente, questões de género, referindo-se à exclusão da mulher nos centros de decisão.

"Trata-se duma profunda reflexão marcada pelas relações de poder, ancorada nas questões culturais e exacerbada pela operacionalização de redes étnicas na distribuição e redistribuição de poderes e também a manutenção da governação tradicional", diz a autora.

Por seu turno, Ernesto Muianga, ligando à problemática do género em experiências e Vivências de uma Visão Política e Estratégias de Alfabetização de Adultos em Moçambique:

"A mulher no contexto de Mudanças", procurou discutir as estratégias do Estado na promoção da mulher e sua participação no processo de desenvolvimento nas comunidades rurais.

Nesta discussão, Ernesto Muianga faz uma análise crítica à educação tradicional, sobretudo, no que diz respeito às questões de endoculturação e o autor procura, na sua reflexão, desconstruir o processo que vinca as relações de subordinação e de obediência por parte das mulheres; um processo, conforme a sua opinião que impõe a exclusão da rapariga no acesso ao ensino, para perpetuar a dominação masculina.

(Aurélio Muianga)

VERTICAL – 27.06.2008

quinta-feira, junho 26, 2008

INTERVENÇÃO - Quem tem telhado de vidro?

Por José Machado

A CRISE do Zimbabwe parece ter atingido o ponto de ruptura e de grande periculosidade. A retirada de Morgan Tsvangirai da disputa da eleição presidencial e a recusa das autoridades em suspender o acto previsto para hoje faz-nos desenhar vários cenários do futuro do país.

As consequências dessa crise, como se sabe caem também sobre todos os vizinhos do Zimbabwe, mas, paradoxalmente, desde o início do problema, pouco se viu da acção dos líderes regionais para debelar o problema.

Assentes na política da não-ingerência, os líderes da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento de África Austral) adoptaram ao que chamam de "diplomacia silenciosa", que resultou, na prática, no arrastamento do problema até o actual estágio.

É ponto aceite, em muitos meios diplomáticos, que Moçambique e África do Sul (e também Angola) teriam (têm) força para fazer "vergar" Mugabe. Porém, quer um quer outro, têm, pelo menos publicamente, assumido posições de compadre. Aliás, num cínico puritanismo político, o chefe de Estado sul-africano, Thabo Mbeki, mesmo na qualidade de mediador, sempre se recusou a empregar o termo de crise para qualificar a situação zimbabweana.

A crise entra hoje, caso se realize a eleição, numa nova e perigosa etapa. Porém, a preocupação imediata que se põe, não é tanto com os vários futuros por que o Zimbabwe pode seguir após a votação, mas a legitimidade do já definido vencedor. Com a retirada do seu adversário, Robert Mugabe poderia ser proclamado automaticamente eleito. O regime quer, no entanto, as urnas para uma auto-sustentação moral dessa validade política.

Mas tal legitimidade assenta sobre uma base de valores antidemocráticos. A violência contra partidários da oposição e, mais grave, as declarações das chefias das forças de segurança segundo as quais não aceitariam outro vencedor que não Mugabe e a afirmação deste, a 12 de Junho, de que os veteranos de guerra (seus correligionários) pegariam em armas caso ele perdesse, são razões suficientes para levar qualquer um a desistir.

A SADC pediu quarta-feira o adiamento da eleição. Se Harare avançar com o escrutínio será tempo da organização regional assumir uma postura de firmeza.

Recentemente, alguns dos seus membros - Angola, Botswana, Suazilândia, Zâmbia - afirmaram ser altura da SADC "mostrar os dentes". Em nossa opinião, uma maneira de mostrar esses dentes é questionar a validade da eleição de Mugabe.

A Grã-Bretanha e EUA apelaram ao não reconhecimento do novo velho regime. Mas apesar de todo o seu poder económico-financeiro, o Ocidente tem poucos meios de pressão sobre Mugabe. O peso da responsabilidade para a resolução da crise cai sobre a UA e a SADC em particular.

O apelo para a não aceitação do regime de Harare, deve ser assumido por todos membros da SADC e, consequentemente, pela União Africana, não como resposta ao chamado de Londres ou de Washington, mas como assumpção das suas responsabilidade para garantir a estabilidade regional.

O que queremos dizer que é caso se realize a eleição, o Zimbabwe deve ser suspenso quer da SADC quer da UA, até que se encontre uma plataforma para a estabilização do país.

Não é a hostilização ou a diabolização do regime de Harare que defendemos, mas simplesmente que cada Estado-membro seja coerente com os princípios democráticos que adoptou ante o seu povo e o mundo. Ou será que todos têm telhados de vidro?

Fonte: Jornal Notícias online

A atitude de Thabo Mbeki nesta questão do Zimbábuè

MARCO DO CORREIO

Por Machado da Graça

Olá amigo Justino
Como vai essa vida? Eu e a minha família estamos bem, felizmente.
Estou-te a escrever hoje por causa daquela conversa que tivemos, há pouco tempo, a respeito da atitude de Thabo Mbeki nesta questão do Zimbábuè.
A dúvida que os dois tínhamos sobre a razão de o Presidente da África do Sul não ser capaz de se impor perante um Robert Mugabe prepotente e arrogante, apesar de Thabo representar a maior potência da região e Mugabe ser o dirigente de um país arruinado por ele próprio.
Ora acabo de ler uma história, incluída numa recente biografia de Thabo Mbeki, escrita por Mark Gevisser e intitulada “The Dream Deferred” e citada pelo jornalista brasileiro Fábio Zanini:
Nos anos 80, auge do apartheid sul-africano, Mbeki vivia exilado em Lusaka, na Zâmbia. Um dia de manhã, sua mulher acorda, olha para o lado e não o vê deitado a seu lado. Entra em pânico, imaginando que o marido havia sido mais uma das incontáveis vítimas de assassinos que o regime racista sul-africano contratava.
Ela então começa a disparar telefonemas. E um deles vai para Mugabe, que já naquela época conhecia Mbeki. O Presidente do Zimbábuè por sua vez põe todo seu aparato de segurança e inteligência à procura do sul-africano.
Algumas horas depois, Mbeki aparece em casa, com cara de ressaca. No frescor de seus 40 anos de idade, havia ido a uma festa de diplomatas suecos, bebeu demais e desmaiou no sofá, como se fosse um adolescente.
Envergonhado, ele passa a evitar encontrar Mugabe. Mas alguns meses depois, num evento na Etiópia, os dois se cruzam. O zimbabueano, duas décadas mais velho, vai directo passando um pito: “Meu jovem, você faça o favor de me avisar da próxima vez que for dormir fora de casa!”.
Talvez esta estória ajude mais a perceber a razão pela qual Mbeki ainda não deu um bom berro a Mugabe do que todos os tratados de política e diplomacia juntos.
Todos estes dirigentes dos movimentos de libertação, transformados em estadistas, se conhecem muito bem uns aos outros, os seus lados positivos e os negativos.
Se um deles começa a contar as estórias dos outros o lavar de roupa suja não termina nunca mais.
E o problema é que, por causa de pecados da juventude dos líderes agora sofrem milhões de cidadãos dos seus países.
O que não é nada de novo na História do mundo.
Só que parece que agora está a acontecer aqui mesmo ao lado.
Um abraço para ti do
Machado da Graça
CORREIO DA MANHÃ - 26.06.2008

Marcha em apoio ao Povo do Zimbabwe

Organizada pelo Centro de Estudos Mocambicanos (CEMO) e a Liga dos Direitos Humanos (LDH) realiza-se amanhã uma manifestacão em apoio ao povo do Zimbabwe.

Finalmente, a postura que tanto esperei.

terça-feira, junho 24, 2008

Qual é o conteúdo da mensagem de Thabo Mbeki?

