Mostrar mensagens com a etiqueta tribalismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tribalismo. Mostrar todas as mensagens

sábado, setembro 03, 2022

O lugar dos países africanos sob olhar de Prince Mashele

 Prince Mashele, do THE SOWETAN TIMES, escreveu sobre o pós-apartheid da África do Sul e faz a seguinte pergunta: O que podemos fazer a respeito?

“Em meio à confusão política que tomou conta de nosso país, muitas pessoas se perguntam se chegamos ao fim da África do Sul.
A resposta é simples: a coisa chamada "fim" não existe, não em relação a um país. SA estará lá muito depois que Jacob Zuma se for.
O que Zuma fez foi fazer-nos perceber que o nosso é apenas mais um país africano, não um país excepcional no extremo sul do continente africano.
Durante a presidência de Nelson Mandela e Thabo Mbeki, alguns de nós acreditavam que os negros da África do Sul são melhores do que os de outros países africanos.
Devemos todos agradecer a Zuma por revelar nosso verdadeiro caráter africano; que a ideia de Estado de Direito não faz parte de quem somos, e que o constitucionalismo é um conceito muito à frente de nós como povo.
De que outra forma podemos explicar os milhares de pessoas que se aglomeram nos estádios para bater palmas por um presidente que violou a constituição de seu país? Essas pessoas não têm ideia do constitucionalismo.
Agora que recuperamos nosso lugar como outro país africano, devemos refletir sobre e chegar a um acordo com nosso caráter real e imaginar o que nosso futuro pressagia.
Em um país africano típico, as pessoas comuns não esperam muito dos políticos, porque as pessoas se cansam de repetidas promessas vazias.
Em um país africano típico, as pessoas não têm ilusões sobre a unidade da moralidade e da governança. As pessoas sabem que aqueles que têm poder, o têm para si mesmas e para seus amigos e familiares.
A ideia de que o Estado é um instrumento para o desenvolvimento das pessoas, é um conceito ocidental, e tem sido copiado por bolsos de países asiáticos.
Os africanos e seus líderes não gostam de copiar do Ocidente. Eles estão felizes em permanecer africanos e fazer as coisas "do jeito africano".
O modo africano é governado por reis, chefes e indunas, em um ambiente de regras não escritas. Alguém já viu um livro de leis consuetudinárias africanas?
A ideia de que um plebeu possa levantar questões sobre o dinheiro público gasto na residência de um rei não é africana. Os parlamentares do ANC que têm defendido Zuma são verdadeiros africanos.
Pedir a um governante para ser responsável é uma ideia estrangeira - ocidental. Em uma situação em que há conflito entre um governante e as leis, os africanos simplesmente mudam as leis para proteger o governante. É por isso que nenhuma pessoa branca pediu que o rei Dalindyebo fosse libertado da prisão.
O problema com os negros espertos é que eles pensam que vivem na Europa, onde as ideias de democracia foram refinadas ao longo dos séculos.
O que precisamos fazer é voltar à realidade e aceitar que o nosso é um típico país africano. Esse retorno à realidade nos dará um uma ideia bastante boa de como será o futuro do SA .
Este país não se parecerá com a Dinamarca. Pode ser parecido com a Nigéria, onde os cruzados anticorrupção são uma raridade. Por ser um país africano, o nosso não se parecerá com a Alemanha. A África do Sul pode parecer o Quênia, onde o tribalismo impulsiona a política.
As pessoas não devem alimentar a ilusão de que chegará o dia em que a África do Sul se parecerá com os EUA. Nosso futuro está mais do lado do Zimbábue, onde um governante é mais poderoso do que o resto da população. Mesmo que Julius Malema se tornasse presidente, ainda seria o mesmo.
Os líderes africanos não gostam da ideia de uma população instruída, pois pessoas inteligentes são difíceis de governar. Mandela e Mbeki eram eles próprios corrompidos pela educação ocidental. (Admissão: este colunista também é corrompido por tal educação.)
Zuma continua africano. Sua mentalidade está de acordo com Boko Haram. Ele desconfia de pessoas educadas; o que ele chama de "negros espertos". Lembre-se de que Boko Haram significa "Contra a educação ocidental".
As pessoas que pensam que chegamos ao fim da SA, não percebem que realmente chegamos ao início de um verdadeiro país africano, longe das ilusões ocidentais de excepcionalismo. Aqueles que estão incomodados com esse verdadeiro personagem africano precisam de ajuda. O melhor que podemos fazer por eles é pedir-lhes que olhem para o norte do rio Limpopo, para aprender mais sobre governança na África.
O que inquieta a maioria das pessoas quanto ao futuro da África do Sul é que elas têm em mente os modelos ocidentais, esquecendo que o nosso é um país africano.
A ideia de que um presidente pode renunciar simplesmente porque um tribunal proferiu uma sentença adversa é ocidental. Apenas o primeiro-ministro da Islândia faz isso. Os governantes africanos nunca farão isso.
Analisada cuidadosamente, a noção de SA chegando ao "fim" é uma expressão de um sistema de valores ocidental - de responsabilidade, moralidade política, razão e assim por diante.
Todas essas são ideias elevadas de Sócrates, Kant, Hegel e assim por diante. Eles não são africanos.
Todos nós devemos agradecer a Jacob Zuma por nos apresentar a verdadeira República Africana da África do Sul, não algum posto avançado de valores europeus. "

quarta-feira, março 08, 2017

SUDAO DO SUL: EX-GENERAL FORMA GRUPO REBELDE PARA DEPOR KIIR

Um antigo General do exército do Sudão do Sul acaba de anunciar a formação de um grupo rebelde destinado a derrubar o governo do Prersidente sul sudanês, Salva kiir.
Trata-se do Tenente General Thomas Cirillo Swaka, que se demitiu do cargo de chefe-adjunto da logística do exército, que veio a público dizer que a única via para restaurar a manchada imagem do Sudão do Sul é a saída de Kiir da Presidência.
Swaka e o seu novo grupo rebelde “Frente de Salvação Nacional” (NSF) “acreditam que para restaurar a sanidade e normalidade da vida no nosso país, Kiir deve abandonar o posto.”
De acordo com Swaka, a NSF 'vai lutar para erradicar a maldade que manchou a imagem do país'.
Sawka e outros altos oficiais abandonaram o exército após acusações de tribalismo, nepotismo, corrupção e outros abusos contra o governo de Kiir. Ele (o general) demitiu-se do cargo pouco depois de acusar o Presidsnte de Kiir de transformar as forças armadas em “exército tribal.”

sexta-feira, dezembro 21, 2012

Bravo, Daviz!

