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segunda-feira, agosto 16, 2010

O Autarca: Duas Mil Edições de Rigor Informativo

- Quando se está ao serviço do povo, o lucro é a satisfação do dever Cumprido

Por Viriato Dias
Acabado de chegar do passeio com a minha família, depois de ter desafiado o frio precoce que rasgava o céu nublado de Bruxelas, capital do reino da Bélgica, ameaçando chuva miúda, dirigi-me ao computador (meu fiel amigo) para ver as últimas notícias do país e do mundo, mal abri o correio eletrónico deparei-me com um irrecusável convite do meu amigo e editor deste jornal Falume Chabane, para umas linhas alusivo a 2000 edições do “O AUTARCA”. Que o convívio familiar ressentisse minha falta, por alguns minutos, Não podia recusar este convite de Chabane, um homem com um coração de ouro até porque foi invocada uma razão de amizade, e eu, amizade para mim é uma questão de honra.
Do e-mail recebido, é claro que percebi o significado daquela frase “elaborar algumas ideias”, era mais do que um simples pedido, habitual nestas circunstâncias, em que se “descarrega” meia dúzia do Latim para o “aniversariante” enobrecer o seu ego e mostrar o seu voto, mas sim, que debitasse algumas linhas sobre o actual “cardápio” da política macroeconómica e social do país. Mas, convenhamos, tem de ser feita de forma séria e honesta, porque o vedetismo e a complacência não ajudam em nada.
O país vive momentos dramáticos de que há memória, e o futuro é cada vez mais uma incógnita. Como diria o prof. Adriano Moreira, “mau começo para o futuro, porque para o presente não vejo remédio”. A actual crise financeira mundial que, de passagem pelo nosso país, não pára de “linchar” a vida dos moçambicanos. E em consequência disso, a miséria voltou a ganhar terreno no seio das famílias moçambicanas. E porque o azar não vem só, a derrapagem do metical face as principais divisas estrangeiras (Dólar, Euro, Rand) deram lugar à especulação de preços dos principais produtos e serviços.
A pandemia do enriquecimento fácil (ilícito) apanhou à boleia do ascensor do “lambebotismo” e não se sabe ao certo em que andar está. Na capital Maputo e um pouco por todo o país os criminosos voltaram a impor o medo, demonstrando ser mais fortes que a Polícia. Na educação a vuvuzela não pára de dar sinais de aviso à navegação. Os tribunais deixaram de ser o templo de justiça e passaram a ser locais onde se cometem erros e pecados! O Ministério da Agricultura há muito perdeu a pista dos seus planos. Até hoje nem um resultado plausível da jatrofa. É mesmo esta uma geração da viragem. Está tudo virado!
Face a estas e outras dificuldades de agradar os ouvidos de Lúcifer e de toda a sua comitiva, lá no inferno, é tarefa basilar dos órgãos de comunicação social, a todos os níveis, basear-se no rigor informativo e na isenção, duas “armas nucleares” capazes de eliminar estes males. Povo informado vale por dois. Fazer jornalismo não é pedir “sangue” para que os jornais, etc., se encham de manchetes que coloquem em causa a honra alheia, para vendar mais “peixe” ou ter mais lucros, mas sim, como diria a jornalista Judite de Sousa “ é proporcionar ao cidadão informação para ser livre no cumprimento dos quatro “cês” do jornalismo: conhecer, compreender, confiar e contar.
Este texto não pode terminar sem dizer palavras ao aniversariante: ‘O AUTARCA’ que completa hoje 2000 ediçoes desde da sua existência ao serviço do rigor informativo. O seu primeiro “vagido” deu-se na capital provincial de Sofala, Beira. Infelizmente não pude acompanhar o parto do jornal, em 1998. Continuo, porém, a assistir, diariamente, o seu progresso. Hoje é um bebé gigante. Posso afirmar com alguma autonomia que as 2.000 edições são o resultado da heroicidade dos seus jornalistas. Heroicidade tendo em conta a realidade, nua e crua, de um país com mais da metade dos moçambicanos que não sabe ler nem escrever (mas não é aselha), a sobrevivência é uma questão de inovação. O comboio do progresso não pára, ‘O AUTARCA’ também não.
Quando se está ao serviço do povo, o lucro é a satisfação do dever cumprido. E é este o principal lema do ‘O AUTARCA’, servir com perfeição a quem mais precisa: O POVO. É a dita vuvuzela do CHIVEVE que não incómoda, mas dá voz a quem não a tem. Desde o seu rebento em 1998 mantém sempre viva a convicção de ser um jornal independente. O “espaço verde” que este jornal dedica regularmente algumas páginas mostra bem o quão ‘O AUTARCA’ está comprometido com a causa do ambiente. E os prémios recebidos de organismos nacionais e internacionais fazem jus a isso. São assim as grandes instituições, erguem-se do calo e do suor, a bem da informação. Ao ‘O AUTARCA’ e a toda a sua família de jornalistas e leitores espalhados dentro e fora de portas desejo as maiores felicidades.
PS: Algumas pessoas, amigas e outras nem por isso, me escrevem a pedir o regresso da coluna “A Caixa do Diálogo” que era publicado neste jornal às 2ª feiras tenho a informar as mesmas e a quem interessar, que devido a motivos de formatura em terras lusas, é-me impossível satisfazer este pedido. Zicomo
kwambire (muito obrigado).

Viriato Dias em Bruxelas

Autarca, edicão 2000 - 16.08.2010

domingo, setembro 20, 2009

DAVIZ SIMANGO: O FENÓMENO POLÍTICO NACIONAL

Por Viriato Caetano Dias

“A bússola do destino não falha.” Arrone Fijamo Cafar, in “Ecos de Inhamitanga”

Em todos os campos da vida há sempre um homem que se notabiliza pelos seus feitos em prol de uma causa comum. Se há alguém no país, que tem sabido aglutinar todas as atenções de um povo, sem ter que pegar em armas para reivindicar à sua existência ou vender patos – “fórmula empresarial” que certas figuras de proa na arena nacional usam, para se tornar ricas e mandar no país – Daviz é um deles. Obra feita, humildade, compromisso com a verdade, o respeito pela dignidade da pessoa e de uma maior justiça social, constituem a grandeza de um homem que nasce, politicamente, dos escombros de um partido político agora sem leme, a (Renamo). A única luta pela qual Daviz Simango trava é pela melhoria de vida de todos os moçambicanos, independentemente da sua orientação política, religiosa ou outra qualquer. Nessa luta, advirto, não se recomenda às almas fracas compostas de sentimentalismo generalizado, muito menos de oportunismo político como, aliás, tem vindo a formar escola em algum sectores da sociedade. É uma guerra sem quartel, titânica e desapaixonada, para colocar o país a andar para a frente.
Arrisco-me de dizer, sem medo dos ataques de possíveis detractores de Daviz Simango; não fosse a prostituição óssea e mental que impera sobre a classe dos escribas e aspirante a este ofício era, no mínimo, indubitável, o rebento de uma ou mais obras literárias sobre o homem do momento, cujo povo o colocou no tabuleiro indelével da história nacional. A heroicidade de Daviz Simango não pode ser confundida por este ser vergôntea de um dos fundadores da FRELIMO, enga-se rotundamente quem assim ousar, quer em pensamentos quer em palavras, porque Daviz Simango surge, na verdade, no contexto de uma calamidade mental que fustigou a Renamo e que o obrigou a remar contra a maré até à fecundação do mais recente partido político no país, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM). Não há indivíduo que não goste de ouvir o galo a cantar; o galo madrugador que desperta a todos, homens e mulheres, jovens e adultos, tal é o chamariz o símbolo do MDM.