Retirado na sua íntegra do Jornal Notícias online

Eleições zimbabweanas : Mwanawasa pede adiamento

O PRESIDENTE em exercício da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) e Chefe do Estado zambiano, Levy Mwanawasa, pediu domingo, em Lusaka, o adiamento da segunda volta das eleições presidenciais prevista para 27 de Junho no Zimbabwe.

Maputo, Terça-Feira, 24 de Junho de 2008:: Notícias

Falando na qualidade de presidente da SADC, Mwanawasa declarou que a situação política actual não permitia a realização dum escrutínio livre e equitativo, considerando que a organização duma eleição neste contexto "embaraçaria a SADC e África".

"As eleições devem ser adiadas para criar as condições favoráveis à organização dum verdadeiro escrutínio, livre e equitativo e em conformidade com as leis zimbabweanas e os princípios da SADC", disse.

"Isso tornou-se tão necessário após o anúncio da retirada dum dos candidatos. Não se deve ter vergonha de adiar as eleições", acrescentou o Presidente Mwanawasa durante uma conferência de Imprensa. Adiantou que a situação política no Zimbabwe desrespeitou as directivas da SADC, sublinhando que a organização duma eleição livre e equitativa não seria julgada no dia do escrutínio.

"Exorto as partes em causa no Zimbabwe a tomar medidas para evitar a escalada da violência", acrescentou.

O Presidente zambiano explicou que tentou, nos últimos cinco dias, entrar em contacto com os chefes de Estado dos 14 países da SADC para a aprovação da sua proposta de adiamento das eleições no Zimbabwe, mas apenas conseguiu discutir com quatro deles.

Deplorou a ausência de diálogo com o Presidente sul-africano, Thabo Mbeki, medianeiro da SADC, que se encontrou em Harare com o seu homólogo zimbabweano, Robert Mugabe, na semana passada.

"Estou decepcionado enquanto presidente da SADC que se recusem a dar-me informações e apenas contei com relatórios feitos com base em informações recolhidas no Zimbabwe e fornecidas pela Imprensa", afirmou.

"Contactei por telefone o Presidente Mbeki (sábado), mas disseram-me que ele estava em reunião e prometeu ligar-me mais tarde, o que não foi feito. Liguei novamente e disseram-me que ele continua em reunião", contou o Presidente Mwanawasa.

Vítima da xenofobia ou parte da culpa da xenofobia

A notícia abaixo a qual reproduzo na sua íntegra é interessante.

Vítimas de Xenofobia com armas de fogo
DOIS moçambicanos que recentemente regressaram ao país em consequência da violência xenófoba na vizinha África do Sul encontram-se detidos no Comando da Policia (PRM) da cidade de Maputo, por posse ilegal de armas de fogo.

Um deles, de nome Isac Dinis, foi encontrado no Posto de Controlo da Polícia de Michafutene, em Maputo, na posse de duas armas do tipo AK-47 e uma pistola guardadas no interior de uma viatura com matrícula sul-africana.
Dinis seguia na viatura na companhia de outros quatro ocupantes, que desapareceram no local da detenção.
“Eu não conheço aquelas pessoas que vinham comigo. Eu só pedi boleia em Ressano Garcia e, quando chegámos ao Posto da Polícia, fugiram e me deixaram com o carro”, justificou-se Dinis.
Isac Dinis, que nem sequer possui passaporte, diz ter decidido pedir boleia e o seu destino era a cidade do Chókwé, província de Gaza, onde fica a sua residência. Disse que os outros ocupantes da viatura tinham como destino a cidade de Xai-Xai.
Abel Mondlane, porta-voz da PRM a nível da cidade de Maputo, disse ontem à Imprensa que as três armas de fogo são provenientes da África do Sul e a sua circulação em Moçambique é ilegal.

A outra vítima de xenofobia apanhada com uma arma de fogo ilegal é Ernesto Chapchi, residente no bairro de Magoanine, em Maputo, onde há dias se envolveu numa acesa
briga com um grupo de pessoas num bar local.

A Polícia conta que, depois de iniciada a discussão, o jovem, já embriagado, terá ido para casa buscar a arma para se “defender”.

Contrariamente a Isac Dinis, Ernesto Chapchi diz ter apanhado a sua pistola escondida algures na machamba da sua avó, residente no distrito da Moamba, por onde passou quando regressava da África do Sul, fugindo dos ataques xenófobos.

Chapchi conta ter levado a arma de fogo e a arrumado num saco contendo mandioca.
Investigações policiais realizadas no bairro Magoanine indicam que o jovem Chapchi e os dois comparsas com quem está detido são indivíduos perigosos.

Além das vítimas de xenofobia, no Comando da PRM na cidade de Maputo encontra-se também um grupo de duas pessoas encontradas na posse de duas armas de fogo quando tentavam tomar um táxi algures no bairro do Alto Maé.

O grupo era constituído por três pessoas, mas uma delas fugiu. Um dos indivíduos capturados foi alvejado gravemente nas pernas quando tentava fugir, tendo uma das suas pernas sido amputada.

O indivíduo ora com a perna amputada, identificado pelo nome de Alfredo Zequias ou simplesmente “Fedinho”, confessa que as armas “eram dele”.

“São armas de um falecido amigo que as deixou comigo. Eu guardo-as em casa, mas às vezes levo-as quando vou àfesta ou passear”, disse ele, acrescentando que o seu amigo foi baleado pela Polícia.

A Polícia acredita que uma das armas apanhadas com o “Fedinho” foi roubada a um oficial sénior da corporação.

Já na semana passada, a PRM recuperou outras cinco armas de fogo e 44 munições que estavam sendo usadas ilegalmente.

Retirado do Jornal Notícias online

A pergunta é se estes devem ser considerados vítimas da xenofobia ou são parte da culpa da xenofobia. Não será que estes nao se dedicavam a actividades criminosas na Africa do Sul? Da mesma maneira que analisamos quando cidadãos quenianos foram apanhados com armas em Moçambique deviamos analisar quando nossos compatriotas o fazem.

segunda-feira, junho 23, 2008

Reacções sobre a desistência de Morgan Tsvangirai à 2a volta

O mundo está reagindo quanto ao anúncio do líder do MDC da sua desistência à 2a volta das eleições presidenciais no Zimbabwe.

Segundo AFP o Presidente sul-africano quer negociações entre líderes do Zimbábwe. Isto já dá para recordarmos que Armando Guebuza e José Eduardo dos Santos havia vetado há meses.

BBC Brasil ou o Global online diz que África enfrenta um dilema com a desistência da oposição no Zimbabwe. Mais reacções internas leia aqui.

O Público de Portugal escreve que o governo pede à oposição que não se retire da corrida presidencial isto enquanto a a União Africana se manifesta gravemente inquieta

ZimOline reporta que Morgan Tsvangirai se refugiu na embaixada holandesa devido à acção policial contra a sede do MDC.


Fontes:


Global online

Global online

O Público

ZimOnline

domingo, junho 22, 2008

Partidos de antigos combatentes formam coligação

Segundo a TVM online, foi criada a 20 do corrente mês, uma coligação de quatro partidos, a qual é denominada por Aliança Democrática de Antigos Combatentes para o Desenvolvimento (ADACD). Eis a notícia da TVM na sua íntegra e sem correcção:


CRIADA ALIANÇA DEMOCRÁTRICA DE ANTIGOS COMBATENTES
2008/06/20 - 15:25

Uma coligação de quatro partidos faz nascer na cidade de Maputo a Aliança Democrática de Antigos Combatentes para o Desenvolvimento, ADACD.