Canal de Opinião
Por: Jaime Maurício Khamba* 
Embora não seja membro do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), ou tenha um contacto com funcionários do MDM, apreciei o discurso de Daviz no encerramento do congresso do partido na Beira. Foi um discurso notável e que viria a ser reportado por Fernando Veloso, jornalista e director do Canal de Moçambique.

quarta-feira, novembro 28, 2012

Presidente moçambicano rejeita "tese tribal" na distribuição dos recursos naturais

O Presidente moçambicano, Armando Guebuza, disse na terça-feira que as vantagens geradas pela Hidroelétrica de Cahora Bassa (HCB) desmentem a "tese tribal" de que os recursos naturais devem beneficiar apenas a população das zonas detentoras dos recursos.

sábado, novembro 10, 2012

DIZER POR DIZER - Desgovernação da Igreja em Pemba


Por Pedro Nacuo

“…POIS tudo, Senhor, é transformado em objecto de compra e venda, os serviços, o trabalho, a terra, o corpo humano, os órgãos, o sangue, as pessoas, as crianças, as mulheres, o tempo, a educação, as notas, os votos, os próprios eleitores, a consciência dos cidadãos…até as religiões entram no circuito de compra e venda. É caso para perguntar, o que não se vende em Moçambique” Dom Ernesto Maguengue, ex- bispo de Pemba, exaltando a vida e obra de Samora Machel, no dia 25 de Setembro de 2012.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Militares denunciam tribalismo dentro das Forças Armadas moçambicanas

Um grupo de militares afecto no quartel-general das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) denunciou, na passada semana, a prática de tribalismo no processo de atribuição de bolsas de estudo para o exterior, cursos de promoção a general e nomeação para adido militar.

segunda-feira, agosto 06, 2012

“A mentira não faz História de uma Nação” Fanuel Guidion Mahluza, o homem que deu o nome “FRELIMO” ao movimento de libertação de Moçambique

Tema da semana

Por Salomão Moyana

O cidadão que aqui vou entrevistar é natural de Lhovukazi, distrito de Xai-Xai, província de Gaza. Tem 68 anos de idade, dos quais 40 foram passados fora de Moçambique, onde pertenceu a diversos movimentos de libertação nacional. Foi um dos fundadores e vice-presidente da UDENAMO, em 1960 em Bulawayo, foi a pessoa que sugeriu o nome “FRELIMO” ao movimento resultante da união entre UDENAMO e MANU, em 1962 em Acra, e foi adjunto de Marcelino dos Santos na chefia das Relações Exteriores da Frelimo, em Dar-es-Salaam, em Junho de 1962, foi secretário da Defesa do COREMO e foi secretário de Relações Exteriores da Renamo, já nos anos 80. Esteve em várias cadeias, incluindo na de Moçambique “D”, em Cabo Delgado, onde diversos compatriotas nossos foram executados nos anos 70 e 80. Ler mais

sexta-feira, dezembro 16, 2011

Tagir Carimo: Linette, de que nacionalidade es?

No Facebook, Tagyr Karim (Tagir Carimo) o recentemente eleito edil de Pemba, pergunta de que nacionadade era a Linette Olfosson, deputada da Assembleia da República durante toda a legislatura de 2001-2004, e deputada suplente, na legislatura 2004-2009.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Laurent Gbagbo: Epitome of 'Big Man Syndrome'?

By Kofi Akosah-Sarpong

Cote d’Ivoire’s President, Laurent Gbagbo, is using the country’s Constitutional Council with the backing of the military and some southern ethnic groups and elites, to cling to power. Despite the fact that he was defeated by the opposition candidate, Alassane Ouattara on December 2, Gbagbo seems to carry the African political diseases of tribalism and the Big Man syndrome.
Despite having a PHD in History, the African political diseases have destabilized Gbagbo’s rationality. In Cote d’Ivoire’s politics, these are toxic issues. Gbagbo is from the Bete ethnic group. Ouattara is from the Dioula ethnic group. Gbagbo and his associates from the south see Ouattara and his group from the north as “foreigners” or immigrants.

quinta-feira, abril 01, 2010

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique

Por Sérgio Chichava

Continuacão da série aqui

II‐O período democrático e a afirmação dos particularismos

Com a introdução de uma nova Constituição em 1990, que consagrava o pluralismo social, político e económico, grupos étnicos até então não reconhecidos, ou que assim percebiam sua situação, começaram a reivindicar abertamente a sua integração no poder ou no Estado. No entanto, para evitar a emergência de partidos étnico‐regionais, a Frelimo inscreveu na lei que, para ser legalizado, cada partido devia ter um mínimo de assinaturas em cada província. Também, a constituição proíbe de partidos em bases étnicas ou regionais.

