domingo, março 25, 2007

O Poder da Frelimo

O Poder da Frelimo (1)

Por E. Macamo

A Frelimo é tão poderosa quanto Deus. Ou melhor: tal como a omnipotência e omnipresença de Deus, o poder da Frelimo é tão grande e permeia tanto a sociedade quanto maior for a nossa crença nele. O pior nisto é que esta crença conduz a duas situações curiosas. Por um lado, ela leva muitos de nós a agirem de acordo com o que pensamos ser a vontade dessa Frelimo poderosa; alguns podem chegar ao ponto de violar normas e regras por pensarem que assim estão a respeitar a vontade dessa Frelimo todo-poderosa. Por outro lado, e igualmente mau, as pessoas que se consideram como sendo a Frelimo – em oposição, digamos, aos que são da Frelimo – também começam a acreditar que são mesmo poderosas.
Alguns estudos recentes realizados por encomenda de organizações internacionais como a Swisspeace (da Suíça), pela DFID (Grã Bretanha) e pela USAID (EUA) levantaram o espectro de uma democracia falhada em Moçambique, vítima da omnipotência e omnipresença da Frelimo. Moçambique, conclui-se algo apressadamente nesses relatórios, está a regressar ao tempo do partido único. O aparelho do Estado está nas mãos ciumentas da Frelimo; o mundo de negócios está fortemente manietado pelo chamado partido da maçaroca e batuque; e mesmo a sociedade civil está num processo de transformação em braço prolongado do partido no poder. Moçambique, vaticina-se nesses estudos, está a caminhar a passo seguro rumo à guerra.
A oposição sucumbiu às investidas da Frelimo, tendo sido vergada à vontade de ferro deste poderoso partido com sede na Pereira de Lagos. Os erros que a liderança da Renamo comete, as cisões e a sua atrapalhação geral são vistas como sendo o resultado de maquinações orquestradas pela Frelimo. Este estado de coisas constitui um mau agoiro para a saúde da democracia e da paz no País; os descontentes, diz-se com uma ponta de esperança, vão se erguer, pegar em armas e comprometer para sempre a luta contra a pobreza absoluta.
A situação objectiva do País não encoraja, na verdade, nenhum outro tipo de leitura. De facto, desde que Guebuza tomou as rédeas do partido e, depois, do Estado, a Frelimo tem sido mais agressiva na afirmação da sua identidade, na confrontação com a oposição e na definição do seu papel no Estado. Ao mesmo tempo, pelo menos a julgar pela letra e espírito das teses ao Nono Congresso bem como pela forma como esse evento decorreu, a Frelimo dá a impressão de ter redescoberto um dos seus mitos fundadores, nomeadamente a crença na ideia de que ela é o legítimo e único representante do povo moçambicano e que o que é bom para ela é bom para todo o povo moçambicano. Os sinais, de facto, não são muito bons e as fanfarras que estudos apressados vão tocando oferecem-nos uma bela oportunidade de analisarmos o que se está a passar ao nosso redor.
A independência que nos foi servida de bandeja por homens e mulheres de espírito intrépido reunidos em torno da Frelimo constitui um bem muito valioso. É responsabilidade de todo o moçambicano, mesmo daqueles que não simpatizam com a Frelimo, honrar os sacrifícios consentidos pelos seus membros pela liberdade de que hoje desfrutamos. As fraquezas humanas que uma e outra vez alguns veteranos dessa epopeia revelam não retiram o valor ao que eles fizeram, nem devem servir para lhes negar o lugar que merecem no nosso panteão histórico. Os excessos do período imediatamente a seguir à independência também não são razão suficiente para questionar o papel preponderante que a Frelimo desempenhou no nosso devir histórico. Não obstante, honrar a Frelimo e valorizar a liberdade significa também prestar atenção ao que pode colocar em perigo esses ganhos. Significa, de forma mais profunda ainda, aprender da história e dar valor à segunda liberdade que os erros e excessos do pós-independência tornaram necessária por via da instrumentalização de moçambicanos em torno da Renamo.
O último congresso deste partido, que veio na esteira de inquietações emitidas pelas agências acima citadas, tornou claro que a opinião pública moçambicana precisa de chegar a um consenso sobre o que a Frelimo é e em que consiste o seu poder. Tenho a impressão de que mais do que a opinião pública nacional, muitos membros da Frelimo precisam deste consenso. Na verdade, a simples suposição de que todos sabemos do que estamos a falar quando evocamos a Frelimo ou o seu poder tem constituído, em minha opinião, uma das razões para os receios dos que vêem o perigo da monopartidarização e, sobretudo, tem sido a fonte a partir da qual a confusão entre partido e Estado tende a não ser vista como um problema grave da evolução política recente do País. Nos artigos que se seguem vou debruçar-me sobre o “poder da Frelimo” tentando partilhar com os leitores outras formas de ler a nossa situação política sem o recurso às teorias de conspiração que são o apanágio das nossas abordagens.
Vou também abordar aspectos relacionados com o próprio partido, nomeadamente a sua filosofia, o papel dos académicos, dos técnicos e, de uma forma geral, a impressão que alguns dos seus estrategas dão do que pensam sobre a democracia, lugar da oposição e sobre o papel do seu próprio partido no contexto geral das coisas da vida. Estou a tentar fazer um exercício de reflexão crítica em resposta a um instinto animal muito mais forte do que a recomendação da modéstia intelectual de falar pouco. A esperança continua a ser de falar muito até acertar.











O Poder da Frelimo: De quem beneficia (2)
Por E. Macamo
O principal problema na abordagem da nossa situação política é saber como fazer a análise. A qualidade do debate na e sobre a nossa esfera pública tem revelado continuamente que, salvo raras excepções, a preferência analítica é por conclusões alicerçadas na procura de quem beneficia de uma situação. Invariavelmente, analisamos os nossos problemas partindo do pressuposto de que quem beneficia do resultado está por detrás de tudo quanto nos levou até lá. É uma versão da teoria de conspiração que encontra sustento metafísico nas nossas crenças supersticiosas. Em Gaza diz-se que “la kunga fiwa kuni noyi” (onde há falecimentos, há um feiticeiro). O verdadeiro alcance destas crenças – em conspiração e na superstição – é a aversão generalizada ao que não tem explicação. Temos que explicar tudo – o que até não é mau – mesmo se para o efeito tiramos conclusões erradas – o que já é mau.
O quadro geral analítico que privilegiamos no nosso País funda-se na convicção de que Moçambique é coisa da Frelimo. Já escrevi em tempos que expressões como “a Frelimo não brinca”, “a Frelimo é macaco-velho”, “a Frelimo não quer isso” documentam esta convicção. Criou-se, no nosso imaginário, uma ideia impossível e fantástica da Frelimo que faz de tudo quanto acontece no País uma espécie de apoteose da sua vontade. É uma ideia que, curiosamente, explica o que é mau, mas não consegue dizer porque um partido tão coeso, forte, firme e visionário como a Frelimo o é no nosso imaginário, não consegue acabar imediatamente com o espírito do deixa-andar, pobreza absoluta, conflitos internos, crime e tentativas de fuga de Anibalzinho.
Na verdade, a explicação é simples na perspectiva da teoria da conspiração. As coisas que a Frelimo não “consegue” resolver são aquelas cuja existência é do seu interesse. Assim, o espírito do deixa-andar continua para Guebuza poder continuar a criticar Chissano; a pobreza absoluta continua para a Frelimo poder se apresentar como único partido com soluções; os conflitos internos continuam para a Frelimo poder mostrar que é mais democrática do que a Renamo; o crime reina em Maputo para a Frelimo distrair as atenções do público da corrupção ao nível mais alto; finalmente, Anibalzinho é encorajado a fazer tentativas de fuga para a Frelimo poder mostrar que é séria na sua intenção de o manter na prisão. Isto, conforme disse mais acima, é superstição.
O que este tipo de análises revela é uma falta de interesse no que realmente conta para se descrever e analisar fenómenos sociais. O que conta em minha opinião é a própria realidade social, as pessoas que agem dentro dela e os efeitos do que elas fazem. Os estudos aludidos mais acima bem como a opinião generalizada no País revelam, no fundo, uma incompreensão assustadora da realidade social moçambicana, dos seus actores e dos efeitos da sua acção. Sem essa compreensão é difícil encontrar explicações que não se alimentem das teorias de conspiração. Mas pior do que isso, e espero não ser demasiado denso na minha explanação, a prioridade que damos à conspiração é que é responsável pelo poder da Frelimo. Dito de outro modo, as nossas explicações são profecias auto-poéticas, isto é vaticínios que por força da nossa própria crença se tornam verdade. De tanto acreditarmos no poder da Frelimo atribuímos a ela tudo quanto acontece no País e, por via disso, transformamos as nossas próprias crenças na prova da realidade. Os nossos receios, digamos, são a prova dos nove do que não entendemos. Mas há mais. As nossas profecias não só são auto-poéticas como também nos condenam à paralisia. De tanta omnipotência para que vale a resistência? Muitos resignam-se. Os estrangeiros que nos vêm ajudar agitam-nos com outras profecias, nomeadamente a profecia de que a única saída é a guerra. Espero estar a conseguir transmitir quão perigosos são os hábitos de pensar mal. O líder da Renamo tem se desdobrado perigosamente com ameaças de um retorno à guerra caso a “Frelimo” continue a fazer as suas “brincadeiras”.
Não me parece útil analisar a nossa situação política a partir do pressuposto segundo o qual o que anda mal seria no interesse da Frelimo. Por acaso, até, existe um livro dos anos noventa escrito por Patrick Chabal e Jean-Pascal Daloz com o título eloquente “Africa works – disorder as instrument” (A África funciona – A desordem como instrumento), que dá respeitabilidade académica a esta forma de pensar. Os autores defendem, na verdade, a tese de que a desordem característica dos sistemas políticos africanos é funcional aos interesses dos que a produzem. A desordem, por assim dizer, é propositada.
Ora, esta é uma abordagem problemática porque reduz a complexidade dos fenómenos sociais africanos a um conluio que só tem existência nos quadros de referência teórica que se usam para apreender o continente. Precisamos de maneiras de perceber que circunstâncias, interesses, acções e processos sociais se aliam para produzirem situações que tornam a desordem ou mesmo o conluio possíveis. A mera suposição de que a Comissão Política da Frelimo se sente para discutir como subverter a justiça não é suficiente para fazer isso. Precisamos de maior sofisticação, maior distância analítica e, naturalmente, de coragem para resistirmos ao canto sedutor da explicação supersticiosa.


O Poder da Frelimo – Um Equívoco Colectivo (3)
Por E. Macamo
Vamos ver se conseguimos pensar menos mal partindo do pressuposto de que a Frelimo não existe. Isto é para tirar o medo. A Frelimo não existe, prontos, e se não existe, então não pode haver poder da Frelimo. Guebuza, Chissano, Marcelino dos Santos, Manuel Tomé, Alberto Chipande e tantos outros não existem. É importante partirmos deste pressuposto para podermos avançar na análise. Então, nem a Frelimo, nem estas pessoas existem, o que existe é Moçambique e nós, claro. Estou a imaginar Moçambique como o nosso quotidiano e as coisas que temos que fazer para não acordarmos mortos – isto é xangane – no dia seguinte. Temos que ir trabalhar – honesta ou não, pouco importa; temos que tratar formalidades; temos que comer. Estas três coisas bastam.
Para irmos trabalhar precisamos de emprego – ou, no caso dos ladrões, de ocasião. Se não temos emprego perguntamos porquê; se a polícia dorme, no caso dos desonestos, damos graças a Deus. Para tratarmos formalidades precisamos de conhecer as regras e normas; se não as conhecemos procuramos informarmo-nos. Para comermos precisamos de comida na mesa; se não temos comida na mesa procuramos saber porquê. Em tudo quanto fazemos no nosso dia a dia partimos da normalidade. Se as coisas andam normalmente, não nos preocupamos. Damos o mundo por adquirido. Só quando as coisas caiem fora do normal é que ficamos inseguros e começamos a procurar por uma explicação. A violência que cometemos na nossa esfera pública é de reduzir a complexidade da nossa vida a explicações que não nos ajudam em nada a resolver os problemas imediatos que temos. Com efeito, a nossa tendência natural é de responder às perguntas sobre o problemático no nosso quotidiano com o mais fácil e menos útil: a Frelimo. Não temos emprego por causa da Frelimo; não somos atendidos por causa da Frelimo; não comemos por causa da Frelimo.
O mundo é complicado. Não temos emprego porque a economia não anda, porque não temos formação adequada, porque há candidatos melhor formados, porque as instituições de direito funcionam mal, porque os funcionários públicos são nepotistas, porque somos preguiçosos, porque no último emprego que tivemos desviámos fundos públicos, etc. Cada uma destas razões encerra várias outras. Por exemplo, não temos emprego porque a nossa formação não é adequada porque o curso pós-laboral que fizemos numa universidade da praça foi mal-concebido, os professores estavam mal preparados, perdemos muitas aulas por causa de tolerâncias de ponto espontâneas ou porque confiámos no facto de termos costas quentes para passarmos de classe. Estou a tentar transmitir a riqueza da realidade social ao mesmo tempo que alerto para os perigos da simplificação. É verdade que é mais fácil responder a todas estas perguntas com recurso à Frelimo. E isso é, para mim, recusa de pensar.
Está bem. A Frelimo na verdade existe. A sua existência é necessária. Precisamos de um fundo de projecção dos nossos receios, incompreensões e insuficiências. A nossa necessidade é uma espécie de patologia. Precisamos da Frelimo para explicarmos as coisas da vida com recurso ao destino. É como o Deus dos crentes hostis à razão. Tivémos acidente porque Deus quiz; escapámos graças à Sua vontade. Nós próprios não temos nenhum protagonismo, somos apenas marionetas. É assim que funcionários mal formados ou que fazem mal o seu trabalho procuram compensar isso com uma maior aproximação à “Frelimo”; chefes que não entendem o que estão a fazer – e isto inclui mesmo os formados ao nível universitário – compensam as suas lacunas com recurso ao argumento de que os seus erros são no interesse da “Frelimo”; profissionais que não sabem como proceder num contexto institucional pouco claro ao invés de clarificar as regras burocráticas reflectem mais no que é do interesse da “Frelimo” e agem de acordo com as conclusões que eles tiram desse exercício; pessoas que doutro modo não teriam lugar na academia, no ministério, na empresa e por aí fora cultivam as suas credenciais políticas para caírem nas boas graças da “Frelimo”; juízes, advogados e polícias com pouco brio profissional paralisam o sistema jurídico e judiciário com a falsa suposição segundo a qual a resolução de um caso iria prejudicar a “Frelimo”.
A “Frelimo” é um grande equívoco colectivo. Serve para dissimular a mediocridade, a falta de brio profissional, a ausência de coragem cívica e intelectual e contribui grandemente para paralisar o País. Durante o simpósio sobre a vida e obra de Samora Machel ouvi pessoas que trabalharam com ele a falar de como ele podia decidir espontaneamente que uma lei deixasse de existir; a sala toda ria-se nostalgicamente e nenhum de nós tinha a coragem de dizer que foram juristas com falta de brio profissional e integridade intelectual que deixaram coisas dessa natureza se passar; ninguém se sentiu incomodado com essas manifestações de desprezo pela legalidade. Como havíamos de nos sentir? A “Frelimo” queria assim. Um veterano da Frelimo entendeu mal a minha comunicação durante o mesmo simpósio, o que é natural, e discordou, o que é também natural. Uma participante esclareceu-lhe o equívoco e a coisa passou. Contudo, muito tempo depois fiquei com calafrios só de pensar que no glorioso passado que estivemos a pintar naquele simpósio, o mal-entendido teria sido uma razão forte para eu ser punido, no interesse, é claro, da “Frelimo”. Teria sido punido pela minha “indisciplina”.
A falta de clareza sobre o que a Frelimo é constitui uma das razões principais por detrás do tipo de desmandos que caracterizam a acção política no País. Não é conspiração. É um equívoco colectivo.