Esta união de forças pretende concorrer nos próximos tr^ªes pleitos eleitorais, privilegiando as assembleias municipais, princiais e da República. Para as sidenciais a ADACD vai apoiar os candidatos do partido FRELIMO.

Fonte: TVM

sábado, junho 21, 2008

Erros que se deviam evitar numa reportagem

Para além da estima que tenho para com a personagem desta reportagem, a sua publicação neste blogue serve para dar atenção aos jornalistas em terem que ser muito cuidados aos factos sob risco de nunca os acreditarmos. Eis a notícia na íntegra:

ESCRITOR PREPARA LIVRO SOBRE PRÁTICAS FUNERÁRIAS

Depois de lançar “O que dizem certos animais”
Alberto Viegas, autor do livro “O que Dizem Certos Animais”, está à procura de patrocínio para a edição de nova obra, intitulada “Práticas Funerárias”, na qual abre espaço para uma reflexão sobre os procedimentos de certas comunidades à volta dos funerais.

Nessa obra, o escritor questiona o uso do luto, bem como aquilo que considera de “despesas exageradas” efectuadas pelas famílias enlutadas para animar o ambiente durante as cerimonias fúnebres. Será por sermos negros que a roupa de cor preta nos identifica com a tristeza?!. Questiona-se Viegas, anotando que quando alguém perde um ente querido, depois do enterro as pessoas ficam três dias a cantar, a comer, a beber, e a família enlutada tem de fazer mais despesas. Isso é correcto?

Alberto Viegas remete os académicos a uma profunda reflexão sobre estas práticas para que a população se aperceba das suas consequências negativas.

O nosso entrevistado disse ter escrito, igualmente, alguns episódios sobre a história da província de Nampula que, entretanto, não foram editados, por alegada falta de fundos.
Segundo a fonte, a história retrata várias cenas do distrito de Mossuril (onde esteve cerca de 25 anos como professor primário) e de Mogovolas.

Por exemplo, à minha chegada ao Mossuril, em 1950, conheci a mulher de Neutel de Abreu, que era conhecido na região, por Mahoho, e cuja estátua se encontra patente no Museu Militar. Na altura, também residiam ali outros oficiais militares que haviam participado na batalha de ocupação do território moçambicano.

Alberto Viegas realçou os apoios do Banco de Moçambique (BM) e da Universidade Lúrio (UNILÚRIO), que tornaram possível a publicação deste seu segundo livro, que contém, maioritariamente, histórias de animais.

A cerimónia do lançamento de “O que nos contam certos animais” teve lugar no passado dia 13 deste mês e foi testemunhada por um vasto auditório.
Alberto Viegas nasceu em Karau, distrito de Cuamba, província do Niassa a 10 de Junho de 1927. Em 1950 tirou o curso de professores indígenas em Nampula e começou a leccionar em Mossuril e Lunga.
De 1975 a 1984 leccionou no Centro de Formação de Professores Primários em Namapa, e em 1987, aos 60 anos de idade, completou o curso de História e Geografia no Instituto Médio.
Ao longo da sua carreira, Viegas desempenhou vários cargos, nomeadamente, o de secretário da OJM e o de delegado do então Instituto Nacional de Prevenção e Combate às Calamidades Naturais. Actualmente, exerce a função de assessor do governador da província de Nampula para assuntos comunitários.

WAMPHULA FAX - 20.06.2008 Retirado do Mocambique para todos


Nota do Reflectindo:

O projecto de Alberto Viegas "o Jovem Antigo", como ele se identifica por estar sempre a par dos jovens de todas as geracões (é prova a amizade entre ele e o filho Mário Viegas), é muito importante. O Jovem Antigo é uma daquelas pessoas com uma boa memória e que seria-nos muito útil se tivesse que escrever o que viveu pelo menos até aqui. Porém, não deixo de pensar que ele esteja a escrever apenas o que acha que lhe mantém a assessor do governador provincial, mesmo aos 80 anos de idade. Também não duvido que ele como Herculano Miguel em Nacala, possa assessorar a qualquer governo moçambicano, isso que eu pediria com humildade a todos políticos de todos partidos em Nampula.

Entretanto, há nesta reportagem erros muito graves. Deve haver partes de identificacão pessoal de Alberto Viegas que não conheço, mas sei perfeitamente que embora “jovem antigo”, Alberto Viegas nunca foi secretário da OJM (Organização Nacional da Juventude), ele foi sim, secretário provincial da Organizacão Nacional dos Professores (ONP).

Também, Alberto Viegas foi instrutor no Centro de Formacão de Professores Primários de Momola/Nampula e não de Namapa. Se necessário for, até posso fazer a distinção entre o centro de Momola e o de Nacarôa. Alguma vez existiu um centro de formação de professores em Namapa?

Depois, será que Alberto Viegas não concluiu algum nível na Universidade Pedágogica? Duvido porque sei que em 2001 ele esta a frequentar o curso de história na UP, em Nampula.

quarta-feira, junho 18, 2008

Uma autêntica provocação à nossa moral.

Situação no Zimbabwe: Chefe do Estado recebe enviado da ZANU-PF

UMA delegação da ZANU-FP, do presidente Robert Mugabe, foi recebida ontem em Maputo pelo Presidente Armando Guebuza, a quem informou sobre a actual situação no Zimbabwe, a uma semana da segunda volta das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 27.Maputo, Quarta-Feira, 18 de Junho de 2008:: Notícias Leia mais

Nota do Reflectindo: Aqui não há nenhuma palavra de Armando Guebuza, pelo menos como também o nosso presidente, de nós que estamos tristes pelo que o regime de Robert Mugabe está a praticar no Zimbabwe. O título fala de Chefe do Estado o que significa que Guebuza não recebeu Emerson Mnangagwa na Pereira do Lago como presidente da Frelimo, mas algures como Presidente da República. E ele está a sorrir como se ninguém estivesse a morrer no Zimbabwe ou a fugir de lá. Isto aqui é uma autêntica provocação à nossa moral.

Edson Macuácua e a tolerância política (2)

“Não perseguições políticas”

Há muita inconsistência nesta tentativa de resposta. A dado passo Edson Macuácua fala da não existência de presos políticos em Moçambique como se fossemos perguntar a Zanu-PF se há presos políticos no Zimbabwe. E Zanu-PF diria que sim? E se voltarmos para o período pós-independência, haverá alguém do partidão a afirmar que alguma vez houve preso político em Moçambique?

O discurso que Edson Macuácua fez, a 2 de Novembro de 2006, numa sessão da Assembleia da República, é a prova de recusa de alguma vez terem existido presos políticos no Mocambique pós-independente. E ao afirmar que "Disse que nunca houve perseguições políticas e que a oposição desenvolve a actividade política livremente", sem alguma tentativa de limitacão de tempo, é sinal de recusa de Edson Macuácua de que há compatriotas que sofrem por não serem portadores do cartão do partidão.

Contudo, se não há presos políticos, quem são (foram) aqueles cidadãos que foram massacrados por asfixia em Montepuez? Quem são ou foram aqueles cidadãos encarcerados em Mocímboa da Praia após tumultos provocados por homens da Frelimo que os tinham emboscado com machados e catanas? Se não há presos políticos nem perseguições, quem são aqueles cidadãos que são aprisionados em Chemba, na província de Sofala, por pura e simplesmente porem camisolas com símbolos de outros partidos que não sejam do partidão? Se não há presos políticos, porquê todo o suspeito de praticar irregularidade eleitoral, sendo de um partido diferente do Edson Macuácua, é preso e julgado, mesmo tendo sido provado, como é o caso do Albuquerque na Beira, desde que seja do batuque e maçaroca ninguém o toca?

terça-feira, junho 17, 2008

Em Nampula: População de Muecate recusa novo administrador

A POPULAÇÃO do distrito de Muecate, na província de Nampula, endereçou recentemente uma exposição ao governador provincial, Felismino Tocoli, na qual manifesta o seu desacordo quanto à decisão de nomeação de Adelino Fábrica, para o cargo de administrador daquela região do país.

