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quinta-feira, maio 11, 2017

UE: Sucesso de acordo de paz em Moçambique depende de processo de reconciliação

O representante da União Europeia (UE) em Moçambique considerou hoje que um acordo de paz para o país só será importante se passar da assinatura aos actos e com um processo de reconciliação nacional.
"Um acordo de paz não pode chegar. O mais importante depois é a sua implementação", referiu Sven von Burgsdorff em entrevista à Lusa, a propósito do Dia da Europa, que hoje se assinala.
Uma aplicação bem sucedida de um acordo de paz requer "uma forma de encarar o passado" e perguntar por que houve o conflito, "encontrar remédios para enfrentar as injustiças cometidas e evitar que isso possa voltar a acontecer", referiu.
O Presidente da República, Filipe Nyusi, e o líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), Afonso Dhlakama, estão a negociar um terceiro acordo de paz, à espera que seja o último de que o país venha a precisar.

sexta-feira, novembro 25, 2016

“Não é mudando a Constituição que iremos reconciliar os moçambicanos”, Rui Baltazar

“Não é papel da Constituição da República ‘normar’ sobre os mais diversificados aspectos da vida política, económica e social”. Foi com este argumento que Rui Baltazar, antigo presidente do Conselho Constitucional (CC) se dirigiu aos profissionais da Justiça que afluíram, ontem, ao Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano, para participar no terceiro Congresso da Ordem dos Advogados de Moçambique (OAM).
Num painel com o tema “Desafios da Revisão Constitucional”, o também antigo ministro da Justiça disse que a revisão da Constituição pode até ajudar a estabilizar o país, mas a base está na consciência dos moçambicanos. “Não se caia, pois, na ilusão fácil de que é mudando a Constituição que iremos normalizar e reconciliar a sociedade moçambicana”, explicou Baltazar.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Ex-arcebispo da Beira: Acordos de Roma ainda são “a luz para conflitos em Moçambique”

O arcebispo emérito da Beira Jaime Gonçalves, mediador do acordo que selou em 1992 o fim da guerra em Moçambique, defende que o documento ainda é a solução para os conflitos no país e deve ser revisitado pela Igreja.
"O documento do Acordo Geral de Paz continua a ser o mais actual e ainda é a luz para a solução dos conflitos em Moçambique", disse em entrevista à Lusa o mediador da Conferência Episcopal moçambicana e do Vaticano no entendimento alcançado a 04 de outubro de 1992 em Roma entre Governo e Renamo (Resistência Nacional Moçambicana).
Mais de duas décadas após o acordo histórico, que marcou o fim de 16 anos de guerra civil em Moçambique, o país vive sob ameaça de novo conflito entre os mesmos protagonistas e Jaime Gonçalves entende que a Igreja Católica não a pode ignorar.

domingo, abril 07, 2013

Caros senhores Armando Guebuza e Afonso Dhlakama

Por Jeremias Vunjane

Chamo-me Jeremias Filipe Vunjanhe, moçambicano, de 28 anos. Nascido em Dezembro de 1984, numa das fases mais dramática e violenta da guerra que vós fostes autores e actores principais. Sou natural de Hehua ou Ébga, uma anónima e minúscula comunidade da localidade de Hamamba, situada a sensivelmente 50 km da sede do Posto Administrativo de Muxungue, no Distrito de Chibabava em Sofala. Como sabéis Muxugue foi transfomado, porordens e agentes militares vossos, na principal frente de operações de guerra, nos dias 3 e 4 de abril que mataram 9 vidas huamanas inocentes, ferindo outras quinzenas e tendo ainda forçado milhares de meus conterranos, familiares, amigos e compatriotas, a bandonarem suas casas e fazer das matas suas novas residências.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Reconciliações

Por Machado da Graça
 
No passado dia 4 assistimos a cenas comovedoras nas comemoraçoes dos 20 anos de Paz em Moçambique.
Estou-me a lembrar, por exemplo, de uma porção de pessoas importantes, de mãos dadas, dizendo Olá Paz.
É verdade que todos os que ali estavam, de mãos dadas, pertenciam ao mesmo partido, enquanto os outros celebrantes da Paz e da Reconciliação o faziam em Quelimane, bem longe de Maputo.