Facto interessante é que a maioria dos partidos políticos criados no quadro da nova Constituição era formada por indivíduos do Norte do Save, que, como vimos, sempre se sentiram excluídos do poder. Igualmente, alguns destes partidos políticos (sobretudo da Zambézia) reivindicaram o federalismo, o qual era visto como a solução ideal para uma melhor redistribuição de recursos (políticos e económicos) e inclusão dos grupos étnicos excluídos nas instâncias do poder. Trata‐se por exemplo de partidos como a União Nacional Moçambicana (UNAMO); da Confederação Democrática de Moçambique (CODEMO); do Partido Liberal e Democrático de Moçambique; (PALMO); Partido Democrático de Moçambique (PADEMO); O Partido Nacionalista Federalista (PANAFE); do Partido Progressivo e Liberal Federalista das Comunidades Religiosas de Mocambique (PPLFCRM)22. Havia também o Partido Federal de Moçambique (PAFEMO), que como o seu nome indica, também defendia o federalismo, cuja legalização foi recusada pelo Ministério da Justiça por ter sido considerado anticonstitucional 23.

Outro facto interessante foi a emergência de associações étnico‐regionais, entre as quais pode‐se sublinhar a SOTEMAZA (cujo acrónimo representa as províncias de Sofala, Tete, Manica e Zambézia), Movimento Cívico de Solidariedade e Apoio à Zambézia (MOCIZA), Associação para o Desenvolvimento de Nampula (ASSANA) e a Associação dos Nativos e Amigos de Maputo (Ngiyana ou Nygana)24. O mais interessante nisto é que, por detrás destas associações, havia antigos ou futuros dirigentes da Frelimo. Na Ngiyana, podíamos encontrar, por exemplo, personalidades como Armando Guebuza (actual presidente da Republica), Teodato Hunguana, Américo Mfumo, Raul Honwana, entre outros. Na SOTEMAZA, podíamos encontrar pessoas como Pedro Comissário, um Sena originário de Sofala e alto quadro da Frelimo. Na MOCIZA, havia nomes como Hélder Muteia, Abdul Carimo, Pedro Murrima, ambos naturais da Zambézia. Estas duas associações representavam as elites do vale da Zambézia, que durante muito sentiram‐se excluídas do poder pela Frelimo. Na ASSANA, tínhamos, por exemplo, figuras como Adelaide Amurane, Dionísio Cherewa e Rosário Mualeia. O aparecimento destas associações veio a acordar os particularismos.

As elites da SOTEMAZA ― associação explicitamente sena ―, encabeçadas por Pedro Comissário, numa carta dirigida ao então presidente da República, Joaquim Chissano, e ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Pascoal Mocumbi, pediam a inclusão dos senas ― o segundo maior grupo étnico do país ― no poder, de modo a garantir a coesão nacional25. Nesta carta, Pedro Comissário, que dizia não compreender as razões da exclusão dos senas do poder, indicava uma lista de dez personalidades da etnia sena, que segundo ele eram capazes de exercer ou de ocupar funções de direcção no seio do governo. Segundo este alto responsável da Frelimo, a inclusão dos senas no governo iria acabar com a humilhação e marginalização de que eram vitimas no seio da sociedade moçambicana. Este pedido de Pedro Comissário, primeira a ser feita publicamente na história do Moçambique independente, aparecia um pouco depois da eclosão de conflitos entre os Ndaus e Senas na cidade da Beira26. Este conflito, explorado e exagerado por alguns círculos políticos que esperavam tirar dividendos, encontra uma das suas raízes de explicação na interdição pelo arcebispo da Beira, Dom Jaime Gonçalves (da etnia Ndau), da utilização do Xi‐sena durante os cultos, favorecendo o Xi‐ndau. Este conflito, visto pelos Senas como discriminação, chegou a provocar confrontos entre estes dois grupos, obrigando ao fecho da catedral local durante mais ou menos um período de um ano.

Quanto à MOCIZA e à ASSANA, a Frelimo, numa tentativa de reequilíbrio interno, optou pela cooptação das elites destas associações. Com efeito, temendo que tais associações, ― ambas representando as elites das duas províncias mais populosas do país, elites que sempre se consideraram excluídas das instâncias do poder ― se transformassem em partidos políticos ou em veículos de contestação ao seu governo, a Frelimo tratou de cooptar seus dirigentes. Assim, na MOCIZA, Hélder Muteia, depois de ter sido deputado, foi vice‐ministro da Agricultura (1995‐1999) e Ministro da Agricultura (1999‐2004); Abdul Carimo apareceu como deputado da Frelimo e, mais tarde, ascendeu ao cargo de vice‐presidente da Assembleia da República; Pedro Murrima foi indicado Presidente do Conselho de Administração dos Correios de Moçambique:

Na ASSANA, Rosário Mualeia, na altura secretário‐geral desta associação, foi nomeado governador da província de Nampula; Adelaide Amurane ficou vice‐ministra do trabalho (1994‐2004) e Dionísio Cherewa, na altura funcionário da embaixada dos Países Baixos em Nampula, foi indicado como candidato da Frelimo ao município desta cidade nas primeiras eleições locais de 1998. Assim, cooptando‐se os principais membros, a MOCIZA e a ASSANA foram fragilizadas à nascença.

Em 1994, reivindicações étnicas dos macuas de Montepuez, província de Cabo Delgado, que se queixavam de serem dominados pela minoria maconde, foram reportadas27. Para estes macuas, era incompreensível que o distrito de Montepuez, uma zona predominantemente macua, fosse dirigido por um maconde. Estas revindicações, que chegaram a atingir alguns contornos violentos, foram acompanhadas da exigência da inclusão dos macuas nas instituições do Estado. Igualmente, os macuas perguntavam‐se por que é que em toda a província só havia dois administradores macuas, enquanto eles constituíam a maioria. Tratava‐se do reacender das velhas clivagens sócio‐históricas entre estes dois grupos étnicos. Com efeito, reza a história que durante o período esclavagista, os macondes teriam traficado os macuas.

Este período também foi marcado pela aparição de jornais com designações de grupos étnicos. Trata‐se, por exemplo, de “Moçambique para todos” (http://www.macua.blogs.com) 28. Nas universidades públicas, como a Universidade Eduardo Mondlane, foi introduzido o ensino de certas línguas locais. No município de Maputo, o xi‐ronga foi em 2000 adoptado como uma das línguas oficiais de trabalho29.