A história do filho confunde-se com a do pai, ambos foram sacrificados nos seus respectivos partidos por pensarem de maneira diferentes, ou seja, por não estarem de acordo com as regras mentais da maioria ou de um simples “chefe”. Infelizmente, no nosso país, quem faz a diferença com obras feitas para satisfação da maioria encontra como resposta uma coroa de espinhos. Portanto, não me desvio das balas que eventualmente serão lançadas pelos possíveis detractores de Daviz Simango a razão desta homenagem que lhe faço. Mas se alguém estiver contra o débito das minhas palavras, ao invocar os feitos deste homem, que as lance com a mesma frontalidade que faço aqui. A minha defesa ´anti-balas´, confesso, está preparada contra qualquer artilharia que pretender atacar-me, sem justa causa, ou seja, sem uma circuncisão cabal dos factos.

Sem querer mexer no vespeiro ou lamber feridas dos tempos da ditadura samoriana, altura em que a nossa bendita democracia andava perdida nas matas de Maringué, Gorongosa; em Roma, ou em cada alma revolucionária do povo moçambicano contra as vicissitudes do regime, porque ainda não cessou o prurido das cicatrizes do passado, tanto para a família Simango, como para outras, incluindo a minha. Foi duro ouvir que o meu progenitor, no meio de tantos outros presos políticos, teve de aguentar os mais duros golpes do “Sistema” numa masmorra debaixo da terra construído para o efeito. Quando consultado os vesgos de direito (porque naquela altura não havia - que saiba - em Tete, doutos no aludido ofício) disseram, como era hábito naquela circunstâncias, que estavam apenas a cumprir ordens superiores, instigado pelo facto de, no entender do “Sistema”, “por àqueles terem trabalhado com a administração colonial português, ora tinham o prolongamento mental dos português.” Valeu a pronta e sabia intervenção de Hama Thai, que lhe devo publicamente a safa da vida ao meu pai, pelo menos para este caso. Quanto aos restantes casos, em que o mesmo foi sujeito há torturas, a história julgará por isso! Os olhos de Deus não pestanejam!

Sobre a maldade dos homens no mundo, deixo ficar para a reflexão aquém estas linhas interessar uma frase da minha bússola literária, da autoria do zambeziano Arrone Fijamo Cafar (já falecido) que diz, cito na íntegra: “raras as vezes em que das reuniões dos homens resultem obras do bem comum para humanidade, obras facilitantes, enfim obras que revelem a verdadeira nobreza do carácter racional. Geralmente, se, por omissão, um dos componentes se autoriza introduzir qualquer opinião neste sentido e que seja de acordo da maioria, a maldade, que simplesmente prefere viver com a parte superior da comunidade humana, revolta-se na cabeça do membro mais representativo e este exibe seu voto: é uma loucura; nem sempre se deve usar contemplações, principalmente, nos casos como....É assim, infelizmente, que se vive no mundo dos homens!” (In “Ecos de Inhamitanga”, pp.52).

Há dias uma leitora das minhas reflexões perguntava-me da Beira, se concordava ou não com o verídico da Comissão Nacional de Eleições (CNE) em excluir, contra os anelos do povo, o MDM em nove dos 13 círculos eleitorais para as próximas eleições legislativas? A minha resposta, para não desfraldar a minha leitora ante a pergunta tendenciosa, é esta que foi dada pelo historiador, Egídio Vaz, quando em Junho de 2007 vaticinou o seguinte: "(...) A CNE tem agora todas as condições necessárias para prestar um péssimo serviço ao povo. A CNE tem agora melhores condições (que antes) para levar a cabo um processo eleitoral bem desorganizado e fraudulento de sempre! A incompetência está de parabéns. (http://oficinadesociologia.blogspot.com/ ). Destaque meu.

A barragem de artilharia da CNE contra o MDM não podia esperar por muito tempo, numa altura em que o MDM e o seu candidato às presidenciais, Daviz Simango, estão cada vez mais a amealhar simpatias do povo moçambicano, o que deixa preocupado o “Sistema” e os seus acólitos. De resto não era para menos, estamos a falar de um partido que surge na história democrática do país há sensivelmente 1 ano e meio, mas que têm a força de um vendaval que arrasta consigo a “maçaroca” e faz tocar, de tonto, o batuque, para não falar do condicionamento da “perdiz” em levantar o voo. É, de facto, um incómodo o MDM. Mas também é, no fundo, um partido para autópsia nos laboratórios científicos das nossas academias. Já era tempo das nossas oficinas do saber, ao invés de mandar decorar aos estudantes as datas e feitos de alguns heróis, cujas heroicidades deixam muito a desejar aos olhos da história, bem podiam estudar os fenómenos históricos nacional. O fenómeno Daviz Simango, o MDM, a postura da CNE, as intempéries da Renamo e do seu líder, Afonso Dhlakama, etc. devem merecer um estudo profundo por parte dessas academias.

A cegueira da CNE em excluir o MDM nos nove círculos eleitorais para as próximas eleições legislativas a decorrer no dia 28 de Outubro corrente, usando os argumentos que usou, sinceramente, deixa-me muito preocupado. Estou mais preocupado com o asfixiamento democrático que com as fomes, que dizimam vidas humanas no país, porque se a fome (cerebral) vem de um órgão como a CNE; então temos que parar e pensar, piores hecatombes estão ainda por vir. A pior desgraça que um país pode ter é de ver a justiça ser substituída pela arrogância. Quando assim acontece, é porque estamos perante um caos. Tenho estado a falar com os meu botões, se bem que a CNE não funciona como devia ser, se os seus quadros deixaram de fazer aquilo que deviam fazer, pior ainda, deixaram de pensar para seguir os caminhos da ignorância, bem podíamos lançar uma SOS para a comunidade internacional dar cobro à situação. A fome pode ser combatida com comida, mas a ignorância não, só com atitude séria e responsável. Parece-me que a CNE manda “lixar” as duas coisas. Prefere seguir à senda da sua ignorância, mesmo quando os avisos vêm donde sai a “mola”. Por mais que eu queira me convencer de que a CNE é um órgão independente e imparcial, mas não posso, nem devo, porque os factos falam por si. Uma grande parte dos seus funcionários seniores é “pupilo” do “partidão”. Mal que termine a comissão de serviços na CNE, os mesmos voltam a ocupar os seus cargos políticos no partido. Incrível!