“(...) pedimos ao senhor governador da província que se não existe um outro administrador por afectar neste distrito, favor de deixar que os actuais representantes que assumem a governação prossigam com a sua missão”, lê-se na exposição.

O grupo de indivíduos subscritores da missiva e que se autoproclamou de “voz do povo de Muecate”, refere que a afectação de Adelino Fábrica poderá afectar o desenvolvimento harmonioso daquele distrito, sem contudo avançar as razoes de tal receio.

O que se sabe publicamente e foi veiculado pela Imprensa, é que Adelino Fábrica, terá sido acusado pelas populações do distrito de Memba, região onde era administrador distrital, de mau relacionamento com as populações e seu elenco, bem como de má gestão dos sete milhões de meticais, fundo alocado pelo Governo central para iniciativas de combate à pobreza e desemprego.

O Governo provincial reunido recentemente em Nampula, negou que a transferencia de Adelino Fábrica de Memba para Muecate, tenha a ver com as acusações feitas pela população de Memba. Esclareceu que a medida foi tomada visando imprimir maior dinâmica no processo de governação.

Instado pelos jornalistas a reagir à exposição feita por um grupo de residentes de Muecate negando a nomeação do novo administrador distrital, o governador provincial Felismino Tocoli, minimizou a missiva, dizendo simplesmente que Adelino Fábrica, já tinha dado mostras de bom desempenho em Memba, daí que não via razão para não nomeá-lo para tal cargo.

Maputo, Segunda-Feira, 16 de Junho de 2008:: Notícias

Fonte: retirado integralmente do Jornal Notícias online
Nota do Reflectindo: este tema é ligado ao Administrador ameaça processar primeiro-secretário também publicado neste blogue. É também associado a questões de cidadania que muito têm me interessado em abordar ou reportar neste blogue.

segunda-feira, junho 16, 2008

Golpes de Estado em África

Por Noé Nhantumbo

Quando o ataque vem da esquerda... Quénia, Zimbabwe...

Beira (Canal de Moçambique) – Convenhamos que quando se impede em termos práticos que o veredicto popular expresso através das urnas não se realize estamos em presença da figura de golpe de Estado.
Em África desenvolveu-se de há uns tempos a esta parte a pratica efectiva de golpes nas suas variadas nuances.
Aceites quase sempre porque convenientes a alguém, os golpes que antes tinham uma característica eminentemente militar hoje mudaram de feição e incorporam elementos novos e um refinamento que causa ate admiração e inveja a muitos cientistas políticos.
A sua aceitação e na maioria dos casos fomentada pela chamada esquerda africana apoiada por interesses corporativos internacionais.
As chancelarias fecham em geral os olhos ou era isso que acontecia na maioria dos casos. Era como que dizer que o aceite pela irmandade socialista ou de esquerda africana órfã recente dos patrões de Moscovo devia ser aceite por todos.
Não deve continente que tenha tido mais golpes de Estado que África nas ultimas três décadas.
Tomar o poder pela forca das armas era sintomático em África.
Com o advento dos ventos democratas houve uma tentativa de refinamento e legislação que implicava o não reconhecimento de regimes saídos de golpes de Estado.
Na prática, quase que nunca isso aconteceu.
Os golpistas acabaram sendo aceites no seio da família africana. Até porque muitos dos legisladores haviam chegado pela mesma via ao poder.
O carácter novo que importa colocar em debate é a legitimidade de regimes que usando artifícios eleitorais chegaram ao poder efectivamente pela manipulação e fraude eleitoral. Apoiados na máquina governamental que dominam, temos visto regimes que se negam a abandonar o poder mesmo quando derrotados nos pleitos eleitorais.
Todos os arranjos aparentemente destinados a salvar a estabilidade política de países em que as eleições redundaram em violência pela não aceitação do veredicto popular, não são mais do um golpe de Estado.
Assiste-se na África dos dias democráticos, ao desenvolvimento de técnicas refinadas de manutenção do poder.
Os acontecimentos recentes no Quénia, o golpe esquecido da República do Congo, as acusações de fraude não aceites pelos órgãos eleitorais um pouco por toda a Africa, o regime de Kinshasa, especialmente na Africa Austral, a recente situação eleitoral zimbabweana não passam mais do que manifestações golpistas com outros nomes.
Toda a diplomacia silenciosa praticada pela maioria dos países da SADC em relação ao regime de Harare não é mais do que apoio tácito a um golpe de Estado efectivo que está sendo gerido de modo calculado. O povo já se pronunciou e não são meras diferenças estatísticas na contagem dos votos que estão em causa na maioria dos casos.
São organismos eleitorais concebidos, controlados e geridos pelos regimes no poder que não deixam que o direito a voto exercido pelos cidadãos se torne conhecido na integra e que a vontade popular sobressaia.
Porque as tácticas do passado já não são mais aceitáveis aos olhos da opinião pública, usam-se até os exércitos de governos aliados para se chegar ao poder e mantê-lo.
Toda a legislação africana e internacional não prevê a aceitação de regimes saídos de golpes. Mas o que será que é a situação no Zimbabwe senão um golpe efectivo de Estado. Quando os militares que se deveriam limitar a estar nas casernas e defender a Constituição e soberania nacional se imiscuem nas lides politicas e fazem pronunciamentos públicos contra a possibilidade de a oposição tomar o poder, quando os mesmos militares participam activamente na repressão aos cidadãos nacionais que supostamente tenham votado contra o regime no poder, só poderemos falar de golpe em execução.
Numa situação clara de violação dos mais elementares direitos humanos, políticos de concidadãos vemos governos de países vizinhos calados e aceitando que tal aconteça.
Já vimos antes exércitos de países vizinhos intervindo no Congo Brazzaville, na RDC, em Moçambique, em Angola. Em nome de uma suposta solidariedade, governos amigos foram mantidos ou colocados no poder.
Porque a estratégia do golpe nos antigos moldes se tornou demasiado grosseira e indigesta hoje, prefere-se contratar a custa do erário publico especialistas de Lisboa, Rio de Janeiro ou Londres para delinearem como de deve proceder para a manutenção do poder. Quando as alternativas oferecidas pelos consultores são vencidas recorre-se ao congelamento dos resultados, enquanto se cozinham resultados favoráveis pela via da informática, intimidação, eliminação dos opositores. Qualquer meio serve desde que o poder continue em determinadas mãos.
Já vimos casos como no Sudão, que após a aceitação de uma convivência pacífica entre beligerantes, já em gozo de paz, o antigo opositor desapareceu em desastre aeronáutico. Naquela região parece que a eliminado no ar dos opositores é o recurso preferido. No Zimbabwe prende-se em terra, a luz do dia, bate-se, tortura-se e se possível se elimina biologicamente.
Esta situação concreta e indesmentível não pode nem é propícia para que qualquer desenvolvimento económico aconteça.
Esta instabilidade e violação grosseira da vontade dos cidadãos constituem os factores que inviabilizam tanto a SADC como os seus objectivos.
A irmandade de esquerda da região não está interessada que a democracia seja o modelo político em vigor na região. Quem o prova é o que ela faz. Ainda raciocina como nos tempos da Linha da Frente. Compreendemos que os camaradas se revelam nos momentos de aflição. São estes factos reais que não permitem que alguns líderes da região se manifestem. Estão presos a favores prestados no passado e que continuam por saldar.
Mas sejamos honestos e práticos, a produção de regimes ilegais, reconhecidos a posteriori por conveniência de uma pretensa estabilidade e de interesses reais de determinados países não resolve os problemas da região. Agora já está claro que na SADC estão abertas brechas no entendimento entre alguns governos. O que eram os sonhos de integração está condenado a ir para o dreno. O que resultará é a continuação da fraqueza enquanto interlocutores a altura de apresentarem uma posicao forte no fórum internacional. Cada um continuará a puxar pela brasa para a sua sardinha como diz o ditado.
Estamos perante toda uma mascarada de democracia em que os partidos políticos normalmente residentes dos palácios presidenciais não estão interessados que as coisas mudem.
Enquanto que o resto do mundo, nomeadamente as potências doadoras, estão preocupadas em assuntos de ordem ecológica, energética, visto terem garantido através da Organização Mundial do Comércio, do Banco Mundial e FMI a manutenção do status económico-financeiro no mundo, os africanos estão perdendo precioso tempo digladiando-se por um poder efémero de consumo doméstico que não mais significa do que contas bancárias chorudas, mansões e viaturas de luxo. Isso sempre que não demasiado escandaloso se lhe é permitido. Quando já não dá declaram-se sanções ineficazes.
A perspectiva de empoderamento real, de dignificação dos seus cidadãos, do fim do sistema de pedintes e de caridade internacional como meio de subsistência não conta para os políticos medíocres que infelizmente temos como governantes.