Leia todo o artigo aqui

Fonte: Instituto de Estudos Sociais e Económicos

sábado, fevereiro 13, 2010

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique (4)

Continuacão da série

Por Sérgio Machava

“É preciso matar a tribo para construir a nação”

No período pós‐colonial, a Frelimo definiu a discriminação com base na cor, tribo ou religião como um dos seus combates prioritários. As palavras de ordem eram “abaixo o racismo, o tribalismo, o regionalismo, o divisionismo, etc.” Mas como foi feito esse combate na prática?
À semelhança de outros regimes africanos que defendiam o partido único em detrimento do pluralismo político e social ― oficialmente por medo de acordar ou exacerbar os particularismos identitários ―, ou, como diziam alguns líderes africanos, por temer que cada grupo étnico criasse seu próprio partido, a Frelimo negava todo o tipo de diversidade: religiosa,étnica, racial, politica, linguística, social, entre outras. Tal negação também resultava da experiência dos conflitos étnico‐tribais que este partido tinha conhecido durante a luta anticolonial, e era feita em nome de uma ideologia que defendia a criação do “Homem Novo”, o qual devia estar livre dos seus “maus hábitos”, que punham em causa a moçambicanidade. Assim, a língua portuguesa foi utilizada como um dos veículos importantes para construir a identidade nacional, marginalizando‐se completamente as línguas locais, de tal sorte que foi interdita aos alunos falar as línguas locais nas escolas. Anúncios que tornavam obrigatória a língua portuguesa nas instituições públicas foram colados. Os nomes das regiões e clubes desportivos com conotação étnico‐regionais foram abolidos. Foram os casos, por exemplo, da antiga circunscrição dos Muchopes na província de Gaza, que tornou‐se Manjacaze, e da dos macondes, em Cabo Delgado, que passou a designar‐se por Mueda. Não havia macuas, machanganes, wayaos ou macondes, havia apenas moçambicanos16.
Era preciso “matar a tribo para construir a nação”, dizia Samora Machel, apoiando‐se numa expressão do primeiro presidente Ganês, Nkwame Nkrumah. A tribo, considerada arcaica e “feudal”, era vista como incompatível com o objectivo de construir a nação, com a unidade nacional, e desapareceria com a emergência do “Homem Novo”, alfabetizado, falando português e vivendo na aldeia comunal. Neste período, a existência de outros actores políticos, fora da Frelimo, era interdita, e os que tentaram fazê‐lo foram desencorajados ou desqualificados. Os que não estavam de acordo com a Frelimo deviam ou expor‐se à repressão, ou exilar‐se. Um só sindicato, uma só organização da mulher e uma só organização da juventude, todos obedecendo a linha do partido, foram criados. A divisa era um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, um só partido17.
Esta estratégia não iria acabar ou resolver o ressentimento dos moçambicanos do norte do Save, que sempre queixaram‐se do tribalismo dos dirigentes sulistas da Frelimo. Pelo contrário, acentuou‐a, em grande medida devido a incapacidade do Estado em promover o desenvolvimento e, consequentemente, em redistribuir os recursos (políticos, económicos), sobretudo para os moçambicanos do norte do Save.
Por exemplo, aquando do fenómeno chupa‐sangue que quase paralisou a Zambézia em 197818, o governo local indicava o tribalismo como sendo um dos factores que teria levado a manifestações violentas no distrito costeiro de Pebane, que, oficialmente, teriam provocado um morto, sete feridos e vários detidos. Segundo o governo zambeziano, na sua ira, as pessoas perguntavam‐se porque todos os responsáveis distritais locais (do administrador até aos directores distritais, inclusive o chefe das Lojas do Povo19) não eram zambezianos, quando localmente havia gente capaz para ocupar estes postos. Esta reacção não era de admirar num contexto em que os zambezianos se consideravam excluídos e marginalizados pelo regime excessivamente sulista, como explica o arcebispo local, Dom Filipe Governo:

“No princípio, a Frelimo enviou quadros do sul, então os zambezianos interpretaram isso como um colonialismo do sul. Isso fez recuar a Zambézia em relação à Frelimo. Mesmo os administradores eram do sul, o chefe de apoio e controlo, mesmo o chefe do posto, eram do sul. Mesmo na Universidade [Eduardo Mondlane, principal universidade pública no Sul] quando o professor sabe que este estudante vem do Centro ou do Norte [do país], a probabilidade de ele [o estudante] chumbar é maior que a de um estudante do sul...”20

A Resistência Nacional de Moçambique (Renamo)21, cujos dirigentes eram maioritariamente do Centro de Moçambique, na sua guerra contra a Frelimo que durou cerca de 16 anos, dizia entre outros, bater‐se contra o tribalismo deste partido.
Esta visão da Frelimo ― que confundia unidade e unicidade ― não só levou a recusa da diversidade das identidades e de interesses no seio da sociedade moçambicana, como também criou conflitos entre diferentes grupos. Era a procura da unidade a todo o preço em nome de uma classe operária, ela mesmo mistificada e virtual, sublimada no Estado, ignorando os diferentes conflitos entre os diversos segmentos da sociedade moçambicana.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

