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sexta-feira, março 07, 2014

GUEBUZA, MUGABE E ZUMA, Coligação perfeita

Num passado não muito remoto, o senhor Eduardo Namburete, ex-deputado na Assembleia da Republica pela RENAMO-EU, disse que estava a formar-se uma coligação perigosa regional (na SADC) mencionando estes nomes, incluído o de Eduardo dos Santos. Tinha-o feito em atenção a sua orientação pró-maoismo e não me parecia tão perigosa como agora, pois embora fosse um clube de amigos de longa data nunca tinha pensado que chegaria a contornos como os actuais em que se juntam para caçar perdizes numa das reservas de biodiversidade de renome, a saber, a serra da Gorongosa. Ler mais

domingo, abril 12, 2009

SADC é incongruente!

Por Edwin Hounnou

A Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, SADC, é uma organização caracterizada por práticas incongruentes no seu julgamento de factos. Não é consequente. Para casos idênticos, toma posições, diametralmente, opostas, dependendo dos sujeitos em causa. Governos que emergem de golpes de estado já não são acolhidos no seio da comunidade das nações, sejam regionais, continentais ou internacionais.

A SADC agiu de modo contrário para as situações do Zimbabwe e de Madagáscar. Estamos confrontados com dois pesos e duas medidas. Numa farsa, protegeu e encorajou o regime de Harare, derrotado pelo voto popular. Desalojou da organização o regime de Andry Rajoelina, alegando ter saído de um golpe de estado.

A SADC assistiu Mugabe a prender e matar seus opositores. Deixou o ditador a alastrar e a generalizar a violência contra o povo, para inviabilizar a participação do seu adversário na segunda volta que o regime fabricou. Mugabe destruiu uma das economias mais robustas da África Austral, em nome de uma falsa reforma agrária.

Hoje, o povo do Zimbabwe vive na miséria. está espalhado pelos países vizinhos, à procura do que Mugabe lhe nega na sua pátria – liberdade, comida e trabalho. Mugabe e Rajoelina perpetraram golpes de estado. Deveriam ser julgados pela mesma bitola, mas, a SADC encoraja a um e condena a outro ditador.

Golpe de estado, apoiando-me no artigo de Ercino Salema, SAVANA de 03.04.2009, pp. 29, é o processo através do qual uma pessoa ou grupo de pessoas ilegítimas, não legalmente legitimadas por uma eleição, hereditariedade ou por um processo de transição, chegam ao poder, subvertendo todo o quadro legal, da ordem social e política vigentes.

Um golpe de estado acontece quando um grupo - político, económico ou militar - renega as vias institucionais para chegar ou se manter no poder, recorrendo, para tal efeito, a métodos de coerção, chantagem, pressão, - ao compadrio e amiguismo, no caso do Zimbabwe – ou emprego da violência, para se manter no poder ou para conquistá-lo.

Estes elementos que caracterizam um golpe de estado foram bem notórios no Zimbabwe, antes e depois das eleições de Março de 2008, ganhas pelo Movimento para Mudanças Democráticas, MDC, e pelo seu candidato a presidente da República, Morgan Tsvangirai.
A seguir a eleição da segunda volta, o grupo de observadores da SADC escrevia que as eleições não representaram evidências, os chefes de estado da região da SADC, Armando Guebuza incluído, referiram que esforços estão a ser feitos para a normalidade regressar ao Zimbabwe. Estavam a cercar o MDC para assinar um acordo de partilha do poder com a ZANU-PF e Mugabe, derrotados nas urnas pelo voto popular.
SADC é um clube de amigos que se apoiam para continuarem no poder, mesmo contra a vontade do povo. Excepção seja feita à Zâmbia e Botswana que se opõem de modo firme ao regime ilegítimo e ditatorial de Mugabe.