Porque ainda admiro o actual presidente da CNE, Dr. Leopoldo da Costa, e para que este não veja o seu nome apodado em adjectivos desapropriados como, aliás, tem estado a acontecer, aconselho-o a demitir-se do cargo que ocupa, sem antes um aviso: há certos cargos políticos que pela sua natureza funcionam como anéis de ouro, porém às vezes criam feridas aos dedos. A incompetência tem as suas consequências, às vezes paga-se caro. O actual Primeiro-Ministro de Portugal, Engº José Sócrates, em entrevista a uma canal televisivo português, disse e passo a citar de memória: “Um dirigente não deve orientar as suas decisões com base em quem se manifesta e em quem tem mais voz, mas com base no interesse geral. Não é possível agradar a todos, o que é necessário fazer é aquilo que a sua consciência dita para o bem comum.”

Neste processo eleitoral a única coisa que mudou são as vítimas a lamentar. Se antes era a Renamo e o seu líder, Afonso Dhlakama, agora passou a ser o MDM e o seu candidato às presidências, Daviz Simango. Já assistimos um pouco de tudo, sendo o mais grave das atrocidades cometidas pelos militantes da Frelimo, o ataque contra à sede do MDM, em Chokwé. É uma aberração contra a lei (semáforo de orientação de uma e qualquer sociedade hierarquicamente bem organizada) fere, igualmente, os princípios democráticos que se pretende construir no país. Creio que, dentro do meu pessimismo histórico, se o contrário fosse acontecer (espero que não aconteça) contra à sede da Frelimo já teríamos assistido uma retaliação sangrenta ou, no mínimo, ouvido a Procuradoria-geral da República falar, como é de costumo em armação de contendas do género, a invocar uma série de ladainhas em jeito de leis e artigos enfadonhos a bom de um Estado de direito. “Ninguém está acima da lei” diriam! Teríamos, por outro lado, a PIC, a FIR, a PRM, provavelmente o SISE e outras forças, a forjar culpados contra tal acto, quão inquilinos inocentes nas masmorras do país. Consta-me que em tempo de eleições, ou seja, de campanha eleitoral, as forças policiais no país abdicam-se dos seus mais nobres afazeres: que é de velar pela ordem e tranquilidade públicas, para servir os interesses obscuros do “Sistema”.

Não queria terminar esta minha reflexão sem antes deixar ficar um recado ao Eng.º Daviz Simango (repare que ao longo da minha dissertação evitei, no máximo, usar o prefixo “Eng.º”, porque os “tugas”, no berço da “língua de Camões”, que veio para a África de barco, não souberam, como ainda não sabem, diferenciar os títulos académicos; por um simples bocejo na expressão portuguesa, que seja de difícil compreensão do próximo, e o espreitar dos bancos de uma universidade) atribui-se à velocidade de um cruzeiro e a qualquer escumalha os títulos de “Engº”; “mestre”; “Dr.”; “Professor Dr”; etc., embora Daviz Simango seja, neste caso vertente, uma excepção.

O conselho que deixo é este: “o piolho que te suga estará, provavelmente, nas tuas próprias vestes.” Por isso, é preciso ter muita atenção com aqueles que te rodeiam, pois nem sempre te querem o bem. É preciso ter cuidado com os homens – disse Fijamo, que é citado ao longo desta reflexão – principalmente aqueles que te parecessem dedicar grandes amizades.” Na vida aprendi com o meu professor de História Política, na UP, Dr. Francisco Zacarias Mataruca, que em política os nossos adversários são muita das vezes os nossos melhores amigos, àqueles com quem conversamos e convivemos, porque não são capazes de nos dar o bom combate, enfim, são bajuladores à troco de apetites estomacal; já os inimigos fazem exactamente o contrário, não se escondem nem fazem o jogo baixo da avestruz – esconder a cabeça mas com o corpo fora – são frontais e sabem estender à mão quando perdem.

P.S: Semana passada visitei o “Palácio de Belém”, em Lisboa. Entre outras informações dadas, fiquei a saber pelo guia turístico que nos levou a conhecer os 4 cantos da casa; apesar de ser a residência oficial do Presidente da República, o actual presidente, Professor Aníbal Cavaco Silva mora em casa própria (apartamento), arredores de Lisboa. Quem quiser visitar o museu do palácio – e o próprio palácio – pode fazê-lo todos os dias, sábado e domingo de manhã. Vê se a moda pega na “Ponta Vermelha”.

sábado, setembro 12, 2009

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A EDUCAÇÃO NO PAÍS

Por Viriato Caetano Dias

Nem a “revolução verde”, muito menos os miraculosos “7 milhões de meticais” - figas do actual Governo – podem tirar o país da masmorra política, económica e social em que se encontra, somente à Educação. É aqui, na Educação, que se joga o nosso futuro.

Cá estou eu, tal como outrora vos prometi, irei falar-vos sobre a Educação. Não são em duas ou três páginas que se exauriam o tema em reflexão. Ainda assim, permitam-me a ousadia para fazer uma autopsia cuidadosa e meticulosa a este sector, chave para o desenvolvimento do nosso país, tal como referiu o actual Reitor da Universidade de Évora, Dr. Jorge Araújo, que não há nenhum país que se desenvolva sem uma aposta firme, muito segura e consistente na qualificação da população.

Cada país possui a sua própria grandeza. E cabe a cada país, dentro dessa grandeza, pentear o seu próprio ego. Uns fazem-no usando o petróleo que ostentam; o artesanato, o azeite, o vinho, o café, as pepitas de ouro, os jazigos de diamantes, etc. Outros são os que se regozijam por questões de índole religioso, chamando a si o epicentro do mundo. Mas o nosso país não é nenhum líder mundial nem em petróleo, nem em pepitas de ouro, muito menos em jazigos de diamantes. A nossa única grande riqueza é o povo que somos. Somos um povo diferente dos outros e sabemos, claro, mesmo diante das dificuldades impostas pelos apetites humanos e da natureza alheia, fazer a diferença pelo que sempre fomos: vitoriosos. Por isso, é preciso manter aquilo que nos torna únicos. Mas às vezes, me pergunto: afinal onde é que anda a coragem que destruiu a grande muralha de ferro imposta pela dominação colonial? Será que já não somos mais capazes de vencer os obstáculos que o destino coloca na nossa frente, por exemplo: a pobreza, as hecatombes mental e naturais, o analfabetismo generalizado, a corrupção, a inércia, o lambebotismo óssea, o preconceito, a letargia, o obscurantismo? Todos estes males só podem ser vencidos, não com políticas cáusticas nem com discursos empeçonhados, mas sim com uma educação responsável. A educação é, como se sabe, um dos fundamentais pilares da sociedade. Nesse pilar assenta tudo o que somos e, em consequência directa, tudo o que construímos. Quanto num país a educação é fraca advém-se a qualidade de vida do seu povo. É para aqui, na educação, que temos de caminhar e é aqui que temos de dar o nosso melhor.