O Poder da Frelimo: Libertar a Frelimo (4)
Por E. Macamo
Em minha opinião, a Frelimo está duplamente presa. Uma abordagem analítica dos nossos problemas políticos tem que partir deste pressuposto. No fundo, não é a Frelimo que tem o País nas mãos, mas sim o contrário. A análise dos nossos problemas só vai poder ser útil se tivermos a coragem de libertar a Frelimo de si própria e de todos nós. A Frelimo prisioneira de si própria é aquela que confunde a sua sorte com o destino do País. Essa Frelimo, na verdade pessoas de carne e osso, não vêem mal nenhum em usar o poder do Estado para cimentar o seu ascendente sobre a sociedade. Essa é a Frelimo dos medíocres, incompetentes e oportunistas. Essa Frelimo, na verdade essas pessoas, adoram a intransparência e a confusão institucional porque só assim conseguem dissimular as suas próprias insuficiências. Essa é a Frelimo dos que usam fundos do Estado para fazer trabalho do partido; dos que atribuem concursos de empreitada às empresas que mais contribuem para os cofres do partido; dos funcionários públicos que afixam anúncios descarados a informar sobre a sua ausência do local de trabalho em serviço do partido. Dos que têm medo de dizer o que pensam com receio de estarem a criticar a “Frelimo”.
Trata-se de uma “Frelimo” que documenta o País que somos. Somos um País com características muito específicas, a principal das quais é a nossa dependência do auxílio externo. A lógica política, mas também a lógica individual consistem, neste tipo de contexto, na instrumentalização desse auxílio. A classe política faz tudo para estar em conformidade com as exigências desse auxílio, muitas vezes não por convicção política, mas por conveniência pessoal. Nós os outros estamos à espreita de oportunidades, sejam elas consultorias, projectos ou mesmo empregos bem pagos. Para esse efeito, estamos preparados para dizer seja o que for que seja do agrado dos que nos ajudam. Convicções não contam muito. E se contam, ajustamos as nossas. Somos também um País em que o controlo do Estado determina o acesso a todo o tipo de recursos. Assim, muitos de nós alinhamos o nosso posicionamento pessoal de acordo com os que detêm o poder do Estado. Há lugares em Concelhos de Administração por distribuir, há direcções em ministérios, há ministérios, há projectos, etc. Neste ambiente dominado pela preocupação do “ter” – material – e no qual o “ser” – convicções – desempenha apenas um papel secundário – e é visto com hostilidade por muitos – não admira que haja muitos oportunistas que investem na ideia de uma Frelimo forte apenas com o intuito de tirar benefício individual.
O tipo de Frelimo em que essas pessoas investem precisa de se libertar de si própria porque a longo prazo os ganhos obtidos agora não vão perdurar. Serão ganhos píricos, isto é serão feitos à custa da destruição do próprio partido e do País. E para não dar a impressão de que estou a desfiar uma teoria de conspiração, apresso-me a dizer que a Frelimo prisioneira de si própria é uma Frelimo que é palco de conflitos internos, forças centrífugas e visões contrárias. É uma Frelimo que por receio do debate interno de ideias faz vista grossa às irregularidades e considera conveniente o que não prejudica o partido, mesmo se prejudica o País. Essa é, com efeito, a Frelimo generalizada, a Frelimo que está em cada um de nós. Quantos de nós preferimos a regra e norma burocrática ao espontâneo, familiar e partidário? Quantos de nós estamos preparados e dispostos a deixar passar para a frente o que é mais competente, tem maior brio profissional e se preocupa com a sorte dos mais fracos na sociedade? Uma ilustração simples disto é um sítio qualquer de atendimento público. Toda a gente que lá chega, mas toda sem excepção, passa imediatamente para a frente ignorando todos os outros.
Existe, contudo, também uma Frelimo prisioneira de todos nós. Essa é a Frelimo normal que não pode agir no seu próprio interesse. É uma Frelimo paralisada pelas nossas exigências. A preocupação do Presidente Guebuza em reforçar a Frelimo é legítima. Governar significa gerir o País em nome de ideais representativos do projecto que determinados grupos dentro da sociedade têm em relação ao País. O dilema enfrentado por Guebuza, contudo, consiste na expectativa irrealística de muitos observadores nacionais e estrangeiros de que ele faça isso sem prejudicar a oposição. Na verdade, o perigo que a nossa democracia enfrenta não vem do reforço da Frelimo – que me parece necessário e oportuno – mas sim do facto de que o reforço da Frelimo põe a descoberto um dos grandes equívocos dos últimos anos, nomeadamente a ilusão de que a Renamo alguma vez representou um projecto político coerente e claro.
Tudo quanto pode servir de referência para avaliar a génese da Renamo indica com alguma segurança que ela foi coisa de bandidos. Opositores sensatos da Frelimo como Domingos Arouca ou Máximo Dias trataram de se distanciar dela assim que chegaram à mesma conclusão. As dificuldades que a Renamo tem em corresponder aos anseios dos muitos moçambicanos que decidiram depositar a sua confiança nela revelam justamente as linhas pelas quais este equívoco se coze. Portanto, manietar o reforço da Frelimo ao destino deste equívoco parece-me igual a hipotecar o destino do País à sorte de gente que não sabe de onde vem, nem para onde quer ir. Libertar a Frelimo de si própria, contudo, significa saudar o esforço do seu reforço para que se torne num verdadeiro partido, isto é numa entre várias forças políticas, comprometido com uma separação clara entre o partido e o Estado.

O Poder da Frelimo – Bons males (5)
Por E. Macamo
Ouvi Teodato Hunguana, membro do Conselho Constitucional, há algumas semanas a dizer que o País precisa de uma terceira força. Esta observação, vinda de uma pessoa que faz parte dos altos círculos da Frelimo, devia dar de pensar aos que privilegiam teorias de conspiração. Mas mais do que isso, a ideia documenta o desmoronamento da ilusão de uma oposição política da Renamo no País. As negociações e o Acordo de Roma é que fizeram a Renamo, dando-nos a impressão de se tratar de uma oposição política coerente. Os “trust funds” bem como a facilidade de ingressar em movimentos internacionais com rótulo político, a saber “democracia cristã”, conseguiram durante muito tempo camuflar essa impressão. O que os fundos externos e do Estado lograram fazer nos anos que se seguiram ao Acordo de Paz não foi transformar a Renamo num partido político, mas sim numa rede clientelista cuja lógica de actuação não é necessariamente a solução dos problemas do País, mas sim a sua própria sobrevivência parasita. Contrariamente ao que eu próprio pensei durante muito tempo, o enfraquecimento da Renamo não é algo necessariamente mau para a nossa democracia. Pode ser até uma benção.
Esse enfraquecimento não é, portanto, mau, mas a fraqueza da oposição, em geral, é. Há diferença. E é esta diferença que alguns estrategas da Frelimo ainda não perceberam, salvo a honrosa excepção de Teodato Hunguana. Da mesma forma que o Acordo de Roma criou a Renamo, ele contribuíu bastante para criar a impressão de que a captura do Estado por meios legítimos conferia prerrogativas ilimitadas ao vencedor. Isto tem um pouco a ver com a própria lógica das negociações de Roma. Enquanto que a Renamo vendeu a guerra em troca do reconhecimento político – e fundos para transformar a sua nomenclatura em chefes patrimoniais – a Frelimo vendeu a guerra em troca da promessa de captura do Estado que recebe auxílio ao desenvolvimento. Os doadores compraram e hoje se queixam. O que alguns estrategas da Frelimo ainda não perceberam é que a existência de uma Frelimo coerente e forte depende de um contexto social e institucional são.
O contexto social é são quando a intervenção política responde a interesses existentes na sociedade. Nenhum partido pode representar todos os interesses numa sociedade. É contraditório. Partido não é o todo. É parte. A Frelimo, portanto, tem que definir que interesses quer representar e defender no nosso País. As teses ao Nono Congresso, infelizmente, não fizeram isso, mas isso é outro assunto. O desiderato de uma representação universal cria incoerência e espaços de arbitrariedade. Ao lado dos esforços actuais da Frelimo de se afirmar na sociedade podem ser observados problemas de interesses divergentes no seu interior que só são resolvidos à custa da reprodução de um contexto institucional intransparente. Isto é uma outra maneira de dizer que os problemas de confusão entre Estado e Partido, corrupção, impunidade e indiferença constatados pelos vários estudos mencionados mais acima não são o resultado de uma conspiração obscura de forças invisíveis. Eles são o resultado de processos sociais concretos que podem ser descritos e analisados. Nem todos os membros da Frelimo se sentem à vontade com a proximidade de certos círculos de negócios; igualmente, nem todos os círculos de negócios se sentem à vontade com a dependência desta proximidade para se fazerem coisas. Este ambiente cria cumplicidade, não conspiração.
O País está a ficar cada vez mais maduro para o surgimento de forças sociais interessadas na transparência. E isso é bom porque a transparência tem que resultar de um impulso vindo do interior da sociedade. Os homens de negócios de Nampula que perdem um concurso em Maputo começam a ver que o melhor para todos deviam ser regras claras e transparentes, e não só a cunha. O ministro que tem que outorgar um concurso à empresa que melhor oferta faz, começa a ver que se protege melhor do empresário que paga para os cofres do partido com recurso às regras. O técnico no ministério convence melhor o seu ministro da necessidade de dar licença a quem de facto pode explorar um determinado recurso – por exemplo, peixe – quando sabe que tem certos padrões de qualidade que tem que observar – por exemplo da União Europeia – e que um veterano qualquer por aí não pode.
Um partido forte e quase que invencível não é incompatível com a democracia. A experiência de muitos Países com democracias maduras já revelou isto. Nos Países escandinavos, por exemplo, os partidos sociais democratas dominaram a política durante décadas. Mesmo um ambiente político confuso não é incompatível com a democracia. A Itália só recentemente é que começou a clarificar a sua esfera pública. Dito de outro modo, a tendência de monopartidarização que muitos estudos e muitos observadores constatam em Moçambique não é necessariamente má. Em minha opinião, Guebuza faz muito bem em reforçar a Frelimo. De igual modo, se esse reforço implica o enfraquecimento da Renamo, tanto melhor, desde o momento que o reforço não consista essencialmente no enfraquecimento consciente da oposição. Para que isso aconteça, é necessário ter em conta, porém, que esse reforço deve ser acompanhado do fortalecimento das instituições estatais com regras transparentes e previsíveis. Fazendo isso, não haverá nenhuma necessidade de “criar” uma terceira força. A terceira força será a própria transparência




O Poder da Frelimo – Sibindy (6)
Por E. Macamo
O lado grotesco do Nono Congresso da Frelimo foi a presença de Yaqub Sibindy. Foi grotesco por um político evidentemente inepto como o líder do PIMO ter conseguido enrolar uma parte da Frelimo, um partido cheio de políticos de grande calibre. A forma como o partido da Maçaroca e do Batuque lidou com este assunto, o destaque que deu à contribuição financeira que ele fez para a realização do Congresso e a pompa com que o acolheu em Quelimane deram indicações daquilo que alimenta os receios de muitos, segundo os quais o País estaria a enveredar pela via do monopartidarismo. A Frelimo tem todo o interesse em encorajar formas constructivas de oposição, mas a forma como esse encorajamento é feito precisa de ser interpelada.
Com efeito, em total contraste com a forma como o Presidente Guebuza tem lidado com a Renamo desde que assumiu a Presidência – reduzindo o contacto ao mínimo necessário e sem privilégios especiais para o seu líder, assumindo a confrontação parlamentar e não cedendo sequer um passo na discussão de questões centrais da vida do País, medidas estas, aproveito dizer, absolutamente necessárias à evolução da nossa democracia nascente – o Congresso reagiu a Sibindy com a impressão de que a preferência da Frelimo não é pelo jogo democrático, mas sim por uma oposição dócil, sem coluna vertebral e sem sentido de direcção. A atitude da Frelimo lembra o gesto de um rico que aceita esmola de um pobre. Sibindy é capaz de ter enrolado a Frelimo ao mostrar que com um pouco de dinheiro é aparentemente possível ganhar a aquiescência do partido e que uma oposição só é construtiva quando se submete.
Oposição não significa, obviamente, hostilidade. Uma democracia não é necessariamente sã só quando os partidos não se falam, não estabelecem alianças, endurecem posições e não se desejam boa sorte. Com efeito, a democracia precisa de um espaço amplo de debate e troca de ideias na base de posições claras e enformadas por um compromisso com a ideia que cada um tem do que o País deve ser. A trajectória política de Yaqub Sibindy bem como o perfil político do partido que dirige nunca deram indicações de se tratar de uma força política com posições claras. Para além de demonstrar com a maior clareza possível o tipo de força política que o nosso País tende a produzir, Yaqub Sibindy e o seu PIMO são o exemplo claro daquilo que um político e um partido político não deviam ser.
Agora, a questão que se coloca é de saber quem dentro da Frelimo achou que estivesse a prestar um serviço ao partido e a Moçambique dando o destaque que se deu a Sibindy. Porque ninguém teve o bom senso de agradecer a oferta financeira, recusá-la e aconselhar Sibindy a investir os 17 mil Mtn directamente no combate à pobreza? Porque ninguém teve a ideia de aproveitar a atitude de Sibindy para reafirmar a posição da Frelimo em relação ao tipo de democracia que quer para o País? Que ganhos políticos é que alguns estrategas da Frelimo acham ter logrado com este espectáculo grotesco? Que argumentos trocaram entre si para decidirem que era do interesse da Frelimo aceitar a oferta e dar espaço de intervenção a este “político”?
Estas interrogações conduzem directamente ao tipo de conclusões que dão sustento aos receios de monopartidarização. Na verdade, o caso Sibindy mostra de forma desconcertante que algumas pessoas dentro da Frelimo têm uma concepção muito problemática de democracia, da oposição e do seu próprio papel no País. A ideia de democracia que parecem ter é de um espaço público feito de aquiescências. Há-de ser, de certeza, esta ideia que faz com que membros com capacidade de pensar no interior da Frelimo não se notabilizem pelo uso dessa faculdade. Há-de ser por causa desta ideia que muitos jovens ambiciosos e cheios de potencial e energia se juntam à Frelimo ou ao aparelho do Estado com a convicção forte de que o seu contributo consiste em dizer sim a tudo desde que singrem.
A concepção de oposição que têm é de gente subserviente que reconhece o papel dirigente da Frelimo. É daí que uma reflexão divergente do que a maioria no interior do partido pensa corra o risco de ser interpretada como um ataque. Esta concepção há-de explicar, de certeza, a fraca qualidade dos debates de fundo durante o Congresso. Na verdade, a vontade e determinação de combater a pobreza não se documentaram por um debate sério sobre o tipo de medidas que são necessárias para esse efeito. Não vi nenhuma reportagem sobre estratégias diferentes de combate a essa pobreza que tivessem sido alvo de acalorados debates nesse encontro. A qualidade do debate teve o nível que as reclamações do quotidiano têm. O exemplo disso foi a intervenção da Ministra do Trabalho Helena Taipo; foi também, curiosamente, a de Sérgio Vieira. Digo curiosamente porque, apesar disso, foi para mim, das melhores e mais profundas intervenções que houve durante o Congresso, tendo pecado justamente por abordar as questões ao nível do senso-comum.
Finalmente, a ideia que algumas pessoas dentro da Frelimo têm do seu próprio papel no País é de uma profunda identidade entre partido e Estado. Para eles a discussão sobre a governação do País constitui uma contribuição para os esforços da Frelimo de desenvolver o País. A Frelimo é o mar onde desaguam todos os rios. Não é um dos rios que vai desaguar no mar que é o Estado. É o contrário. Este tipo de atitude cria espaço para a intransparência, abuso do poder e prepotência, males, diga-se de passagem, que a Frelimo nos gloriosos tempos já tentou combater. É deprimente que um “político” do calibre de Sibindy tenha ajudado a expor estes problemas. Espero que Sibindy não escreva no jornal Zambeze que foi tudo uma farsa, que queria apenas demonstrar claramente que tipo de partido é a Frelimo... Os que se riram dele, riram-se cedo demais.

