POR MANUEL CARVALHO
O que é feito daquele líder político que vindo da pobreza extrema do Nordeste conquistou o Brasil com a promessa de que “a esperança vence o medo”? O que é feito desse fenómeno de popularidade que naquela madrugada de 28 de Outubro de 2002 encheu as principais praças das cidades brasileiras com a crença de que, com ele no poder, todas as crianças teriam pão e leite todos os dias, que o Brasil enterraria, finalmente, as clivagens entre a casa grande e a senzala e garantiria a todos as mesmas oportunidades da cidadania plena? O que é feito do Presidente que tirou 42 milhões de brasileiros da pobreza, que alargou a classe média, que tornou os centros urbanos lugares habitáveis, que fez da outorga da dignidade aos mais pobres uma bandeira, que levou ao mundo a crença de que a esquerda estava de regresso às suas origens históricas, feitas de ideias progressistas e de esperança?
Luís Inácio Lula da Silva aceitou agora ser ministro. Com essa escolha criou para si um estatuto especial de imunidade perante a lei. E com esse estatuto desfez todo o seu legado político. Deixou de ser o que foi e, politicamente, passou a ser coisa nenhuma. Quem o viu fotografado de tez suada nos combates sindicais do final dos anos 70 em São Paulo, no vale do Jequitinhonha a proclamar o fim da pobreza ou, em 1999, na Marcha dos 100 mil, a pedir “ética na política”, olha para ele por estes dias e vê apenas uma figura patética empenhada na insensatez da sua desconstrução.
Lula não se imolou, apenas: afundou o governo de Dilma Rousseff e arrasou o crédito dessa máquina partidária transversal, criativa e poderosa que foi o PT. Se as suas explicações sobre o triplex do complexo de luxo de Guarujá pareciam erráticas e inconsistentes, a sua tentativa de escapar ao foro da procuradoria de São Paulo acaba por provar a sua incapacidade de se rever na pele de um cidadão igual aos outros. O Lula que criou a sua aura mitológica na luta contra os privilégios já não habita o território dos “fraquinhos” que o Estado teria de apoiar, dos sem terra, dos sem tecto ou simplesmente dos operários. Lula passou-se para o lado dos intocáveis que sempre combateu. Estatelou-se nas suas próprias contradições. Explodiu na banal apetência do poder. Tornou-se uma figura de plástico, um insulto para os milhões de pessoas que acreditaram nele, uma prova viva de que na política não há lugar para as crenças nos amanhãs que cantam.
O caminho da autodestruição de Lula como símbolo político não o afasta por completo do alcance da Justiça – José Dirceu, que ocupou exactamente o mesmo Ministério da Casa Civil que Lula se prepara para ocupar acabou condenado e preso pelo Supremo Tribunal Federal na sequência do caso do Mensalão. E fá-lo transportar o vírus da suspeição para o interior do Governo. No planalto de Brasília, Lula será visto não pelo que foi, mas pelo que se tornou: um político acossado que se refugia no Governo.




