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terça-feira, janeiro 10, 2017

Leitura recomendada


Fernando Amado Couto, cidadão moçambicano, cresceu no meio da efervescência intelectual que caracterizou o jornalismo moçambicano na década de setenta. Tendo vivido durante a infância e adolescência na cidade da Beira, mudou-se para Maputo, iniciou a sua actividade profissional como jornalista em 1974, no jornal Notícias, experiência que lhe permitiu acompanhar de modo crítico momentos cruciais da História recente de Portugal e de Moçambique. Observador atento e activo dos acontecimentos que marcaram as convulsões finais da época colonial e conduziram ao momento mais alto da História de Moçambique — a independência nacional —, Fernando Couto conviveu de perto com muitos dos protagonistas desse período histórico e acumulou, ao longo dos anos, um considerável acervo de informação. Residente em Maputo, onde exerce actividade empresarial, Fernando Couto estudou Direito, em Lisboa, e, posteriormente, fez uma pós-graduação em Administração e Gestão na Cidade do Cabo. Ler aqui.

domingo, janeiro 08, 2017

Despolitizar a história

“A coordenação de forças que existiu na Frelimo não nos permitiu conhecer os vários lados da história. É uma grande lacuna porque não se pode compreender a história de um povo ignorando esses desenvolvimentos que têm muita ligação com o que hoje somos”, repara.” (Um antigo alto dirigente do Estado moçambicano pela Frelimo, in SAVANA – 06.01.2017)

Segundo o SAVANA, o ex-alto dirigente defende a despolitização da história. Parabéns e força aí,meu amigo Eusébio A. P. Gwembe, já chega de sermos vítimas da desinformação histórica.

sábado, fevereiro 20, 2016

Sérgio Vieira e a manipulação da História

Sérgio Vieira escreveu um artigo «o início do fim» em que também chama para si o esforço dos que lutaram pela Unidade Partidária da Frelimo, cito: «Mondlane, Marcelino e nesse grupo inicial João Munguambe, Feliciano Gundana, Joaquim Chissano, Pascoal Mocumbi, Fernando Ganhão e eu mesmo e outros, batemo-nos pela causa da unidade partidária, base da batalha pela unidade nacional, única capaz de derrotar um inimigo poderoso e bem armado» In O País, 16 FEVEREIRO 2016.
Não sou contra, até porque pode ser. O problema é quando (e talvez pelo peso da consciência) tenta apagar o nome de URIA SIMANGO deste esforço, que iniciou muito antes dele (SV) se tornar membros da Frelimo e continuou por uns 8 anos, lado a lado com Mondlane como ilustrado no cartaz de propaganda de 1963 (fotos 1) e na Conferência de Imprensa depois do Segundo Congresso, em 1968. Quem estava ao lado direito de Mondlane era Simango. Quem impediu a destituição de Mondlane por Mabunda, Gumane e Mahluza, (03-10-62), foi Simango. SV sabe que ser encontrado com a foto de Mondlane, Simango e Marcelino dava direito a 2-7 anos de prisão, depois de boa confissão sob torturas, o que não acontecia com a foto dele.

Fonte: Mural de Eusébio P. Gwembe  - 20.02.2016

sexta-feira, setembro 14, 2012

A Natureza da Igreja Católica Nacional/ Moçambicana

Por Luís Benjamim Serapião

Os médicos continuaram a usar os hospitais que os colonialistas deixaram; os políticos passaram a viver e a trabalhar nas residências que os dirigentes colonialistas habitavam. A Igreja Católica Nacional/ Moçambicana, como todas as demais instituições no país, assumiu e perpetuou as infra-estruturas religiosas deixadas pelo governo português. No entanto, nunca foi considerado como um privilégio o facto de os médicos usarem as infra-estruturas físicas de saúde herdadas do colonialismo, nem tão pouco um privilégio os governantes do Moçambique pós-colonial passarem a habitar as residências dos antigos chefes colonialistas. Ler mais

terça-feira, julho 31, 2012

Partido Frelimo tem peso a mais na sociedade

“Toda a gente sabe que o partido no poder tem um papel muito preponderante e com peso na sociedade, talvez, maior do que devia ser. Quem não dá apoio (ao partido) e quem não concorda ou discorda abertamente pode ter dificuldades. Há também uma distribuição bastante ilegal das riquezas. Portanto, penso que há mais que a gente possa fazer.” – Professor Dr. Eric Morier-Genoud. Ler mais

segunda-feira, julho 30, 2012

Partido Frelimo tem peso a mais na sociedade


– diz historiador Suíço, Professor Dr. Eric Morier-Genoud, que lançou semana finda livro sobre nacionalismo em Moçambique, Angola e Guiné-Bissau.

