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terça-feira, setembro 19, 2017

Oposição ainda não conseguiu criar "cultura política alternativa" em Moçambique - historiador

O historiador francês Michel Cahen defendeu hoje, em entrevista à Lusa, que os partidos de oposição em Moçambique ainda não conseguiram produzir uma cultura política alternativa.
Cahen considerou que o país precisa de um programa socioeconómico diferente do proposto pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo).
"Vejo uma fraqueza do lado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) e Movimento Democrático de Moçambique (MDM): estes partidos de oposição ainda não conseguiram trazer uma cultura política alternativa", referiu.
Michel Cahen falava em Maputo à margem da 5.ª Conferência Internacional do Instituto de Estudos Sociais e Económicos (IESE), que coincide com o 10.º aniversário daquela organização vocacionada para a pesquisa e divulgação de conteúdos científicos.

domingo, julho 23, 2017

Moçambique: o “fi m da história”... única Trajectórias dos anticolonialismos em Moçambique*

Por  Michel Cahen


O livro “hostil” de João M. Cabrita sobre a história da Frelimo, Mozambique. The Tortuous Road to Democracy (Houndmills, Basingstoke – Nova Iorque, Palgrave, 2000, 312 p.) já tinha dado um pouco de polémica (cf. Lusotopie 2002, I: 391-393). No entanto, publicado em inglês por um Português nascido em Moçambique e radicado na Swazilândia, o livro tinha tido uma circulação restrita no país. Com Barnabé Lucas Ncomo, pode-se dizer que a situação foi bem diferente. Raramente um livro dum autor moçambicano editado em Moçambique, terá feito correr tanta tinta, se se tomar em conta o número de artigos, entrevistas, correspondências, publicados na imprensa do país de Maio (antes mesmo do lançamento da obra) a Setembro de 2004. Sérgio Vieira, teórico não arrependido do partido único dito “marxista-leninista”, que tinha conseguido o texto, lançou a ofensiva anti-Ncomo antes mesmo da publicação1 , utilizando erros evidentes da obra para a caricaturar grosseiramente e desconsiderar o trabalho paciente do seu autor, cometendo por sua vez erros (ou mentiras) inverosímeis. Mas, esta carga teve como efeito aumentar uma publicidade que já se fazia só de ouvir falar, e na imprensa independente. O lançamento teve lugar no Centro cultural franco-moçambicano de Maputo, terça-feira dia 27 de Julho, no auditório, cheio de setecentas pessoas, na ausência de membros do governo e históricos da Frelimo, no entanto convidados, e também sem que a obra possa ser apresentada por cinco dos académicos sucessivamente soilicitados. Finalmente, é o sexto académico, Dionísio Quelhas, membro da Renamo, que abriu a sessão, mas igualmente na ausência de qualquer dignitário do seu partido que, como principal formação da oposição poderia, neste período da campahna eleitoral, ter-se lançado sobre a fortuna duma obra que fala dos crimes do partido no poder... Alguns dias mais tarde, em Agosto, um segundo lançamento teve lugar na Beira, capital da região centro, de onde Uria Simango era originário. Mesmo a edição do livro foi difícil, os editores existentes em Maputo esquivando-se, obrigando o autor a fundar expressamente uma casa de edição ! Dos nove

spots publicitários na TVM, já pagos, seis sofreram um problema técnico que impediram a sua difusão para o lançamento em Maputo, mas também para o lançamento, dias mais tarde, na Beira. Mesmo assim, a obra esgotou em alguns dias, mostrando espectacularmente a sede de muitos moçambicanos de conhecer a história do seu país – incluindo aquela da Frelimo, partido dirigente da luta de libertação anti-colonial – fora da versão ofi cial, da “história única”. A natureza externa do público vindo ao lançamento, em comparação àquele que habitualmente comparecia nas iniciativas político-culturais, foi bem assinalada por Machado da Graça:

quinta-feira, outubro 20, 2016

"Não haverá um acordo de paz em Moçambique até 2019" - Michel Cahen

Moçambique, não vê solução para a crise política moçambicana até às próximas eleições legislativas, em 2019. Em entrevista ao Africamonitor.net em Lisboa, afirma que "mais dinheiro dado a regimes que não são democráticos vai encorajar esses regimes a ficar hegemónicos".

Para Cahen, a comunidade internacional "em geral ainda prefere a manutenção do poder da Frelimo", ignorando sinais de degradação dentro do movimento, por considerar o partido "habituado" a gerir a relação com as grandes multinacionais, o que é "melhor para o capitalismo internacional". Apesar dos esforços de democratização da sociedade civil moçambicana "hoje em dia, na partilha internacional do poder, as condições não estão reunidas" para uma maior democratização, mesmo perante uma Frelimo "completamente apodrecida, com alguns ligados ao tráfico de droga, com corrupção enorme".