Em 34 anos de história nunca um governo fez tão pouco para o sector da educação como este. Este governo limitou-se a parir uma centena de escolas, meia dezena de universidades e ainda encetou reformas curriculares supérfluas com um único objectivo: fazer a estatística e cortar fitas como sóis dizer-se. Esqueceu-se, porém, que numa guerra contra o analfabetismo o mais importante e decisivo não é apenas a construção de mais salas de aulas, expansão das universidades ou reformas curriculares importadas “made in Bolonha, etc”, pelo contrário, é o factor humano. O Homem, no dizer de um filosofo, é a medida de todas as coisas. No lugar de formar professores, capacitar os já existentes, melhorar as condições de vida e de trabalho dos professores, e dos alunos, apetrechar as escolas com meios necessários para levar o barco a um bom porto, mudar o actual currículo que mais não é uma vergonha tacanha, optou o executivo a fazer o contrário. Ou seja, fez o ´check-in` antes mesmo de fazer as malas, como diria o escritor Daniel da Costa. Por causa da estatística, a maior parte das universidades funcionam sem instalações próprias, ou seja, no período da manhã funcionam as escolas primárias / secundárias X e de noite as universidades ou institutos superiores Y. O que muda são os horários, os professores e os programas são praticamente os mesmos. Quanto as escolas inauguradas, muitas delas já nem sequer existem, porque o ciclone “Flávio” fustigou tudo. É preciso se precaver para que um outro (que o diabo seja surdo e mudo) não traga mais prejuízo às contas do Estado. E as consequências da velocidade da pressa e do improviso estão à vista: hoje em dia, no nosso país, por causa dos nossos métodos actuais de educação, ninguém quer ser enfermeiro, electricista, torneiro, mecânico, alfaiate, jardineiro, agricultor, pedreiro, carpinteiro, etc, toda a gente quer ser doutor e engenheiro. Senhor doutor ou senhor engenheiro, para os males dos seus pecados. E o país vai dando pinos atrás de pinos. Será que no conselho de ministros alguém já parou para perguntar quanto gasta o país para importar um mecânico ou um torneiro? Um rio de dólares! É sempre mais caro importar que formar internamente.

Outro erro, não menos grave, é o facto do nosso governo estar à reboque dos doadores, que impõem políticas desfasada de qualquer nexo, para o cumprimento de metas quiméricos que só cabem na cabeça de quem as concebeu. Juntar cursos de importância vital para o país para poupar dinheiro, por exemplo, História e Geografia, é um acto que não forma, mas sim desinforma. Seria o mesmo que dar uma dose superior acima do estipulado ao doente, só porque esse apresenta febres altas. Na esteira ponto, Vítor Trindade, um dos conceituados investigadores da Universidade de Évora na formação de professores, escreveu na obra a ele homenageado “Ensino, Qualidade e Formação de Professores, p. 109) o seguinte, cito na íntegra: “as reformas educacionais, que desde o final do século passado se redimensionaram e se propagaram nas grandes democracias, sob comandos de agências financeiras e económicas, recorrentemente têm pressionado, de preferência, aos países emergentes, com “argumentos” de “empréstimo salvadores” para a execução de planos de formação de seus professores, priorizando práticas de aprendizagem e ensino, idealizadas pelas nostalgias de uma escola elitista que ainda figura, com poucas críticas, num passado de memórias triunfalistas”. O sublinhado no texto é meu.

Sempre me bati por uma educação justa e igualitária, que valorizasse toda a estrutura de base de uma escola, desde o director até a um simples empregado de limpeza. Procurei, feito fiscal, salvaguardar os interesses dos professores (colegas), mas também dos estudantes, pois compreendo que o sucesso de qualquer trabalho depende de todos, sem prejuízos de terceiros. Um bom professor antes de tudo deve conhecer a origem sócio-económica e cultural dos alunos e as suas expectativas. A minha satisfação enquanto docente nunca encontrou recompensa cabal apenas quando transmitia os conhecimentos, mas sim quando os estudantes descobrissem por si os trilhos certos à percorrer sem que eu soltasse um único brado. E tenho que concordar com o meu amigo, quiçá um dos mais nobres historiadores da actualidade, Professor José Hermano Saraiva, quando diz que a importância de uma aula não está naquilo que se ensina, mas sim naquilo que se descobre. Posso daí orgulhar-me que poucos, muito poucos mesmo (sem exagero), não cabem os dedos da minha mão, os casos de desistência ou abandono escolar. Devo dizer que o sucesso escolar era uma meta constante. Afinal, como na vida, a satisfação do que fazemos está na perfeição. Os números, esses vem sempre depois. Além disso, como todos sabemos há uma questão fundamental no processo de aprendizagem: para aprender é preciso querer-se aprender..


O aviso à navegação surgiu na semana passada pela voz da Naima Sal, inspectora-geral do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e veio a público dizer que mais de três mil professores abandonam o Sistema Nacional de Educação por ano, partindo para outros destinos a procura de melhores condições de vida ou para prosseguir com os seus estudos. Vindo de onde vem estas palavras, é caso para dizer que os próximos anos serão de crise, provavelmente a dita crise nacional comece aqui: na educação. É necessário, antes que seja tarde demais, mudar o sistema e não as pessoas, como diria o outro (anónimo) o problema não está propriamente nas moscas é da lixeira que está a feder. Ficou a lição.

Temos que ser realista em dois aspectos, primeiro que não é fácil trabalhar com mentalidades, é um processo continuo, longo e às vezes sinuoso, mas também atendendo os factores de ordem circunstancial. Estamos a falar de uma área sensível no xadrez de vários sectores no país, porquanto todos os anos a avalanche de novos petizes para estudar é cada vez maior, e nem sempre é possível enquadrar a todos como era desejado. Nenhuma planificação pode ser cabal num país onde a maior parte da sua população é analfabeta, sendo também impossível prever o número exacto dos que optam pelos trilhos da educação. Não quero com isso reconhecer a razão da fragilidade do pelouro da educação. As feridas no sector da educação no país são causadas por um único factor: recursos humanos. Quando os recursos humanos deixam de carburar como devia ser, as consequências pesam sobre quem possui o trono. Em Moçambique como em qualquer outro país, as instituições fazem a sua grandeza com pessoas qualificadas.