Texto retirado na íntegra do Canal de Mocambique onde foi publicado em 2008-06-16 06:11:00

Nota do Reflectindo: Lembrem-se da série que estou ainda escrevendo aqui com o título: Quatro ou cinco homens, a mesma história e trato de golpes pós-eleicões.

Edson Macuácua e a tolerância política

Edson Macuácua, secretário de Mobilização e Propaganda da Frelimo refutando a preocupação dos bispos católicos em relação à partidarização (a que eu chamaria de frelimização) do Estado Moçambicano (aqui) diz:

"Nós respeitamos as opiniões manifestadas na carta pastoral pois elas próprias rebatem a tese da própria carta pastoral. A sua existência mostra efectivamente que há tolerância política. Caso não houvesse tolerância não haveria espaço para este teor de cartas. Os bispos estão a exercer um direito que decorre do clima legal político de tolerância, pois os diferentes actores políticos, sociais, cívicos e económicos têm espaço garantido para agirem livremente dentro dos parâmetros legais e participarem no desenvolvimento do país " (leia mais aqui do Jornal Notícias).

Assim sendo, um dia Edson Macuácua dirá que em Moçambique houve sempre tolerância politica! Será que havia tolerância quando os bispos católicos, alguns ainda em activo hoje, escreveram uma carta pastoral em 1984, se não estou em erro, exigindo diálogo, paz e reconciliação, e, dizendo ao temido Samora Machel que a guerra que semeava tantas mortes era entre irmãos e não como a Frelimo propalava?
Será que havia tolerância política aquando da reunião de manipulação política com as confissões religiosas na Beira, em 1982, quando o arcebispo de Nampula, Dom Manuel Vieira Pinto, levantou-se e expressou as preocupações dos religiosos em relação a intolerância do partido Frelimo, como sendo esta a responsável pela guerra civil? Leia (aqui), mas eu narro o que vivi e assisti. Será que para falarmos livremente teremos que esperar pela tolerância política que está longe de existir neste país?

É tolerância política o que é conhecido a nível nacional e mesmo fora do país como é o caso da exoneração dos postos de chefia de Eduardo Namburete, Ismael Mussá, Benjamim Pequenino, falecido Domingos Pilale e sua esposa? É tolerância política quando uma deputada da Frelimo em Nampula diz aos professores que quem é membro da Renamo não tem o direito de trabalhar na cidade?


PS: estou escrevendo uma série de perguntas e muitas delas têm como base o que eu vivi/o e assisti/o pessoalmente. Se alguém dirigisse esta preocupacão a Edson Macuácua eu seria-lhe grato. Se Macuácua tolera e dialoga com quem pensa diferente até pode me escrever pessoalmente, aliás, sei que pelo menos pessoas mais próximas do Macuácua, pelo menos duas, têm visitado este blog o que fico grato.

sexta-feira, junho 13, 2008

Xenofobia é resposta à exclusão social

-Defende Graça Machel
Por Emídio Muchine

A onda de intolerância e ódio contra os estrangeiros na África do Sul é uma clara resposta dos cidadãos mais pobres deste país para com a exclusão social a que estão votados devido ao fraco impacto das políticas governamentais, defende Graça Machel, Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade.

Falando durante a Conferência Internacional sobre a Xenofobia na África do Sul, realizada ao longo do dia de ontem, terça-feira, em Maputo, Graça Machel fez uma análise exaustiva e académica sobre este fenómeno que está a afectar sobremaneira cidadãos de vários países do continente que lá residiam ou trabalhavam. «Acordámos de um momento para o outro sujeitos à onda de ódio, intolerância e brutalidade que à primeira vista era injustificada, dada a aparente harmonia e relativa calma que sempre existiram nas zonas mais pobres», afirmou.

Para Graça Machel, a violência terá começado nas cidades onde os mais pobres atacam os também mais pobres que vivem em condições desumanas. «O Governo Sulafricano não sabe sequer o número de pessoas que afluem às cidades, provenientes das zonas rurais».
Estimou em cerca de três milhões o número de Zimbabweanos que entraram na RAS no período de um ano, acrescentando que devido à política de integração regional e abolição de vistos de entrada, que visa a livre circulação de pessoas e bens, o afluxo de moçambicanos na chamada terra do rande sofreu um grande incremento, razão por que a situação atingiu contornos dramáticos, difícil de controlar pelas autoridades locais, devido ao excessivo número de imigrantes. Para piorar a situação, cidadãos dos países da região dos grandes Lagos usam o território nacional como trânsito para a África do Sul. «Entram desordenadamente e sem serem registadas, tornando a sua absorção impossível. A subida do preço do pão nos subúrbios, onde a pobreza é dramática, faz com que estas pessoas que vivem em condições desumanas usem o seu ódio contra os estrangeiro, como forma de revolta contra a sua marginalização».
Crítica a regimes políticos
Graça Machel criticou o sistema de governação praticado pelos regimes políticos dos países afectados, que leva as pessoas a viverem em condições deploráveis, o que faz com que se revoltem. Deu exemplo de casos ocorridos no Ruanda, Quéniatambém em Moçambique, no dia 05 de Fevereiro.Afirmou que os cidadãos que regressaram aos seus países de origem poderão, num futuro muito breve, se não forem devidamente reintegrados no campo produtivo, rebelar-se contra o respectivo Governo, por desespero acentuado, citando o exemplo dos somalis que ameaçaram suicidar-se em massa nos campos de refugiados onde estão albergados.
A finalizar, a Presidente da FDC disse que teve a iniciativa de realizar esta reunião como forma de as diversas organizações e entidades nacionais e internacionais, particularmente da região, terem uma abordagem comum para lidar com este fenómeno, a fim de evitar o envenenamento das relações entre os países, que estão a ficar profundamente divididos. «Esta abordagem terá como vector comum a solidariedade entre os mais pobres, garantindo-lhes acesso á habitação condigna, comida e fontes de rendimento aceitáveis à condição humana».
Fonte: Matinal, edicão de 11 de Junho de 2008
A Conferência sobre as manifestações de xenofobia na RAS foi coorganizada pela FDC e pela Southern Africa Trust, uma organização independente regional, sediada na África do Sul

