domingo, maio 09, 2010

Impostos

ECONOMICANDO

Por Joao Mosca

O governo através da Autoridade Tributária de Moçambique (ATM) procura aumentar a arrecadação de impostos. A estratégia parece ser o de alargar a base tributária, isto é, aumentar o número de contribuintes evitando-se a elevação da carga fiscal dos que já contribuem que, segundo dados existentes, não são mais de 10% dos potenciais contribuintes (número de contribuintes/população activa) e com taxas já elevadas. Parecem ser opções acertadas. Mas a questão que se pretende apresentar neste texto é outra.
Durante a guerra pela independência, a FRELIMO incentivou o não pagamento de impostos. Impostos reforçavam o Estado colonial. O imposto de palhota e o chibalo eram compulsivos. Libertar os homens significava também rupturas com as formas de exploração e de agressão à dignidade. Não pagar impostos era uma manifestação de resistência e luta. Por outro lado, os camponeses nas zonas libertadas, segundo a documentação oficial, dedicavam uma parte do seu fundo de trabalho nas cooperativas para a produção de alimentos dos combatentes. Isto não é um imposto (compulsivo ou não)? Politicamente (ou melhor, ideologicamente), pode ser interpretado como um acto libertador e prova do engajamento na libertação do país.
Com a independência, no período “socialista”, a maioria dos cidadãos, as actividades informais e os pequenos negócios, continuaram não pagando impostos. As empresas estatais também não o faziam. As receitas do Estado provinham principalmente dos lucros de algumas poucas empresas rentáveis, das alfândegas, e o défice era financiado através de crédito bancário, de emissão de moeda pelo banco central, do financiamento e da ajuda externa. Posteriormente, após as reformas, regulou-se a responsabilidade das pessoas singulares e colectivas.
Mas a maioria dos agentes económicos e das pessoas continuam não estando abrangidas. A explicação é simples e complexa. Simples porque a base tributária está associada à estrutura económica, onde a grandíssima maioria dos agentes económicos são informais, com pequenos negócios sem organização empresarial convencional e grande parte do emprego não está legalizado/registado e, portanto, não é tributável. É complexo porque, como estabelecer impostos aos camponeses, sobretudo quando nas últimas décadas nunca o fizeram? Como integrar a economia informal no sistema tributário?
Mais complicado resulta se existirem preocupações de justiça fiscal. Por exemplo:
• É justo que uma pequena parte dos cidadãos paguem impostos, suportando um Estado que depois, teoricamente, presta serviços a toda população? Nestes casos, uns poucos financiam os serviços à maioria. Alargar a base tributária pode ser entendido com esse sentido de justiça.
• É justo que os grandes investimentos externos tenham benefícios fiscais anormais (não pagando impostos), mesmo que a razão seja a suposta criação de uma maior atractividade do investimento externo?
• Como se sentem os contribuintes quando tomam conhecimento de casos de corrupção e má utilização de fundos públicos (dos impostos dos contribuintes) pelo Estado e por funcionários? Há eficiência e produtividade no aparelho de Estado?
• Que contra partidas os cidadãos têm do Estado? Há boas escolas, centros de saúde e hospitais de qualidade, seguros de saúde, segurança nas ruas? Os cidadãos que necessitam de serviços públicos, são cordialmente atendidos por funcionários cujos salários são pagos pelos contribuintes e pelos impostos dos cidadãos de outros países através da cooperação?
Mais impostos deveria assentar essencialmente no crescimento económico, na ampliação da base tributável e na eficácia da administração tributária. A nossa economia tem crescido entre 7 e 8 por cento e os impostos em ritmos inferiores, o que significa uma baixa elasticidade da relação entre o volume de impostos e a riqueza. Em outra linguagem, há criação de riqueza não tributada, o que é justificado pelas seguintes razões:
• Investimentos estrangeiros com benefícios fiscais.
• Uma parte significativa do crescimento está assente na economia informal, como por exemplo na agricultura que não está sendo tributada.
• Fuga ao fisco.
• Ineficácia da administração tributária e corrupção.
Arrecadação de mais impostos deve ainda ser entendido na perspectiva de reduzir o défice e a dependência externa. Talvez seja esta a razão próxima das actuais pressões e pressas da governação.
Os desafios da ATM são grandes. E a pressa é má conselheira. Corre-se o risco de arbitrariedades na tributação. De aplicações indevidas da lei ou da existência de lacunas legislativas. No lugar de se pretender de forma rápida obter mais receitas, talvez fosse mais aconselhável:
• Melhorar a eficácia da máquina tributária, incluindo no combate à corrupção.
• Afinar a legislação.
Este esforço terá efeitos limitados se não houver a consciencialização dos cidadãos para a responsabilidade de pagamento de impostos. E aqui está a grande questão: antes, não pagar impostos, era uma forma de resistência ao colonialismo. Agora é um acto patriótico para impulsionar o desenvolvimento e reduzir a dependência. Os cidadãos, alguns já idosos que nunca pagaram impostos, entenderão este discurso?
Finalmente, um aspecto não referido no texto e que se deixa para o leitor. O reequilíbrio do orçamento não pode ser pretendido apenas através de medidas do lado das receitas. O problema das despesas é quiçá não menos grave. Há tanta injustiça orçamental, desigualdades espaciais e sectoriais, ineficiência e baixa produtividade da burocracia estatal, mordomias e formas de compensação dos baixos salários, gastos em manifestações de afirmação do poder, etc. E com tudo isto, não se conhecem medidas para conter ou reduzir as despesas. É fácil entender os porquês, mas não é aceitável.