Fonte: A Tribuna Fax, 09 de Abril de 2009

quinta-feira, julho 24, 2008

Gentil convite à demissão em bloco

Por David Aloni

Sobre o Zimbabwe e sobre o déspota e sanguinário Robert Gabriel Mugabe, já não há mais nada a dizer, mas ainda há muita tinta para correr, da mesma maneira que, sobre a confrangedora vergonha, cobardia e cumplicidade criminosa, dos líderes e dirigentes da SADC, também tudo já foi dito e escrito a ponto de, nos bastidores e abertamente, não se falar doutra coisa que não seja o descrédito total e absoluto da liderança actual da SADC.
Impávido e sereno(?), Robert Mugabe tomou posse pela, 6º vez como Presidente(?) dos Zimbabweanos(?) por mais um mandato 5 anos, e já soma 84 anos de idade. Portanto, está senil e decrépito, mental e psicologicamente incapaz de atinar e discernir seja o que for para o bem-estar do povo do Zimbabwe.
Por azar e desgraça dos Zimbabweanos, Robert Mugabe tem, como sua cara metade, uma mulher louca, esquizofrénica e extremamente ambiciosa e sedenta de sangue e poder para continuar a cavalgar os Zimbabweanos, sob capa de Primeira Dama da República.
A Grace Mugabe já se intitula de dona e proprietária do palácio presidencial, onde, segundo ela, Morgan Tsivangirai nunca porá os pés, porque não tem nível nem categoria para tal. Veja-se só até onde pode chegar a loucura de uma mulher que, ao que tudo poderá indicar, se terá casado com velho por mero interesse e ambição material, pois, custa acreditar que o tenha feito por puro amor a um velho já tão decrépito, incapaz e senil.
Desde que Robert Mugabe enveredou pelo caminho da reforma agrária esquizofrénica, com uma boa dose de paranóia política na sua máxima virulência, fez e desfez tudo a seu bel-prazer, e os lideres da África Austral, congregados na SADC, não tugiram nem mugiram. Pura e simplesmente “deixaram andar” e continuam a “deixar andar” até que se atingiu o ponto máximo (“acmé”) da loucura do camarada do clube a que todos pertencem. E, entanto que camaradas, a solidariedade ideológica é uma palavra de honra e de ordem de cumprimento obrigatório, porque os acordos escritos e as alianças ideológicas são invioláveis, porque indeléveis.
Por isso, toda a liderança da SADC, à excepção da nova geração, representada por Levy Mwanawassa, Ivan Seretse Khama, Jakaia Kikwete e Raila Oginga Odinga, respectivamente, Presidente da Zâmbia, do Botswana, da Tanzânia e Primeiro Ministro do Kenya, ficou queda e muda. Toda estupefacta(?) e feliz, porque o camarada Mugabe, depois de promover a mais violenta opressão e repressão da Oposição, através de uma violência maquiavélica, sem precedentes na história daquele país vizinho de Moçambique. E é curioso notar-se que nem o colono britânico e muito menos o líder da UDI, Ian Smith cometeram tais excessos e atrocidades contra o povo, que, com o advento da democracia, esfregou as mãos de contente e feliz e optou pelo MDC e seu Líder Morgan Tsivangirai, tendo derrotado, democráticamente, a 29 de Maio de 2008, o monstro que aterrorizava o Zimbabwe, apoiando-se nos seus capangas, os ditos veteranos da Luta de Libertação, os quais se transformaram em vampiros como o próprio Líder se transformou.
A “diplomacia silenciosa” do Presidente Sul-africano, Thabo Mbeki, é a expressão máxima e clarividente de cumplicidade criminosa e solidariedade ideológica, entre camaradas da e na mesma trincheira, facto que pode confirmar que países como Angola, África do Sul, Moçambique, Namíbia, Zimbabwe, não estão muito interessados na democracia genuinamente pluripartidária como, e efectivamente, acontece, nos países “ civilizados” do ocidente.
Depois de tudo quanto aconteceu, no Zimbabwe, culminando na vergonhosa e precipitada tomada de posse do ditador Robert Mugabe, na noite se 29/06/08, devidamente apadrinhado por Thabo Mbeki, na sua qualidade de mediador, designado pela SADC, composta por comparsas seus, África Austral ficou manchada e perdeu o brilho respeito e dignidade perante o Mundo “Civilizado”.
É imperativo, por conseguinte, resgatar a nossa honra e dignidade. Essa nobre missão é aos jovens que caberá levar a bom termo, porque à velha geração só lhe espera a tumba e nada mais. Daí que, a nova geração deveria, desde já, tomar as rédeas dos destinos de cada um dos Países de África Austral, onde os seus actuais líderes se revelaram, vergonhosamente, incapazes e incompetentes sob todos os títulos. Por isso, são todos convidados a demitirem-se em bloco.
E não venham cá com evasivas e desculpadas esfarrapadas de que “os jovens podem vender o País”, porque este (Moçambique, por exemplo) já está mais que vendido ao capital imperialismo pela via do FMI e Banco Mundial.
Portanto, não resta mais nada que os jovens possam vender. Os velhos e veteranos já venderam tudo. Até a nossa honra, soberania e dignidade nacionais. Tudo vendido por uma tuta-e- meia, sob pretexto de créditos e financiamentos.
SAVANA - 18.07.2008

segunda-feira, julho 07, 2008

Quem é quem na África Austral?

Por Manuel de Araújo

Pelos sinais que temos vindo a receber, não estaríamos muito errados se desde já começássemos a prever que Oldemiro Baloi e Armando Emílio Guebuza iriam reconhecer Mugabe. Estaria positivamente feliz se este meu vaticínio fosse contrariado!
E razões não faltam.

O primeiro ensaio sobre a possível posição de Guebuza veio de Lusaka onde fontes diplomáticas na região, asseguraram-nos, para surpresa nossa, que Guebuza foi o maior defensor de Mugabe!

Depois foi a proibição da manifestação da sociedade civil, conjuntamente organizada pela Liga dos Direitos Humanos e pelo Centro de Estudos Moçambicanos e Internacionais (CEMO); A entrevista de Jorge Rebelo ao semanário Savana, só veio a dissipar algumas zonas de penumbra sobre aquilo que poderia vir a ser o posicionamento da Frelimo, e quiçá do Governo de Guebuza. Será que as vozes sensatas como a da mama Graça (Machel) já não são ouvidas no partido Frelimo?

E por último, veio a terreiro, segundo órgãos de informação pública, o porta-voz do partido a que ambos pertencem (Oldemiro e Armando) ao anunciar sem vergonha na cara que o partido Frelimo havia congratulado a ZANU-PF e Robert Mugabe pela sua vitória!