sábado, junho 07, 2008

ADMINISTRADOR AMEAÇA PROCESSAR PRIMEIRO SECRETÁRIO

Na sequência de denúncias populares em Memba
Adelino Fábrica acusa Paulo Lima de promover intrigas e calúnias. Adelino Fábrica, exadministrador do distrito de Memba, ameaça mover um processo judicial a Paulo Lima, 1º secretário do comité distrital da FRELIMO, por, alegadamente, ter sido o organizador do grupo que, no dia 21 de Abril passado, denunciou ao governador da província uma série de irregularidades que lhe foram atribuídas.
Na ocasião, o referido grupo acusou-o de má gestão dos fundos de Investimento de Iniciativa Local e dos impostos colectados localmente.
Fábrica, que foi recentemente transferido para o distrito de Muecate, considera tratar-se de uma calúnia sobre a sua pessoa e acusa Lima de ser o mentor da instabilidade social que, ainda, se vive em Memba.
Aquele governante disse que o referido grupo está a mobilizar a população local para não acatar as orientações do governo distrital, sobretudo em relação ao aumento de áreas de cultivo.
Referiu que o 1º secretário da FRELIMO havia exigido do governo do distrito, um subsidio semanal de 400 meticais e um tratamento especial, diferente do dos restantes quadros do distrito.
Instado a comentar, Paulo Lima refutou todas as alegações, mas reconheceu haver mau relacionamento entre ambos. O administrador queria era, também, mandar no partido. Evidentemente, nós nunca permitimos que tal acontecesse. Disse Lima.
Explicou que Adelino Fabrica tentou, sem qualquer consulta, indicar André Majuleia, ex-chefe do Posto Administrativo de Chipene, destituído pelo então governador, Filipe Paúnde, para o cargo de Secretário do Comité Distrital para Organização. Proposta que foi recusada pelos restantes membros do partido no distrito.
Quanto às alegadas mordomias exigidas por si, Lima afirmou que as suas reivindicações incidiam na disparidade das ajudas de custo que lhe eram atribuídas em missões de serviço.
Porquanto recebia apenas 350 meticais, um valor muito inferior ao dos restantes membros do partido, que beneficiavam de uma tabela diária de 750 meticais.
Negou ter sido o promotor das denúncias apresentadas ao governador da província, Felismino Tocoli na sua recente visita ao distrito, mas disse estar disponível para responder em juízo, conforme a pretensão do administrador Adelino Fábrica.
WAMPHULA FAX - 06.06.2008
NOTA:
Além das zangas de "compadres" já repararam nesta promiscuidade entre partido e governo? Será legal a atribuição de ajudas de custo a membros de um partido por um governo distrital? E a oposição que diz ou faz?
Fernando Gil
MACUA DE MOÇAMBIQUE
Nota do Reflectido:
Pela mesma importancia que me levou a trazer o artigo neste blogue, vou ter que comentar sobre as quarelas entre o ex-administrador e o 10secretário da Frelimo de Memba.

terça-feira, junho 03, 2008

Mwanawasa ameaça deixar liderança da SADC

O CHEFE de Estado zambiano, Levy Mwanawasa, que também desempenha as funções de presidente em exercício da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), ameaçou demitir-se do cargo da organização regional, perante a aparente recusa de outros líderes da comunidade de participarem numa cimeira extraordinária por ele convocada em Yokohama, Japão, à margem da IV Conferência Internacional sobre o Desenvolvimento de África, revela o jornal zimbabweano “The Herald”.

“Os líderes da SADC classificaram a decisão do Presidente Mwanawasa como sendo imprópria e desnecessária porque o caso do Zimbabwe está a ser tratado pelo Órgão de Política, Defesa e Segurança da SADC, tendo o presidente sul-africano como mediador”, reporta a notícia.

Segundo o “Herald”, os líderes da região são de opinião que tal decisão apenas iria beneficiar os interesses do Ocidente, numa clara alusão de que o estadista zambiano estaria a ser usado pelo Ocidente para remover o presidente zimbabweano do poder.

O Governo zimbabweano voltou a acusar, segundo o mesmo jornal, o presidente Mwanawasa de estar a servir os interesses do Ocidente para forçar uma mudança no governo de Harare.

Estas acusações representam o último sinal da deterioração nas relações diplomáticas entre Harare e Lusaka.

Desde Abril último que as relações diplomáticas entre o Zimbabwe e a Zâmbia têm estado a degradar-se a olhos vistos, uma situação que acabou sendo catalisada pela decisão de Mwanawasa de convocar uma cimeira extraordinária da SADC para discutir a crise que se instalou naquele país da África Austral na sequência das eleições gerais de 29 de Março.

A decisão de convocar a referida cimeira foi criticada pelo Governo zimbabweano, alegando que a mesma violava os princípios desta organização regional.

Aliás, o próprio presidente Robert Mugabe recusou-se a participar no evento, que teve lugar a 12 de Abril, em Lusaka, tendo sido representado por uma delegação ministerial.

Retirado na íntegra do Notícias

segunda-feira, junho 02, 2008

Reflectindo sobre a entrevista do Dr. Máximo Dias (2)

Fiscalização do processo eleitoral

Quanto à fiscalização do processo eleitoral, Máximo Dias afirma que das 11254 mesas de voto, nas eleições legislativas e presidenciais de 2004, a Renamo colheu apenas cerca de 4000 mesas, portanto, cerca de 36 %. Sabendo que se provou que a Frelimo fez fraudes eleitorais, a situação da fiscalização por parte dos partidos da oposição e em particular da Renamo é preocupante. Mas, há que sublinhar aqui que a Renamo e outros partidos da oposição não são culpados pelos actos de fraude eleitoral cometidos pelo partido no poder, acto esse que é um crime segundo a lei eleitoral.

Nos países verdadeiramente democráticos não é necessária uma fiscalização de partidos no acto eleitoral. Os agentes eleitorais são o garante da democracia porque são idóneos. Idóneos são também os analistas políticos, as instituições públicas e a sociedade civil, o contrário do nosso Mocambique onde um académico, mesmo com experiência democrática, se dedica a defender fraudes. O poder judicial deixa fraudulentos como Albuquerque a passear livremente e as ONGs são uma extensão do partido no poder. Note-se que os que agem assim hoje para com a Frelimo, agirão da mesma maneira para com a Renamo se ela estiver no poder, pelo que se pode dizer que um dia a Frelimo colherá o que está a semear hoje.

Será que a liderança da Renamo é totalmente responsável pela falta de fiscalização eleitoral? Ouso dizer que não, esperando, no entanto, alguma correcção. O problema pode não ser da liderança, mas de uma parte de moçambicanos, no geral, isto se nos lembrarmos que alguns dos que se voluntariam a fiscalizadores têm interesses pessoais do que em garantir a democracia.

Um fiscalizador eleitoral deve ter o princípio de que ali está para certificar se a vitória de um/uns e a derrota de outro/outros, é justa. Em Moçambique, para muitos fiscalizadores esse princípio não existe. Muitos se inscrevem a fiscalizadores eleitorais para pura e simplesmente ganharem algum tostão, como um emprego, e, isso agrava-se quando os partidos políticos e doadores são cúmplices. Um fiscalizador partidário devia ter espírito de militância, ser alguém que ama o seu partido, mas em muitos casos nisso há défice.

Máximo Dias nota essa défice de militância no seu próprio partido, dando o exemplo de quem para sair da Matola à uma reunião em Maputo quer transporte e garantia de lanche. Será que um membro ou simpatizante que age desta forma tem o espírito de militância? O exemplo dado se refere a cidades, mas é embaraçoso porque não é o mesmo nas zonas rurais, baseando-me no que vi in loco em 2006: no campo existe o espírito de militância, uma militância incondicional.