O PESO DA ETNIAS E O PODER POLÍTICO

Por Noé Nhantumbo

Um “Dejá Vu” ou algo a que ninguém resiste…
Há rumores e rumores… O que de facto é verdade só os tempos é que dirão. Muitos dizem que os esforços e arranjos que se fazem no seio dos partidos políticos são no sentido de acomodar personalidades influentes e assegurar uma obediência e cumprimento de determinada orientações e sobretudo uma agenda política que não se compadece com pessoas manifestamente independentes.
Por outro lado tenho notícias não oficiais de remodelação da estrutura directiva de um partido recém-formado, o MDM. Se na Renamo temos na prática uma remodelação por força da desobediência de uma parte de seus membros eleitos deputados para a Assembleia da República e em assembleias provinciais, ter também uma remodelação por força do que seja ao nível do MDM é um sinal de que alguma coisa está acontecendo na cena política moçambicana.
Se queremos ser honestos e politicamente coerentes teremos de dizer que os partidos políticos moçambicanos possuem em si problemas que complicam a sua actuação política. Em virtude de toda a força que a ambição dos nossos políticos possui, o tipo de atitude e postura dos mesmos, leva a que sejam levados facilmente para águas obscuras e se entreguem a realização de agendas que não interessam aos cidadãos.
Há toda uma carga de impurezas de natureza tribal que afogam os esforços de suas lideranças em contribuir para a Unidade Nacional. O cancro da Unidade Nacional é sem dúvida o tribalismo e qualquer outro tipo de descriminação. Tanto o racismo como o tribalismo não servem a causa nacional e qualquer tentativa de encobrir a sua existência não é bem-vindo.
Diz-se a boca pequena de que o MDM é um partido com bastante influência da tribo Ndau. Diz-se que há uma forte tendência de fazer equilíbrios através da colocação cimeira de elementos provenientes desta tribo em detrimento de gente com outra origem étnica. Historicamente não se pode negar ou condenar um indivíduo só porque é Ndau ou de uma outra etnia. Também não se pode condenar os provenientes do Sul do país só porque não são Ndaus. O facto da origem de parte significativa dos membros fundadores do MDM ser de origem Ndau decerto que influi na composição de seus órgãos dirigentes. Se a Frelimo tem dado proeminência aos elementos provenientes do Sul do país no que respeita a nomeações ou atribuição de cargos de relevo na organização, isso não deve levar a que outros políticos enveredem pelo mesmo caminho. Cabe à direcção do MDM fazer todo o tipo de escolhas necessárias para o funcionamento de seu partido tendo sempre em conta que Moçambique é o tal País de todos e não só dos que pertencem a esta ou aquela etnia. Não vamos deixar de tomar decisões só porque tal pareceria tribalismo ou algo idêntico. Vai haver uma tentativa de impedir que se tomem decisões no seio dos partidos da oposição para não se receber o catálogo de tribalista.
Esta e outro tipo de acção vão ser tentadas e utilizadas pelos que trabalham para minar os esforços dos outros partidos políticos.
Se durante muitos anos foi palavra de ordem escolher e utilizar gente de uma mesma tribo para a ocupação de cargos numa organização política como ao partido Frelimo isso não deve levar o MDM a copiar o mesmo procedimento.
Temos de admitir que pertencemos todos a uma determinada tribo e que não é proibido falarmos da nossa tribo. O que talvez seja problemático e perigoso e de questionar é a tendência de utilizar a nossa tribo como critério de escolha de alguma coisa que diga respeito a todos. Moçambique não é país Ronga ou Ndau. A pertença à estrutura directiva de um partido não se deve basear em pertencer a uma tribo ou a outra.
Quando me dizem que o MDM vai nomear uma nova Comissão Política porque a actual foi integralmente destituída estamos em presença de uma crise política. Não tenho elementos suficientes para analisar a dimensão e o tipo de crise. Pode ser que esta seja a via encontrada para resolver alguns problemas do partido em referência. Também pode ser que esta seja a manifestação de uma luta entre linhas no seio de um partido que teve um parto difícil ao receber no seu seio pessoas com as mais variadas histórias e passados. Alguns dos que se apresentam como pessoas influentes e preponderantes neste partido ou que fazem parte de suas estruturas directivas e são também deputados no Parlamento nacional são pessoas manifestamente ambiciosas que se tem apresentado como autênticos animais políticos por todo o lado em que passam.
Esperemos que a motivação da crise não seja de origem étnica e que nem sejam laços de familiaridade que estão determinando a decisão de destituir. Fazer política activa e constituir um partido político é algo que se faz através de uma determinação forte que vence dificuldades e crises de todo o tipo. Os que foram destituídos consoante os rumores não devem procurar lavar roupa suja na rua porque isso só seria utilizado e aproveitado pelos seus opositores. Diremos o que já antes disse. Muitos não vão resistir as vicissitudes da política. Muitos vão desistir e recuar perante ou face à primeira dificuldade do processo.
O tachismo de muitos dos políticos que aderiram ao projecto do MDM vai-se manifestar aquando do aparecimento das primeiras dificuldades.
Há toda a necessidade de clarificação dos procedimentos no seio do MDM e de outros partidos políticos que se querem apresentar como alternativa ao actual partido no poder.
Não se pode esperar facilidade por parte de quem está no poder e há que acreditar que o grau de infiltração nos partidos é uma realidade. Embora não se possa falar qualificadamente sobre tal grau de infiltração a verdade parece ser no sentido de se acreditar que há uma grande actuação dos serviços de inteligência do partido no poder no sentido de sabotar os outros partidos e a sua pretensão de um dia governar Moçambique.
É necessário aceitar que os outros que não são da nossa tribo também são moçambicanos.
Já se falou de uma determinada carga tribal na Renamo e na Frelimo e é importante que os partidos políticos moçambicanos sejam capazes de estar e viver na política sem ter que recorrer a artifícios como a tribo.
Nascemos sendo membros de uma tribo mas não podemos jamais esquecer que Moçambique é o país a que pertencemos

(Noé Nhantumbo)

Fonte: CANALMOZ – 11.02.2010

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique (3)

Por Sérgio Chichava

continuacão

I‐“A Frelimo é tribalista”!
Para compreender os contornos da questão identitária em Moçambique, partir‐se‐á, antes de mais, do período da formação da Frelimo e da guerra colonial (1962‐1974). Em seguida, ir‐se‐á analisá‐la no contexto do partido único de orientação “marxista‐leninista” e, enfim, na actual era pluralista (1990‐...)

