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terça-feira, janeiro 26, 2010

E SE OBAMA FOSSE AFRICANO?

Por Mia Couto

Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coração tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimensões. Ao sair à rua, a minha cidade se havia deslocado para Chicago, negros e brancos respirando comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de "nosso irmão". E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: " E se Obama fosse camaronês?". As questões que o meu colega dos Camarões levantava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostaria de explorar neste texto.

E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-Ihe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-Ihe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Kenneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente "descobriram" que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado 'ilegalmente". Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Kenneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um "não autêntico africano". O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos "outros", dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso "irmão" teria que dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada "pureza africana". Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder - a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado - a vontade do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos - as pessoas simples e os trabalhadores anónimos - festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de Novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória da maioria norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos gananciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo verdadeiro de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

Fonte: várias, por exemplo aqui

domingo, maio 03, 2009

Discurso racista e tribalista de Nuno Amorim (3)

Continuacão da série

Para o Nuno Amorim, o anónimo, por sinal membro ou simpatizante da Frelimo que questiona a sua postura, não pode ser outra pessoa senão o Reflectindo. Apenas eu perguntaria ao Nuno Amorim, se ninguém dos seus mais próximos já lhe criticou pelo discurso. Será que todos eles, incluindo os seus superiores, já estão claros sobre o que faz o José de colonialista, de um assassino dos moçambicanos?

Acredito que dentro da Frelimo, partido que Nuno Amorim usa para o seu discurso racista e tribalista é constituido por uma maioria não racista e tribalista. Os estatutos da Frelimo são claros nesse aspecto e o discurso racista e tribalista viola estes mesmos estatutos.

Contudo, tenho vindo a apontar aqui que o tipo do discurso do Numo Amorim não constitue caso inédito. Para alguns a minha insistência pode parecer desnecessária Mas todos nós sabemos como é sério este problema. Zimbabwe é caso muitíssimo vivo e recente. Por outro lado, é necessário imaginarmos o nosso sentimento se coisa semelhante fosse dito por um “branco” contra nós.

Mas para eu não ser abstrato vou citar alguns exemplos desse tipo de discurso, demonstrando que está sendo hábito para algumas pessoas:

Um que se fez passar por nome de Leonel Paulo Ivo, no Moçambiqueonline, uma vez escreveu o seguinte:

“... Aproveito para lembrar o que aconteceu logo depois dos Acordos de Lusaka: brancos e mestiços não aceitaram de modo algum que os donos da terra a tomassem de volta. Veja só a gravidade desse assunto: Mesmo depois dos Portugueses terem aceito devolver a nossa terra, os mestiços e alguns brancos não aceitavam de modo algum! Juntaram-se, armados, para atacar os moçambicanos, impedindo que nós nos governássemos a nós mesmos. O povo apercebendo-se disso fez questão
de os afastar e aconteceu aquele banho de sangue (a FRELIMO nem estava envolvida nisso). Foi o povo por si só que derrubou os brancos e mulatos, a FRELIMO já tinha derrubado os colonialistas.
Acontece que alguns indivíduos desse grupo não ficaram satisfeitos. Essa insatisfação lhes governa até hoje. Para esses indivíduos a FRELIMO é a culpada das perdas das suas mordomias...” (veja aqui).

Segundo um artigo de Machado da Graça (ler aqui ou aqui), João Candiane Cândido, actualmente Vice-Ministro da Mulher e Acção Sociais, chamou entre outros nomes ao da Graça de moçambicano não genuino. Se bem que muitos se preocuparam em saber do que era ser moçambicano genuíno e não genuíno, ficámos sem saber se os seus superiores hierárquicos de Cândido já o pediram a explicação. O problema deste discurso é que ataca uma boa boa parte de nossos compatriotas. Então, vamos considerar de normal?

Durante a campanha eleitoral para as autárquicas, na cidade da Beira, levantou-se um caso que me deixou confuso. O governador da província de Sofala, Alberto Vaquina, deplorou a questão do racismo supostamente levantada, na campanha para as eleições municipais na cidade da Beira. Foi dito que alguns dos adversário de Lourenço Bulha, baseiando-se de ele ser um mestiço apelavam para não se votar por ele. O que deixou-me confuso é o facto de Vaquina não ter dito se este tipo de adversários estava dentro ou fora do partido Frelimo. Contudo, Vaquina avançou com um exemplo pessoal que permite que dentro da Frelimo e na Beira podia havia esse discurso racista. Vaquina que é casado com uma branca e tem filhos mestiços, disse que houve tempo que pessoas disseram-lhe que devia reduzir o número de brancos que vinham visitar-lhe. Quem eram essas pessoas? Não terão sido as mais próximas? (veja aqui e aqui). Em ambos os casos, não estou a dizer que não possam ser pessoas fora da Frelimo, mas há sempre o que me obriga a suspeitar. Após a vitória de Armando Guebuza houve pessoas que escreveram claramente no Imensis que ele não devia colocar nenhum branco no seu elenco governativo.
Seja como for, este tipo de discursos chamo de uma oferta envenenada, uma oferta amarga e uma vergonha de todos nós.

quarta-feira, abril 22, 2009

O discurso racista e tribalista de Nuno Amorim (1)

Nuno Amorim é um personagem que não sei se existe na verdade com este nome tal como é ou se pseudónimo, como muitos usam o anonimato e pseudónimos para manifestarem os seus comportamentos atípicos, tais como discursos racistas e tribalistas. Com muita certeza sei que já se fez passar por Orlando Jaime (antropólogo).

Depois de tanto tempo sem comentar nos blogs, Amorim acaba postando neste blog um comentário racista e tribalista que me obriga a escrever as minhas reflexões sobre a postura racista e tribalista de alguns cidadãos que a manifestam sob escudo da Frelimo. Eis o comentário em referência:

Nunoamorim disse...
"E nos do MDM vamos tentar implementar o nosso lema, Moçambique para os frustrados, ambiciosos ou os colonialistas como o José, que massacravam o povo Moçambicano. Por isso, a nossa primeira tarefa será ir a Europa e dizer aos patrões que estamos em processo de implantação e aproveitar pedir subsídios. Igualmente informo que a nossa comissão politica será maioritariamente composta por Brancos e Ndaus..."

Umas simples perguntas vão para o Nuno Amorim:

- O José é colonialista? Como é que o Nuno Amorim chegou a essa conclusão?

- O José e os supostos frustrados (frustrados de quê, afinal?) massacraram o povo moçambicano? Onde, quando e como?

- Quem são os Brancos e Ndaus de quem Amorim se refere?