Conscientemente a contradizer, há também prova de que os partidos políticos, (nas eleicões de 1994) e as ONGs e a Comunidade Internacional têm parte de responsabilidade nisto. A AWEPA anotou isto no seu boletim número 21 -21 de Julho de 1998, página 12, afirmando que os partidos sao dirigidos por pessoal pago. A situação foi se desenvolvendo e hoje até o ser membro dum partido se condiciona ao lugar elegível de deputado da Assembleia da República, o que é grave.

Começo a entender que isto possa ser a razão de a liderança da Renamo pretender confiar nos seus antigos combatentes à fiscalização das urnas. Esses são militantes incondicionais. Aliás, em conversa com um deputado da Renamo na Assembleia municipal de Nampula apercebi-me duma preocupação sobre a prova de militância para se ser fiscalizador eleitoral. Sobre isto, a Frelimo, o partido no poder, pode estar em total crise porque muitos dos seus fiscalizadores, incluindo a polícia e a justiça pensam que é uma oportunidade para cometer fraudes a favor dela para se manterem na posição em que estão. Mas estes não são membros da Frelimo. Quando a Frelimo um dia perder o poder ver-se-á sem muitos membros nem simpatizantes.

A garantia de eleições sem fraude cabe a cada cidadão, mas em particular aos administradores do processo, tais como CNE, STAE, a polícia, o poder judicial entre outros.

segunda-feira, maio 26, 2008

Xenofobia na África do Sul, uma surpresa?

É surpresa o que se passa hoje na África do Sul? Para muitos assim parece, mas para mim o que me surpreende é o silêncio manifestado por aqueles que já deviam ter reagido a tempo de evitar uma crise vergonhosa como a que se vive actualmente. Podemos até imaginar quem se ri de nós.

Uma das coisas que me surpreende é que, enquanto que em África se ignoravam os sintomas da xenofobia na África do Sul, na Europa, mais concretamente, na Suécia, houve quem publicava isso como grande preocupação. Em Outubro passado, postei aqui um texto falando de um artigo dos Grupos África da Suécia (GAS). Introduzi-o em português, prometendo traduzi-lo, mas porque não senti algum interesse, optei por cancelar. Não notei a falta de interesse por não ter tido comentários no meu blog, algo pelo qual não me importo, podendo ficar aqui registado como uma das seis coisas que não me importam. Notei isso porque eu já tinha dado comentários falando da xenofobia na África do Sul, em particular contra os milhões de zimbabweanos refugiados naquele país no Imensis e dois outros blogues muito frequentados, sendo um deles de académico da praça. Sobre isto ninguém comentou senão apenas uma manifestação contra ou a favor de Mugabe. Mas isto é uma das consequências da política do Robert Mugabe.

Qualquer analista de problemas de refugiados na região podia até lembrar-se do que aconteceu aos moçambicanos no Malawi durante a guerra civil em Moçambique. A situação no Malawi não atingiu estes níveis por duas razões: a primeira porque os malawianos não podiam acusar os refugiados moçambicanos de lhes roubar o emprego: o Malawi não tem indústrias como a África do Sul! A única acusação era de que os moçambicanos ocupavam as terras férteis. Segundo, porque quando os malawianos ficaram saturados, o conflito armado estava a terminar e o ACNUR agiu com rapidez na repatriação dos nossos refugiados e paradoxalmente contra a vontade do governo moçambicano.

Na verdade o que acontece hoje na África do Sul precisa de uma análise profunda posto que a diplomacia silenciosa à crise zimbabweana é uma das responsáveis. Os governos da região nunca quiseram aceitar que a crise atingiria aos seus países e a esta proporção. Tenho dúvidas se os milhões de zimbabweanos na África do Sul têm estatuto de refugiados. E se não têm a que se deve? Como é que eles devem ser considerados? Ilegais, não é um bom termo? E sendo ilegais como se espera que eles sejam tratados? O mesmo podemos perguntar sobre os zimbabweanos em Moçambique que fugiram do regime ditatorial do Mugabe.
Os governantes da região querem fazer-se de heróis, mas eles são os grandes responsáveis por estes acontecimentos. Eles são os grandes xenófobos.

quinta-feira, maio 22, 2008

O passaporte de Barack Obama

Espinhos da Micaia

Por Fernando Lima

Transportando para os Estados Unidos o debate local sobre as nacionalidades, Barack Obama, o putativo candidato a inquilino da Casa Branca, estaria agora a enfrentar um problema bicudo. Esconderia ele no fundo do baú o passaporte queniano, embaraçado pela sua paternidade africana? Ou manteria orgulhosamente o legado materno que lhe dá a “nacionalidade originária americana”?

Atalhando pelo absurdo, se Obama quisesse concorrer a presidente em Moçambique estava tramado. Mas Obama não é moçambicano e o seu país, apesar de ser um jovem de 232 anos (ou exactamente por causa disso)não está para entrar num debate esquisofrénico.

Aqui para as nossas paragens, a nacionalidade, mais propriamente a nacionalidade da nossa simpática Primeira Ministra levou à Procuradoria de Maputo três jornalistas que, esgrimindo o emaranhado legal produzido depois de 1975, permite questionar o que à partida se afigura como outro absurdo.

Eu sugeria ao tal procurador Otávio, se de facto quer levar com zelo a sua missão até ao fim, que chame às exíguas instalações da Procuradoria todos os deputados da defunta Assembleia Popular até 1990, mais os membros da Assembleia da República que aprovou a Constituição de 2004.

De caminho poderia também arrolar os membros do Comité Central da Frelimo que no Tofo, em 1975, aprovaram as primeiras leis do Moçambique, Estado independente.

Durante largos anos vivemos a inconstitucionalidade da desigualdade das mulheres perante o casamento, quando a lei mátria lhes reconhecia a igualdade.

Perante as inúmeras aberrações que se foram registando, incluindo o facto de moçambicanas serem colocadas na situação de apátridas, uma vez que nem sempre o casamento garante o acolhimento automático de uma nova nacionalidade, o legislador emendou depois a mão. Tardia e parcialmente.

Acabou a perda da nacionalidade, mas ao contrário dos moçambicanos, os homens, as moçambicanas não podiam dar a nacionalidade aos seus maridos se estes assim o pretendessem. Eu estava lá no parlamento quando a sra. Graça Machel, um dos nossos “ícones à esquerda” e habitualmente identificada com as causas femininas, concedeu que “nas nossas casas” nós sabemos quem é o chefe. Na minha casa não sou e espero bem que as minhas filhas batam bem o pé no chão para mandarem para o lixo mais este “deixa andar”.

Nas mesma linha de inquirições, o procurador Otávio devia ouvir aquele presidente que, antes do artigo 33 da nova constituição que permite mais que um passaporte aos moçambicanos, mandou distribuir passaportes moçambicanos no consulado de Pretória. O nosso magistrado maior ficou chocado ao aperceber-se do absurdo dos seus compatriotas “bicharem” na embaixada para obterem visto para visitarem a sua própria terra. Porque na defesa do pão, na defesa das suas famílias, dos seus interesses, tinham passaportes sul-africanos.

Tudo o resto é mais recente e mais mediático. Um dos jornalistas moçambicanos mais ortodoxos questionava estas semanas o absurdo de a uma senhora negra nascida em Tete serem levantadas dúvidas à sua nacionalidade.