O chigondo8 só serve de “carne para canhão”

Antes de mais, é preciso recordar que a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), constituída em 1962 em Dar‐es‐Salam, na Tanzânia, é, oficialmente, resultado da fusão de três movimentos: a União Nacional Democrática de Moçambique (UDENAMO); a União Nacional Africana de Moçambique (MANU) e União Nacional para Moçambique Independente (UNAMI). A UDENAMO tinha como seus fundadores emigrantes moçambicanos na antiga Rodésia do Sul, cuja maioria era originária do antigo distrito de Manica e Sofala (caso de Uria Simango), à excepção do seu presidente Adelino Gwambe, nascido em Inhambane, sul de Moçambique, mas que, antes de emigrar para a Rodésia do Sul, tinha trabalhado na Beira, antiga capital do distrito de Manica e Sofala. A MANU, cujos lideram eram Mateus Mole e Malinga Milinga, era um movimento essencialmente formado por emigrantes macondes no Quénia e na Tanzânia. A UNAMI, cujo líder era Baltazar da Costa Chagonga, originário do antigo distrito de Tete, tinha sido formada em 1961, essencialmente, por nativos do mesmo distrito. Eduardo Mondlane, um changane, originário de Chibuto na província de Gaza, sul de Moçambique, foi eleito presidente da Frelimo e Uria Simango, vice‐presidente.
Com base no discurso oficial acima apresentado, é‐nos mais fácil compreender o que vem a seguir, nomeadamente, porque razão a Frelimo ― cuja direcção era, maioritariamente, composta por indivíduos do sul de Moçambique ― foi sempre acusada de discriminar os moçambicanos do norte do rio Save9. Alguns episódios que iremos relatar a seguir são reveladores das tensões étnico‐tribais no seio deste movimento durante este período.
Pouco tempo após a sua formação, alguns Macondes ― que constituíam o grosso dos emigrantes moçambicanos na Tanzânia ― começaram a queixar‐se de que não havia nenhum maconde nos lugares direcção da Frelimo (Mateus Mole, antigo líder da MANU, que na Frelimo ocupava o posto de tesoureiro, tinha sido expulso por divergências), que não recebiam bolsas de estudo, que só serviam a Frelimo para pagar quotas e nada mais, que este movimento era apenas para gente do Sul10.
Em 1968, estudantes do Instituto Nacional Moçambicano em Dar es‐Salaam, na sua larga maioria do norte do Save, acusaram a direcção da Frelimo de tribalismo e de regionalismo, e tomaram posição contra certos professores brancos na Instituição (aparentemente, apenas contra os brancos de origem portuguesa)11. Os estudantes apontavam como exemplos daquilo que consideravam como falta de igualdade na Frelimo o facto de que, para além de a maioria dos dirigentes serem do sul de Moçambique, quando um estudante do norte reprovava nos exames finais, era enviado para os campos de treino, enquanto um estudante do sul em idêntica situação não o era12. Esta situação levou a eclosão de desacatos que levaram não só ao fecho temporário do Instituto, como também à morte de Mateus Sansão Mutemba, nascido no sul de Moçambique, na altura membro do Comité Central da Frelimo.
A crise iria atingir o seu auge após a morte do primeiro presidente da Frelimo, Eduardo Mondlane, em Fevereiro em 1969, isto porque Uria Simango, então vice‐presidente, devia substituí‐lo, mas foi descartado, e um triunvirato composto por Samora Machel, Marcelino dos Santos, e do próprio Simango, foi constituído para dirigir o movimento. Isto acentuou as divergências no seio Frelimo, sobretudo entre os membros do triunvirato, pois Simango não estava de acordo com esta nova situação. Assim, em Novembro de 1969, Uria Simango publicou um documento intitulado Gloomy Situation in Frelimo (Triste situação na Frelimo), no qual afirmava que o tribalismo dos dirigentes sulistas da Frelimo era uma dos principais responsáveis pela crise pela qual o movimento estava a passar:
“Desde 1966, tem‐se manifestado uma tendência no grupo, infelizmente composto por gentes do sul, que incluíam o falecido presidente da Frelimo, no sentido de tomarem decisões por eles próprios e impô‐las aos outros por meio das suas manobras. O falecido presidente da Frelimo foi criticado por certas pessoas do Sul pelas consequências que este método poderia trazer na causa final. Não se fez caso deste aviso. Este grupo continua com este método. Realizaram‐se vários encontros na casa de Janet [esposa de Eduardo Mondlane] tendo tomado parte neles só membros da tribo. Temos de compreender que em Moçambique não existe nenhuma tribo superior às outras...Todas as tribos devem receber um tratamento idêntico. Devem ter os seus direitos actualmente, durante a luta, e depois, na independência”13.
Oficialmente, foi na sequência deste texto que Uria Simango foi expulso da Frelimo.
Também, foi se queixando de discriminação que alguns antigos membros da Frelimo e do Coremo ― Amós Sumane, Matias Tenda, Mazunzo Bobo ― criaram um movimento separatista em 1968, a União Nacional da Rombézia (UNAR). Segundo os dirigentes deste movimento ― que pretendia a independência da região que vai do Rovuma até ao Zambeze (Cabo Delgado, Niassa, Nampula, Tete e Zambézia), ― os dirigentes sulistas da Frelimo, movidos meramente por intuitos “tribais”, para além de usar os nortenhos como “carne para canhão” ― ficando eles nos gabinetes ou indo estudar no estrangeiro ―, moviam a guerra apenas no Norte de Moçambique, castigando duramente as populações desta região14. De acordo com os dirigentes da UNAR, o tribalismo da Frelimo, ilustrado pelo seu presidente, Eduardo Mondlane, que se tinha rodeado apenas por pessoas do Sul, tinha criado discórdia e divisões no seio dos moçambicanos. Mas, um tanto paradoxalmente, a UNAR propunha eliminar o tribalismo e o regionalismo da Frelimo, considerados como obstáculos à unidade nacional, defendendo...a divisão de Moçambique. Como explicar isso?
De certa maneira, a UNAR representa um dos exemplos clássicos da negação do Moçambique‐tal‐como‐foi‐“fabricado” pelos Portugueses, isto é, de um espaço não necessariamente vivido por todos os moçambicanos. O estudo da UNAR põe a lume as dificuldades que há de se falar de “uma nação moçambicana”. A confortar esta posição, está o facto de que, ainda durante a guerra colonial, muitos moçambicanos do Norte e Centro do país abandonaram a Frelimo, acusando este movimento de ser “tribalista”.
Mas se nos atermos apenas à tese “tribalista” para explicar estas deserções ou o desconforto de muitos moçambicanos do Norte do Save no seio da Frelimo, ficaríamos numa análise superficial da questão. Em primeiro lugar, é preciso dizer que estas deserções se explicam mais pela diferença de trajectórias socioculturais do que por meras questões “tribais”. Os moçambicanos idos das diferentes regiões não se conheciam, e pouco fora o contacto existente entre eles durante a colonização. Moçambique como nação não existia, e provavelmente ainda não existe, porque não é necessariamente vivido como tal por todos os moçambicanos15.
A maneira como foi organizada a economia de Moçambique nos finais do século XIX, com a emergência do capitalismo colonial, é outro factor de explicação. Nessa altura, a economia de Moçambique foi transformada numa “economia de serviços”, baseada na exploração dos portos e caminhos-de-ferro que serviam essencialmente os países vizinhos, nomeadamente as antigas Rodésias (do Norte e do Sul) e a África do Sul. O antigo distrito de Manica e Sofala (correspondente as actuais províncias com o mesmo nome), foi ligado, no centro, às Rodésias e a Lourenço Marques (actual Maputo), e, no extremo sul, à África do Sul. Nenhuma ligação ferroviária Norte‐Sul foi construída, como teria sido importante numa óptica de estruturação do espaço moçambicano. A economia de Moçambique estava então dependente dos seus vizinhos exportadores. Este período corresponde, também, a emergência de desequilíbrios regionais entre as três regiões do país (norte, Centro e Sul). Lourenço Marques, no extremo sul, que gozava da grande ascensão económica da África do Sul, tornou-se a nova capital e o novo “coração” económico de Moçambique, em substituição da Ilha de Moçambique, no norte. Se Beira aproveitou um pouco da sua ligação com as Rodésias, o mesmo não se pode dizer doutras regiões do país, onde o Estado português, na impossibilidade de rentabilizá-las, teve que cedê-las a companhias concessionárias dotadas na sua maioria de capitais estrangeiros, que também não trouxeram nenhum progresso. Podemos, pois, datar dessa época (finais do século XIX), a origem dos ressentimentos das elites dessas regiões em relação ao Sul. A hegemonia do Sul sobre as outras regiões vem daí, e exprime as mudanças regionais decorrentes do desenvolvimento económico do Rand e do Transval. De certa maneira, a marginalidade ou a marginalização dessas regiões e das suas respectivas elites vem daí.