O Poder da Frelimo – “Académicos” e políticos (7)
Por E. Macamo
É difícil não dar razão a Machado da Graça quando na sua “Talhe da foice” no Semanário Savana suspeita que o combate à pobreza seja apenas um acto de constrição por parte de pessoas que enriqueceram à custa dos pobres. Na verdade, o problema da ênfase que o Presidente Guebuza dá ao combate à pobreza como grande objectivo da sua governação é bem mais profundo. Embora louvável e em sintonia com os grandes Objectivos do Milénio, a ênfase no combate à pobreza é sintomática de algo que se tornou óbvio no decurso do Nono Congresso, nomeadamente que a Frelimo não só deixou de ser partido de operários e camponeses – se é que alguma vez foi – como também, e mais grave, que os intelectuais perderam muito do protagonismo que tiveram no passado. Não há novos Eduardo Mondlane, Jorge Rebelo, Óscar Monteiro, Luís Bernardo Honwana, Sérgio Vieira. Só há intelectuais orgânicos que sabem dizer quem não faz parte, mas aparentemente não fazem a mínima ideia donde querem levar o País.
Dito de outra maneira, estão a fazer falta à Frelimo pessoas que formulem projectos de sociedade e articulem-nos com a leitura que fazem da sociedade moçambicana. Se como refere Machado da Graça o grosso dos participantes ao Congresso consistiu em gerentes de empresas e funcionários públicos, isso é porque a Frelimo, na verdade, é um partido gestor, um partido sombra do seu próprio passado quando, mesmo que privilegiando ideologias problemáticas e aventureiras, se definia por um projecto claro e coerente de sociedade. O engraçado nisto tudo, todavia, é que volvidos 30 anos da independência que a Frelimo conquistou, o País dispõe de muita gente formada ao alto nível, a maioria da qual até é militante do partido. Praticamente, todo o intelectual digno desse rótulo é membro da Frelimo. Contudo, a julgar pela fraca qualidade do que o partido propõe como visão para o País, esses intelectuais não têm nenhum protagonismo nas suas hostes.
Escrevo isto com um pouco de trepidação, pois já alguns “colegas” me qualificaram de pretencioso e arrogante. Suponho que me critiquem por preferir falar e escrever de acordo com o que considero mais em sintonia com os hábitos académicos de reflexão do que alguns deles que, desonrando a academia a que dizem pertencerem, preferem das duas uma: calarem-se ou dizerem o que acham ser mais do agrado dos que detêm o poder. Não quero com isto dizer que todo o académico deva escrever para os jornais, pois o trabalho académico não consiste nisso. Nem quero dizer que toda a gente com título académico seja académica. Na verdade, a reflexão que faço aqui é para distinguir precisamente isso e dar a devida importância às pessoas detentoras de títulos e que decidiram dedicar o seu conhecimento ao serviço do trabalho prático e técnico. Refiro-me apenas àqueles que fazem política com o cunho de académicos quando na verdade são meros técnicos e burocratas. A política e a academia são coisas diferentes. São poucas as pessoas que podem conseguir conciliar as duas coisas. Não obstante, isto não significa que os académicos não devam ter preferências políticas, muito menos que não sejam militantes de um partido. Contudo, se forem militantes e continuarem a querer fazer parte da academia eles devem ter a coragem de fazer aquilo que identifica um académico, nomeadamente contribuir com o seu pensamento crítico para uma melhor formulação dos problemas, mesmo se as conclusões a que chegarem puserem em questão preceitos importantes do partido.
O político, já disse isto uma vez apoiando-me num sociólogo alemão, Max Weber, olha para os fins. Para lá chegar qualquer meio, em princípio, serve, desde o momento que o leve lá. O académico, em contrapartida, olha para os meios e pergunta se são os mais adequados para os fins propostos. Ao fazer isso, coloca à disposição do político todas as possibilidades que se abrem ao se tomar uma decisão. O Nono Congresso, por exemplo, reconfirmou o combate à pobreza como grande objectivo do partido. Decidiu também que um dos meios para lá se chegar era o slógan “decisão tomada, decisão cumprida”, algo que mereceu a crítica atenta de Machado da Graça.
Portanto, o Congresso parece ter decidido que o problema principal enfrentado pelo País é o não cumprimento das decisões tomadas. O que disseram os “académicos” militantes da Frelimo? Bateram palmas? Acenaram forte com a cabeça? Gritaram vivas? Ou interpelaram a qualidade das decisões tomadas? Fizeram isso? Procuraram saber como é que as decisões são tomadas? Interrogaram-se sobre o contexto em que decisões são tomadas? Perguntaram se essas decisões correspondem a uma leitura coerente do País real? Indagaram-se se essas decisões contêm dentro de si a visão do que o País deve ser? Puseram decisões em relação com leis? Perguntaram se a ideia de “decisão” é compatível com um sistema democrático?
Duvido imenso. E isto é preocupante. A falta de consenso sobre o que a Frelimo é e, sobretudo, sobre o que o seu poder é, conduz-nos a uma situação em que pseudo-académicos interpretam o papel da academia no País como sendo o de utilizar os seus títulos para dar legitimidade a posições políticas. Confundem a crítica com oposição e tornam o pensamento e a produção de conhecimento em artefactos mercenários da sua própria esquizofrenia: “académicos” e políticos. Bom, pelo menos nunca estarão sozinhos. Usam considerações materiais como critérios de avaliação da plausibilidade do que diz quem quer pensar de forma crítica. Se eu critico a ênfase no combate à pobreza, o “académico” não procura saber que argumentos tenho; ele quer saber em graças de quem eu quero cair. A ideia de que a reflexão possa constituir um fim em si próprio não cabe no seu entendimento do papel de um académico.
Políticos o nosso País já os tem em número suficiente. Académicos, contudo, isto é, pessoas comprometidas com a verdade e com o fomento deste País por via da reflexão crítica, esses fazem ainda muita falta. Moçambique não vai deixar de existir ou de resolver os seus problemas porque os “académicos” foram ao Nono Congresso. Mas se esses académicos assumissem o seu papel, o País poderia lograr todos os desafios com mais opções. Era tão bom que eles tomassem a decisão de serem académicos ou políticos e... cumprissem-na.

O Poder da Frelimo – Técnicos e decisões tomadas (8)
Por E. Macamo
Do ponto de vista da sociologia, a política é um conceito pouco útil. Não é algo que possa ser definido com utilidade antes do trabalho preliminar de saber o que se passa em torno do que as pessoas chamam de política. Aos sociólogos interessa o poder, o seu exercício e as suas implicações. Depois disso feito, é possível definir a política. Noutros termos, a política constitui-se na relação entre o poder, seu exercício e sua continuidade no tempo. Poder, no seu estado bruto, é simplesmente a possibilidade que algumas pessoas têm de fazerem outras pessoas cumprirem a sua vontade contra a sua própria vontade. Nesta acepção, a noção de poder ainda não tem grande interesse sociológico. Começa a tê-lo quando olhamos para ela do ponto de vista da dominação, isto é de uma relação social em que uns podem impor a sua vontade a outros que consideram essa imposição justa. Aí sim, já temos algo sociologicamente interessante, pois já estamos a falar de autoridade e legitimidade.
A dominação pode assumir várias formas, todas elas presentes em maior ou menor grau na nossa experiência histórica. Segundo o sociólogo alemão Weber que se debruçou sobre estas coisas com muita atenção, a dominação pode ser (i) tradicional, isto é quando se legitima a partir do que é consuetidinário; pode ser (ii) carismática, isto é quando se legitima a partir de qualidades tidas como sendo excepcionais e sobrenaturais de um líder político. Samora Machel ou Afonso Dhlakama são exemplos claros disso em virtude das suas qualidades militares; finalmente, a dominação pode ser (iii) jurídico-racional quando assenta num conjunto de normas codificadas e executadas por um corpo especialmente formado para esse efeito.
Não quero transformar o artigo numa introdução à sociologia política. Interessava-me apenas chegar a este ponto onde chamo a atenção do leitor para a importância que a legitimação desempenha no exercício do poder. É através dela que o poder ganha cunho social e se traduz em autoridade. O Estado moderno, e nesta categoria cabe também o nosso – define-se justamente pelo exercício de um poder legitimado constitucionalmente e que se manifesta no dia a dia das pessoas através da obediência a leis que respeitam o espírito dessa constituição. Num Estado moderno o exercício do poder não é arbitrário. Aproveito, desde já, para dizer que o poder não é apenas legítimo quando é democrático. Mesmo um poder dictatorial pode ser legítimo desde o momento que o seu exercício esteja em conformidade com a lei.
Neste esquema de coisas, a peça mais fundamental não é o chefe máximo. É o burocrata, ou para estar mais perto da nossa linguagem, o técnico. É o técnico que dá substância à autoridade garantindo que o exercício do poder esteja em conformidade com a lei. O chefe máximo, médio ou mínimo é chefe e tem autoridade em virtude do lugar que ocupa na máquina de exercício do poder. Naturalmente que o chefe precisa de ter qualidades excepcionais para chegar até onde chegou. Mas num contexto de Estado moderno, o seu poder só é legítimo quando exercido dentro dos preceitos legais. A lei é que é o soberano. Agora, é um pouco difícil transmitir esta ideia num contexto político e cultural como o moçambicano em que as noções tradicionais de autoridade – reforçadas pela atitude paternalista do poder colonial – e em que a socialização primária dos principais políticos foi feita em ambientes militares – com a sua exigência de disciplina – ou de exaltação carismática.
Não estranha, pois, que a cultura política dominante dê maior ênfase à lealdade ao chefe do que ao respeito pela legalidade. As características principais da dominação tradicional e da dominação carismática são, respectivamente, a confusão entre o privado e o público, e a preferência pelos que são leais ao chefe. O nosso sistema político tem elementos fortes disto, patentes na dificuldade que a Frelimo tem de se desligar do Estado e respeitar as suas instituições como bens públicos bem como nas dificuldades do líder do principal partido da oposição que prefere se fazer rodear dos chamados “yes-men” (homens que dizem sim a tudo). O Nono Congresso podia ter debatido esta questão, pois o assunto não é novo. Já nos anos oitenta, quando o fosso entre a vontade política e a realidade se tornara cada vez maior, a Frelimo decidiu que o problema residia no facto de a tecnocracia se ter tornado independente do partido. A conclusão a que se chegou na altura foi de que era necessário voltar a colocar o partido na direcção. Este é um assunto que merece ainda maior atenção e estudo. Um passo importante neste sentido foi dado por uma socióloga da UEM, Judite Chipenembe, que tenta perceber os meandros da burocracia em Moçambique. De qualquer maneira, um dos erros da análise feita pela Frelimo na altura foi de ter esperado uma burocracia dócil e eficiente num contexto em que o próprio poder político se notabilizava pela sua arbitrariedade e espontaneidade na condução dos destinos do País. A burocracia precisa de certezas.
O Congresso podia ter debatido como garantir que os técnicos façam o seu trabalho como técnicos. Para esse efeito, podia ter reflectido sobre como transformar as expectativas do partido em leis a serem cumpridas e executadas por técnicos. O slógan “decisão tomada, decisão cumprida” é sintomático da ausência deste debate. Num Estado de direito não são decisões que contam, mas sim leis. Sei que a questão é retórica, mas é importante para se perceber o que está em causa. Decisões têm a tendência de serem arbitrárias. Decisões são coisas do pelouro do poder na sua forma bruta, de um poder sem autoridade. As leis podem ser também arbitrárias, mas pelo menos proporcionam aos técnicos quadros seguros de referência. Leis conferem autoridade a quem toma decisões. A autoridade vem da lei. Logo, uma decisão que não é transformada em lei, dificilmente será cumprida. E se o respeito pela lei não constitui prioridade para quem toma decisões, então o técnico nunca vai ter a autonomia de que precisa para ser um técnico. O nosso País ainda tem um longo caminho a percorrer para incutir nos seus técnicos e políticos a ideia de que os técnicos estão ao serviço da legalidade.