Mas há uns anos atrás, o nosso compatriota Artur Vilanculos tinha a sua nacionalidade questionada porque tinha um passaporte americano. Sobretudo porque simpatizava com a Renamo. Logo os parâmetros de aferição de nacionalidade funcionam pelo crivo partidário. Não perguntei ao nosso mais velho Domingos Arouca se ainda tem um passaporte português. Mas isso não o torna menos moçambicano nem lhe retira os galões de ser o respeitado nacionalista que mais anos passou nas prisões do colonialismo. Esgrime-se a nacionalidade da Dra. Diogo por causa de uma casa. Mas umas semanas antes, por causa de uma outra casa, o moçambicaníssimo Eusébio da Silva Ferreira (que também tem sangue angolano) já era português.

Mesmo aqui ao lado, por causa destes absurdos, Kenneth Kaunda, o “pai da nacionalidade zambiana” não pode contestar as eleições presidenciais porque de repente se tinha transformado em malawino. Ele que nasceu no tempo da confederação das Rodésias e Niassalândia. O meu amigo de algumas décadas, Trevor Ncube, o actual proprietário do jornal Mail & Guardian teve que contestar a sua nacionalidade no Tribunal Supremo de Harare. Ele não gosta de Mugabe e Mugabe não gosta dele. Como este é mais forte e manipula a lei decidiu que Ncube era zambiano.

Ironicamente, o discurso fundamentalista das nossas paragens é idêntico ao discurso da extrema-direita europeia e dos seus grupos mais retrógrados e xenófobos.

Moral da estória. Para além de considerarmos a possibilidade de um passaporte moçambicano para o Barack Obama, pelo bom desempenho na actual campanha eleitoral americana, temos de encarar os nossos próprios debates com mais abertura, frontalidade e despreconceito. Para enterrarmos alguns dos fantasmas das nossas cabeças.

O procurador Otávio poderá concluir, sem grande margem de erro, que há muito mais esqueletos no armário que os três repórteres que lhe mandaram meter na ordem.

SAVANA – 16.05.2008

Retirado na sua íntegra do Mocambique para todos

terça-feira, maio 20, 2008

Liberdade de expressão a quem pertence?

Há vezes que me apetece não analisar coisas que vejo como sendo estranhas para não provocar fadiga aos ilustres leitores do meu blog. Não gostaria que se entendesse que as minhas críticas têm a ver com as minhas simpatias porque critico mesmo a um amigo quando o acho errado.

Reflectindo sobre o que foi reportado (veja aqui)na sessão da Assembleia Municipal da Beira, sobre uma situação havida entre à bancada da Renamo e Arcanjo Malfo, o homem das câmaras da TVM, e aos posteriores pronunciamentos de Eliseu Bento, Francisco Muianga e Mateus Saize, da Frelimo, fico totalmente indignado ou confuso sobre o que é liberdade de expressão que estes últimos clamaram. Todos os intervenientes clamaram por liberdade de expressão achando que a atitude da bancada da Renamo foi um atentado à liberdade de expressão ou à liberdade de imprensa algo que até pode ser, porém, faço as seguintes perguntas:

a. Afinal quem não gozou do seu direito de expressão livre naquele momento? Teria sido Arcanjo Malfo da TVM ou José Cazonda, o presidente da Assembleia Municipal da Beira?
b. Será que a liberdade de expressão é pertença de quem trabalha na impressa? Isto é, ela é propriedade exclusiva dos trabalhadores da comunicação social?
c. Não tinha Cazonda o direito de ser ouvido e visto em directo pelos munícipes da Beira ao argumentar a votação contra a decisão do Ministério da Administração Pública? A justificação de Malfo de que não achou necessário que Cazonda fosse ouvido em directo já que tinha o entrevistado no intervalo é razoável?
d. Não há diferença entre cobertura televisiva de uma sessão e uma entrevista? É assim mesmo que o pessoal da TVM faz quando há sessões em Maputo, Matola ou Nampula?

Em abono da verdade, em Moçambique, não são os jornalistas e outros trabalhadores da comunicação social ligados ao poder que nunca disseram o que querem antes pelo contrário são estes que manipularam e manipulam a informação violando o direito que o público, isto é, de cada cidadão à informação. E sobre o direito à informação, o jornalista Bayano Valy satisfaz uma das minhas perguntas num artigo com os seguintes adizeres: "Como qualquer outro valor democrático, a liberdade de imprensa não concede apenas direito aos jornalistas, mas confere também ao público o direito de ser informado."

Neste pressuposto, posso dizer que o direito à informação tem sido sempre violado pela imprensa supostamente pública (a TVM, o Jornal Notícias e até pela AIM) que tende a manipular os factos, como é, por exemplo, ocupar o maior espaço para figuras e discursos falaciosos do partido no poder. A cada saída, do seu quintal, de um membro da Frelimo, é razão para ocupar o espaço nestes órgãos de informação e se um membro dum partido da oposição quiser ser visível tem que falar mal da oposição e, em particular, do maior partido de oposição. É o assim que vimos nos últimos anos com o Yá-Qub Sibindy. Será que, por exemplo, Afonso Dhlakama, Raul Domingos, Issufo Momade e outros políticos da oposição nunca saíram de casa desde que os vimos da última vez no écran da TVM e no Notícias? Será que o Yá-Qub Sibindy nunca disse ou fez mais nada desde que foi dado espaço no Notícias e TVM para falar mal da oposição?

Caros senhores, da TVM, do Notícias e da AIM, o público clama pelo direito à informação, à liberdade de expressão, à imprensa livre, em suma, aos factos. Sabemos que estamos em anos consecutivos de eleições autárquicas, legislativas e presidenciais, mas a vossa responsabilidade é pelos factos e o vosso patrão é o público. Tomem como lição o que aconteceu com o Herald no Zimbabwe ou mesmo convosco mesmo que perderam essa batalha. Trago, como exemplo, a manipulação do Gustavo Mavie aquando da cimeira de Lisboa.

segunda-feira, maio 19, 2008

Reflectindo sobre a entrevista com o Dr. Máximo Dias (1)

Algumas vezes não tenho concordado com certas afirmações de Máximo Dias ou com afirmações a ele atribuídas. Sempre que não concordei com ele, critiquei-o neste espaço e seria injusto se não escrevesse algo quando faz algumas afirmações que me obrigam a uma reflexão profunda.

O título desta entrevista pode ter sido a gosto de quem o entrevistou e afinal é sempre assim. Embora este título tenha perturbado a algumas pessoas, e a mim próprio, o conteúdo da entrevista é de extrema importância, porque bem reflectido, pode-se esboçar uma estratégia eleitoral sustentável.

Máximo Dias alerta à Renamo para que esta desenhe uma estratégia de vitória eleitoral embora isto, em entrevista, possa espantar a qualquer analista, já que ele é deputado pela bancada da Renamo-UE. Aqui continuo a fazer a mesma recomendação quanto à Manuel Pereira - que a Renamo crie espaço para debates dentro do partido e da coligação, alias nunca é tarde.

Nesta entrevista, pode-se dizer que Máximo Dias faz críticas duras à governação da Frelimo pela viciação, durante 32 anos consecutivos de governação, e por aquilo que chamou de “fome institucionalizada” no país que é por não haver uma política económica definida e uma política agrária, agrícola e agro-pecuária, o que já desgastou o partido no poder e criou descontentamento no seio do povo moçambicano. Porém, ele lamenta que a Renamo, sendo de momento o único partido na oposição em condições de conquistar o poder, não tenha mudado de estratégia eleitoral aproveitando a fraqueza da Frelimo para aceder ao poder.

É nesse aspecto onde gostaria que os renamistas corajosamente reflectissem quanto ao que é facto ou mito. Ora, Máximo Dias aponta os seguintes problemas dentro do nosso maior partido de oposição e o único que já está em condições de conquistar o poder:
- falta de fiscalização do processo eleitoral
- falta de união
- interesses pessoais
(Continua)