Se medidas adequadas não forem imediatamente tomadas para evitar os casos improviso e o surgimento precoce de várias instituições de ensino superior, bem como a criação de diplomas ministerial visando à adopção de programas alheio de ensino, como são os casos de “Processo de Bolonha” e a “Passagem Automática”, só para citar, quão cogumelos em tempo de chuva, sem que se tenha em conta os factores internos apresentados acima, corre o país sérios risco para o aparecimento de um novo tipo de analfabetismo: dos “senhores doutores” que não saberão redigir um simples requerimento ou que, mesmo sabendo falar politicamente bem, terão grandes problemas na escrita e no conhecimento em geral, conhecimentos esses necessários para colocar o país a andar para a frente. Já há exemplos, infelizmente.

Não podemos continuar a fazer as coisas em função dos pensamentos dos outros. Este país de vencedores não pode prostituir-se mentalmente. Somos capazes de fazer a diferença como somos. Não temos que andar à espreita aos cantos do mundo para ver o que é que o país X ou Y fez, pois nem sempre o improviso é a melhor via. Há que levar à treta os melhores exemplos, desde que os mesmo se enquadrem com a realidade do país. Com uma aposta firme na educação podemos chegar muito longe. Temos os exemplos do Japão e de Cabo Verde, países insulares, digamos, Ilhas vulcânicas, sem grandes argumentos em termos de riqueza no subsolo, tem mostrado ao mundo inteiro que os recursos humanos são a chave para o desenvolvimento de qualquer país. A Suiça é outro exemplo a seguir, um país banqueiro como costuma se dizer, têm uma das economias mais ricas do mundo à custa dos recursos humanos.

Finalmente, quero concordar com um dos raros políticos que muito admiro, Eng.º José Sócrates, Primeiro-ministro de Portugal, quando diz que o dever de um governo não é apenas dar educação ao seu povo, mas sim uma boa educação.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Reacção ao artigo de Viriato Dias

Por: Zacarias Abdula, em Lisboa

Caro Dr. Viriato,
Grato pelo seu artigo.
Mais do que uma lição para os políticos que nestes próximos dias entrarão em campanha, e quiçá também razão para que os jornalistas coloquem os temas em questão, presumo, que interessará somente ao único candidato CIVIL, o Jovem Engº Daviz Simango, que vai à arena dos "votos", desafiar dois "colossos pesos-pesados" Generais Guebuza e Dhlakama, ambos com uma visão um tanto ou quanta, distanciada da JUVENTUDE, isto é, a geração activa dos próximos 35 anos.
A parte final, é peculiar, porque chama atenção ao Órgão de Estado para manter a Ordem e Segurança, que não consegue manter preso um criminoso perigosíssimo, que o tratam no presídio, como de carteirista ou pilha-galinhas se tratasse. O famoso Aníbalzinho.
Faz lembrar que nos últimos anos do colonialismo (73/74) existiu um marginal cadastrado chamado Zeca Ruço, filho de chefe da polícia na cidade da Beira, português transmontano, que fugia com facilidade das prisões, e que mais tarde (pós-independência) tornou-se Inspector da PIC e Chefe do SNASP, e, que mais tarde fugiu para RAS, tendo aparecido morto em circunstâncias pouco claras.
O Zeca Ruço gabava-se na altura que as prisões eram como jardins com muros. Para "pirar-se", bastava saltar.
Pelos vistos o sistema prisional desde há 35 anos pouco ou nada evoluiu. Ainda é um "jardim" – cito.
Se calhar (Anibalzinho) já está a conjecturar a próxima fuga. Não há duas sem três, e também não há três sem quatro.
Pela sua ousadia, um dia entrará na "Revista Guiness dos fugitivos da História", e substituirá o "Papillon".

Fonte: O Autarca ( 04/09/09)

domingo, setembro 06, 2009

AFINAL OS “ACORDOS DE LUSAKA” FORAM UMA IMPOSTURA POLÍTICA?

Por Viriato Caetano Dias


“Nenhuma mentira pode viver para sempre.
A verdade, mesmo esmagada, volta a nascer.”

Carlos Cruz, escritor português

“A mentira pode correr um ano. A verdade apanha-a num dia”. Assim reza o rifão popular africano.

Sou por natureza um ser insatisfeito. Um homem, diga-se de passagem, atormentado pela dúvida. Foi assim que, cedo decidi trilhar os caminhos do meu coração e optei por fazer o curso de História, instigado pelo facto desta ciência ser a única no ninho das ciências sociais e humanas que têm como hipótese de trabalho o pessimismo, querendo perspectivar o futuro. Posso estar equivocado, é claro, mas fico com a impressão de que há dissimulação política, talvez propositada e intencional, ante o propalado “Acordos de Lusaka” entre o Estado Português e a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), movimento nacionalista que desencadeou a Luta Armada de Libertação Nacional, com o objectivo de conquistar a independência de Moçambique. Que fique claro logo à partida que a FRELIMO - FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE, perverteu-se com o advento da Frelimo como partido político e não só, tal veio a suceder-se à luz do seu IIIº congresso, realizado em 1977. Lá falaremos adiante.

Permitam-me que debite da minha alma um testemunho, talvez pouco comum no início de uma reflexão pelo seu tom pessoal e directo, mas que me é necessário e mesmo imperativo dar: O meu processo de formação em História teve início na Universidade Pedagógica (UP), em Nampula e Maputo, respectivamente. A UP que é uma instituição pública de ensino superior concebida, exclusivamente, para a formação de professores mas, actualmente, tem vindo a acomodar os interesses do “Sistema”. Há muito que a UP abdicou dos seus princípios básicos de orientação profissional – vocacionados na formação de professores – servindo, desta feita, de bóia de salvação para os aventureiros e excluídos das outras universidades, públicas e privadas, conferindo a estes, muitas das vezes, os graus de licenciado e mestres. Dai a razão da febre constante da falta de professores um pouco por todo o país e não só, as dificuldades que o sector da educação enfrenta, quando o assunto é a qualidade de ensino no país. Haja honestidade, mas também há, na UP, profissionais que conheci e conheço que têm sido autênticos “bombeiros” para salvar a glória e honra da casa. Escuso-me aqui de citar os nomes. Um bom profissional não se esconde, simplesmente porque não se improvisa nem se forja. Sabem eles quem são, os que sempre pautaram com zelo e dedicação à sua missão profissional. À esses profissionais deixo ficar, nesta reflexão, a minha singela mas grata homenagem de um aluno eternamente reconhecido, quer pelos ensinamentos adquiridos, quer também pelos erros evitados. Obrigado a todos.

