Por Sérgio Machava
“É preciso matar a tribo para construir a nação”
No período pós‐colonial, a Frelimo definiu a discriminação com base na cor, tribo ou religião como um dos seus combates prioritários. As palavras de ordem eram “abaixo o racismo, o tribalismo, o regionalismo, o divisionismo, etc.” Mas como foi feito esse combate na prática?
À semelhança de outros regimes africanos que defendiam o partido único em detrimento do pluralismo político e social ― oficialmente por medo de acordar ou exacerbar os particularismos identitários ―, ou, como diziam alguns líderes africanos, por temer que cada grupo étnico criasse seu próprio partido, a Frelimo negava todo o tipo de diversidade: religiosa,étnica, racial, politica, linguística, social, entre outras. Tal negação também resultava da experiência dos conflitos étnico‐tribais que este partido tinha conhecido durante a luta anticolonial, e era feita em nome de uma ideologia que defendia a criação do “Homem Novo”, o qual devia estar livre dos seus “maus hábitos”, que punham em causa a moçambicanidade. Assim, a língua portuguesa foi utilizada como um dos veículos importantes para construir a identidade nacional, marginalizando‐se completamente as línguas locais, de tal sorte que foi interdita aos alunos falar as línguas locais nas escolas. Anúncios que tornavam obrigatória a língua portuguesa nas instituições públicas foram colados. Os nomes das regiões e clubes desportivos com conotação étnico‐regionais foram abolidos. Foram os casos, por exemplo, da antiga circunscrição dos Muchopes na província de Gaza, que tornou‐se Manjacaze, e da dos macondes, em Cabo Delgado, que passou a designar‐se por Mueda. Não havia macuas, machanganes, wayaos ou macondes, havia apenas moçambicanos16.
Era preciso “matar a tribo para construir a nação”, dizia Samora Machel, apoiando‐se numa expressão do primeiro presidente Ganês, Nkwame Nkrumah. A tribo, considerada arcaica e “feudal”, era vista como incompatível com o objectivo de construir a nação, com a unidade nacional, e desapareceria com a emergência do “Homem Novo”, alfabetizado, falando português e vivendo na aldeia comunal. Neste período, a existência de outros actores políticos, fora da Frelimo, era interdita, e os que tentaram fazê‐lo foram desencorajados ou desqualificados. Os que não estavam de acordo com a Frelimo deviam ou expor‐se à repressão, ou exilar‐se. Um só sindicato, uma só organização da mulher e uma só organização da juventude, todos obedecendo a linha do partido, foram criados. A divisa era um só povo, uma só nação, uma só cultura, uma só língua, um só partido17.
Esta estratégia não iria acabar ou resolver o ressentimento dos moçambicanos do norte do Save, que sempre queixaram‐se do tribalismo dos dirigentes sulistas da Frelimo. Pelo contrário, acentuou‐a, em grande medida devido a incapacidade do Estado em promover o desenvolvimento e, consequentemente, em redistribuir os recursos (políticos, económicos), sobretudo para os moçambicanos do norte do Save.
Por exemplo, aquando do fenómeno chupa‐sangue que quase paralisou a Zambézia em 197818, o governo local indicava o tribalismo como sendo um dos factores que teria levado a manifestações violentas no distrito costeiro de Pebane, que, oficialmente, teriam provocado um morto, sete feridos e vários detidos. Segundo o governo zambeziano, na sua ira, as pessoas perguntavam‐se porque todos os responsáveis distritais locais (do administrador até aos directores distritais, inclusive o chefe das Lojas do Povo19) não eram zambezianos, quando localmente havia gente capaz para ocupar estes postos. Esta reacção não era de admirar num contexto em que os zambezianos se consideravam excluídos e marginalizados pelo regime excessivamente sulista, como explica o arcebispo local, Dom Filipe Governo:
“No princípio, a Frelimo enviou quadros do sul, então os zambezianos interpretaram isso como um colonialismo do sul. Isso fez recuar a Zambézia em relação à Frelimo. Mesmo os administradores eram do sul, o chefe de apoio e controlo, mesmo o chefe do posto, eram do sul. Mesmo na Universidade [Eduardo Mondlane, principal universidade pública no Sul] quando o professor sabe que este estudante vem do Centro ou do Norte [do país], a probabilidade de ele [o estudante] chumbar é maior que a de um estudante do sul...”20
A Resistência Nacional de Moçambique (Renamo)21, cujos dirigentes eram maioritariamente do Centro de Moçambique, na sua guerra contra a Frelimo que durou cerca de 16 anos, dizia entre outros, bater‐se contra o tribalismo deste partido.
Esta visão da Frelimo ― que confundia unidade e unicidade ― não só levou a recusa da diversidade das identidades e de interesses no seio da sociedade moçambicana, como também criou conflitos entre diferentes grupos. Era a procura da unidade a todo o preço em nome de uma classe operária, ela mesmo mistificada e virtual, sublimada no Estado, ignorando os diferentes conflitos entre os diversos segmentos da sociedade moçambicana.