“Toda a gente sabe que o partido no poder tem um papel muito preponderante e com peso na sociedade, talvez, maior do que devia ser. Quem não dá apoio (ao partido) e quem não concorda ou discorda abertamente pode ter dificuldades. Há também uma distribuição bastante ilegal das riquezas. Portanto, penso que há mais que a gente possa fazer.” – Professor Dr. Eric Morier-Genoud.

terça-feira, julho 24, 2012

Marx, a Frelimo e o campesinato

Por: Michel Cahen

No seu período radical (1975- 1987), a Frelimo, muito mais que “comunista”, foi um partido de modernização autoritária, que queria transformar à força o campesinato para criar o homem novo numa nação homogénea e de língua portuguesa. É de reparar, por exemplo, que as aldeias comunais não serviam para colectivizar o campo. A produção colectiva nas aldeias comunais representou aproximadamente 1% da produção total aí registada, e era principalmente destinada a criar pequenas reservas para poder receber “os camaradas vindos da Nação” (os dirigentes vindos da capital do país ou das capitais provinciais). As cooperativas eram de consumo e comercialização e não de produção, salvo algumas excepções (nas aldeias-modelo que os observadores estrangeiros visitavam).

sábado, maio 05, 2012

História: FRELIMO cria campos de reeducação (1974)

O Governo transitório de Moçambique criou campos especiais para a reeducação das prostitutas - declara o Ministro da Administração Interna, Armando Guebuza da Frelimo. Ler mais 

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

Sobre o partido Frelimo e as metamorfoses (1)

Por João Baptista André Castande

É bastante interessante o debate organizado pela Televisão de Moçambique (TVM), sob a moderação do jornalista Simeão Ponguana, acerca dos chamados 50 anos da Frelimo, a serem completados no dia 25 de Junho do ano em curso.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Foi-se um pedaço da história

Por Jeremias Langa

A morte, esse inexorável e inevitável destino, está, aos poucos, a tirar-nos deste pedaço do mundo os principais protagonistas de uma fase crucial da nossa história, sem nos dar a possibilidade de esclarecermos muitas dúvidas, entretanto, acumuladas.
 
Esta quarta-feira, morreu o General Bonifácio Gruveta. O país perde, assim, mais um importante sujeito da sua história, quando ainda falta esclarecer parte considerável da sua verdade. A morte, esse inexorável e inevitável destino, está, aos poucos, a tirar-nos deste pedaço do mundo os principais protagonistas de uma fase crucial da nossa história, sem nos dar a possibilidade de esclarecermos muitas dúvidas, entretanto, acumuladas.

segunda-feira, agosto 08, 2011

É PRECISO DESMENTIR ALGUNS POSICIONAMENTOS QUE SE CONFIGURAM EM MENTIRAS

Po Noé Nhantumbo

Quem se podia expressar livremente em 1985 em Moçambique?
Só quem não estava em Moçambique pode aceitar algumas “afirmações” “oportunas” de hoje…

Não será isso que Tomás Vieira Mário nos quer dizer em 2011?
E o que aparentemente nos quer dizer certo assessor de um meio de comunicação social público sobre os órgãos independentes não será o mesmo que só é digno desse nome quem jamais critica ou lança dúvidas sobre o procedimento dos governantes?

sábado, fevereiro 05, 2011

Guebuza nas celebrações de Gwaza Muthini (2)

Ao contrário do que alguns afirmam, Armando Guebuza, como Presidente da República, celebrou (pela primeira vez) em 2009 o Gwaza Muthini. Eis:

Guebuza evoca Mondlane como mestre da unidade

A DERROTA dos vários grupos guerreiros que nos finais do século XIX e princípios e meados do XX, combatiam a dominação portuguesa em Moçambique não ficou a dever-se exclusivamente à superioridade militar do invasor, mas à nossa falta de unidade em alguns momentos dessa luta. Esta lição de História foi ontem dada aos moçambicanos pelo Chefe do Estado, Armando Guebuza, durante as celebrações da passagem do 114º aniversário da Batalha de Marracuene, que opôs os guerreiros dos chefes locais Nwamatibjana, Mabjaia, Mahazule e Zihlahla às tropas de Portugal, que a todo o custo procurava implantar a sua dominação política, cultural e económica de Moçambique.