Fonte: Ideias para debate - 25.03.2007

sábado, março 17, 2007

O desagrado de Gruveta Massamba

Bastidores da AR
…o general na reserva não perdoa o relatório de Catherine Mackenzie (que ainda não o leu) e a publicações nacionais, tais como o «Canal de Moçambique» e o «Diário da Zambézia» por o terem reportado
O general na Reserva, Bonifácio Gruveta Massamba, manifestou ontem, sem evasivas o seu desagrado pela maneira como parte da comunicação social moçambicana deu cobertura ao relatório da especialista britânica Catherine Mackenzie, onde se reporta a exploração desenfreada da madeira, em touros, na província da Zambézia.
O desagrado do general foi manifestado na Assembleia da República (AR) durante o intervalo, ao interpelar o deputado Manuel de Araújo pela bancada da Renamo União Eleitoral.
Gruveta que apontou Araújo como o mentor do projecto electrónico «Diário da Zambézia», que se publica a partir de Quelimane, quis saber dele as razões dos jornalistas daquela publicação terem dado enfoque ao relatório de Catherine Mackenzie. “Fale com aqueles seus miúdos. Faltaram-me ao respeito”.
No relatório da britânica, encomendado pelo Fórum da Organizações Não Governamentais da Zambézia (FONGZA) o general Massamba é apontado, juntamente com a família Chissano e membros não identificados do seu partido, Frelimo, como parceiros do grupo chinês «Green Crow Group», que está na vanguarda do «Take away Chinês!» naquela parcela do país.
Nada mais restou a Araújo, explicar ao general, que os miúdos são profissionais e que o trabalho que desenvolveram foi baseado num documento tornado público. E disse mais: “Eles até estão cá no Maputo a estagiarem para melhor capacitação”.
Mais, o desagrado do general não terminou por ai. Após o deputado da Renamo ter estendido as apresentações ao autor destas linhas, ele perguntou: “Trabalha para que jornal?”.
“«Canal de Moçambique»”, respondeu.
“Eles também escreveram sobre!” exclamou Massamba.
Para aquilo que parecia de missão ingrata para Araújo, foram justamente os seus colegas de Gruveta Massamba, pela bancada da Frelimo, António Jorge Frangoulis e Safi Gulamo respectivamente que explicaram ao general que o trabalho de jornalismo era assim mesmo e que a coisa mais importante a ser feita pelo general “era abrir-se para dar a sua versão dos factos e não fechar-se em copas”.
O «Canal» prometeu fazer chegar hoje uma cópia do relatório de Mackenzie que Massamba confessou ainda não ter lido.
Bonifácio Gruveta Massamba foi o primeiro governador da Zambézia e em alguns círculos da província é chamado de «campeão do saque» e «protector dos predadores»
(Luís Nhachote) - CANAL DE MOÇAMBIQUE - 16.03.2007

terça-feira, março 13, 2007

Zimbabwe: Mugabe mantém intenção de disputar presidenciais em 2008

2007/03/12 - 08:50

O Presidente do Zimbabwe, Robert Mugabe, 83 anos e no poder há 27, tenciona candidatar-se à nova eleição presidencial, caso tenha lugar em 2008, noticiou ontem um jornal de Harare. leia +

segunda-feira, março 05, 2007

Em Nampula: Gabinete do governador transformado em tribunal

2007/03/05

O Governador de Nampula, Filismino Tocoli, manifestou-se preocupado por aquilo que considera altos índices de descrédito popular em relação aos órgãos de administração da justiça na província. Leia +

Não há coligação política no país - Afonso Dhlakama, censurando os partidos que se juntaram à Renamo

O LIDER da Renamo, Afonso Dhlakama, afirmou há dias, em Maputo, que em Moçambique nunca houve coligação, explicando que o que o seu partido fez desde 2004, foi pegar em alguns presidentes de partidos políticos e metê-los no parlamento.

Maputo, Segunda-Feira, 5 de Março de 2007:: Notícias

“Até hoje, em Moçambique nunca houve coligação. A Renamo nunca coligou com nenhum partido. É complicado dizer isto, mas é uma realidade que deve ser dita e vou explicar muito bem”, afirmou.

De acordo com este político, em Moçambique, quer a Frelimo, quer a Renamo, como maiores partidos, nenhum deles já se coligou. Explicou que o que a Renamo fez em 2004 foi satisfazer o pedido de alguns presidentes de partidos politicos que manifestaram o interesse de ser deputados.

“O que fizemos foi tirar da lista das candidaturas para Assembleia da Republica os nossos candidatos e colocarmos elementos desses partidos”, explicou considerando que isso não é coligação.

Afonso Dhlakama afirmou que coligação é um acordo onde a Renamo, por exemplo, tem “x” elementos o outro partido também “x” elementos para depois juntarem as duas partes para conseguirem obter a maioria e serem declarados vencedores, uma vez que em todo o mundo, as coligações destinam-se a aumentar os resultados eleitorais.

Quanto aos partidos que têm estado a manifestar interesse de coligar com a Renamo para as próximas eleições, Dhlakama disse ser prematuro avançar qualquer dado sobre este assunto.
“Não sei se serão aceites ou não, tudo vai ser decidido pelo V Congresso a ter lugar ainda este ano”.

Explicou que mesmo aqueles partidos que estão integrados na Renamo União Eleitoral, como são os casos da FAP, PRD, ALIMO, PUN, MONAMO, PCN, PPLM, entre outros, alguns deles com assento no parlamento, a sua renovação vai depender do congresso.
INVESTIMENTO E PACIÊNCIA

“Este encontro vai analisar as vantagens e desvantagens da integração destes partidos na Renamo, e a decisão final pode ser que não, se considerarmos que já ajudamos o suficiente, porque eles também precisam de andar com os seus próprios pés”, disse.

Segundo Afonso Dhlakama, o proveito que estes presidentes tiram é de serem deputados da Assembleia da República em nome da Renamo, o que lhes dá direito à reforma por toda a vida e o próprio estatuto social que aumenta, mas como partidos não estão a tirar nenhuma vantagem.

Afonso Dhlakama salientou que mesmo com o pouco dinheiro que estes partidos obtêm via parlamento, não conseguem realizar trabalhos visíveis nas províncias, estando concentrados na cidade de Maputo, justificando a sua existência com entrevistas nos jornais.

Convidado a fazer uma avaliação sobre a actividade da oposição moçambicana no geral, Dhlakama disse lamentar o facto de os pequenos partidos extra-parlamentares procurarem se colocar no lugar de oposição, quando na realidade não são.

“Isso acontece porque as pessoas não sabem o que significa a palavra oposição”, rematou explicando que oposição significa opor-se juridicamente do governo, fiscalizando as suas actividades.

Segundo o líder da “Perdiz”, o que existe no país é um grupo de pessoas que se registaram no Ministério da Justiça e passaram a se considerar oposição, mas a verdade é que no dia em que a Frelimo ficar só no parlamento, todos concordarão que fora do parlamento não há oposição .

De acordo com Dhlakama, mesmo com 90 biliões de partidos, se estes não tiverem representatividade no parlamento, para juridicamente questionar o governo, não podem ser considerados oposição.

“O que existe neste momento não é oposição, são grupos de pessoas que nem sequer conseguem ter representatividade no terreno, que usam jornais, rádios e televisões para fazer passar o que na realidade não fazem”, adiantando que estes grupos nem sequer conseguem recrutar membros.

Para o líder da Renamo, fazer política é um investimento.

Alberto Vaquina agastado com órgãos de Justiça em Sofala

02/03/2007

O governador de Sofala, Alberto Vaquina, manifestou o seu desagrado com os órgãos de Justiça naquela província, aquando da abertura do ano judicial, em virtude do fraco desempenho registado em 2006.

Para Vaquina, não faz sentido que em 2006 tenham sido tramitados apenas 18 mil processos, contra cerca de 29 mil em 2005, e decididos 8.229 processos, contra 18.138 em 2005, visto que o Tribunal Provincial foi reforçado tanto em meios humanos como materiais.

“Seria de se esperar que o reforço da capacidade do Tribunal em recursos tivesse resultado no incremento da produtividade em termos de casos solucionados. Contudo, e paradoxalmente, houve uma redução da produtividade e é importante que as causas deste facto sejam procuradas e encontradas”, disse Vaquina.

Hermenegildo Jane, juiz presidente de Sofala, reconheceu que algo não vai bem na instituição que dirige e a solução situação passa por uma análise interna profunda do que está a acontecer.

“Temos de fazer uma introspecção interna para saber quais as verdadeiras razões. Temos de assumir o fracasso e encontrar alguma explicação, no sentido de que este ano a gente decida muito mais processos”, sublinhou Jane.
Fonte: O País online

Liderança da FLM em périplo pelo centro

O LÍDER da Frente Liberal de Moçambique (FLM), Raúl da Conceição, inicia esta semana um périplo pelas províncias do centro do país, com o objectivo de se inteirar do trabalho realizado pelas delegações de base da sua organização.

Nesta deslocação, que deverá ter a duração de sete dias, Raul da Conceição vai escalar as províncias de Sofala, Manica, Tete e possivelmente Zambézia, onde, para além de se inteirar das actividades desenvolvidas, irá proceder à revitalização das bases do partidos nos locais onde estas já não se encontram a trabalhar.
Falando à nossa Reportagem, Raul da Conceição referiu que o “pano de fundo” da sua deslocação à zona centro do país será, sem dúvidas, a preparação do partido com vista à sua participação nas primeiras eleições das assembleias provinciais do país.
“A Frente Liberal quer se preparar convenientemente para estas eleições. Nós gostaríamos de participar neste pleito integrados numa coligação, porém, enquanto tal não acontecer, procuraremos trabalhar sozinhos por forma a constituirmos uma mais valia para o grupo que formos a integrar ou para termos uma melhor prestação individual, comparativamente às eleições anteriores”, afirmou Raul da Conceição.
Por outro lado, anunciou que a Comissão Política da “Frente” irá reunir-se na segunda quinzena do mês de Março com vista a delinear estratégias de participação do partido nas eleições deste ano, assim como dos dois próximos anos.
“A nossa vontade de integrar uma coligação deve ser deliberada e formalizada em sede própria, ou seja, no seio dos órgãos competentes que, no nosso caso, é a Comissão Política”, disse.
Raul da Conceição referiu ainda que tal encontro deveria ter sido realizado semana passada mas a sobreposição de agenda no seio da maioria dos seus membros, ditou o seu adiamento para uma data posterior à visita do líder do partido à zona centro.
“A maioria dos membros da Comissão Política, que também exercem cargos de direcção do partido, tiveram que participar num encontro promovido pelo Centro de Promoção da Democracia Multipartidária (CPDM), facto que obrigou ao adiamento da reunião”, disse para depois mostrar alguma frustração pelo facto de tal encontro não ter produzido os resultados desejados.
Segundo a fonte, a reunião do CPDM, que deveria produzir consensos em torno da liderança e constituição legal deste centro, acabou por ser um encontro de troca de acusações que em nada contribuíram para a fortificação do grupo.
“A princípio queríamos que o centro fosse uma organização de promoção da democracia que iria apoiar os partidos na sua consolidação como instituições e organizações que pretendem alcançar o poder. Porém, depois de vários encontros, decidiu-se avançar para uma coligação de modo a concentrar esforços com vista a vencermos as próximas eleições. Tudo isto ainda não foi possível devido aos desentendimentos que ainda existem quanto à sua liderança a metodologia de trabalho”, referiu.

Fonte: Notícias (07/03/05)

MP investiga alegados desmandos em Chemba

O MINISTÉRIO Público na província de Sofala está a investigar alegados desmandos protagonizados pela administração do distrito de Chemba, contra militantes dos partidos da oposição naquela parcela do país.

Dados colhidos pelo nosso jornal junto ao MP indicam estar a decorrer um trabalho visando apurar a veracidade das queixas apresentadas pela Renamo e pelo Partido para a Paz, Democracia e Desenvolvimento (PDD).
Nos últimos tempos, o maior partido da oposição nacional tem vindo a acusar o administrador de Chemba, Jorge Daul, de estar a discriminar todos os indivíduos que se identifiquem como membros de um partido que não seja a Frelimo.
Por seu turno, o PDD também aponta o dedo acusador a Jorge Daul por, alegadamente, ter detido cinco militantes seus que estavam a realizar trabalho político.
O substituto do Procurador- chefe da província de Sofala, Jeque da Costa, garantiu-nos que a instituição está a investigar estes casos.
Sem avançar pormenores, por imperativos de lei, a mesma fonte revelou apenas que algumas pessoas estão a ser ouvidas em torno das acusações, e que uma equipa de investigadores será despachada brevemente para aquele distrito de modo a se inteirar “in loco” do caso.
Explicou que tal deslocação deveria ter ocorrido na segunda quinzena do mês de Fevereiro, facto que não aconteceu devido à precariedade das vias de acesso. As inundações no vale do Zambeze foram a principal razão que inviabilizou a viagem dos peritos.


Fonte: Notícias (2007-03-05)

sábado, março 03, 2007

O governo de 1975


Este é o primeiro governo mocambicano formado por Samora Moisés Machel. As sucessões também se podem observar desta foto.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Voto de confiança em Filipe Couto!