Fonte: Savana - 07.05.2010 - in Diário de um sociólogo

Reflectindo: Boa sugestão esta para um debate sério sobre o pagamento de impostos. Sem aprofundar, na minha opinião o pagamento de imposto forja a cidadania responsável.

6 comentários:

Chacate Joaquim disse...

Caro reflectindo, por acaso tenho a obra do João Mosca na minha preteleira e já li uma vez "economocando". é um indivíduo que aborda as coisas de forma muito franca e frontal!

Ora, é defacto uma grande sugestão para o debate, mas vais debater com quém? os nossos economistas políticos são sei lá o quê! é como diz o B. Muhate não falam!...

Eu já questionei sobre o trabalho da ATM sobre tudo no que se refere às propagandas... a questão é por que raio de razão os Moçambicanos se dão para não pagarem impostos?

Tudo bem. só 10% dos que deviam pagar o fazem. aqui fariamos a seguinte pergunta qual é a renda dos que efectivamente não pagam? porque corremos o risco de nos iludirmos com o facto de as pessoas estarem numa determinada faixa etária quando de facto não são nada activos se olharmos para os resultados.

Mais, não podemos descartar a questão de educação sobre a sensibilidade fiscal e suas razões históricas de ser, obviamente tudo tem uma origem retrospectiva e nós somos responsável.

Reflectindo disse...

Caro Chacate, compreendo que é difícil discutir porque muitos não estão interessados em discutir. Mas se o assunto diz respeito a todos e muitos terão que cobrar os os tais impostos, será que é bom que nos excluamos deste debate. O que eu devo explicar ao meu pai que protesta o pagamento de imposto?

Para mim, ao invés da tal campanha de sensibilizacão (informacão) sobre o pagamento de impostos, devia-se promover um debate sério na sociedade.

Voltarei ao assunto. Por acaso, este é um dos assuntos que voto para um debate muito vivo.

V. Dias disse...

Visto.

Trabalhos não me permitem debitar longamente os meus comentários. Para semana estarei livre dos afazeres (será?). Era só para não apanhar falta (risos).

Zicomo, Mugabe Jr.

Anónimo disse...

É um assunto difícil de "escangalhar".
Tributação económica está ligada a reorganização económica do País-modelo económico.
É fácil escrever e falar.
comentar nunca...porque a corruptela, "comanda" o sistema e as mentes do cidadão das cidades e cintura urbana.Todos "vendem" qualquer coisa.Desenrascam!
Os políticos e os teóricos moçambicanos preconizam através da decisão politica do governo criar uma meta de 10% para cidadão pagadores de impostos.
É positivo!
SIM.
Estrutural?
Não.
FALTA A DEFINIÇÃO DO MODELO ECONÓMICO DA RÉPÚBLICA!

Zacarias Abdula


Enquanto se enfatizar, que a politica em Moçambique, é meio caminho para o roubo e enriquecimento pessoal, vai ser difícil implementar qualquer modelo económico, porque quando ela for criada, as "margens de manobra" tornam-se pouco translúcidas, e daí os crâneos políticos moçambicanos, tornam o tema TABU, existindo assim, a fuga sistemática deste tema-PROVETA PARA O MOÇAMBIQUE DO FUTURO.

Abdul Karim disse...

De Acordo com Zacarias Abdulla,

Modelo Economico de Mocambique, tenho a certeza que nenhum politico sequer sabe o que isso quer dizer, e nem esta interessado a que mais alguem saiba, ou no minimo, apenas interessados que saibam uma versao discursiva e atrofiada das suas mentes tacanhas e minusculas.

Faizal jose cano disse...

kro sber k tipos d impostos temos ak em moz, e difini-las, è trabalho escolar