Continua!

Nota do Reflectindo: 1) recomendo sempre que leiam todo o artigo  aqui, pois aí vêm as notas do autor. 2) leiam aqui o artigo de Uria Simango sob o títuto "Gloomy Situation in Frelimo".

terça-feira, janeiro 26, 2010

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Fonte: várias, por exemplo aqui

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique (2)

Por Sérgio Chichava

Continucão (1)

Tribo, tribalismo, etnia, etnicidade, breve clarificação dos conceitos

Antes de mais, é preciso sublinhar que tribo e etnia são dois termos quase equivalentes. Para P. Mercier, uma etnia é um “grupo fechado, descendendo de um mesmo antepassado ou, mais geralmente, tendo a mesma origem, possuindo uma cultura homogénea e falando uma língua comum3 Por seu lado, J. Honigmann afirma que" em geral, os antropólogos estão de acordo sobre os critérios através dos quais uma tribo (como sistema de organização social) pode ser descrita: um território comum, uma tradição de descendência comum, uma linguagem comum, uma cultura comum e um nome comum...”4.
Segundo Catherine Coquery‐Vidrovitch, o conceito de etnia teria aparecido pela primeira vez no vocabulário científico por volta de 1787. Nessa altura, tinha uma conotação religiosa, significando “pagão”, em oposição ao cristão ou ao judeu5. Com a emergência do imperialismo colonial nos finais do século XIX, o conceito vai mudar de sentido, passando a designar os povos ou sociedades consideradas “primitivas” ou pré‐industriais, em oposição às sociedades ocidentais ou evoluídas. A partir dessa altura, a tribo ou etnia, em oposição à nação ― fenómeno então tido como tipicamente ocidental ― foi considerada como um fenómeno africano, onde os respectivos povos não teriam consciência da sua unidade nem vontade de viver em conjunto.
Por derivação das definições acima, etnicidade ou “sentimento étnico” é um “feito de consciência” (« fait de conscience »), porque ela não é nada mais que a consciência de pertencer a um grupo humano diferente dos outros e de reivindicar essa diferença6. A etnicidade seria pois, a expressão da identidade étnica, da diferença.
O tribalismo, que à semelhança de todos os “ismos” tem uma conotação ou carga negativa, seria a exclusão dos que não pertencem à nossa tribo ou etnia, marginalizando‐os ou excluindo‐os. O tribalismo seria a instrumentalização ou a manipulação das identidades étnicas com vista a tirar certos benefícios. Mas o tribalismo não pode ser visto apenas do lado negativo. Como afirma Christian Coulon, ele pode também constituir o veículo de reivindicações populares e, frequentemente, provocar paixões colectivas7.