Por Edwin Hounou

O Presidente da República, Armando Guebuza, indicou, a 23 de Fevereiro de 2007, o padre Filipe Couto, antigo reitor da Universidade Católica de Moçambique, UCM, ultimamente, assessor do ministro da Educação e Cultura, Aires Aly, para dirigir a Universidade Eduardo Mondlane, UEM, em substituição de Brazão Mazula, no cargo desde 1995.
Achamos salutar a decisão presidencial em ter procurado uma individualidade fora dos quadros da UEM para introduzir as mudanças requeridas à instituição.
Couto não tem, à partida, compromissos conhecidos nem alianças internas confirmadas, então, está de mãos livres para trabalhar.
Endereçamos nosso voto de confiança condicionado a Couto. Temos que esperar por cerca de 10 meses para ver qual vai ser seu desempenho. Até lá, não faremos qualquer juizo de valor. Seguiremos, escrupulosamente, o princípio segundo o qual ‘a prática é o critério da verdade’.
Couto tem credenciais intelectuais e de gestão universitária suficientes para conferir a UEM outro visual. Enquanto reitor da UCM teve a coragem de levar a faculdade de agronomia para Cuamba, em Niassa, onde muitos têm medo até de ouvir falar. Há informações que sugerem que lá se formam técnicos com o saber fazer assumido.
A faculdade de medicina, na Beira, tem seus estudantes em unidades sanitárias, de onde se pode inferir que sairão médicos à altura das necessidades. Dizem as fontes que tal estratégia foi desenhada por Couto. Não temos motivos para duvidar das suas capacidades.
Apelamos ao novo reitor para re-estruturar, com profundidade, a UEM e terminar com a percepção de que se transformou em nicho do partido no poder onde dominam a corrupção, promiscuidade, compadrio e intolerância política.
São conhecidos casos de dois docentes, membros do Parlamento pela bancada da Renamo, que foram afastados das suas funções na UEM, enquanto seus colegas têm um tratamento diferenciado, por professarem a ideologia corrente nos corredores oficiais e grandes palácios.
O sofisma de Mazula era de que, sendo da oposição, não teriam tempo para se ocupar da academia. Mas, membros da Frelimo acumulam funções, estudam fora do País, por largos anos e com salários em dia. Um é vereador, outro, vice-director do STAE.
Mazula diz que isso não perturba a academia. Couto tem a missão de dar a volta a este pensamento estereotipado instalado na UEM.
A UEM é uma academia, nela devem ser discutidas ideias e técnicas mais avançadas da Humanidade, não um campo de batalha onde partidos políticos rivais se digladiam pela hegemonia política da instituição.
A universidade é um laboratório de ideias modernas e não uma célula de partidos onde os discordantes são condenados ao ostracismo ou atirados à fogueira, como mandavam os princípios da santa inquisição.
Encorajamos a Couto a iniciar o combate para reverter a imagem da UEM, desarticulando-a das influências partidárias. Esperamos que Couto jus faça a confiança nele depositada pelo Presidente.
A Tribuna Fax (2007-02-27)

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Padre Filipe Couto

O homem do Presidente em frente da UEM

(Maputo) O Presidente da República, Armando Guebuza, nomeou o Padre Filipe Couto para o cargo de Reitor da Universidade Eduardo Mondlane. O acto do Presidente da República insere-se no âmbito das suas competências consagradas no Artigo 160 da Constituição da República. O estatuto da Universidade Eduardo Mondlane diz que compete ao Conselho Universitário recomendar ao PR três individualidades a serem consideradas para o cargo de Reitor. Neste caso, o Presidente não atendeu a nenhum dos nomes recomendados.
Esclarecimentos disponíveis indicam que a competência do Presidente da República insere-se “na direcção da acção governava”, para se concluir que o Reitor deverá ser da confiança do Presidente da República em virtude de participar na acção ou no sistema global de governação do país. O Artigo 160 da Constituição começa assim, no domínio do Governo.
É dessa disposição Constitucional que se afere que a competência fixada não está subordinada a qualquer condição. É prerrogativa do Presidente da República nomear alguém da sua confiança para o cargo de Reitor da UEM.
Mas os esclarecimentos sobreeste acto do Presidente da República não se esgotam aqui, gostaríamos de receber, para publicar, outras interpretações daqueles dispositivos legais.
Enquanto isso, recordemos o que pensa o Padre Couto sobre a academia e os intelectuais, numa transcrição de parte da entrevista que concedeu, anotransacto, à jornalista Paola Roletta para o Savana.
Acha possível uma academia independente?
Depende muito daquilo que se entende com a palavra independente. Na prática, eu não creio, porque todos nós estamos ligados a certos interesses, os nossos próprios ou daqueles que nos suportam, família, grupo de pertença, religião, partido.
A academia deve respeitar o bem comum, dar voz a todas as partes da sociedade ou não?
Deve-se procurar o bem comum, porém o bem comum nunca é claro nas sociedades. Vamos pegar Moçambique, por exemplo. O que é um bem comum para Moçambique neste momento? Um poderia dizer que o bem comum é que todos tenham boa saúde, outro diria que todos tenham boa saúde, outro diria que todos possam ir à escola, outro que todos tenham emprego... Não há verdadeiramente ciência que faz com que todos estejam de acordo com ela. A universidade sempre foi protegida por pessoas ou por sociedades. Na idade medieval eram reis ou príncipes que ajudavam a universidade.
O que deve fazer um académico?
É conseguir ser honesto e dizer, por mais que eu queira ser intelectual independente, eu tenho que procurar a protecção daqueles que eu acho que estão na linha, que eu gosto, que eu quero. Talvez quando tinha trinta anos pensava que podiaexistir um intelectual livre, mas não é assim. Nós estamos sempre condicionados por aqueles que nos dão o pão de cada dia. Deve—e procurar coligação com as pessoas que estão na minha linha. A verdade numa pessoa humana é relativa, quer dizer ninguém consegue ter toda a verdade. Por isso eu acho que é preciso ter uma academia capaz de raciocinar e dizer com quem é que eu vou trabalhar neste momento, qual é a posição que eu vou tomar na minha pesquisa. Um jornalista que quer fazer jornalismo em Moçambique, que vem de uma faculdade de jornalistas, qual é a posição que vai tomar no contexto de Moçambique, com a história de Moçambique, na SADC, na África, depois com o mundo global.
Mas o intelectual, o homem da academia, é considerado o farol no caminho para com a perfeição que todos nós fazemos na nossa vida, não é isso?
É. sim. Talvez eu não esteja a satisfazer com a minha resposta, porque não lhe estou a dar uma resposta clara, sim ou não. Não lhe vou dizer que a academia pode ser livre e imparcial, mas, sim, que ela deve procurar ser imparcial, porque a verdade é sempre limitada. Mesmo assim, deve procurar servir a sociedade, a maioria, especialmente quando as questões afectam o bem comum, quando são questões muito relevantes. Há países onde já não é preciso falar de bem comum.
Qual é então o papel do intelectual em Moçambique?
Eu queria leválo um pouco à honestidade e dizer assim, podes ler tudo aquilo que queres, mas procura dizer coisas muito claras que indicam as pessoas, especialmente a maioria, como ir para frente. Procura ser farol. Estamos a falar de HIV, por exemplo, um intelectual deveria falar se ele sabe, se ele descobriu quais são as causas do HIV/SIDA, devia falar de uma maneira tal que todos possam compreender.
Mas quando o tal intelectual se confronta contra uma espécie de muro, onde se confunde a cultura com os hábitos, como é que deve actuar?
Esforçar-se a falar de forma que as pessoas não deixem de o ouvir, que não fiquem cansadas. Deve falar de uma maneira tal que as pessoas quando ouvirem, ficam a pensar, mesmo se não concordam muito, omeçam a dizer, bom, custa, mas é um argumento aceitável.(Redacção)

Taipo demite chefe de Recursos Humanos da DPTM

O chefe dos Recursos Humanos na Direcção Provincial do Trabalho de Maputo (DPTM), Albino Luís Imina, foi afastado do cargo, hoje, pela ministra do Trabalho, Helena Taipo, em virtude da violação das medidas tomadas última sexta-feira por aquela governante, que consistiam no desconto de um dia a cerca de 26 trabalhadores que chegaram atrasados ao local de trabalho.
Esta manhã, a ministra deslocou-se àquela direcção para avaliar o ponto de situação, ao que constatou que Albino Imina ordenara aos funcionários que assinassem sobre a falta marcada sexta-feira, gesto que o considerou de insubordinação.
Com efeito, Helena Taipo recomendou as direcções nacionais do pelouro a trabalharem sectorialmente com a Direcção Provincial de Trabalho, uma vez que se acredita estar a enfrentar uma crise profunda.

O País online (2007/02/26)

domingo, fevereiro 25, 2007

Ministério público conta com novos magistrados

O Ministério Público conta a partir, desta sexta-feira, com mais sete magistrados que tomaram posse na cidade de Maputo, elevando-se para 168 o número de magistrados o que equivale a um para cada 107 mil pessoas.

Os novos magistrados irão trabalhar nos distritos de Angonia, Gorongosa, Morrumbene, Manhiça, Monapo, Nacala Porto e ainda no Tribunal da Machava no município da Matola. Com estes sete novos quadros o Ministério Público espera minimizar a falta de quadros nos distritos. Do total dos magistrados 10 trabalham a nível central, 88 estão nas capitais provinciais e 70 nos distritos. Os novos procuradores garantiram estar prontos para as novas tarefas, mas estão cientes das dificuldades que os esperam.

Estes reconhecem também que a justiça moçambicana tem recebido de tempos em tempo adjectivos pouco abonatórios por parte dos cidadãos, principalmente por causa do fenómeno que da pelo nome de corrupção. Mas consideram injusto considerar esse mal o único que afecta o seu sector.

A cerimonia de posse foi dirigida pelo procurador geral da Republica que aproveitou a ocasião para repetir a sua já celebre frase: ninguém esta acima da lei.

O País online (24/02/2007)

Uma vítima mas tantos merecendo mesmo destino

Tomás Mandlate esteve rigorosamente dois anos como Ministro da Agricultura dos cinco que era suposto cumprir. Manuel Muchanga, da Renamo, considera que foi uma atitude legítima e acrescenta que outros Ministros como o da Educação e Cultura deviam ter o mesmo destino.

Para o partido independente de Moçambique através do seu presidente Yacub Sibindi, pode ter sido um erro de Armando Guebuza exonerar Tomás Mandlate pois a letargia que parece afectar aquele Ministério pode estar na própria maquina e não no seu timoneiro.

Mas o agora ex-ministro da Agricultura não é caso único de inoperância, neste governo. Virgínia Matabele, ministra da Mulher e Coordenação da Acção Social há muito que está desaparecida e não se conhecem grandes decisões do seu pelouro.

O mau olhado parece acompanhar Virgínia Matabele. No último congresso da Frelimo caiu da Comissão Política para o Comité Central.

Igualmente apagado tem estado Luciano de Castro, ministério para a Coordenação da Acção Ambiental que parece talhado para ofuscar os seus líderes. Na expectativa está igualmente José Pacheco onde os dois primeiros anos não correram tão a avaliar pelo recrudescer do crime.

O Pais online (24-02-07)

Nota:
Descordo que o Ministro de Educacão, Aires Aly, merecesse uma tal exoneracão, embora concorde que ele faca alguns erros como aquele de querer introduzir o mandarim nas nossas escolas antes de ver a questão das nossas línguas maternas, Aires é dinâmico. A Renamo precisa de preparar um indivíduo que ultrapasse ao Aires. O comentário do Sibindy nem vale a pena porque é o mais infeliz. Matabele e de Castro até deviam ser eles mesmos a pedirem exoneracão. O Pacheco não será exonerado porque é flexível em andar de urna em urna eleitoral com escolta policial, para quê, ele e a Frelimo que sabem. Ele devia ser julgado por esta violacão da lei eleitoral.

Ministra pune funcionários “indisciplinados”

A ministra do Trabalho, Helena Taipo, ordenou um desconto de todo o dia de sexta-feira do mês corrente aos funcionários da Direcção Provincial do Trabalho de Maputo devido ao incumprimento do horário de entrada ao serviço.
O castigo, que se estende ao director, resultou de uma visita relâmpago efectuado pela governante àquela instituição com o fim de se inteirar do funcionamento da instituição em relação ao atendimento público.
Dos cerca de 28 funcionários no activo na sede daquela representação do Ministério, apenas dois se fizeram à hora ao posto de trabalho, nomeadamente o chefe dos Recursos Humanos e um servente. Helena Taipo permaneceu durante 30 minutos na varanda à espera da chegada de outros funcionários, situação que não aconteceu até à retirada das instalações.

O País online (24/02/2007)

sábado, fevereiro 24, 2007

Moçambique noutra perspectiva

— a opinião do historiador Elikia M’bokolo

O Professor Elikia M’Bokolo, um historiador de origem congolesa, rege cadeiras em várias universidades estrangeiras, e é director de investigação no Centro de Estudos Africanos da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, autor de uma história de África em vários volumes e dirige o programa “Mémoire d’un Continent” na Rádio France Internacional.

A Revista Latitudes – Cahiers Lusophones publicou recentemente uma longa entrevista com ele, conduzida por Feliciano de Mira e D. Lacerda, da qual se extraíram as passagens que se seguem, e foram seleccionadas na base da sua relevância para a região da África Austral, especificamente para a África do Sul e Moçambique, e sobretudo por serem uma outra visão de problemas permanentemente em debate entre nós.

O Papel da História

Como historiador, M’Bokolo respondeu à pergunta sobre qual podia ser o papel dos historiadores face aos problemas africanos, dizendo que tem uma visão optimista da história, e mais do que isso, considera-a ao serviço do progresso: “Os meus mestres, os meus referentes em história, como Marc Bloch, consideram que a história é uma ciência que ajuda o homem a ir para a frente.”

“Fazer história é também fazer um certo uso da história. O nosso papel deve contribuir para fazer avançar o continente africano. Trata-se de dar aos africanos confiança neles próprios, e de dar continuidade ao processo de descolonização. É uma ciência que pode ajudar os africanos a conhecer o seu próprio passado. Hoje, os jovens de 18 a 20 anos representam mais de metade da população de África, mas eles não conhecem África, senão desde 1990”.

“Acabo de lançar o primeiro livro da colecção África em todos os seus estados, que é uma tentativa para pensar os problemas do desenvolvimento num longo período de África como quadro de referência. A maioria das pessoas da Costa do Marfim, no Congo, etc., vive sobre as fronteiras, mas a ideia territorial actual não é definitiva. Hoje, no contexto da globalização e de reorganização de África, este quadro territorial a que nos agarramos, talvez não seja o melhor.”

A África do Sul como potência regional

“África do Sul aparece como o país que tem o discurso mais positivo e os meios para realizar a sua política”.

O Professor M’Bokolo considera a África do Sul uma potência regional no contexto do continente e da África sub-sariana, porque “tem uma economia que, no quadro da leitura económica do mundo, parece responder aos critérios da verdade. Tem estabilidade política, uma vida política regulada, com eleições nas datas previstas. Tem alguns problemas sobretudo de corrupção, mas não são muito importantes. Possui igualmente um exército que é um dos mais poderosos do continente africano. A sua história militar remonta à herança Anglo-Boer e do apartheid. O exército permitiu combater a insegurança interna e externa, mas interveio também em Moçambique, no Zimbabwe e Angola”.

“Ao contrário de muitos outros países em África, o exército (da África do Sul) é equipado pela indústria sul-africana (…) A sua diplomacia também é antiga, porque desde os tempos do apartheid que já existiam aberturas para alguns países africanos. Nelson Mandela, que se retirou da vida política, continua a ter um discurso influente, e Tabo Mbeki soube retomar a iniciativa e utilizar em seu benefício o discurso do renascimento africano. Isto porque, depois a morte de Nyerere, de Houphouet-Boigny e outros, faltam em África grandes chefes com um discurso positivo. Sob este ponto de vista penso que não é apenas uma potência regional; e se houver um assento para a África no Conselho de Segurança, há fortes probabilidades que seja para ela.”