terça-feira, abril 12, 2011

Tropas de rival derrotado juram lealdade a marfinense OuattaraTropas de rival derrotado juram lealdade a marfinense Ouattara

Por Mark John e Ange Aboa

ABIDJAN (Reuters) - O presidente da Costa do Marfim, Alassane Ouattara, ganhou o suporte dos chefes do Exército de seu rival derrotado, enquanto a União Europeia e o Banco Mundial prometeram apoio financeiro para ajudar a encerrar as prolongadas divisões no país.

segunda-feira, julho 12, 2010

Independência e reconciliação

TRIBUNA DO EDITOR

Por Fernando Gonçalves

Nas celebrações do 35ª aniversário da independência, no dia 25 de Junho, podemos todos ter estado envoltos sob o manto da bandeira nacional, mas certamente que a efeméride teve significados diferentes para diferentes pessoas.
A luta pela independência não foi apenas uma missão difícil devido à natureza da confrontação com o inimigo colonial português. Foi também complexa pela necessidade do movimento de libertação gerir as suas próprias contradições internas, as quais iam-se multiplicando cada vez que novos desafios se colocavam à frente.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

Há alguma contradição?

Espero que o caro leitor tenha tido acesso às duas entrevistas com o Presidente do MDM, Daviz Simango, uma no Magazine Independente e outra no O País. Se não as leu clique aqui e aqui.
Ora, no Magazine Independente, Daviz Simango afirmou que podia se reconciliar com o Presidente da Renamo, Afonso Dhlakama e vem como título: penso que há espaço para reconciliação e aconselhamento. O jornalista Lourenço Jossias fez três perguntas que pela resposta deixam claramente sobre o que Daviz Simango quis dizer sobre as suas relações com Afonso Dhlakama nomeadamente: 1) Como vão as suas relações com Afonso Dhlakama; 2) Sempre que ele se pronuncia sobre si parece estar muito magoado e 3) elas podem melhorar. Vocês se podem reconciliar?
Ora quais são as respostas destas perguntas?
Na minha opinião, as respostas em sim são reconciliadoras e Daviz Simango não foi longe do que havia respondido na entrevista conduzida pelo jornalista Milton Machael, consulte aqui, após o atentado contra ele em Nacala-Porto. Daviz Simango falou da história do mundo e da moçambicana em que depois de mágoas houve reconciliação e ele mesmo é parte dessa.
Já no STV/O País foram também três perguntas: 1) Voltaria à Renamo? Resposta: não? 2) Nem que Afonso Dhlakama e o partido Renamo lhe peçam desculpas? E ele respondeu: Não, não voltaria à Renamo. 3) Porquê?
Antes destas perguntas, já se haviam feito outras sobre o seu relacionamento [de Daviz Simango] com membros do regime ou seja da Frelimo, as quais respondeu num dom reconciliador e deu-me a entender que nem que não seja oficialmente, entre ele/s e os antigos camaradas dos seus pais há reconciliação. Acho ainda que há frase que ele pronunciou e que devia se disseminar na nossa sociedade que é: “...o importante, neste momento, é que temos de ter a consciência de que não devemos matar os outros por divergência políticas ou ideológicas, pois há uma necessidade de reconciliação.”

A minha pergunta é se realmente há contradição entre poder reconciliar-se e não voltar a um partido? Um artigo da Agência de Informação de Moçambique, AIM, publicado hoje no Jornal Notícias, aqui, alega que Daviz Simango se contradiz.

quarta-feira, junho 03, 2009

QUEM TEM MEDO DA PRAÇA ANDRÉ MATSANGAISSA?

Por Noé Nhantumbo

Será recusa à reconciliação?