A série continua, mas para os curiosos podem ler todo o artigo aqui.

domingo, janeiro 24, 2010

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique (1)


Por Sérgio Chichava

“Governador tribaliza Niassa”1. Foi com esta manchete que o semanário “Magazine Independente” abriu a sua edição de 12 de Março do ano em curso. A manchete baseava‐se na opinião de duas figuras originárias desta província, nomeadamente, o primeiro presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e antigo reitor Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a principal Universidade pública de Moçambique, Brazão Mazula, e Carlos Machili, alto quadro da Frelimo e antigo reitor Universidade Pedagógica (UP), considerada a segunda universidade pública do país. Segundo Brazão Mazula e Carlos Machili, o actual governador do Niassa, Arnaldo Bimbe, um changane2 natural de Gaza, estaria privilegiando determinadas tribos na distribuição de posições de prestígio (politico, económico e social) em detrimento de outras, fomentando, assim, o tribalismo na província. Acusações deste género não são novas em Moçambique. Com efeito, a questão identitária‐étnica foi e continua a ser uma questão omnipresente nos discursos das elites moçambicanas (políticos, académicos, etc.). Mas o que é o tribalismo? Como é que se manifesta e em que ele pode ser prejudicial para o país? O que é estará por detrás deste tipo de discursos?
Para se entender as razões da persistência destas questões no país devemos adoptar uma perspectiva sócio‐histórica, retraçando os diferentes contornos da questão identitária, recordando alguns episódios que mostram que o problema étnico‐tribal em Moçambique, à semelhança de outros países africanos, está na ordem do dia, ainda que muitas vezes de forma latente. A ideia defendida aqui é que os conflitos étnico‐tribais exprimem uma relação diferenciada de certos grupos sociais com o Estado, manifestando‐se quando determinados grupos étnicos vêem‐se prejudicados e discriminados no acesso a recursos.
Para facilitar a compreensão do leitor, a análise deste fenómeno social complexo é feita em dois momentos: o primeiro abarca o período da constituição dos movimentos anticolonialistas, da luta pela independência e dos primeiros quinze anos da independência, caracterizados pela presença de um Estado centralizado e homogeneisante; o segundo começa oficialmente em 1990, com a morte desse Estado e a transição para o pluralismo democrático.

Continue a ler aqui

Nota: este é um trabalho escrito por Sérgio Chichava, pesquisador do IESE. Continuarei a publicar algumas partes deste trabalho.

quinta-feira, maio 14, 2009

Depois do racismo : Tribalismo e regionalismo novos temas de Hermínio Chissico

O escritor moçambicano Hermínio Chissico esteve há dias em Pemba, onde disse ao nosso Jornal ter ido efectuar um trabalho de pesquisa psico-socio-antropológica visando a elaboração de um dos seus próximos livros, que vai abordar a problemática do tribalismo e regionalismo em Moçambique.

Ele iniciou este trabalho de campo em Novembro, tendo escalado as províncias da Zambézia, Sofala e Niassa.

Chissico diz que a pesquisa pretende apropriar-se de três aspectos, designadamente a existência real ou não do problema do tribalismo e do regionalismo em Moçambique. Se existe, de que maneira se manifesta e finalmente as cognições que as pessoas têm sobre estes fenómenos e, consequentemente, a avaliação quantitativa e qualitativa dos vários impactos que o mesmo fenómeno tem e pode ter.

Trata-se, com efeito, da continuidade do tratamento que Chissico pretende dar aos fenómenos que várias vezes fazemos de contas que não existem, mas que, na vida real, mexem com a sociedade no seu dia-a-dia, ainda que publicamente ninguém admita a sua existência incómoda.

Já com “O Racismo na sua Perspectiva Sociológica e Psicológica: como o mesmo se manifesta a nível global e em Moçambique”, Hermínio Chissico considerava abordar tal matéria uma tarefa complexa, atendendo a delicadeza do assunto e justificava: “Quem aborda este tema corre, entre vários, o risco de ser conotado, ele mesmo, à priori, de racista ou um indivíduo que esteja a instigar, a fomentar o racismo”, mas, volta-e- meia, reuniu coragem de conscientemente abraçar o assunto.

Chissico diz ser um observador que, a partir do seu ângulo, faz leituras tecendo opiniões próprias, alicerçando-se em factos observados e medidos no âmbito daquilo que as ciências chamam de medidas de frequência de um fenómeno e limites da observação do mesmo.

Se no “O Racismo” Chissico admite tratar-se essencialmente do seu ponto de vista sobre a matéria, abordando-o conforme o seu alcance sociológico e psisológico, na sua amplitude global e interna, longe do espírito de tentar ferir susceptibilidades, pretendo apenas que o mundo das relações humanas não seja à base dos paradigmas, das premissas do racismo, desta vez preferiu calcorrear o país para ir buscar as sensibilidades locais sobre o seu propósito.

O “Racismo” foi lançado na cidade de Maputo em Agosto de 2007, tendo sido apresentado, em forma de relançamento, nas cidades da Beira, Nampula e Pemba.

Fonte: Jornal Notícias

P.S: Alguém pode me ajudar a adquirir a obra de Hermínio Chissico sobre o racismo?

sábado, novembro 11, 2006

Graça Machel denuncia regionalismo e tribalismo na FRELIMO

Graça Machel, viúva de Samora Machel, primeiro presidente de Moçambique, denunciou hoje a ascensão do regionalismo e tribalismo no seio da FRELIMO e apelou a uma nova estratégia no combate à corrupção.

Falando no IX Congresso da FRELIMO, Graça Machel proferiu a primeira intervenção desalinhada com o ambiente geral, marcado por um grande apoio da maioria dos delegados ao presidente e secretário-geral do partido, e presidente da República, Armando Guebuza.
As tendências regionalistas e tribalistas «sempre existiram na FRELIMO mas com algum pudor», disse a actual mulher do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, acrescentando que, actualmente a mobilização «é feita com base no regionalismo e no nepotismo».