“Quem escolhe os heróis é o povo”

Telesfério Nhapulo lançou, no ano passado, o Atlas Histórico de Moçambique. O académico olha para o debate em torno dos heróis nacionais de forma desapaixonada. Diz que a História é uma ciência e “está permanentemente à procura da verdade.” Ou seja, o que “está a ser ignorado hoje, amanhã pode ser venerado.”
Aliás, os heróis, diz, devem ser construções do povo. A Revolução de Jasmim, diz o historiador, pode, mais tarde, criar heróis legitimados pelo contexto daquele episódio. Há, então, sempre o reverso da moeda. Por tudo isto, os manuais de História já não falam de Urias Simango como reaccionário. Quanto à obra de Bernabé Lucas Nkomo, afirma que não pode ser posta de parte. Até porque ela faz parte do processo de construção da nossa História.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

ContraPeso 3.0: Gwaza Muthini, na forma como a conhecemos hoje é um BLUFF HISTÓRICO.

Dos factos

1-A batalha de Marracuene que teve lugar no dia 02 de Fevereiro de 1895 foi uma de uma série de combates que se deram no local, no âmbito da conquista portuguesa para a ocupção efectiva. Do ponto de vista português, essas batalhas eram conhecidas por Campanhas de Pacificação. Para os locais era resistência á ocupação portuguesa.
2-Na Batalha de Marracuene, as forças lideradas por Nwamatibyana, Zihlahla, Mahazule, Mulungu e Mavzaya perderam, em parte devido a: Leia mais.

quinta-feira, janeiro 20, 2011

AFINAL A QUEM PERTENCE A HISTÓRIA DA LUTA ARMADA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL PARA SER DIVULGADA PELO GOVERNO?

CRÓNICA Por: Gento Roque Cheleca Jr., em Bruxelas
Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que às vezes fico pensando, se a burrice não será uma ciência. Ruy Barbosa de Oliveira, político brasileiro
Foi notícia no Wamphula Fax de 12 de janeiro de 2011, edição n° 1252, página 2, sob o título “GOVERNO EMPENHADO NA DIVULGAÇÃO DA HISTÓRIA”, que me deixou tão estonteado a ponto de procrastinar para as próximas edições a crónica sobre o alvoroto popular na Tunísia. A questão da Tunísia deve ser encarada da seguinte maneira: Quando um povo é pontapeado pelos seus governantes, leve o tempo que levar, há sempre um dia em que a factura chega e paga-se muito caro. No tribunal popular (entenda-se do povo), não há espaço para complacência. O voto é substituído pelas artes marciais, porque “o povo é quem mais ordena”. Os regimes democráticos nos discursos, mas déspotas nas acções, que se acautelem porque as revoluções populares, por mais infrutíferas que sejam, são como sarnas que é transmitida ao mais pequeno toque e com o agravante de que cada regime, cada país, coça-se a si próprio.
A notícia é esta: A história e património da Luta Armada de Libertação Nacional, foi mais divulgada junto das instituições e comunidades durante o ano findo em Nampula, segundo um balanço político feito recentemente pelo executivo provincial, que para o efeito, aponta a realização de um total 226 palestras, contra 124 realizadas no ano anterior e que estão a ser promovidas em coordenação com a Direcção Provincial para os Assuntos dos Antigos Combatentes.

sábado, agosto 28, 2010

Telésfero Nhapulo: A história não é feita de bons e de maus

Escrito por João Vaz de Almada

Neste atlas temos figuras que contrariam toda a historiografia oficial publicada depois da independência, nomeadamente dois dos chamados reaccionários que estiveram sempre apagados da nossa História. Recuperou-as sem receio?