Beira (Canal de Moçambique) - É preciso dizer de boca cheia que os que receiam o nome daquela praça na cidade da Beira são os mesmos que não conseguem ver heróis senão nas suas hostes.
O discurso de reconciliação nacional que não passa pelo respeito aos heróis dos outros, é algo que não tem sentido e reflecte uma teimosia que só prejudica Moçambique e os moçambicanos. O frequente sentido de Estado que alguns dizem possuir é factualmente desmentido pelo facto dessas mesmas pessoas não conseguirem entender e mostrar aos moçambicanos que a sua luta e preocupação são este país e seu povo. As horas que foram consumidas procurando deitar a baixo uma resolução da Assembleia Municipal da Beira sobre o nome de uma praça reflecte o que na essência são os partidos políticos que temos…
Querer reconciliar a família moçambicana jogando para a lata do lixo uma parte importante dos moçambicanos que contribuíram com o seu empenho, saber e até sangue é algo que não pode ser aplaudido nem aceite pois representa uma negação autêntica dos esforços tendentes a normalizar a vida do país e lançar os alicerces para o seu desenvolvimento multifacetado.
A teimosia de impor um modelo político unilateral e visando obliterar a contribuição de compatriotas na criação de condições para que o país conquistasse a sua independência vai continuar a ser a preocupação primordial de alguns dinossauros políticos nacionais que com estas atitudes ainda não perceberam o quanto começam hoje a cair no ridículo.
Há gente que não consegue conceber que os outros também são moçambicanos e que possuem igualmente direitos sobre o que o país pode oferecer aos seus.
O combate que se trava na Beira sobre o nome André Matsangaice deve ser visto como algo mais abrangente. Aceitar tal nome para uma praça faz ou provoca arrepios a alguns políticos porque no seu entender seria abrir um precedente. Se admitirem isso terão que algum dia admitir que Uria Simango, Joana Simeão sejam considerados heróis com direito a nome em ruas, avenidas e praças. É isso que alguns “camaradas” temem mais que a morte. Julgam que ceder na Beira seria abrir a “caixa da Pandora” ou a garrafa onde está aprisionado o espírito.
Esta situação que deveria ser tratada de maneira politicamente adulta através de um diálogo que envolvesse todos os moçambicanos, está sendo evitada a todo o custo porque existem pessoas no partido no poder (Frelimo) que não conseguem trazer elementos novos para tal diálogo.
Somos moçambicanos e não há que ter medo ou qualquer receio em abordar a questão dos heróis com a profundidade requerida.
Deixemos para trás as considerações dos tempos do monopartidarismo e conceitos estreitos. Mesmo na Rússia, o último Czar foi reabilitado.
Já não há lugar para algumas manifestações estalinistas como de algumas pessoas que continuam a supor-se especiais e únicas.
Julgo que também há algum jogo de bajulação e elogios infundados para algumas figuras da luta de libertação nacional promovidos por alguma comunicação social. Engorda o ego dessas pessoas quando afinal até a sua filosofia, marxismo-leninismo é contra tais cultos de personalidade…
Deixem André Matsangaice descansar em paz e reconheça-se que o seu papel foi instrumental para que agora Moçambique seja politicamente pluralista…
O que realmente interessa aos moçambicanos é uma reconciliação efectiva onde cada um respeite os outros.
Essa mania de que existem moçambicanos especiais e que é necessário a Assembleia da República ratificar a heroicidade segundo critérios determinados por uma Comissão Política do partido no poder, como alguém procurou fazer entender, não faz sentido pois o povo moçambicano sabe de facto quem são os seus heróis.
Não há departamento de informação e propaganda algum que possa criar ou produzir heróis duradouros na memória popular…

Fonte: Canal de Moçambique

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Para a resolução de conflitos em África

Um dos grandes problemas que temos em África é "envolver" alguém como mediador de fim de conflitos quando de antemão sabemos que esse pode constituir barreira ou pelo menos retardar o processo de diálogo, paz e reconciliação. Ora, em conflitos há duas ou mais partes beligerantes e essas têm a quem de facto preferem confiar como mediador. E nós em África não aproveitamos todos os recursos humanos que temos e muito menos a nossa própria experiência. A União Africana (UA) e as organizações regionais como a SADC, por exemplo, insistem em confiar apenas aos antigos presidentes que normalmente saem do clube onde muitos deles passaram a vida a defender os membros desse mesmo, tal como assistimos no caso do Zimbabwe.

O processo de diálogo para a paz em Moçambique não podia constituir uma boa experiência para a resolução dos conflitos noutros países africano? O nosso processo de negociação da paz entre o governo da Frelimo e a Renamo mudou de país em país e de personalidades em personalidades para mediá-lo até que se encontrou o país, a Itália e pessoas que fossem de confiança tanto para a Frelimo como para a Renamo.