Depois houve a necessidade de partir para outros cantos do mundo em busca de mais saberes, sobretudo em busca dos conhecimentos que me faltavam e me faltarão sempre (porque o Homem, esse animal político morre aprendendo, sempre!), foi então que aconteceu o meu encontro (literalmente) com alguns escritores de proa; para alguns trata-se de estreia no ofício, para outros, nem por isso, mas todos eles convergem num aspecto, diga-se de passagem, são verdadeiros colossos incontornáveis na arte de “ser e estar” e com uma larga experiência de vida, nomeadamente: António Guterres, Carlos Cruz, Carlos Fino, Cárcere Monteiro, João Guerra, Iaian Christie, Hersh Seymour, Mário Soares, Christine Garnier, Cláudia Furiati, David Aloni (já falecido), este último meu eterno mestre. A conversa recitada com estes escritores foi uma oportunidade soberba para o esclarecimento de algumas dúvidas, ainda que na vida não há verdades absolutas, mas também para tirar ilações para o futuro. Uma visita literária a estes escritores, para além de ser um conhecimento grátis que se adquiri, é também uma forma de compartilhar ideias, afinal de contas ninguém é detentor absoluto da verdade.

Foi com Mário Soares, na sua obra “Memória Viva” (2003), que veio a minha estupefacção, motivo para a reflexão de hoje. Não queria acreditar e nem quero, porque me custa acreditar. Sabia por imposição da dúvida que a nossa “História Oficial” carece de muletas, pois nem todos os processos históricos revelados até agora são para levar à letra (consideração). É preciso rescrever a nossa História. Mais não foram escritos em função dos apetites e estrabismos político da época. O que não esperava era, depois de 35 anos da assinatura (?) dos “Acordos de Lusaka”, vir saber que um dos seus signatários, afinal, não assinou o referido acordo com a FRELIMO, por responsabilidade desta. Está lá escrito, com letras douradas, cito: “não assinei os Acordos de Lusaka”. Contrariamente a informação publicada nos nossos manuais de ensino (ainda em uso nas nossas escolas) Mário Soares, esta figura lendária e meticulosa de gabarito internacional, deixou claro que, de facto, houve um encontro em Lusaka, mas nega ter assinado os “Acordos de Lusaka” com a FRELIMO.

O mesmo autor, na sua supramencionada obra, “Memória Viva”, enfatiza o seguinte, cito na integra (sic): “Encetámos então as negociações. Mas estás vieram a verificar-se mais difíceis, porque Chissano, o numero dois de Samora, e actual presidente, avisara-nos que o cessar fogo só seria respeitado uma vez obtidas garantias solenes da nossa parte quanto ao reconhecimento da FRELIMO como representante legítimo do povo Moçambicano. Houve um acordo verbal, abraços e novos aplausos, mas quando nos sentámos à mesa das negociações, eles recusaram-se a assinar.” (pp. 100).

Mário Soares acrescenta, o seguinte: “Em contrapartida não assinei os acordos com Moçambique, mas apenas assisti, após os acordos, ao acto de independência de Moçambique, no Maputo, assim como também não negociei, uma vez que já não era ministro dos Negócios Estrangeiros, a independência de Cabo Verde e de São Tome (pp.102). O sublinhado no texto é meu.

Se uma das partes signatárias do “pacto” escreve no seu aludido livro que não assinou os “Acordos de Lusaka” com a FRELIMO, a menos que esse “acordo” se traduza em abraços e aplausos, festa e dança, o que era de esperar, porquanto tratava-se do primeiro encontro “oficial” em que o Estado Português reconhecia, pública e internacionalmente a derrota militar e ideologicamente ante a invencibilidade do povo moçambicano. Convenhamo-nos, modesta à parte, o Estado Português só e só aceitou sentar-se à mesa das negociações com a FRELIMO devido as baixas nas suas fileiras militares, apesar de não ignorar os factores internos precedidos da revolução de 25 de Abril de 1974. “É preciso dar ao César o que é de César, e a FRELIMO o que é da FRELIMO!”.

O tal “Acordos de Lusaka” ganha perplexidade, na minha maneira de ver, quando o governo moçambicano ESCUSA-SE de revelar ao seu povo os seus contornos. Não revelando o que se especula (tomemos como especulações as declarações de Mário Soares) o governo moçambicano não só perde como o seu povo fica, duma ou doutra maneira, condenada à preconceitos e meias verdades. É curioso, abrindo parêntesis, saber que o assunto Anibalzinho é, para o governo moçambicano, mais restritivo e secreto que divulgar as clausulas dos “Acordos de Lusaka”. Não será este criminoso mais importante que o próprio Estado? É caso para dizer que os ditos “Segredos do Estado” estão, muita das vezes, à mercê de quem os queira ter. Anibalzinho goza deste privilegio. Teimo que se consuma as palavras do actual Procurador Geral da República, Dr. Juiz Paulino pronunciadas em pleno julgamento na ´Cadeia da Machava`, cito de memória: “Anibalzinho pode enganar a todos mas não ao Estado. Ninguém está acima da lei”. Palavras idênticas foram proferidas pelo actual Presidente da Assembleia da República, Dr. Eduardo Mulémbuè, também cito de memória “num país de direito como o nosso pode falhar tudo, menos a justiça.”

Voltando às vacas frias, como sóis dizer-se. Não é preciso ser historiador nem compreender muito de direito internacional para perceber o alcance das palavras de Mário Soares ante o “silencio mortal” mas incomodo - da Frelimo - em NÃO revelar, na integra, as potenciais clausulas do propalado “Acordos de Lusaka” que, na verdade, foi o primeiro passo conducente à independência nacional. Tal imposição, por um lado, vem anuir àqueles que abonam que os “Acordos de Lusaka” mais não foram uma impostura política, por outro lado, duvidar do governo moçambicano pela sonsice no assunto. Podemos dizer, na pior das hipóteses, que estamos perante três tipos de acordos: o verbal e o escrito. Um terceiro seria o somatório dos dois. Ou seja, na prática o somatório levaria-nos à inexistência de tal acordo, pelo menos à mesa das negociações, não obstante a efectivação do encontro, como disse anteriormente, aconteceu em Lusaka, a 7 de Setembro de 1974. Havendo a possibilidade do acordo ser verbal como, aliás, admitiu Mário Soares, então, há que suprimir as informações gratuita que pousam na Internet e nos manuais de ensino que desinformam “à seiva da nação”, pois crispa a verdade dos factos. Sempre defendi uma história de consenso, porque não há verdades absolutas onde a maioria das pessoas comungam os mesmos ideias, sem hipocrisia nem impostura, seja qual for a pretensão. Porque os tempos que correm são de paz, de concórdia, de progresso, de tecnologias, do saber, de reconciliação com o passado, que o futuro a construir seja risonho, sem mácula e nem meias verdades. Que seja, enfim, auspicioso!!!