Que a Frelimo congratule a quem quer que seja, não me aquece nem arrefece, tanto mais que essa tem sido a linha com que se cosem suas acções na Província de Tete, Sofala e Manica, num autêntico ensaio ao que assistiremos nas eleições de 2009, quando o povo decidir dar o cartão vermelho a AEG! (Armando Emílio Guebuza)

O que espero ansiosamente é a posição do meu ESTADO, do meu GOVERNO e do meu PAÍS! O meu Estado não pode continuar mudo perante a morte lenta de um povo irmão! O compromisso de Moçambique, não foi, não é, e não deve ser com os facínoras, os déspotas sejam quem forem! O compromisso do Estado Moçambicano deve ser a defesa dos interesses nacionais de Moçambique conforme determinados pela Constituição de Republica. O compromisso de Moçambique, tanto ontem, hoje e amanhã deve ser para com o Povo Irmão do Zimbabwe, que hoje como ontem enfrenta a opressão, a violação sistemática dos seus direitos mais elementares – o direito à vida, à livre circulação, à opinião; o direito à expressão e o direito a uma vida normal e ao bem estar social.

Onde anda a sociedade civil moçambicana? Terá feito tudo ao seu alcance para apoiar o povo irmão do Zimbabwe? Onde anda a solidariedade moçambicana forjada durante a luta de libertação nacional, consolidada durante a luta pela democracia? Onde anda a juventude do meu país? Onde anda o Conselho Nacional da Juventude do meu país?

Não me calarei enquanto o povo irmão do Zimbabwe sofre! Nem que fique só e/ou rouco, pois quando uma causa e justa não importa o número, o que importa é a justeza da causa!

E tenho dito.

quinta-feira, julho 03, 2008

As duas posições de Sharm el-Sheikh

Em Sharm el-Sheikh, no Egipto, sairam duas posições em relação o regime do déspota Mugabe (leia aqui). Uma posição projectando regimes e presidentes africanos para toda a vida, optaram por não criticar a Robert Mugabe. Um dos membros deste grupo, Omar Bongo, Presidente do Gabão e o governante mais antigo de África e o sétimo do mundo chegou de afirmar que Robert Mugabe fora eleito. Thabo Mbeki, o suposto mediador da crise do Zimbabwe insiste que o seu projecto de manter Mugabe no poder se ponha em prática. Outros ficaram silenciosos. Talvez a posição destes líderes africanos seja a prova de mãos sujas de que Robert Mugabe alertou aquando a sua partida ao Egipto.

A outra posição é constituida por aqueles que criticaram duramente a Robert Mugabe, chegando a propôr a sua exclusão da SADC. Esta foi a proposta do Vice-Presidente do Botswana, Mompati Merafhe. O Presidente senegalês, Abdoulaye Wade, classificou de "nula" a segunda volta das presidenciais zimbabweanas. Outros chefes de Estado que criticaram severamente a Robert Mugabe foram os de Nigéria, Libéria, Quénia e Serra Leoa.

Atendendo que Robert Mugabe disse que estava preparado para desafiar aqueles líderes africanos que pensam que têm mãos mais limpas do que as dele (veja aqui), só posso concluir que os líderes que o criticaram severamente têm sim, mãos limpas que ele, ou então Mugabe não sabe nada deles. Na verdade, Robert Mugabe não os desafiou.

Chega!

ONDAS DO CHIVEVE

Por Eliseu Bento

O Zimbabwe continua a ser motivo de todas as conversas em todo o mundo. Agora, com a já terminada cimeira da União Africana, o nosso vizinho subiu ainda mais na agenda mundial dividindo as opiniões mais abalizadas, se quisermos, dos líderes sobretudo do nosso Continente.

Vale a pena aludir aqui ao pronunciamento do Presidente do Gabão que foi capaz de dizer que Robert Mugabe tinha sido eleito pelo que devia ser simplesmente aceite como tal.

Para nós aqui neste modesto espaço este posicionamento foi simplesmente vergonhoso, mas também pode ser motivo de elogios. Pelo menos o estadista gabones, o mais antigo no poder, pode ter sido coerente consigo mesmo e pode ter tido a coragem que os outros não têm de dizer o que lhes vai na alma, embora naturalmente pensem da mesma maneira.

Merece elogios o gabones porque disse o que realmente pensa e tem estado a fazer ao longo de todos os anos em que se mantém no poder. Portanto, só nos resta agradecer-lhe a coerência e a diplomacia ruidosa em contraste com as diplomacias silenciosas que aos olhos de muitos nunca tomam uma posição, pelo menos prática.

Ou seja, estamos mais ou menos claros que muitos estadistas africanos mantêm-se no poder porque só eles e as suas elites estão interessados nisso. Não é preciso dizer que vale tudo nesses casos, como valeu agora no Zimbabwe e valeu num passado pouco recente no Quénia.

E os exemplos são vários e ainda vamos ter outros neste continente potencialmente pobre não apenas na matéria mas também, e sobretudo, no espírito.

Para nós, Morgan Tsvangirai até devia ir para casa. Devia ir para a reforma, porque em nosso modesto entender ele já conseguiu ser a expressão máxima do sentimento e da vontade do povo zimbabweano ao vencer os escrutínios do passado dia 29 de Março.

Tsivangirai ganhou as eleições aos olhos de todo o mundo. Portanto, já destronou Mugabe, o resto são histórias. Tsivangirai já está na história por isso para nós devia ir para casa descansar porque, efectivamente, já cumpriu a sua missão.