Quanto ao conflito do Quénia já assistimos e vamos assistindo uma série de movimentação de muitas personalidades, mas a mim falta ainda saber se a rejeição das mãos destes não se trata de falta de confiança delas por parte dos ou de um dos envolvidos no conflito. Apercebendo-me agora que pretende-se ou já se envolve a Graça Machel, não tenho nada contra, antes pelo contrário, também Benjamin Nkapa, Kofi Annan entre outros, interrogo-me pela recusa de uso do nosso capital da paz em Moçambique, nomeadamente, Afonso Dhlakama, Raúl Domingos, entre outros. Aí temos os casos da República Democrática do Congo, Uganda, Sudão que se arrastam anos sobre anos. O nosso ex- PR, Joaquim Alberto Chissano, um dos mais envolvidos na resolução de conflitos no continente devia se lembrar do nosso próprio processo e usar o nosso capital da paz como catalisador das negociações. Isso salvaria algumas vidas.

sábado, outubro 06, 2007

Paz Sem Reconciliação

ZAMBEZE – 4 de Outubro de 2007

Artigo retirado integralmente daqui.

Por Domingos Kantelu *

Decorridos 15 anos desde a assinatura do Acordo Geral de Paz, tarda em singrar a reconciliação, uma das pedras angulares do acordado em Roma. O discurso oficial do governo e do partido no poder mantém-se na essência o mesmo. O recente debate suscitado pelas declarações do arrivista Máximo Dias sobre a fundação da Renamo serviu para confirmar isso mesmo.

A reconciliação dos moçambicanos desavindos já era defendida pela Renamo há mais de década antes do início do processo negocial conducente à paz, mesmo quando da parte do governo da Frelimo se insistia na solução militar de um conflito que era essencialmente político. A negação da existência de uma oposição em Moçambique, repetida amiúde pelo regime até ao começo das negociações de paz mostrava quanto difícil iria ser a inversão de um discurso a todos os títulos divorciado da realidade vivida no terreno pelas forças governamentais. Para o governo, os que se lhe opunham na vastidão do país eram somente moçambicanos instrumentalizados, e os “cabecilhas” eram a escória e o refugo do sistema colonial. Os moçambicanos que se sobressaíam, como André Matsangaice, eram rotulados de corruptos. Em suma, gente sem ideais políticos e um movimento sem um programa claramente definido, e ambos sem nenhuma base social de apoio. No fundo, esta a terminologia que sustenta o actual discurso do regime e a sua política de exclusão.

Mas para além dos estereótipos, ressalta a olhos vistos que a luta travada pela Renamo alicerçava-se em algo de concreto e palpável, e que os seus membros, desde a era Matsangaice à actual, batiam-se por uma causa que era justa. A própria natureza totalitária do regime político instaurado no pais após a independência era como que a prova incontornável da legitimidade da luta travada.

A oposição de André Matsangaice ao regime fundamentava-se em dois aspectos de destaque. Um, a política de terras do governo, e o outro, o confisco de bens privados no âmbito de uma pretensa política de nacionalizações. A terra era algo de sacrossanto para Matsangaice. De geração em geração os antepassados de Matsangaice vinham transmitindo aos seus filhos e netos a terra que lhes fora doada em tempos primórdios por participação em campanhas militares, mormente nas fileiras de Mutassa na sua disputa com Makone, e na expansão Nguni naquilo que é hoje a província de Manica. Ao declarar a terra como propriedade do Estado, retirando assim aos anteriores proprietários a autoridade que haviam historicamente conquistado sobre a mesma, teve inevitavelmente de provocar um conflito. O mesmo se pode dizer a respeito de uma outra medida introduzida pelo governo da Frelimo logo nos primeiros meses de independência que foi o confisco de escolas privadas. Entre os visados dessa política contava-se a família Matsangaice, proprietária de uma pequena escola em Manica.