Ao terminar esta reflexão, gostaria de deixar claro o seguinte: esta reflexão não põe em causa o dia da vitória - o 7 de Setembro de 1974 -, longe de mim quem assim ousar pensar e verbalizar. Pelo contrário, concebo o 7 de Setembro como o culminar de um processo de luta hercúlea para a descolonização do país das garras do colonialismo português, e fizemo-lo com êxito. Mas sim de espevitar o Governo a equilibrar a balança, trazendo ao de cima os processos históricos de interesse nacional à nação, porque há muito que estes “deixaram” de ser segredos do ESTADO. Boas festas e viva o 7 de Setembro.

PS: Até ao fecho desta reflexão aguardo a disponibilidade do Dr. Mário Soares para um encontro de cortesia, que será uma grande honra para mim. Peripécias dos “Acordos de Lusaka” como não podia deixar de ser, vai ser o pano de fundo do encontro.
Adenda, 06.09.2009: Agradeço bastante ao amigo e compatriota Viriato Dias pela contribuicão ao Reflectindo para uma celebração consciente do dia 7 de Setembro. É verdade que o questionamento sobre os que chamamos de "Acordos de Lusaka" não é para pôr em causa a independência nacional, mas apenas se questiona a forma, procurando ver se não podia ter havido a melhor e quais foram as consequências indesejáveis. Se viajarmos para todos os países ex-colónias portuguesas detectaremos algumas consequências de uma descolonização. No caso de Moçambique, ainda me interrogo se uma outra forma, a do tipo Zimbabwe e Namibia não teria evitado o êxoto da mão de obra qualificada e a guerra civil que durou 16 anos com quase de dois milhões de vítimas mortais. Assisti a humilhacão a missionários combonianos, pela Frente de Libertacão de Mocambique (Frelimo), os que a opoiaram e foram vítimas do regime colonial. Também assisti o abandono infeliz de quadros válidos e pacíficos como foi do director da escola secundária de Nacala-Porto, o Vieira.

segunda-feira, agosto 31, 2009

AS CINCO DOENÇAS DO PAÍS

Por Viriato Caetano Dias

A doença de um país não está tão somente no desemprego ou na inoperacionalidade da sua justiça. Mas na capacidade do seu povo, quando esse renuncia ao pensamento e passa a seguir à senda da ignorância.

Para hoje trago à reflexão as cinco doenças do país. Cada um de nós, moçambicanos, possui uma forma diferente de ver o país que nos viu nascer e que é nosso por direito, proclamado de forma apoteótica na longínqua mas memorável data 25 de Junho de 1975. Cada um malha à sua maneira, conforme as circunstâncias em que vive, viveu e viverá. São pequenos os meus olhos para ver tudo, mas eles vêem aquilo que considero ser o meu estado da nação à nação. Assim, vão surgindo vários estados da nação, cada qual à sua maneira de ver e analisar o país. É neste contexto de pluralidade de ideias que me permito deixar algumas achegas sobre o “modus vivendi” do país e, se o “Sistema” concordar, tem aqui mais uma oportunidade soberana de administrar o medicamento certo.

A primeira doença – Os Políticos

Temos um país onde a política é diferente dos políticos. Uma coisa é ter uma política dourada com as mais belas palavras de um vocabulário de fazer inveja a outrem, outra coisa, porém, é ter os políticos que temos que mais não são uma autêntica desgraça. Preocupam-se com o poder e com as ambições pessoais. Não desejam senão subir mais alto e ocupar um lugar de destaque no trono da nomenclatura à custa do sofrimento de milhares de pessoas. Chegados lá, no top, esquecem-se, às vezes, de quem os elegeu. O país em 34 anos de história pariu mais políticas e políticos do que escolas. Para alguns, basta acordar e ir ao cartório mais próximo da sua residência, já têm o registo do seu partido, mais um no cemitério político nacional, cuja directrizes de orientação só eles é que compreendem. Para aqueles que cujo poder fora outorgado pelo povo para dirigir os destinos do país num determinado espaço de tempo, estes encarrapitam-se por lá estar, ignorando completamente as suas obrigações para quem os elegeu. Contentam-se com uma e outra inauguração, de algum empreendimento público ou privado, atribuindo-se a si mesmos a chancelaria da própria obra. Prontos, e fica-se por ai, para a história. São dirigentes de pequenas coisas e de grandes pormenores. Arrogam-se de serem o país, e dão-se a si a exclusiva e peremptória liberdade de fazer o que bem lhes interessa à margem da lei. São ambiciosos e aspiram pelo poder a qualquer custo.

Os meus olhos vêem, com algum desassossego e repulsa, o facto do partido no poder, a Frelimo, possuir um orçamento anual mais elevado do que a de um governo distrital, e ainda assim querem que o distrito seja o pólo de desenvolvimento! Não estamos perante um paradoxo político? Mas não é um orçamento para desbravar terras e abrir estradas, construir escolas, hospitais, melhorar as vias de acesso, expandir a rede de ensino e com qualidade, acabar com as hecatombes mental e material. Ainda que fosse, é um orçamento que estrangula cada vez mais o povo e abre caminhos para o ódio, a criminalidade, a inércia, a corrupção, o analfabetismo e a letargia mental. É um orçamento para os camaradas dar à volta ao país e ao mundo em busca de teorias e novas técnicas, quando se sabe que elas há já muito tempo foram descobertas. Estão nos anais dos encontros do partido, na Matola, ou onde quer que ela tenha sido realizado. Estão lá. É só ir desenterrá-las. A principal doença do país, convenhamo-nos, são os nossos políticos.

A segunda doença – A Educação

A fragilidade do nosso sistema de educação reside no facto de sermos sistematicamente imitadores como se não tivéssemos, a nível nacional, praxe para produzirmos ideias. Ideias essas que libertaram o país da canga colonial português. Mal a Europa lance um modelo novo no quadro das suas reformas curricular, o Ministério da Educação e Cultura, ao invés de olhar pelas circunstâncias internas, ou seja, a realidade do país, limita-se e levar à letra o modelo alheio. E os resultados estão à vista, é só o governo ir a qualquer estabelecimento de ensino, desde as escolas primárias, secundárias até as universidades, para ver “in-loco” que mais não faz o governo senão encher um tambor furado. É triste ouvir de um aluno da 4ª classe dizer que a capital de Moçambique é Eduardo Mondlane ou que Irão e Iraque são, provavelmente, dois irmãos que a minha ex.colega, numa das aulas de História Política, na universidade, em Maputo, teria ouvido falar no seu bairro T3. É preciso que o governo tome medidas imediatas para salvar a honra de alguns professos e profissionais deste sector, caso contrário, teremos um país com anéis de ouro (em termos de números de estabelecimentos de ensino), mas que vão criando feridas aos dedos.