Está mais do que claro que os zimbabweanos já disseram o que querem e tudo quanto seja diferente disso estará a ser-lhes imposto pela vontade de alguém que tem a felicidade de receber apoios e aplausos de alguns talvez insensíveis ao sofrimento do povo zimbabweano.

Continua no entanto a fazer mossa a forma como os outros estadistas até aceitam que Mugabe lhes falte respeito ao não acatar as suas recomendações. Foi assim que declinou a sua participação numa cimeira na Zâmbia enviando pessoal menor. E isso terá mesmo provocado desavenças entre ele e Levy Mwanawasa, o que tudo indica que ainda não foi ultrapassado. Foi o que aconteceu muito recentemente quando do encontro da “troika” que se reuniu na Suazilândia na qual sugeriam o adiamento da segunda volta das eleições. E mesmo depois disso!

Os observadores da SADC já disseram que os resultados destas eleições não reflectem a vontade do povo zimbabweano mas nem isso cabe nos ouvidos das elites zimbabweanas.
Estranho é que, de facto, os outros líderes aceitem isso, alguns, infelizmente a maioria que acaba sendo suficiente para se calhar legitimar o perdedor Mugabe.

Uma palavra de apreço para a diplomacia do Botswana que tomou uma posição rígida negando-se a reconhecer os resultados da segunda volta das eleições do dia 27 de Junho.

O presidente de Moçambique, Armando Guebuza, disse esta terça-feira no Egipto que as partes beligerantes no Zimbabwe se deviam sentar à mesma mesa para encontrarem uma saída. Disse ainda que a SADC estava bastante preocupada com o que está a acontecer.

Teremos que esperar para vermos se Mugabe vai desta vez acatar com estes pronunciamentos e preocupações porque, de facto, já chega!

Vem nos à memória a cimeira Europa-África em Lisboa na qual praticamente Robert Mugabe foi levado ao colo pelos seus amigos estadistas africanos contra a vontade de muitos outros africanos principalmente os martirizados zimbabweanos.

Aliás, nessa altura se disse que a sua presença na cimeira só serviria para reforçar a sua posição, o que equivalia a dizer que continuaria a fazer das suas no país condenando ainda mais o seu povo ao sofrimento, o que podia não suceder se os outros chefes tomassem outra posição.

quinta-feira, junho 26, 2008

INTERVENÇÃO - Quem tem telhado de vidro?

Por José Machado

A CRISE do Zimbabwe parece ter atingido o ponto de ruptura e de grande periculosidade. A retirada de Morgan Tsvangirai da disputa da eleição presidencial e a recusa das autoridades em suspender o acto previsto para hoje faz-nos desenhar vários cenários do futuro do país.

As consequências dessa crise, como se sabe caem também sobre todos os vizinhos do Zimbabwe, mas, paradoxalmente, desde o início do problema, pouco se viu da acção dos líderes regionais para debelar o problema.

Assentes na política da não-ingerência, os líderes da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento de África Austral) adoptaram ao que chamam de "diplomacia silenciosa", que resultou, na prática, no arrastamento do problema até o actual estágio.

É ponto aceite, em muitos meios diplomáticos, que Moçambique e África do Sul (e também Angola) teriam (têm) força para fazer "vergar" Mugabe. Porém, quer um quer outro, têm, pelo menos publicamente, assumido posições de compadre. Aliás, num cínico puritanismo político, o chefe de Estado sul-africano, Thabo Mbeki, mesmo na qualidade de mediador, sempre se recusou a empregar o termo de crise para qualificar a situação zimbabweana.

A crise entra hoje, caso se realize a eleição, numa nova e perigosa etapa. Porém, a preocupação imediata que se põe, não é tanto com os vários futuros por que o Zimbabwe pode seguir após a votação, mas a legitimidade do já definido vencedor. Com a retirada do seu adversário, Robert Mugabe poderia ser proclamado automaticamente eleito. O regime quer, no entanto, as urnas para uma auto-sustentação moral dessa validade política.

Mas tal legitimidade assenta sobre uma base de valores antidemocráticos. A violência contra partidários da oposição e, mais grave, as declarações das chefias das forças de segurança segundo as quais não aceitariam outro vencedor que não Mugabe e a afirmação deste, a 12 de Junho, de que os veteranos de guerra (seus correligionários) pegariam em armas caso ele perdesse, são razões suficientes para levar qualquer um a desistir.

A SADC pediu quarta-feira o adiamento da eleição. Se Harare avançar com o escrutínio será tempo da organização regional assumir uma postura de firmeza.

Recentemente, alguns dos seus membros - Angola, Botswana, Suazilândia, Zâmbia - afirmaram ser altura da SADC "mostrar os dentes". Em nossa opinião, uma maneira de mostrar esses dentes é questionar a validade da eleição de Mugabe.

A Grã-Bretanha e EUA apelaram ao não reconhecimento do novo velho regime. Mas apesar de todo o seu poder económico-financeiro, o Ocidente tem poucos meios de pressão sobre Mugabe. O peso da responsabilidade para a resolução da crise cai sobre a UA e a SADC em particular.

O apelo para a não aceitação do regime de Harare, deve ser assumido por todos membros da SADC e, consequentemente, pela União Africana, não como resposta ao chamado de Londres ou de Washington, mas como assumpção das suas responsabilidade para garantir a estabilidade regional.