A região, o FMI e Banco Mundial e o fosso entre ricos e pobres Segundo M’Bokolo, a África Austral é a sub-região do continente mais bem sucedida em termos de comunidade política e económica, comparando-se favoravelmente com outras que mal funcionam como a CEDEAO (África Ocidental) ou a União do Magreb. No entanto, apesar da sua estabilidade, ele acha que é questionável que a África Austral seja um polo de desenvolvimento, e um dos seus Estados membros, o Zimbabwe, é o exemplo mais evidente dessa vulnerabilidade. (...) “Num país como o Zimbabwe, existem problemas de gestão económica e outros que são consequência da geografia, da seca e dos riscos devidos aos problemas alimentares”.

Por outro lado, ele pensa que a economia globalizada coloca desafios difíceis e a África do Sul, como Estado, corre o risco de ser “o lugar da polarização desta economia sub-regional com a economia mundial”.

Sobre Moçambique, diz-se surpreendido por o país ser apresentado como referência, porque “a imagem que tenho de Moçambique é de um país pobre, do ponto de vista de recursos materiais. No plano dos recursos humanos tem feito um grande esforço desde a independência para formar quadros, mas ainda não chegámos ao circulo virtuoso em que os recursos humanos são suficientemente fortes para produzirem uma economia moderna, que levaria ao ciclo de uma economia do conhecimento”.

Diz que a economia moçambicana é extremamente dependente dos investidores estrangeiros, principalmente sul-africanos, e critica os critérios da sua avaliação.

“O FMI e o Banco Mundial baseiam-se em critérios macro-económicos para dizer que tal país vai bem em relação a um outro, para avaliar o orçamento, os preços, o mercado, etc.. Mas hoje sabemos que essa não é a regra. O desemprego é muito grande em Moçambique; a insegurança não desapareceu completamente. Mas observa-se algo muito positivo: o optimismo das pessoas, que estudam muito. Os cursos nocturnos no ensino superior são um sucesso.

Todavia, tem-se a impressão de que a juventude moçambicana não vê uma perspectiva de futuro, o que é perturbador. O fosso entre ricos e pobres acentuou-se muito. As formas ostensivas da riqueza são hoje maiores do que há quinze anos; alguns gostam de exibir o que têm e dão a impressão de que estão hoje mais ricos do que eram em 1993. Pelo contrário, os outros são tão pobres e tão numerosos! Tudo isto põe problemas inquietantes, que não permitem fazer de Moçambique um modelo”.

Estado Unitário ou federal?

Quando os entrevistadores lhe perguntam se concorda com os que dizem que Moçambique, sendo um país multi-identitário, devia ser um estado federal, M’Bokolo evoca o seu conhecimento directo:

“Moçambique é um destes países do Oceano Índico muito problemáticos. Recordo-me que, em 1993, numa conferência nacional sobre cultura, em Maputo, a questão da moçambicanidade levantou muitas questões. Será que este conceito corresponde à realidade?

Para alguns, que poderemos considerar como integristas culturais, Moçambique seria um país africano, negro e bantu. Isto põe muitos problemas. Será que a africanidade é uma identidade suficientemente forte?

A bantuidade, o facto de falar determinadas línguas, é uma identidade suficientemente forte para definir um povo? Junto com outros, tentei demonstrar que há uma pluralidade muito grande inscrita numa história muito longa. Não foi a colonização que introduziu a pluralidade”.

O historiador diz que em Moçambique não se pode falar de negros e brancos porque há outras componentes, que esta pluralidade é uma coisa boa para Moçambique, e que se devia explorá-la em vez de a ver como elemento negativo.

“Houve uma altura em que se manifestou uma significativa xenofobia contra os indianos. Na Universidade Eduardo Mondlane, assistiu-se a formas de xenofobia e racismo. E fomos muitos a dizer que se tratava de um desvio muito perigoso e em contradição com a aposta democrática de Moçambique. A democracia não é uma questão de raça ou etnia; em democracia não existem macrogrupos, mas sim indivíduos nos lugares onde vivem”.

Sobre o federalismo, afirma que nos países africanos pode ser boa uma estrutura federal que desloque algumas alavancas do poder para a base como garantia de democracia e que num Estado ainda recente e frágil, excessivo centralismo pode ser mau: “Moçambique visto de Maputo é absurdo”,

diz M’Bokolo, sublinhando que um poder significativo nas regiões pode ser bom, desde que não caia em critérios de exclusão étnica, “como uma zambezianidade na província da Zambézia por exemplo, onde a cidadania seria só para a gente da Zambézia. Tratando-se de uma cidadania nacional, as pessoas exercem-na no local onde vivem”. E conclui: “Muitos países africanos ainda não conseguiram organizar este federalismo. O da Nigéria tende a caminhar para o exclusivismo étnico”.

Oposição e Democracia

A propósito dos maus resultados eleitorais da RENAMO, nas eleições de 1994, 1999 e 2004, depois de uma posição de força nas negociações que conduziram ao Acordo de Paz, e das consequências disto para a estabilidade do Estado e para a democracia, M’Bokolo diz que, “após os Acordos de Paz, esperava-se que Moçambique se quisesse soltar da coleira do partido único, e que as grandes formações políticas moçambicanas fossem suficientemente fortes para dialogar uma com a outra, e depois se passasse a uma verdadeira alternância política, permitindo à RENAMO e à antiga oposição não armada participarem no poder, ou talvez, exercerem o poder. As primeiras eleições multipartidárias permitiram à RENAMO ter uma forte participação. Depois, parece-me que surgiram vários factores, falo a partir do vivido. Primeiro, no interior da FRELIMO, havia muita gente que não achava que a FRELIMO devia deixar o poder”. M’Bokolo acrescenta que “existe uma espécie de discurso nacional em Moçambique, onde as pessoas consideram que o único partido legítimo é a FRELIMO de Mondlane e Machel que fizeram a guerra, etc.. Isto leva a desacreditar completamente os outros, sobretudo a RENAMO. A FRELIMO hoje está dividida em diversos grupos e esferas de influência, e a RENAMO atravessa dificuldades ainda maiores: está fraccionada em tendências e, ao contrário da FRELIMO, não conseguiu dotar-se de uma verdadeira elite intelectual (…) não conseguiu, desde 1993, agregar à sua elite politico-militar intelectuais que permitam credibilizar mais a RENAMO e dotá-la de um discurso e de um programa que correspondam ao Moçambique de hoje no lugar daquele que já tem 15 ou 20
anos”.

Sublinha ainda que “do lado da FRELIMO, estamos a ver esta elite a emergir, apesar dos velhos dinossauros marxistas lá continuarem a não querer mudar nada. Deste ponto de vista existe um verdadeiro perigo de Moçambique continuar um país de partido único. Isto é tanto mais grave quanto a oposição não-armada nunca conseguiu emergir. Talvez o factor étnico tenha aqui um papel. Como a oposição não está associada ao poder, falta-lhe material para se organizar e falta-lhe enquadramento.

Poderia haver individualidades fora das formações políticas, com prestígio suficiente para abalar o frente a frente RENAMO-FRELIMO, como professores universitários ou personalidades religiosas, mas isto ainda não se verificou. A tradição frelimista e marxista do intelectual orgânico sem dúvida continua a ter peso”.

Os intelectuais moçambicanos
Sobre a intelectualidade em Moçambique, M’Bololo diz: “Discuti muito com intelectuais em Moçambique para saber se existiam mesmo intelectuais moçambicanos”, diz M’Bokolo. “Um intelectual assume uma liberdade de análise, de abordagem, de tom e de palavra. Esta postura ainda não se institucionalizou na sociedade moçambicana. Conhecemos romancistas, artistas, universitários muito talentosos, mas são todos pessoas que continuaram técnicos, especialistas na sua área. Era preciso que pudessem exprimir-se sobre os grandes problemas do país e dizerem certas verdades, por exemplo, que um Estado frelimista não pode persistir e mostrar os perigos disso! Que é possível fazer?

Ainda não chegámos aí. Temos técnicos do saber e da cultura mas ainda não há uma intelligentsia em tanto que tal. Entretanto em países como o Senegal, o Quénia, o Gana e a Nigária, vemos intelectuais a debaterem os interesses do país, a tomar posições e a fazer avançar a sua resolução”.

No que diz respeito às Ciências Sociais em Moçambique, M’Bokolo diz ter acompanhado a chamada crise da UFICS (Unidade de Formação e Investigação em Ciências Sociais) da
Universidade Eduardo Mondlane, em 2000/2001, cujo desfecho acabou por reduzi-la a um
departamento da Faculdade de Letras da UEM.

Sobre este assunto, ele diz: “As ciências sociais em Moçambique têm uma história apaixonante porque estiveram misturadas com a luta de libertação. Em vez de se regozijar com isso, a FRELIMOcompreendeu que as ciências sociais podem ser subversivas.

Atemorizou-se e quis controlá-las e mesmo suprimir o seu ensino. As pessoas na Universidade bateram-se para lhes restituir o seu papel de ciência e de uma autonomia verdadeira. Os debates em torno do Centro de Estudos Africanos e da UFICS mostraram que o medo persiste, quando Moçambique tem a oportunidade de ter ciências sociais piloto, que ultrapassam a simples sociologia, a antropologia e o direito.

Mas estas disciplinas estão ligadas à história, à filosofia e põem a par os estudos no terreno e as discussões mais abstractas. Ora, nos países emergentes, a vantagem seria ter ciências sociais a um nível mais elevado, como em França e em certas universidades de excelência nos Estados Unidos, onde há uma mistura de especulação e de pesquisa no terreno e também entre os investigadores que são quer teóricos, quer empenhados na prática social.”

Que ele tinha a UFICS em grande estima reflecte-se no apelo para que ela seja autonomizada: “Pela sua história particular, Moçambique (e talvez Angola e a Guiné-Bissau) é um país onde se podia autonomizar a UFICS e fazer dela uma universidade de pleno direito, mais do que um Departamento da faculdade de Letras. Nesse caso estou quase certo que podia rivalizar com as melhores universidades da África do Sul. Para isso, é preciso que a FRELIMO renuncie ao atavismo de querer controlar a produção das ciências sociais – essa velha herança do marxismo estaliniano – e que, por outro lado, os universitários moçambicanos se assumam como intelectuais para quererem libertar-se do partido e do Estado e tornarem-se autónomos. Sem isso, o país manter-se-á num academismo bastante tradicional. África e Moçambique não precisam de um academismo que repete o que se faz em todo o lado, precisam sim de algo mais ambicioso, de inovar nas ciências sociais e empurrar o país para a frente”.

A sua visão para que Moçambique e a África, em geral, saiam da actual encruzilhada é um pelo “aos mediadores culturais e sociais, às elites e aos dirigentes africanos” para que se deixem de especular sobre a cooperação, negligenciando as questões da sociedade real. “Tudo separa as personalidades e a gente do poder que passam o tempo nos 4x4 e em casas climatizadas, assistindo às televisões mundiais, e um povo que se desenrasca sozinho. E se esta situação se mantiver, pode temer-se que a África atravesse o século XXI sem avançar um dedo”.

Edição de Maria de Lourdes Torcato (Extraído e traduzido de Latitudes –
Cahiers Lusophones nº 25)

SAVANA Maputo 230207

Brazão

Fernando Lima(*)

Está para breve a saída do reitor da mais antiga universidade pública moçambicana. Para o bem e para o mal, Brazão Mazula moldou os destinos da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) durante mais de uma década.Longe vão os tempos do ex-sacerdote doutorado no Brasil que conduziu com notável sucesso as primeiras eleições multipartidárias moçambicanas.
Foi com uma auréola de cultura, sabedoria e espírito de tolerância que Mazula chegou à academia, dominada desde a independência pelo mesmo inequívoco sinal político.
Foi provavelmente um presente envenenado o que lhe ofereceram. Mazula ofuscava as figuras de proa do regime, não exibia cartão partidário, nunca se eclipsou da órbita do catolicismo e poderia ser claramente um candidato presidencial independente.
O presente envenenado transformou-se em casca de banana. Embora não estejam ainda hoje claramente definidos todos os contornos das várias contestações estudantis, muito do que foi feito tinha como objectivo o desgaste de Mazula. Maquiavelismos orquestrados pelas mesmas forças que levaram o homem de paz e consensos à reitoria.
O resto, com o decorrer dos tempos, foram tiros nos pés e o inexorável jogo da aranha e da sua teia pegajosa.
Académico que leva a sério o imperativo de publicar, certamente que Mazula não nos deixará de brindar com as suas próprias reflexões sobre a UFICS(Unidade de Formação e Investigação em Ciências Sociais), uma mancha indelével no percurso da UEM, só comparável com o encerramento unilateral da Faculdade de Direito nos anos 70.
Como se a direita revanchista, humilhada no encerramento da Faculdade de Direito se vingasse na UFICS, eliminando um foco de pensamento independente, depois dos sucessivos lampejos intelectuais desde 1975 na Faculdade de Economia, no Centro de Estudos Africanos, no nado morto que foi a Faculdade de Marxismo e que não era suposta de seguir a cartilha ortodoxa dos “mestres” despachados a partir da RDA.
Perdida a honra, o resto são jogos de poder e baixa política. Exonerações arbitrárias, favores a académicos e estudantes, um saco azul disponível para jornais e jornalistas, jogos de cintura para contornar auditorias e inquéritos a fundos mal utilizados, perseguição aos que colocavam reticências em comer à mesa do rei.
Embora tenha sido o punho de Brazão Mazula que exonerou os académicos Eduardo Namburete e Ismael Mussá, este acto de clara intolerância política evidencia os poderosos tentáculos que acabaram por engolir e vitimar o reitor que um dia veio das terras longínquas do Niassa.
Se dúvidas existiam sobre os caminhos aziagos porque corre a democracia minguada de Moçambique, Brazão Mazula e o seu consulado à frente da UEM oferecem-nos inúmeros e multifacetados estudos de caso. Na hora da partida, estou curioso em conhecer o novo Brazão Mazula. O que conheci nos tempos conturbados do Acordo Geral de Paz.

(*) Espinhos da Micaia

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Circuncisão reduz para metade riscos de infecção pelo vírus da Sida

A circuncisão reduz para metade os riscos de infecção pelo vírus da Sida (HIV), segundo resultados, publicados na revista médica britânica The Lancet, de duas experiências efectuadas no Quénia e no Uganda.

Os resultados confirmam os de um estudo semelhante e anterior efectuado na África do Sul.

O estudo que foi levado a cabo em Kisumu, no Quénia, e abrangeu 2.784 homens seronegativos (entre eles 1.391 circuncidados), com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos, concluiu que o risco de contrair o vírus pelos homens circuncidados era reduzido em pelo menos 53 por cento.