Se perguntar a um professor (independentemente do nível em que ele lecciona), em Furancungo, na Província de Tete, ou em Mogovolas, na Província de Nampula, quando foi a última vez que foi a uma formação, conselho coordenador do sector ou a uma capacitação, a resposta é previsível, NUNCA. Contrariamente aos nossos dirigentes que passam a vida em conselhos coordenadores, reuniões, seminários, enfim, como disse, sumariamente, em busca do nada.

Não podemos perder de vista que os conhecimentos nascem das grandes questões com que a vida nos desafia, entrelaçando-se a própria vida, disse o conceituado investigador português Vítor Trindade. Para quem a educação é a chave de sucesso de qualquer país. Por isso, acrescenta, nos conhecimentos circulam histórias, nossas próprias histórias. Quando desistimos de transitar nestes elos, que tornam os conhecimentos vivos e pulsante, nas lições dos professores e dos estudantes, o ensino se afunda em valas, com prescrições e burocratizações, que formam uma terrível rede de cemitérios das letras mortas, que tanto ameaçam as aprendizagens e os ensinos. Um ensino é de qualidade quando consegue alcançar os objectivos a que se propôs.

Terceira doença – A Sociedade Civil Activa

A nossa sociedade civil activa está doente mais do que a gravidade da própria doença. Actualmente, a sociedade civil moçambicana, salvo raras excepções, está envenenada pela política. E é preciso desintoxicá-la quanto antes, sob pena de perderem-se de vista a propalada mas preciosa auto-estima. Nenhuma rede de corrupção seria possível no país se a sociedade civil activa fosse, efectivamente, implacável. Não somos capazes de reivindicar com sentido crítico as injustiças sociais que diariamente fazem vitimas um pouco por todo o país. Mas também não sabemos, em momento certo, aplaudirmos o que é feito com arte e profissionalismo, sem adulações, e que seja de interesse de todos. Por um lado é perceptível dentro da sociedade civil activa um grupo cada vez mais intelectivo, que fazem do pensamento uma profissão para mitigar parte dos desafios actuais que se impõem: a pobreza absoluta e a calamidade cerebral. Por outro lado, encontramos outro grupo, maioritário, parasita e completamente modorra. Estes são comparáveis ao caranguejo. Como dizia o saudoso militante da Frelimo, Rafael Magune, que certos jovens são tão precipitados como caranguejo, razão pela qual não dão saltos altos. Ficam-se pelos sonhos quiméricos e contemplativo. O caranguejo, nas palavras de um amigo, quando colocados numa bacia ou num balde, não fogem. Ainda quisessem, mas não podem, porque “pensam” pouco. Ora, quando um deles tenta escalar os limites do cerco, digo, da bacia, vem outro, uns tantos, em seguida, atrás deste, para deitar abaixo os planos do primeiro. Fica-se por ai até à refeição de quem pode. Coitado da gente do campo, estes limitam-se a inspeccionar o estado do tempo para a próxima sementeira, esperando que a sociedade civil activa acorde e ponha o país a andar para frente!

Quarta doença – A Economia

O país funciona, muitas das vezes, para não dizer sempre, como uma barriga alugada. Uma prostituta. Apenas servem, os investimentos nacional, para acomodar uma determinada nomenclatura nacional ou estrangeira. Não há ricos surpresas, nem emergentes, ou seja, não há novos ricos. Os ricos são os mesmos - aqueles que a história encarregou de libertarem o país das garras do leão -, mas passou para o pior, para as patas de um elefante. Se temos empresários emergentes eu diria, paradoxalmente, que sim. São aquele que dentre muitos conseguem amealhar, por influências partidária e não só, fornicoques de quem esteja a frente da “massa”, vulgos 7 milhões de meticais, abrindo barracas, fabricando “txovas”, enfim, mas com uma duração de meia dúzia de meses. Mal já anda o negócio. Mal é, também, a devolução do dinheiro do Estado. Mas também há casos esporádicos de retorno dos valores, poucos, muito poucos. Temos um ´país-cimitério´ de fábricas, industrias, lojas, oficinas paralisadas desde o tempo da guerra civil. Algumas delas nem sequer foram vitimas da guerra, mas sim da destruição do homem. A corrupção engoliu tudo. Estão lá, em Nampula, em Tete, em Manica, em Sofala, no Niassa e um pouco em todo o país, aquilo que custou caro à nação. Hoje só ficou o nome. Em principio fiquei, confesso, satisfeito quando ouvi que o ´pai da nação´ ficou rico vendendo patos. Não duvido porque, no negócio, cada um têm as suas formulas “mágicas” de enriquecimento e é importante que haja gente rica no país. Contudo, para o meu espanto, há um mês e picos das eleições, praticamente no fim do mandato do actual governo, a nossa economia continua a andar de corcova. Estamos na mesma, porquanto o país vive e viverá nos próximos 25 anos de doações estrangeiras, claro, se continuarmos a renunciar ao pensamento de trabalho e política de inclusão. Não cabe na cabeça de alguém, nem na minha, para quem conheça física ou virtualmente o país, que por cá, ainda haja gente a morrer de fomes. Um país rico e potencialmente forte em matéria de recursos naturais, hidrocarbonetos, minerais e humanos continua, porém, a viver de mãos estendidas. Há quem diga que estes recursos só existem no mapa. Incrível!!!

Quinta doença – A Justiça

Sabemos que o país não está bem. Sentimo-lo. A educação não está bem. A agricultura não está bem. A justiça não está bem. E quando o “vírus” chega à justiça pior ainda. Num país democrático e de direito como se pretende que seja o nosso, pode falhar tudo, menos a justiça. A nossa justiça precisa de muletas ou de um bom antídoto para que as coisas andem em trilhos certos. É preciso não renunciar ao pensamento, para construirmos um ESTADO MODELO de justiça e não só.
PS. Espero que a PRM tenha conseguido efectivamente construir uma cadeia de máxima segurança, durante o tempo em que Aníbal dos Santos Júnior, mais conhecido por Anibalzinho, esteve foragido da justiça, porque as que temos só é de segurança para ladrões de galinhas, e que tenha igualmente conseguido formar homens e cadeados robot, para não permitir outra fuga do visado e de qualquer outro meliante.

Viriato_caetano_dias@yahoo.com.br