"Para a próxima geração (em África), não sou muito otimista. As novas descobertas de petróleo e metais preciosos, em Moçambique e muitos outros países (...) só trouxeram mais corrupção, mais enriquecimento da elite, mais guerra civil, e isto não é nada bom para a democracia", afirmou Cahen.

Não haverá um acordo de paz em Moçambique até 2019 – Michel Cahen

Ler aqui (Africa Monitor) 

Leia aqui o resume feito por Marcelo Mosse (Facebook)

terça-feira, junho 14, 2016

Matar Dhlakama seria um erro

(historiador Michel Cahen)

Acho que a solução angolana, na qual a morte de Jonas Savimbi significou a paz para o país não se aplica à situação de Moçambique. Apesar de Angola ser também geograficamente e etnicamente heterogênea, a riqueza da elite política angolana submete literalmente todas as pessoas. Mesmo com o advento da exploração de imensos recursos naturais em Moçambique, a elite política nunca terá dinheiro suficiente para subjugar a todos. De facto, há em Luanda uma piada que diz que “para ficares rico rapidamente, cria um partido político da oposição, que possa mais tarde ser comprado pelo regime”. É difícil ver essa máxima a aplicar-se ao caso moçambicano.

Hegemonia e homogeneidade são duas coisas diferentes. Num país tão heterogéneo como Moçambique, em termos geográficos e históricos, a hegemonia é menos provável e é indesejável. Apesar de que poderia trazer paz, aparentemente, seria o que chamaria “paz armada” e não uma democracia.

Tentaram e ainda tentam fazer isso. Isso seria mau. O que a maioria das pessoas ainda não entendeu é que dentro da Renamo, Afonso Dhlakama é um moderado. Há muitos dentro da Renamo que estão ansiosos em pegar em armas. Dhlakama é que tem evitado este caminho. Se Dhlakama morrer, quem é que vai assumir o poder? O filho de André Matsangaissa, que se diz ter voltado do Quénia e parece ser um bom militar? Será Ivone Soares?

terça-feira, março 10, 2015

O equilíbrio de forças em Moçambique depois da morte de Gilles Cistac

Por Liliana Henriques

Continuam a afluir as reacções e sobretudo os questionamentos em torno do assassinato ontem em Maputo em plena luz do dia de Gilles Cistac, constitucionalista no coração de uma polémica por ter considerado que não existem entraves jurídicos para a criação de províncias autónomas, uma ideia defendida pela Renamo na oposição. Quem matou Gilles Cistac, porquê e que repercussões isso pode ter? 
Para Michel Cahen, pesquisador do Instituto de Estudos Políticos de Bordéus, no oeste de França, com quem conversamos no quadro de um seminário sobre política africana aqui em Paris, Moçambique está numa encruzilhada.

Escute: http://www.portugues.rfi.fr/aef_player_popup/rfi_player#


Fonte: RFI - 07.03.2014

sábado, agosto 17, 2013

“Em Moçambique só há partidos de direita”: uma entrevista com Michel Cahen

Revista Plural: Volto mais especificamente ao país do qual o senhor tem maior conhecimento. Tendo em conta todo o processo de avanços legislativos em Moçambique, o que pensa da democracia moçambicana hoje?


Michel Cahen: Eu parto do princípio de que as sociedades africanas precisam de tanta democracia quanto as sociedades europeias ou as americanas. As sociedades africanas são muito heterogêneas e não tiveram a mesma história que as sociedades europeias. Isso é um fato. Mas, sendo muito heterogêneas, nunca poderão ser exprimidas por um único partido político. Então, para mim, é muito racista dizer que na África era melhor um partido único para se “construir a nação”. Para essa construção, quer dizer, para que uma comunidade de cidadãos se sinta bem e garanta seu progresso econômico, social e cultural, é preciso que haja uma democracia pluralista. Não há democracia se não for pluralista. Democracia quer dizer o poder para o povo, e o povo é pluralista e heterogêneo. Tal é o princípio de que eu parto.

Leia a entrevista na íntegra aqui

terça-feira, julho 24, 2012

Marx, a Frelimo e o campesinato

Por: Michel Cahen

No seu período radical (1975- 1987), a Frelimo, muito mais que “comunista”, foi um partido de modernização autoritária, que queria transformar à força o campesinato para criar o homem novo numa nação homogénea e de língua portuguesa. É de reparar, por exemplo, que as aldeias comunais não serviam para colectivizar o campo. A produção colectiva nas aldeias comunais representou aproximadamente 1% da produção total aí registada, e era principalmente destinada a criar pequenas reservas para poder receber “os camaradas vindos da Nação” (os dirigentes vindos da capital do país ou das capitais provinciais). As cooperativas eram de consumo e comercialização e não de produção, salvo algumas excepções (nas aldeias-modelo que os observadores estrangeiros visitavam).