O que queremos dizer que é caso se realize a eleição, o Zimbabwe deve ser suspenso quer da SADC quer da UA, até que se encontre uma plataforma para a estabilização do país.

Não é a hostilização ou a diabolização do regime de Harare que defendemos, mas simplesmente que cada Estado-membro seja coerente com os princípios democráticos que adoptou ante o seu povo e o mundo. Ou será que todos têm telhados de vidro?

Fonte: Jornal Notícias online

A atitude de Thabo Mbeki nesta questão do Zimbábuè

MARCO DO CORREIO

Por Machado da Graça

Olá amigo Justino
Como vai essa vida? Eu e a minha família estamos bem, felizmente.
Estou-te a escrever hoje por causa daquela conversa que tivemos, há pouco tempo, a respeito da atitude de Thabo Mbeki nesta questão do Zimbábuè.
A dúvida que os dois tínhamos sobre a razão de o Presidente da África do Sul não ser capaz de se impor perante um Robert Mugabe prepotente e arrogante, apesar de Thabo representar a maior potência da região e Mugabe ser o dirigente de um país arruinado por ele próprio.
Ora acabo de ler uma história, incluída numa recente biografia de Thabo Mbeki, escrita por Mark Gevisser e intitulada “The Dream Deferred” e citada pelo jornalista brasileiro Fábio Zanini:
Nos anos 80, auge do apartheid sul-africano, Mbeki vivia exilado em Lusaka, na Zâmbia. Um dia de manhã, sua mulher acorda, olha para o lado e não o vê deitado a seu lado. Entra em pânico, imaginando que o marido havia sido mais uma das incontáveis vítimas de assassinos que o regime racista sul-africano contratava.
Ela então começa a disparar telefonemas. E um deles vai para Mugabe, que já naquela época conhecia Mbeki. O Presidente do Zimbábuè por sua vez põe todo seu aparato de segurança e inteligência à procura do sul-africano.
Algumas horas depois, Mbeki aparece em casa, com cara de ressaca. No frescor de seus 40 anos de idade, havia ido a uma festa de diplomatas suecos, bebeu demais e desmaiou no sofá, como se fosse um adolescente.
Envergonhado, ele passa a evitar encontrar Mugabe. Mas alguns meses depois, num evento na Etiópia, os dois se cruzam. O zimbabueano, duas décadas mais velho, vai directo passando um pito: “Meu jovem, você faça o favor de me avisar da próxima vez que for dormir fora de casa!”.
Talvez esta estória ajude mais a perceber a razão pela qual Mbeki ainda não deu um bom berro a Mugabe do que todos os tratados de política e diplomacia juntos.
Todos estes dirigentes dos movimentos de libertação, transformados em estadistas, se conhecem muito bem uns aos outros, os seus lados positivos e os negativos.
Se um deles começa a contar as estórias dos outros o lavar de roupa suja não termina nunca mais.
E o problema é que, por causa de pecados da juventude dos líderes agora sofrem milhões de cidadãos dos seus países.
O que não é nada de novo na História do mundo.
Só que parece que agora está a acontecer aqui mesmo ao lado.
Um abraço para ti do
Machado da Graça
CORREIO DA MANHÃ - 26.06.2008

segunda-feira, junho 23, 2008

Reacções sobre a desistência de Morgan Tsvangirai à 2a volta

O mundo está reagindo quanto ao anúncio do líder do MDC da sua desistência à 2a volta das eleições presidenciais no Zimbabwe.

Segundo AFP o Presidente sul-africano quer negociações entre líderes do Zimbábwe. Isto já dá para recordarmos que Armando Guebuza e José Eduardo dos Santos havia vetado há meses.

BBC Brasil ou o Global online diz que África enfrenta um dilema com a desistência da oposição no Zimbabwe. Mais reacções internas leia aqui.

O Público de Portugal escreve que o governo pede à oposição que não se retire da corrida presidencial isto enquanto a a União Africana se manifesta gravemente inquieta

ZimOline reporta que Morgan Tsvangirai se refugiu na embaixada holandesa devido à acção policial contra a sede do MDC.


Fontes:


Global online

Global online

O Público

ZimOnline

quarta-feira, junho 18, 2008

Uma autêntica provocação à nossa moral.

Situação no Zimbabwe: Chefe do Estado recebe enviado da ZANU-PF

UMA delegação da ZANU-FP, do presidente Robert Mugabe, foi recebida ontem em Maputo pelo Presidente Armando Guebuza, a quem informou sobre a actual situação no Zimbabwe, a uma semana da segunda volta das eleições presidenciais, marcadas para o próximo dia 27.Maputo, Quarta-Feira, 18 de Junho de 2008:: Notícias Leia mais

Nota do Reflectindo: Aqui não há nenhuma palavra de Armando Guebuza, pelo menos como também o nosso presidente, de nós que estamos tristes pelo que o regime de Robert Mugabe está a praticar no Zimbabwe. O título fala de Chefe do Estado o que significa que Guebuza não recebeu Emerson Mnangagwa na Pereira do Lago como presidente da Frelimo, mas algures como Presidente da República. E ele está a sorrir como se ninguém estivesse a morrer no Zimbabwe ou a fugir de lá. Isto aqui é uma autêntica provocação à nossa moral.

terça-feira, junho 03, 2008

Mwanawasa ameaça deixar liderança da SADC

O CHEFE de Estado zambiano, Levy Mwanawasa, que também desempenha as funções de presidente em exercício da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), ameaçou demitir-se do cargo da organização regional, perante a aparente recusa de outros líderes da comunidade de participarem numa cimeira extraordinária por ele convocada em Yokohama, Japão, à margem da IV Conferência Internacional sobre o Desenvolvimento de África, revela o jornal zimbabweano “The Herald”.

