Algo
para aprender?
Por António A. S. Kawaria
Estou consciente que este post não interessa a
muitos moçambicanos porque, por um lado, não conhecem perfeitamente este país
nórdico, situado na Península Escandinava e por outro lado, por este ser um
país europeu e ocidental, isto é, não africano como muitos alegam sempre em
discussões sobre democracia, direitos humanos ou corrupção.
Porém há algo que poderia nos ajudar à
aproximacão entre os nossos povos porque:
- primeiro, a Suécia apoiou Moçambique desde os
tempos de guerra pela nossa independência, muito em particular no campo de
educação;
- segundo, porque mesmo depois da independência,
a Suécia continuou a apoiar
Moçambique em muitas áreas de desenvolvimento e
formação de quadros, como um actualmente director nacional me revelara, há
anos, que estudou no Brasil através duma bolsa sueca;
- terceiro, porque os suecos como povo em si,
são muito sensíveis quanto ao povo moçambicano, e, isso provei pessoalmente pela
forma de enganjamento em apoio aquando as cheias de 2000, entre muitas
ocasiões. Aliás, Henning Mankell, o escritor e dramaturgo sueco, parcialmente vivendo
em Maputo, acaba mostrando este gesto dos suecos ao oferecer 15 milhões de
coroas suecas para construção de uma aldeia de crianças (SOS Children Village),
em Manica;
- quarto, a Suécia é um dos países que mais
investe pelo nosso processo democrático, isto financialmente como em recursos
humanos. Pessoalmente, tenho achado muita coisa que podiamos aprender deste
país a bem da nossa pátria amada, em particular no que tange à democracia,
desenvolvimento económico e humano, direitos humanos, criação de bem-estar.
Apresso-me em dizer que relato isto, porque
tenho acompanhado de algumas pessoas, sobretudo académicos, que coisas como a
corrupção, desvio de fundos, fraudes, a falta de respeito pelos direitos
humanos que ocorrem um pouco por todo o lado em Moçambique, seriam tolerados em
países como a Suécia. Há quem já disse, por exemplo, que o uso de fundos pelo
antigo ministro de educação, não era desvio ou corrupção no contexto sueco.
Durante esta semana acompanhei pela imprensa
sueca muitos acontecimentos na arena política, isso que deviamos aprender. Três
políticos locais e uma funcionária pública (Secretária do Gabinete do
Primeiro-Ministro) demitiram-se. Uma, porque abusando o seu poder, imiscuiu-se
na vida privada duma funcionária; a outra, porque fez uma fraude eleitoral ao
retirar boletins de votos doutro partido, durante um acto eleitoral; um outro
ainda, por uma aproximação inconfortável a uma sua colega. Quanto à funcionária
pública foi por ter bebido (álcool) quando esteve numa conferência ou em servico.
Isto tudo passaria com certeza despercebido se desse em Moçambique onde não há
responsabilidade nem responsabilização pelos actos ilegais de quem está no
poder.
Na Suécia como num país democrático, quem
denuncia e investiga ilegalidades como estas são jornalistas. Em Moçambique não
temos falta desse tipo de jornalistas. Temos jornalistas de calibre que
investigam e denunciam actos ilegais praticados pelo poder. Se possível temos
jornalistas que se cobiçam pelo mundo democrático. O que não há, então, em Moçambique?
Eu julgo que é a democracia verdadeiramente
dita. Não temos meios que sancionem o poder pelos actos ilegais, de abuso ao
poder, e o pior ainda, é quando não se dão pelo ouvido às investigacões e
denúncias feitas pelos nossos jornalistas. Num país democrático, sanções passam
pelas urnas, e, quando se gazetea às eleições é também uma sanção aos
políticos. Em Moçambique, quem tem poder até pode seleccionar quem deve votar
como se estivessemos ainda na idade média ou na era de segregação racial nos Estados
Unidos da América e mesmo aqui na nossa vizinha África do Sul. Em Moçambique,
abstenções, mesmo que sejam na ordem de 80 %, não preocupam a quem tem poder,
antes pelo contrário, tornam-se a causa de festas infinitas – festas que se
realizam de povoado em povoado, mesmo naquele onde a brigada de recenseamento
eleitoral não chegou ou não houve mesa de votação. Abstenções já constituem uma
estratégia do poder.