As medidas impopulares do governo multiplicavam-se, chocando com sensibilidades várias: a negação da entidade étnica dos moçambicanos sob a capa de um combate cerrado ao que se designava de tribalismo, a rejeição e repressão de tradições seculares, e o espezinhar de uma cultura pejorativamente identificada como sequela da sociedade feudal selaram do divórcio entre Matsanagaice e o regime

Como que a completar a posição de Matsangaice, estavam os que rejeitavam a ditadura imposta a toda a Nação por um governo que se orgulhava de ter combatido o fascismo mas uma vez no poder submeteu todo o povo moçambicano a um novo sistema totalitário, decalque das “ricas experiências” colhidas um pouco por toda a parte do chamado campo socialista. A política radical da Frelimo que na prática se traduziu na violação sistemática dos mais elementares direitos dos cidadãos; na repressão das vozes discordantes e da intelectualidade não comprometida; na instauração de um verdadeiro estado policial em que os cidadãos estavam privados de justiça e protecção legal; na perseguição religiosa e combate sem tréguas movido contra crentes cristãos e muçulmanos, animistas e até agnósticos, em que pontificava a “solução final” decretada contra as Testemunhas de Jeová; e na transformação da massa camponesa em mão-de-obra barata, arrancada das suas zonas tradicionais, e cujos dirigentes históricos foram despidos da sua autoridade secular.

Estas foram as causas fundamentais da revolta que André Matsangaice corporizou sob a forma da Resistência Nacional Moçambicana. A convicção dos que lutavam nas fileiras do movimento conferiu à sua acção as características de uma autêntica luta de libertação nacional. E foi por isso que a direcção da Renamo decidiu honrar a memória do seu fundador decretando a data da sua morte a 17 de Outubro como o Dia da Segunda Luta de Libertação Nacional.

O rápido alastramento da luta a todas as províncias acabaria por forçar o governo a recuar nas políticas que afincadamente vinha prosseguindo. Roma foi uma consequência da luta da Renamo O que lá se discutiu e negociou vinha há muito definido no programa político da Renamo, tendo o regime da Frelimo gradualmente revisto a sua política para acomodar os pontos defendidos pelos que se lhe opunham, tentando simultaneamente retirar à Renamo a base política em que sempre assentou a sua luta. A transformação da República Popular de Moçambique num Estado de direito democrático era um dos pontos do programa da Renamo. O estabelecimento de uma democracia multipartidária era outro princípio definido nesse mesmo programa, como também o era a abolição da polícia política, Snasp, de instituições e de práticas contrárias às relações entre cidadãos civilizados e imbuídos de uma dedicação à causa da justiça, como era o caso do famigerado Tribunal Militar Revolucionário, dos centros, ditos de reeducação, das prisões sem justa causa, das detenções prolongadas sem julgamento, e da repressão brutal e desumana perpetrada pelas chamadas forças de defesa e segurança.

Mas tudo isto devia, de acordo com o mesmo programa da Renamo, ser alcançado num espírito de reconciliação. O regime da Frelimo nunca acreditou na reconciliação. Não “esquecer o passado” era a sua palavra de ordem. Por ter sido forçado a assinar um acordo de paz que incluía o princípio da reconciliação, o regime da Frelimo sente-se no direito de não estender uma mão reconciliatória, mesmo depois de o país ter iniciado a marcha em direcção ao multipartidarismo. O objectivo do regime é ter no parlamento 250 assentos preenchidos por membros de um único partido – o seu, o da auto-intitulada vanguarda, ontem revolucionária, hoje subserviente ao capital estrangeiro. Em cada pleito eleitoral vai paulatinamente alcançando esse grande objectivo num exercício que peca pela falta de transparência, pelas irregularidades constantes, em suma, pela fraude e vigarice descaradas, sendo o exemplo mais gritante o que pretendia alcançar na Beira onde o filho do reaccionário e do traidor “justamente” fuzilado não poderia nunca sentar-se no pelouro da cidade que o próprio regime considerava de “centro da reacção”.

Mas tudo tem limites. O país não pode mergulhar num novo conflito cujos ingredientes têm estado a ser lançados desde Roma. O povo moçambicano pagou um preço muito caro pela conquista da democracia. Não podemos perdê-la. Há que consolidá-la a todo o custo, e evitar o derramamento de mais sangue e travar a intenção do regime de voltar a submeter-nos ao Estado totalitário de 1975. Os moçambicanos continuam a acreditar que a reconciliação é possível.

* Militante da Renamo