“Os líderes da SADC classificaram a decisão do Presidente Mwanawasa como sendo imprópria e desnecessária porque o caso do Zimbabwe está a ser tratado pelo Órgão de Política, Defesa e Segurança da SADC, tendo o presidente sul-africano como mediador”, reporta a notícia.

Segundo o “Herald”, os líderes da região são de opinião que tal decisão apenas iria beneficiar os interesses do Ocidente, numa clara alusão de que o estadista zambiano estaria a ser usado pelo Ocidente para remover o presidente zimbabweano do poder.

O Governo zimbabweano voltou a acusar, segundo o mesmo jornal, o presidente Mwanawasa de estar a servir os interesses do Ocidente para forçar uma mudança no governo de Harare.

Estas acusações representam o último sinal da deterioração nas relações diplomáticas entre Harare e Lusaka.

Desde Abril último que as relações diplomáticas entre o Zimbabwe e a Zâmbia têm estado a degradar-se a olhos vistos, uma situação que acabou sendo catalisada pela decisão de Mwanawasa de convocar uma cimeira extraordinária da SADC para discutir a crise que se instalou naquele país da África Austral na sequência das eleições gerais de 29 de Março.

A decisão de convocar a referida cimeira foi criticada pelo Governo zimbabweano, alegando que a mesma violava os princípios desta organização regional.

Aliás, o próprio presidente Robert Mugabe recusou-se a participar no evento, que teve lugar a 12 de Abril, em Lusaka, tendo sido representado por uma delegação ministerial.

Retirado na íntegra do Notícias

quinta-feira, maio 01, 2008

Quatro ou cinco homens, a mesma história (4)

Didier Ratsiraka

Didier Ratsiraka foi presidente de Madagáscar de 1975 a 2002 com interrupção entre 1993-1997. Muito se pode estudar sobre este homem como é o caso do massacre de 10 de Agosto de 1991, mas não é a isto que dedico os artigos desta série, mas sim sobre os golpes palaciais em África depois das eleições, como se concretizam e quem os concretiza.

Nas eleições presidenciais de 1993, Ratsiraka perdeu a favor do líder oposicionista Albert Safy que foi impugnado em 1996. Ratsiraka recandidatou-se as eleições de 1997 e venceu-as com uma pequena margem ao seu adversário Safy.

Nas eleições de 2001, Ratsiraka perdeu a favor de Marc Ravalomanana. Segundo o Governo, Ravalomanana obteve 46 % enquanto que Ratsiraka 40 %, exigindo o último uma segunda volta. Por seu turno, Marc Ravalomanana alegando ter ganho com mais de 50 %, para evitar a segunda volta, toma posse em Fevereiro de 2002 e deste acto eclode uma guerra entre os apoiantes dos dois. Em poucos meses Ravalomanana ganha o controle do país e Ratsiraka exila-se na França levando consigo oito milhões de dolares do banco central em Toamasina.

Algo que muito estranho nas eleições de 2001, em Madagáscar, foi o facto de o tribunal supremo, que declarara os resultados que obrigavam a uma segunda volta entre Ravalomanana e Ratsiraka, declarar depois o primeiro como vencedor com mais de 50% na primeira volta.


quarta-feira, abril 23, 2008

Os bons sinais da diplomacia moçambicana

O Presidente eleito do Zimbabwe já esteve em Moçambique, veja aqui. Nestas fotos que eu gostaria de postar aqui se mostra um pouco da viragem da diplomacia moçambicana. Nas fotos vêem-se o Presidente do principal partido de oposição, a Renamo, e o ex-Presidente da República a exercerem algo do que uma vez clamei aqui no reflectindo – em Moçambique temos os que podem contribuir para a pacificação de África. Lamento que não se mostram os acompanhantes da delegação do ex-PR, mas na do Presidente da Renamo, se vê Eduardo Namburete, o Ministro-sombra das relações exteriores. Também lamento não ver Raúl Domingos a contribuir na pacificacão do Zimbabwe. Será que Domingos se demitiu?

Nos relatos se diz que o Presidente eleito do Zimbabwe se encontrou com o PR de Moçambique, Armando Guebuza, mas não há fotos que testemunhem. Alguém censurou o encontro?

segunda-feira, abril 21, 2008

Quatro ou cinco homens, a mesma história (3)

Sani Abacha
Sani Abacha é a continuidade de Ibrahim Babangida e que até podia não ser interessante nesta série, razão pela qual o título inicial é quatro ou cinco homens. Porém, há factos importantes que marcaram o regime de Abacha e até ao fim deste.
A 17 de Novembro de 1993, o governo interino de Shonekan apresentou a sua demissão devido a problemas políticos e sociais na Nigéria, ainda que a Suprema Corte o declarasse inconstitucional. Nesse mesmo dia, o Tenente General Sani Abacha, proclamou-se Chefe de Estado da Nigéria e manteve-se à frente do Ministério da Defesa assumindo também o cargo de chefe das forças armadas.