...Acho que a História não é feita de bons e de maus. Quando falo do movimento de libertação estou a falar das diferentes pessoas envolvidas no processo. E essas pessoas, no seu conjunto, possuem inevitavelmente diferenças, como seja o caso da perspectiva de futuro da nação ou de ideais de construção da mesma. Contudo, todas elas tinham em comum o desejo de libertação deste país. Neste momento não estou em condições de dizer que os perdedores são realmente os perdedores e vice-versa. Tenho dificuldade em fazer esta avaliação. Mas até certo ponto fui modesto porque devia ter trazido mais figuras que estiveram envolvidas no processo de libertação deste país, mas tal ficou-se a dever à falta de imagens dessas figuras. Por exemplo, nas fontes a que eu tenho tido acesso há uma figura marcante na história de Moçambique no processo da luta de libertação que é o Adelino Guwambe, um dos principais fundadores da Frelimo.

Receou alguma pressão?

(TN) – Não, a História tem de ser feita desta forma. Não nos cabe a nós, historiadores, dizer se esta figura foi má ou boa. Devemos trazer a lume as acções desenvolvidas por essa figura e depois os leitores é que têm de fazer o seu juízo.

Vi também que se refere ao conflito pós-independência como guerra civil e não como guerra de desestabilização, expressão utilizada na historiografia oficial.

(TN) – Não querendo entrar em polémicas acho que se tratou de uma guerra civil. O conceito que aprendi de guerra civil é exactamente isso. Quando cidadãos da mesma pátria não se entendem e entram em conflito entre si formando forças beligerantes está-se perante uma guerra interna e a terminologia da especialidade usa o termo guerra civil. Grande parte dos livros que consultei chama-lhe guerra civil.

Porque é que então certos ciclos oficiais preferem o termo desestabilização?

(TN) – Chamo a isso história dos anais do poder. Construímos a História para legitimar o poder político. Mas como hoje vivemos numa sociedade democrática não faz sentido construirmos a história para uma época. Estamos proibidos, como professores de História e historiadores, de fazer uma história do poder político. Isso seria uma história falaciosa, bem longe de verdade, não ajudando em nada a construção de uma nação.

Fonte: @verdade - 27.08.2010

sexta-feira, julho 02, 2010

Mulémbwè diz que se deve justificar questionamento à história

“É preciso apurar-se a veracidade dos factos”

Mortes de Mondlane e Samora ainda levantam divergências de opiniões.
O deputado pela bancada parlamentar da Frelimo e ex-presidente da Assembleia da República, Eduardo Mulémbwè, defende que a história do país deve encontrar justificações plausíveis para ser questionada.
Mulémbwè falava ao “O País”, por ocasião da celebração dos 35 anos de independência, bem como da sua visita à província de Tete, seu círculo eleitoral.
Questionado sobre algumas dúvidas que ainda persistem na história do país, designadamente a morte dos dirigentes do país, nomeadamente, Eduardo Mondlane e Samora Machel, a pessoa que deu o famoso “primeiro tiro” e sobre a data de início da luta de libertação nacional, Mulémbwè tratou de ser cauteloso, afirmando que “existem vários pontos de vista sobre estas matérias, mas o mais importante é saber das mesmas que elementos têm para justificar que as coisas não ocorreram daquela maneira e sim nas circunstâncias que defendem”.

Fonte: O País online - 24.06.2010

sábado, fevereiro 13, 2010

Por uma leitura sócio‐histórica da etnicidade em Moçambique (4)

Continuacão da série

Por Sérgio Machava

“É preciso matar a tribo para construir a nação”