O segundo estudo, no qual participaram 4.996 homens com idades compreendidas entre os 15 e os 49 anos, e que foi efectuado em Rakai, no Uganda, demonstrou uma redução do risco de infecção em pelo menos 51 por cento dos circuncidados.

Durante os dois estudos, 65 e 69 participantes terão sido infectados com o vírus: 22 circuncidados e 43 não circuncidados no Uganda; 22 circuncidados e 47 não circuncidados no Quénia, segundo dados comunicados pelo Instituto Nacional das Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID), nos Estados Unidos, que participou no financiamento dos estudos.

Um estudo precedente, efectuado entre 2002 e 2005 na África do Sul, pela Agência Nacional de Investigação sobre a Sida (ANRS), em França, e que abrangeu 3.274 homens, havia demonstrado que a circuncisão reduzia em 60 por cento o risco de infecção masculina.

"Os três ensaios (Ó) fornecem agora a prova que o risco de contrair HIV é reduzido em cerca de metade pela circuncisão masculina", afirmam Marie-Louise Newell e Till Barnighausen (Universidade de KwaZulu-Natal na África do Sul, Harvard School of Public Health).

"No entanto, a circuncisão masculina não dá uma protecção a 100 por cento e os preservativos continuam a ser uma parte importante na prevenção do vírus da sida", pode ler- se na revista The Lancet.

Calcula-se que a circuncisão pode evitar 35.000 novas infecções em 2007, em cerca de 2,5 milhões de homens da província sul-africana KwaZulu-Natal, onde a incidência de infecção pelo HIV é muito elevada, e a taxa de circuncisão é até agora muito baixa.

É necessário agora que haja uma grande prudência nas políticas que encorajem a circuncisão. Pensar estar protegido pode conduzir a uma redução da utilização do preservativo, e a um maior número de riscos, alertam os especialistas.

A necessidade de assegurar a circuncisão em boas condições higiénicas foi também um alerta lançado pelos especialistas.

O efeito protector da circuncisão pode estar ligado à transformação da mucosa, rica em células imunitárias alvo do HIV, que recobre a glande.

Após a operação, uma camada protectora de células epiteliais, semelhantes às que cobrem a pele, forma-se sobre a mucosa, "o que limita a entrada viral nas células alvo do HIV que se encontram por baixo", afirmam Robert Baley, da Universidade de Chicago, e os seus colegas que participaram no estudo levado a cabo no Quénia.

Agência LUSA (2007-02-23)

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Prospectiva

Afonso dos Santos(*)

Pode parecer, por vezes, que há, nesta escrita, uma insistência em alguns temas, que acabam por tornar-se repetitivos. Mas enquanto os mesmos problemas subsistirem repetitivamente, enquanto persistir teimosamente a política de colocar as mordomias para algumas minorias sociais acima dos interesses da nação e das necessidades da população, então não há outro caminho a seguir que não seja insistir sobre os mesmos temas, sempre e sempre, até que mude a situação vigente e persistente.

Um desses temas é a questão: o que é que os académicos, de quem tanto se fala, andam a fazer? Curiosamente, parece haver académicos aos montes, mas raramente se fala de intelectuais e da sua responsabilidade social. Esta raridade pode ter a sua lógica, porque parece que os “académicos” se tornaram uma espécie de figuras decorativas do aparelho burocrático dirigente, enquanto os intelectuais são geralmente praticantes do pensamento crítico e produtores de ideias novas e férteis. Em suma, são uns indesejáveis. Mas aquilo a que se tem assistido é a uma angustiante colagem ao discurso do poder político, até ao nível mais anedótico. Um dos grupos profissionais que constitui a camada social dos intelectuais são os jornalistas.

Veja-se agora um exemplo: numas comemorações políticas recentes, um funcionário do protocolo, anunciando o que se ia seguir, usou a pomposa e ridícula expressão “sessão gastronómica”, para substituir a modesta palavra “refeição”, ou “almoço”, ou, mais solenemente, “banquete”. Pois bem, em face disso, uns jornalistas que faziam a reportagem da cerimónia, não usaram, daí em diante, nenhum outro vocábulo que não fosse “gastronomia”.

Mas será que a febre da subserviência e a ânsia de alguma promoçãozinha os endoideceu de vez? E será por causa desse delírio seguidista que não conseguem sentir um mínimo de vergonha? Por este caminho, que ideias é possível gerar sobre o futuro? É aqui que aparece a prospectiva.

E o que é a prospectiva? É uma ciência, “que tem como objecto de estudo o futuro, nomeadamente as razões que aceleram a evolução do mundo moderno (progresso das comunicações, multiplicação do poder técnico). (...) ela consiste em ver longe – e globalmente – para modificar em profundidade qualquer projecto de acção. (...) A prospectiva deveria ser antes de mais uma ciência ao serviço dos governantes.” (Dictionnaire de la Philosophie, Didier Julia, Librairie Larrouse, Paris, 1964).

A prospectiva, como ciência particular, foi criada pelo filósofo Gaston Berger. Ser uma ciência ao serviço dos governantes não significa que os cientistas estão ao serviço da política. Até pelo contrário: significa que, em vez de serem serventes do poder, que repetem o que os governantes dizem, põem os governantes a falarem – e sobretudo a fazerem – de maneira diferente, porque estes recebem dos cientistas informação e saber. Se quiserem, claro!

Aliás, a prospectiva, geralmente, é praticada por institutos criados por iniciativa privada (associações ou grupos de empresários, grupos de imprensa), que vendem os seus serviços a quem fizer encomendas, sejam organismos estatais, sejam entidades privadas.

O livro “Como viveremos em 1980”, de vários autores, contém muita matéria sobre a prospectiva. Nele, Louis Armand, outro dos fundadores dessa ciência, alerta: “Uma comissão composta por personalidades indiscutíveis, mas com muito pouco tempo, poderá sem dúvida ‘prever’, mas nunca fazer prospectiva. (...) Seria necessário um organismo permanente trabalhando sempre, uma equipa composta por especialistas e por eruditos. Uma espécie de conselho de aperfeiçoamento do humanismo, da civilização”.

A prospectiva não tem nada a ver com a elaboração de planos político-económicos de longo prazo que estabelecem objectivos e metas. Isso são decisões, e não predições, sobre o futuro.

Um grupo de prospectiva pode funcionar, por hipótese, do seguinte modo: a cada um dos membros do grupo solicita-se que escreva quais são, na sua opinião, os principais problemas que Moçambique poderá enfrentar no futuro (serão na área da política, da economia, da ecologia, da educação?). Mas é preciso concretizar cada problema. Será a falta de água potável? Será a concorrência com os países da região? Será a ignorância galopante e a falta de cultura da geração das mensagens de celular?

Juntando as respostas dos diferentes elementos do grupo, faz-se a verificação sobre quais são as mais frequentes e passa-se a trabalhar sobre elas, tomando como base a seguinte questão: Quais as decisões que é preciso tomar no presente, para agir sobre o futuro, evitando problemas já hoje predizíveis? Seguem-se algumas questões talvez prospectivas. Quais serão os efeitos futuros da formação dum número excessivo de licenciados?

Por outras palavras: o mercado de trabalho vai ter capacidade e necessidade de absorver a quantidade de licenciados que estão actualmente a ser formados? Para que servem todas essas instituições do ensino superior que estão a ser criadas? Que qualidade de ensino será possível assegurar? Qual é a qualidade do corpo docente dessas instituições? Quais são todas as possíveis consequências futuras da extracção desenfreada dos recursos florestais? Qual será o processo social por meio do qual se desenvolverão e consolidarão novos grupos ou classes sociais, com espírito patriótico e sentido de responsabilidade, que serão capazes de criar uma alternativa política, a qual, em vez de vender, defenda os recursos naturais do país e, em vez de desbaratar, preserve e amplie o património cultural e a sabedoria do povo moçambicano? E como é que se poderá acelerar esse processo? Talvez através da prospectiva!
(*)Savana

Ilha de Moçambique : Município não paga água

A empresa Águas da Ilha de Moçambique está em “guerra” com o Conselho Municipal da mesma região, tudo por causa de uma dívida acumulada, resultante do consumo de água, nos últimos três anos, estimada em mais de 62 mil meticais, valor que tende a subir mensalmente, e que supostamente a edilidade não se mostra disponível a pagar.

Esta dívida, segundo apurou o “Notícias”, resulta do consumo de água pelos diferentes sectores da edilidade, nomeadamente da urbanização, para garantir a manutenção dos jardins públicos, do mercado novo, e do edifício onde funciona a edilidade, no período que vai desde meados de 2003 a esta parte.

Várias foram as vezes que a empresa Águas da Ilha de Moçambique efectuou cortes no abastecimento do precioso líquido aos locais e instalações acima citadas, mas, segundo dados da empresa, a edilidade orientou os seus técnicos no sentido de restabelecerem o fornecimento, gesto que viola as normas previstas passível de multas.

A directora da empresa Águas, Arina Molumo, confirmou os factos, e acrescentando que a dívida é referente ao consumo, não pago, num período de três anos, como pelo, restabelecimento do abastecimento de água de forma ilegal, fixado em 1.600 meticais até o momento.

Arina Molumo precisou que as autoridades municipais enviaram, em Setembro último, os seus emissários para negociar as modalidades de amortização faseada da sua dívida, proposta prontamente aceite pela direcção daquela empresa encarregue de fornecer água à ilha.

“Porque nós privilegiamos o diálogo com qualquer dos nossos clientes, e oferecemos várias modalidades de amortização das respectivas dívida e foi o que fizemos com o Conselho Municipal”, explicou.

A nossa interlocutora lamentou, contudo, o facto de até ao momento a edilidade, sob gestão da Renamo, não ter esboçado qualquer gesto que simbolize a sua vontade de honrar os compromissos assumidos para amortização da dívida.

Estas afirmações são consubstanciadas pelo facto da edilidade da Ilha de Moçambique, através do vereador de Administração e Finanças, Abdul Rahimo Satar, ter dito ao Governador de Nampula, Felismino Tocoli, que a empresa de águas local estava a perseguir o Conselho Municipal, usando mecanismos antidemocráticos, ou seja o levantamento de dívidas passadas, referentes ao consumo de água.

O vereador chegou a afirmar que a dívida não era apenas do seu mandato, mas do mandato anterior dirigido por Abdul Satar Naimo, da Frelimo, e que por conseguinte, não via razões para que fossem imputadas à edilidade, pois, isso visava pura e simplesmente denegrir a imagem da oposição.

No entanto, Arina Molumo, disse que a empresa Águas da Ilha de Moçambique não vai abdicar de cobrar os valores devidos pela edilidade, e já tem previsto um encontro com o governador da província, para em conjunto encontrarem uma solução que visa obter garantias para o pagamento do valor em dívida.

Segundo Molumo, o mesmo é necessário para ajudar a cumprir algumas obrigações com fornecedores de produtos para o tratamento da água, assim como o pagamento de salários aos seus funcionários.

Salientar que a edilidade da Ilha de Moçambique não paga salários aos seus funcionários incluindo o presidente desde o ano passado, alegadamente pela incapacidade de gerar receitas, o que terá valido uma censura por parte do governador de Nampula que instou os órgãos autárquicos a serem mais criativos na procura de soluções para ultrapassar as suas dificuldades financeiras.

Notícias, 2007-02-22

PACODE censura Oposição Construtiva

O PARTIDO do Congresso Democrático (PACODE) não vê com bons olhos os projectos desenhados pela coligação PIMO/Oposição Construtiva, indicando que muitas promessas feitas são só “para inglês ver”.

Depois de muito silêncio Vasco Campira Momboya, presidente do PACODE acabou abrindo a boca para explicar as causas da sua saída daquela coligação. Explicou que decidiu afastar-se daquela união precisamente por não haver clareza quanto aos objectivos que se pretendem alcançar.

“Qualquer partido político aspira o poder. Na coligação fala-se de reconstrução das lojas destruídas pela guerra. Da construção de escolas, estradas, pontes etc. Fala-se do combate a pobreza absoluta. Afinal qual é a agenda”?, questionou Momboya, acrescentando que pelo que sabe da política essa não é tarefa dos partidos políticos.

O presidente do PACODE disse que mesma na Europa,onde a democracia está desenvolvida e consolidada, os partidos nunca se envolvem na construção de estradas, escolas e pontes.
“Os partidos politicos fiscalizam a actividade do Governo. Apontam os erros e apresentam soluções”, frisou.

A fonte indicou ainda que os partidos políticos, sobretudo em África, estão à procura de financiamento para melhor se posicionarem no cenário político e não para executar agendas à responsabilidade do Governo.

Ao se pronunciar nestes termos, Vasco Momboya manifestava as suas reservas quanto a proveniência dos fundos com os quais a coligação PIMO/oposição construtiva pretende levar a efeito as suas agendas.

“Não quero acusar a ninguém, mas conheço as dificuldades por que passam os partidos políticos para a sua insercção. Não tem dinheiro. De onde vem o financiamento do PIMO”?, questionou Vasco Momboya.

Referiu que, por duvidar da proveninência de tais financiamentos decidiu de livre e espontânea vontade afastar-se da coligação para que o seu nome bem como o do partido que dirige não sejam um dia associados ao mal.

Disse que não precisou de escrever a coligação sobre as razões da sua saída nem sequer comunicar oficialmente para evitar possíveis aliciamentos.

“Durante muito tempo analisei a génese da coligação econclui que não me devia imiscuir em assuntos de natureza duvidosa. Não estava seguro naquele projecto e sai”, disse, salientando que não está arrependido pela posição que tomou.

Salvaguardou que entre ele e Yá-qub Sibindy não há crise de espécie alguma, apenas decidiu afastar-se do projecto da coligação por não concordar com a sua filosofia.

“Mas Sibindy continua a ser um grande amigo meu. Só não comungamos dos mesmos ideais
na concepção da coligação” salientou.

CRISE NO CPDM DEVE ACABAR

Num outro desenvolvimento, o presidente do PACODE afirmou que depois de abandonar aquela coligação decidiu juntar-se ao Centro de Promoção da Democracia Multipartidária (CPDM) – um fórum de partidos políticos que visa promover a união, o diálogo e debate de questões da vida nacional.

Porém,segundo a mesma fonte, o CPDM está agora a braços com uma crise derivada da falta de entedimento entre alguns dos seus membros. Lamentou por este facto acontecer numa altura em que o CPDM caminhava rumo a uma coesão que o conduzisse a participar nos próximos pleitos eleitorais.

“A crise deve ser saneada da nossa organização. Temos projectos sérios por realizar e não podemos perder tempo com coisas mesquinhas”, afirmou Vasco Momboya implorando as partes divergentes a sentarem à mesma mesa na procura de soluções para a crise.