Em Junho de 1994, o presidente eleito e golpeado, Moshood Abiola foi preso. A prisão do Abiola provocou a greve de petroleiros e de outros sectores de produção na Nigéria. Para meter medo, o governo de Sani Abacha executou muitos dos seus opositores entre eles 60 oficiais que participaram num movimento contra o ditador.

A execucão por enforcamento do activista Ogoni Ken Saro-Wiwa, a prisão do presidente eleito Abiola e do general Olusegun Obasanjo, a condenação em "abstentia" do proeminente escritor Wole Soyinka, o banimento dos partidos políticos e o controle da imprensa, foram alguns dos pontos mais altos do regime ditatorial de Sani Abacha.

Abacha morreu subitamente em Junho de 1998 e o chefe do Estado Maior Abdulsalami Abubakar foi empossado Presidente da República. Abubakar rapidamente anunciou a transição do país à democracia o que permitiu que Olusengun Obasanjo fosse democraticamente eleito Presidente da República

Fonte: ver aqui e

sexta-feira, abril 18, 2008

Quatro ou cinco homens, a mesma história (2)

Ibrahim Babangida
Quando em 1993, o Reino Unido e os Estados Unidos da América suspenderam a ajuda militar e congelaram as relações diplomáticas com a Nigéria, sob regime ditatorial do general Ibrahim Babangida, este viu-se forçado a promover eleições presidenciais que já vinham sendo adiadas e que realizaram-se a 12 de Junho de 1993.

Nessas eleições, Bashir Tofa, candidato pessoal do ditador Ibrahim Babangida ou da ala governamental, foi derrotado pelo empresário oposicionista Moshood Abiola. Posto que o candidato do regime nao foi eleito pelo povo nigeriano, Babangida anulou as eleições, alegando fraude.

Dois meses depois, fingindo vontade em deixar o poder, Babangida nomeiou Ernest Shonekan para presidente do governo interino a que chamou de GUNN (Governo da Unidade Nacional da Nigéria) e que duraria até Fevereiro de 1994. Neste governo, Sani Abacha é nomeado Ministro da Defesa.

Fonte: Aqui

segunda-feira, abril 14, 2008

Quatro ou cinco homens, a mesma história (1)













O que se está a passar no Zimbabwe é apenas uma repetição do muito que se passa na nossa África. Alguns casos são ou foram bem visíveis e convincentes tanto mais que à nossa história, a história de África e a do mundo inteiro, não se lhe escapou registar com letras garrafais.

Alguns escaparam e outros foram apenas registados por algumas pessoas que o quiseram fazer ou o viram com outros olhos. O nosso próprio país tem muitas histórias relacionadas com as eleições. Infelizmente são histórias registadas por quem o quis fazer ou teve o cuidado em distinguir o estranho, isto é, o normal do anormal.Entre os casos bem registados, na nossa história, está a Nigéria de Ibrahim Babangida e depois Sani Abacha, o Madagascar de Didier Ratsiraka, o Quénia de Mwai Kibaki e o agora recente Zimbabwe de Robert Mugabe.Para ver-se a analogia, entre os quatro ou cincos homens, vou tentar descrever, numa série de artigos, como eles fizeram golpe palacial depois de derrota eleitoral.



sábado, abril 12, 2008

Governo da unidade nacional (1)

Será que se procura agora a criacão de um governo da unidade nacional? Ao MDC se deve impor isso como se fez em Quénia? Porquê agora um governo de unidade nacional e não antes? Estes são alguns dos meus pobres pontos de reflexão.

quinta-feira, abril 10, 2008

SADC – que esperamos deste clube político?

Segundo muitas fontes a SADC convocou uma cimeira de emergência para intervenção na crise do Zimbabwe onde os resultados das eleições presidenciais não saiem só porque o Robert Mugabe as perdeu. Que SADC tenha convocado uma cimeira ou uma reunião de alto nível é de elogiar porque permite-nos ouvir o clube, chamo-o eu, em discurso directo. De lembrar que o SADC tem uma grande responsabilidade nisto, pois se pode questionar pela sua missão de observadora nessas eleições em que os resultados nunca saiem.

Porém, sou muito céptico como muitos entre eles o meu mundo, quanto ao que membros do mesmo clube podem fazer. Lembro-me do que aconteceu em Março do ano passado quando o regime mandou amachucar o presidente eleito pelos zimbaweanos, Morgan Tsvangirai, (o resto são tretas, pois como disse Desmond Tutu, se Robert Mugabe tivesse vencido nestas eleições teriamos o ouvido e visto a jubilar) o clube foi para Dar-es-Salam. Antes da cimeira o Presidente zambiano tinha uma posicão de louvar, pois condenava a atitude do regime do Mugabe. Porém, chegado em Tanzania virou a favor do Mugabe e o seu regime responsabilizando à Grã-bretanha pelo sofrimento do povo irmão do Zimbabwe. Por esta razão, começo a receiar que os membros do clube vão lá para empossar o Mugabe como rei de Mugabeland.