No período pós‐colonial, a Frelimo definiu a discriminação com base na cor, tribo ou religião como um dos seus combates prioritários. As palavras de ordem eram “abaixo o racismo, o tribalismo, o regionalismo, o divisionismo, etc.” Mas como foi feito esse combate na prática?
À semelhança de outros regimes africanos que defendiam o partido único em detrimento do pluralismo político e social ― oficialmente por medo de acordar ou exacerbar os particularismos identitários ―, ou, como diziam alguns líderes africanos, por temer que cada grupo étnico criasse seu próprio partido, a Frelimo negava todo o tipo de diversidade: religiosa,étnica, racial, politica, linguística, social, entre outras. Tal negação também resultava da experiência dos conflitos étnico‐tribais que este partido tinha conhecido durante a luta anticolonial, e era feita em nome de uma ideologia que defendia a criação do “Homem Novo”, o qual devia estar livre dos seus “maus hábitos”, que punham em causa a moçambicanidade. Assim, a língua portuguesa foi utilizada como um dos veículos importantes para construir a identidade nacional, marginalizando‐se completamente as línguas locais, de tal sorte que foi interdita aos alunos falar as línguas locais nas escolas. Anúncios que tornavam obrigatória a língua portuguesa nas instituições públicas foram colados. Os nomes das regiões e clubes desportivos com conotação étnico‐regionais foram abolidos. Foram os casos, por exemplo, da antiga circunscrição dos Muchopes na província de Gaza, que tornou‐se Manjacaze, e da dos macondes, em Cabo Delgado, que passou a designar‐se por Mueda. Não havia macuas, machanganes, wayaos ou macondes, havia apenas moçambicanos16.
Era preciso “matar a tribo para construir a nação”, dizia Samora Machel, apoiando‐se numa expressão do primeiro presidente Ganês, Nkwame Nkrumah. A tribo, considerada arcaica e “feudal”, era vista como incompatível com o objectivo de construir a nação, com a unidade nacional, e desapareceria com a emergência do “Homem Novo”, alfabetizado, falando português e vivendo na aldeia comunal. Neste período, a existência de outros actores políticos, fora da Frelimo, era interdita, e os que tentaram fazê‐lo foram desencorajados ou desqualificados. Os que não estavam de acordo com a Frelimo deviam ou expor‐se à repressão, ou exilar‐se. Um só sindicato, uma só organização da mulher e uma só organização da juventude, todos obedecendo a linha do partido, foram criados. A divisa era um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, um só partido17.
Esta estratégia não iria acabar ou resolver o ressentimento dos moçambicanos do norte do Save, que sempre queixaram‐se do tribalismo dos dirigentes sulistas da Frelimo. Pelo contrário, acentuou‐a, em grande medida devido a incapacidade do Estado em promover o desenvolvimento e, consequentemente, em redistribuir os recursos (políticos, económicos), sobretudo para os moçambicanos do norte do Save.
Por exemplo, aquando do fenómeno chupa‐sangue que quase paralisou a Zambézia em 197818, o governo local indicava o tribalismo como sendo um dos factores que teria levado a manifestações violentas no distrito costeiro de Pebane, que, oficialmente, teriam provocado um morto, sete feridos e vários detidos. Segundo o governo zambeziano, na sua ira, as pessoas perguntavam‐se porque todos os responsáveis distritais locais (do administrador até aos directores distritais, inclusive o chefe das Lojas do Povo19) não eram zambezianos, quando localmente havia gente capaz para ocupar estes postos. Esta reacção não era de admirar num contexto em que os zambezianos se consideravam excluídos e marginalizados pelo regime excessivamente sulista, como explica o arcebispo local, Dom Filipe Governo:

“No princípio, a Frelimo enviou quadros do sul, então os zambezianos interpretaram isso como um colonialismo do sul. Isso fez recuar a Zambézia em relação à Frelimo. Mesmo os administradores eram do sul, o chefe de apoio e controlo, mesmo o chefe do posto, eram do sul. Mesmo na Universidade [Eduardo Mondlane, principal universidade pública no Sul] quando o professor sabe que este estudante vem do Centro ou do Norte [do país], a probabilidade de ele [o estudante] chumbar é maior que a de um estudante do sul...”20

A Resistência Nacional de Moçambique (Renamo)21, cujos dirigentes eram maioritariamente do Centro de Moçambique, na sua guerra contra a Frelimo que durou cerca de 16 anos, dizia entre outros, bater‐se contra o tribalismo deste partido.
Esta visão da Frelimo ― que confundia unidade e unicidade ― não só levou a recusa da diversidade das identidades e de interesses no seio da sociedade moçambicana, como também criou conflitos entre diferentes grupos. Era a procura da unidade a todo o preço em nome de uma classe operária, ela mesmo mistificada e virtual, sublimada no Estado, ignorando os diferentes conflitos entre os diversos segmentos da sociedade moçambicana.