Mesmo sem ir ao detalhe,a nossa fonte indicou que a crise deriva do facto de existirem duas alas, sendo uma encabeçada por Raul Domingos, do PDD e outra por André Balate, do PARENA.

“Talvez não interesse tanto chamar para aqui os pontos divergentes. Importa, isso sim, chamar as partes a se entender dentro daquilo que são os acordos estabelecidos. É que enquanto nos digladiamos, os nossos adversários vão somando pontos e os resultados disso serão vistos nas eleições”, potenciou a fonte.

Notícias, 2007-02-22

Oposição Construtiva fala da sua experiência no exterior

O PRESIDENTE do Bloco da Oposição Construtiva, Ya-qub Sibindy, disse ao nosso jornal que quadros desta coligação vão realizar uma digressão por diversas países da região, Brasil, China e Suécia, com o propósito de divulgarem a experiência do chamado modelo de “orientação construtiva”.

“Para explicarmos a génese desde novo modelo de orientação política, quadros da nossa organização vão visitar, brevemente, alguns países da região, nomeadamente Zimbabwe, Malawi, Zâmbia, assim como a China, Brasil e Suécia”.

Segundo explicou, o que marca a diferença entre os partidos da “orientação construtiva” e outras linhas políticas, “é o facto de nós não esperarmos alcançar o poder para participarmos no desenvolvimento do nosso país. A nossa filosofia é apresentar realizações para daí angariarmos simpatias dos eleitores e, por via disso, chegarmos ao poder”.

Num outro desenvolvimento, o nosso entrevistado informou ao nosso jornal a realização em Julho próximo, do I Congresso da coligação. Trata-se de um encontro que servirá para a definição de estratégias conducentes à participação do Bloco nas eleições provinciais agendadas para o ano corrente, autárquicas de 2008 e legislativas e presidenciais do ano seguinte.

Segundo Ya-qub Sibindy, enquanto o ano de 2005 foi dedicado à procura de espaço no cenário político nacional, 2006 foi o ano de legalização da coligação, sendo que no ano em curso a prioridade é estruturar a organização.

“É neste congresso onde serão definidas as tarefas de cada órgão e pretendemos deixar claro que independentemente da indicação dos deputados e ministros sombra, o espaço estará aberto para todos os moçambicanos que quiserem deixar as suas contribuições poderem fazê-lo livremente”, disse Ya-qub Sibindy.

O nosso entrevistado disse serem prioridades do grupo a formação dos seus quadros a todos os níveis em matéria de estratégia eleitoral, criação da comissão logística e de angariação de fundos para as eleições provinciais e autárquicas. O Bloco espera ainda formar gabinetes centrais e provinciais de eleições, a concepção e produção de material de propaganda eleitoral, capacitação de fiscais do processo eleitoral e outras actividades.

Notícias, 2007-02-22

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Governo prevê quadro preocupante na bacia do Zambeze

A situação de cheias na bacia do Zambeze poderá atingir "um quadro preocupante" nas próximas duas ou três semanas, admitiu no domingo o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades de Moçambique (INGC).

Mais de 85 mil pessoas foram desalojadas pelas inundações que afectam há algumas semanas aquela região do centro de Moçambique e destruíram também milhares de hectares cultivados.

Num balanço de um encontro realizado no domingo na Beira, capital da província de Sofala, também fustigada pelas intempéries, o ministro da Administração Estatal, Lucas Chomera, os governadores das quatro províncias do centro moçambicano e os responsáveis do INGC previram para as próximas semanas um agravamento do cenário de cheias naquela região do país.

Já no domingo, o Governo havia anunciado que se mantinha o "alerta vermelho" no vale do Zambeze, apesar de ter declarado o fim das operações de resgate de pessoas ameaçadas pelas águas.

Na origem dessa situação, está "a contínua subida dos níveis hidrométricos nas estações de Mutarara, em Tete, Caia e Marromeu, em Sofala", na sequência de um novo pico de cheias superior ao que aconteceu em 2001 na bacia do Zambeze.

O plano de intervenção concebido pelo Governo moçambicano prevê que 285 mil pessoas sejam afectadas pelas cheias, das quais 142 mil deverão passar pelos centros de acomodação.

Com o deteriorar da situação, o Governo viu-se forçado a aumentar o fundo do Plano de Contingência para mais de três milhões de euros.

Notícias Lusófonas (20/02/2007)

FALTA DA PONTE CONDICIONA DESENVOLVIMENTO DE LUNGA

Distrito de Mossuril

A falta da ponte sobre rio Monapo, está a condicionar o desenvolvimento social e económico do posto administrativo de Lunga, distrito de Mossuril, província de Nampula.
O governo distrital diz que estudos preliminares efectuados apontam para cerca de 250 mil dólares o valor necessário para financiar a construção da ponte de betão que desabou há mais de uma década devido a força das aguas.
A nossa reportagem apurou que várias iniciativas visando promover o desenvolvimento sócio económico de Lunga, com uma população estimada em 24 mil habitantes, levadas a cabo por diferentes parceiros do governo, não têm alcançado os objectivos preconizados, devido a dificuldades de acesso.
Neste momento a ligação rodoviária com Lunga, a partir da sede distrital de Mossuril, é feita por uma via alternativa que obriga os automobilistas a ter que passar pelo distrito vizinho de Monapo, um percurso de cerca de cem quilómetros contra menos de cinquenta quilómetros em relação à via normal que se encontra obstruída neste momento devido ao desabamento da ponte, provocada pelas intempéries influenciadas pelo ciclone “Nadia”.
Em Lunga falta quase tudo, menos os produtos agrícolas que são abundantes, pois, a região é potencial produtora, razão porque é apelidada de celeiro dos distritos de Mossuril e da Ilha de Moçambique, aos quais, entre muitos cereais, fornece milho, mapira, além de hortícolas, incluindo gado ovino, caprino e bovino para o consumo das populações.
Contudo, as populações lamentam- se da falta de unidades sanitárias, concretamente de serviços de maternidade o que obriga as parturientes a fazer longas e antecipadas viagens para a sede distrital de Mossuril ou cidade da Ilha de Moçambique, onde vão aguardar pelo momento do parto.
Lamentam-se, igualmente, da falta de projectos sociais desenvolvidos por organizações não governamentais nacionais e estrangeiras viradas para a elevação da qualidade de vida das populações locais, através de microprojectos para a geração de emprego de da renda das famílias.
Os distritos que circundam Lunga, nomeadamente Ilha de Moçambique, Monapo e a própria sede distrital de Mossuril e alguns postos administrativos, beneficiam todos eles de fornecimento de energia eléctrica produzida na Cahora Bassa. A exclusão de Lunga do beneficio daquele produto, segundo apuramos, deriva das dificuldades de acesso, pois, no tempo chuvoso, fica isolado do resto da província em face da subida do caudal do rio Monapo.

WAMPHULA FAX - 20.02.2007

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O perigo amarelo

Espinhos da Micaia

Por Fernando Lima

O chinês mais popular do meu bairro era um cobrador da água e electricidade, quando os dois serviços pertenciam à municipalidade da cidade.
Era alto e desengonçado e, se a memória não me falha, chamava-se Lee Tat Kan. O chinês da minha estória iria ficar ligado à história do "cinema" colonial com o seu protagonismo numa "burrada" que tinha por título "O Zé do Burro". O nosso amigo Lee era no filme, não o Bruce, mas o "perigo amarelo" que a "agit-prop" colonial agitava quando pretendiam colar o movimento de libertação à cínica agenda dos interesses sino-soviéticos para África.
O nosso Lee, à data da independência foi para Portugal, provavelmente convencido que os seus parentes da China continental, vinham por aí a todo o gaz fazer uma nova colonização de Moçambique. Há uns anos, quando me perguntou pela saúde de Moçambique num bar do Bairro Alto em Lisboa disse-lhe que não havia paraíso comunista em Moçambique. Fez um sorriso amarelo. Só podia.
Trinta anos depois, o "perigo amarelo" parece um tema recorrente em África.
A punjante economia chinesa precisa de matérias primas, tem rios de dinheiro para as depauperadas finanças públicas africanas e não faz perguntas embaraçosas em matérias ambientais e dos direitos do homem.
As "nomemklaturas" do continente rejubilam e agradecem.
A caricatura, porque é isso mesmo, caricatura, não tem que ser necessariamente verdadeira. O investimento directo estrangeiro está na ordem do dia e os governos do continente procuram negociar com os seus parceiros internacionais negócios vantajosos. Em princípio, para todas as partes envolvidas.
Um boa estrada, que cumpra os parâmetros estabelecidos nos cadernos de encargos, é tão boa feita por italianos, sul-africanos ou chineses. Colocar à partida reticências porque o engenheiro é chinês é pura e simplesmente preconceito.
Quem vai à loja de ferragens deve estar preparado para escolher entre a quinquilharia que os empresários moçambicanos vão buscar à China e o mesmo tipo de material que outros ou os mesmos empresários moçambicanos importam de outras paragens ou de fábricas chinesas com outros padrões de qualidade.
O problema não está portanto nos chineses, mas no que as contrapartes definirem qual é o papel e o espaço chinês nas suas economias.
Os golpes de "kung fu" que são aplicados aos trabalhadores moçambicanos ferem tanto a sua auto-estima como os insultos de um colonialista português ou as "sepulturas" vivas infligidas por empresários sul-africanos aos moçambicanos que trabalham nas estâncias turísticas de Inhambane. Agressão é agressão. O roubo de recursos marinhos não muda de nome porque é praticado por "camaradas "chineses". Os ataques à floresta moçambicana não são pilhagem se forem feitos por nigerianos e tanzanianos para passarem ao corrente autismo só porque um bando de corruptos acolitados na "nomenklatura" e sempre com a boca cheia de patriotismo estão prontos a hipotecar o país a herdar pelas gerações futuras. Parece haver uma estranha amnésia para a defesa do interesse nacional que faz parte da ementa do nosso dia a dia político. Como acontece com os torcionários do "apartheid", os mesmos que assassinaram Ruth First e os seus companheiros no "campo quatro" e se transformaram em respeitáveis parceiros de negócios em Maputo e Luanda.
Não há perigo amarelo como pensava o bom do Lee Tat Kan.
Mas há falta de muitas outras coisas para que o país não se transforme, em definitivo, numa enorme coutada.
De papel timbrado e despacho em Boletim da República.
SAVANA - 02.02.2007

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Partido Frelimo partidariza Eduardo Chivambo Mondlane

Com festa de arromba

Maputo (Canal de Moçambique) - No seu já habitual esforço de tornar a sua formação política hegemónica e absolutista no cenário político moçambicano, o presidente da República e também do partido Frelimo, Armando Guebuza, ensaiou no passado dia 3 de Fevereiro aquilo a que certas correntes de opinião já denominam de “uma etapa de adulteração da história recente de Moçambique”. No meio de pompa e circunstância, com comida e bebida pelo meio, Armando Guebuza inaugurou o novo busto de Eduardo Chivambo Mondlane em frente a sede do Comité Central do partido Frelimo. O anterior havia sido inaugurado por Joaquim Chissano, numa outra profecia de fé…

Eduardo Mondlane nunca foi membro do Partido Frelimo. Foi o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, de que foram membros também milhares de compatriotas moçambicanos, muitos deles mandados fuzilar quando a frente foi extinta para dar lugar ao Partido Frelimo de orientação marxista-leninista, fundado em 1977, doze anos depois da sua morte. Eduardo Mondlane foi o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique, frente de luta anti-colonial resultante da fusão de três movimentos. Nessa altura não havia o partido que se constituiu usurpando o acrónimo da frente (FRELIMO) – conseguido por Fanuel Malhuza. Apenas uma parte dos membros da Frente viria a aderir ao partido a cuja constituição se seguiria um período de miséria absoluta ao mesmo tempo que se assistia ao enriquecimento de poucos de uma «numenklatura» auto-proclamada.

A Frente de Libertação de Moçambique foi extinta no 3.º Congresso que também criou o Partido Frelimo, assumidamente Marxista-Leninista. Tal facto dá-se com Samora Moisés Machel no poder e quando faziam também parte do Bureau Político do Comité Central outros dois assumidos marxistas-leninistas que viriam mais tarde a chegar à presidência do mesmo partido e do Estado, respectivamente Joaquim Chissano e Armando Guebuza.

Aliás, é ideia corrente de que uma das vocações principais do partido Frelimo nos primórdios da sua fundação foi perseguir e assassinar outros companheiros de Mondlane que se recusaram a aderir aos ideias marxistas-leninistas e à ideia de ditadura que o partido único preconizava sob os auspícios de Machel e seus correligionários ainda vivos. O caso mais visível foi o do Reverendo Urias Simango, vice-presidente de Mondlane na Frente de Libertação de Moçambique, fuzilado extra-judicialmente às mãos do partido Frelimo algures no Niassa, num crime a que até hoje as mais diversas comunidades internacionais continuam a fazer vista grossa em atitude de que sobressai a sempre uma sempre activa Amnistia Internacional, neste caso completamente surda e cega como o comprova a sua mudez.

Certas correntes de opinião interpretam a atitude de Guebuza de endeusar Samora, primeiro, e agora Mondlane, como tentativa de buscar a sua legitimidade na história num momento em que começa a tornar-se visível que a principal ideia da governação do actual chefe de Estado, «o combate contra a pobreza absoluta», está a mostrar sinais de total fracasso ao mesmo tempo que ele próprio começa a aparecer aos olhos da opinião pública enfraquecido pelas pedras que lhe tem atirado os seus próprios correligionários, hoje clara e progressivamente a tirarem-lhe o tapete e a descobrir-lhe os podres como o comprovam as histórias que estão a animar hoje o bate-boca político um pouco por todo o país e abrem espaço para uma oposição mais actuante.

Como nota de referência, dizer ainda que Armando Guebuza chegou a ser secretário de Eduardo Mondlane, figura ontem resgatada em esforço partidarizante e com sinais de desespero de causa.

A ideia de busca de legitimidade justifica que o actual presidente da República adultere os manuais de história e assuma como do seu partido uma figura que nunca teve cartão de membro do partido Frelimo. Assim se pode resumir o acto de recorrência a que se assistiu no sábado em mais um aniversário da morte de Eduardo Chivambo Mondlane – não na sede da Frelimo como sempre se tentou fazer crer – mas, sim, em casa da americana Bety King, em Dar-es-Salaam, capital da Tanzânia, a 3 de Fevereiro de 1969. (vsff «Canal de Moçambique» n.º1, de 07 de Fevereiro de 2006).

Canal de Mocambique (Celso Manguana) 2007-02-04