Ora nessa cimeira do sábado, dia 12 de Abril estará provavelmente o tirano Mugabe a falar e não o presidente eleito Tsvangirai. Se o Mugabe não estiver lá por ser “persona no grata
”, será de facto, pela primeira vez na história de SADC. Entretanto, é exactamente isto que a SADC precisa para que a vejamos não como um clube de amigos, mas numa organização séria da nossa região. Se durante o regime do apertheid e minoritário na África do Sul e então Rodésia, os seus governos não iam para as cimeiras da então SADCC, não há agora que se reaceiar em pôr de fora o Mugabe e o seu regime.

quinta-feira, abril 03, 2008

Eleições do Zimbabwe IV

Quem são os amputados?

Pelo menos os resultados das eleições legislativas no vizinho Zimbabwe já foram oficialmente publicados pela comissão eleitoral. Estas foram ganhas pelo principal partido da oposição, o MDC do Morgan Tsvangirai. O MDC venceu 99 assentos no parlamento contra os 97 do partido do presidente Mugabe, o Zanu-PF. Isto, enquanto que 10 assentos foram conquistados pelo MDC de Arthur Mutambara e 1 pelo candidato independente Jonathan Moyo, o antigo ministro de Informação do Robert Mugabe, uma vez vaiado pelos jornalistas moçambicanos em Maputo. Esperamos agora com certa (im)paciência os resultados das eleições presidenciais. Para alguns de nós é difícil encontrar a razão da demora do anúncio destes resultados.

Desde que as eleições foram realizadas, a 29 de Março, nunca ouvimos mais o Robert Mugabe a falar. Já deixou de cantar que Tsvingirai e o MDC eram agentes britânicos enquanto que ele e a sua ala do Zanu-PF os nacionalistas? E o que diria ele agora quanto ao povo zimbabweano que não os votou maioritariamente?

Seja como for é razoal dizer que Robert Mugabe já foi amputado. Mas será só e a sua ala do Zanu-PF os únicos amputados pelas eleições zimbabweanas? Isso não parece ser. Há poucas semanas antes das eleições veio o Mammar Kadaffi ao público para dizer que Robert Mugabe devia ser presidente vitalício; para a cimeira UE-África surgiram vozes mesmo em Moçambique em apoio ao Robert Mugabe; Armando Guebuza e José Eduardo dos Santos declaram-se contra conversações directas entre Robert Mugabe e Morgan Tsvangirai talvez naquilo de verem o último (Tsvangirai) um insignificante. E hoje que dizem Mrs Guebas e Zedu?

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Sobre a sondagem interessante.

Na página de oponião do Jornal Notícias na edicao de 11/1272007, Mia Couto escreve sobre a sondagem interessante.

Eis o artigo:

Brown e Mugabe: a propósito duma sondagem!

SR. DIRECTOR!

Na sua edição do passado sábado, dia 8 de Dezembro, o seu jornal publicou uma notícia que, a nosso ver, constitui um grave atentado à verdade dos factos. A notícia intitulada “BROWN PERDE APOIO A FAVOR DE MUGABE” refere uma “sondagem pública feita pela prestigiada estação BBC. O articulista da AIM diz textualmente que “a sondagem deixa muito claro que o público mundial apoia o Presidente Mugabe...”

1. Na realidade, não se trata de uma sondagem. A rubrica “Have You Say” é um blog promovido pela BBC e em nenhuma circunstância se apresenta ou pode ser tomado por uma sondagem. O jornalista sabe a diferença entre uma coisa e outra.

2. A pergunta formulada pela BBC nesse fórum de debate não é se se apoia Mugabe ou Brown. A pergunta é completamente outra: se se apoia ou não a atitude do primeiro-ministro Gordon Brown em não participar na Cimeira de Lisboa. Os leitores poderão consultar esse blog no seguinte endereço: http://newsforums.bbc.co.uk e verificarão por si mesmos que a pergunta não tem nada a ver com o que o jornalista da AIM estranhamente conclui para, a seguir, embandeirar em arco sobre ilações como esta “que em eleições mundiais... Mugabe iria ganhar com uma vitória esmagadora, enquanto Brown sofreria a sua maior e humilhante derrota...”

3. Consultado o site, os leitores poderão confirmar que a pergunta sobre a adequação da postura de Gordon Brown é explicada num texto que contrapõe Brown a Durão Barroso, e não a Robert Mugabe. Reproduzimos textualmente as perguntas que encerram o texto: “Who is right on the boycott issue, Mr Brown or Mr Barroso? Could the row between Britain and Zimbabwe overshadow other issues at the summit? What do you want the summit to achieve?” Quem está certo na questão do boicote, o Sr. Brown ou o Sr. Barroso? Pode o clamor entre a Grã-Bretanha e o Zimbabwe ofuscar os restante assuntos da cimeira? O que desejaria que a cimeira alcançasse? como se pode constatar, nada, mas absolutamente nada sobre um eventual apoio ao Presidente Robert Mugabe.

4. Quem visitasse o blog no dia 8 de Dezembro verificaria que os 840 comentários registados apresentavam um balanço equilibrado entre quem apoiasse e criticasse a postura de Gordon Brown. Constataria, igualmente, que muitos dos que se opunham ao boicote de Brown também condenavam o regime de Mugabe.

Em conclusão, a notícia mencionada é um grave atentado contra a ética profissional e, não fosse conhecer o autor, poderia concluir que se trata de uma tentativa tosca de manipular a opinião pública moçambicana.

Mia Couto