Simulando palestra académica
O presidente honorário da Frelimo e ex-chefe do Estado, Joaquim Chissano, que está fortemente envolvido na campanha do seu partido, proferiu uma palestra académica sobre “universitários e cidadania”, mas essência, Chissano foi pedir voto aos presentes “Nestes dias de campanha anda aí um partido que se diz ser de jovens, e que vai promover muitos jovens, pois a sua aposta é a juventude…Não se deixem enganar, esse partido não nos vai levar a lugar nenhum, esses não têm agenda” – Joaquim Chissano, falando na referida palestra
Maputo (Canalmoz) – A Associação dos Estudantes da Universidade Eduardo Mondlane (AEU), agremiação cuja direcção é acusada pelos estudantes de estar altamente partidarizada e manipulada pela OJM, orquestrou, sexta-feira última, uma pseudo palestra subordinada ao tema “Universitários e Cidadania”. O orador escolhido foi o presidente honorário da Frelimo, Joaquim Chissano, que está fortemente envolvido na campanha eleitoral do seu partido. Mas na palestra que se esperava que fosse realmente académica, Chissano não conseguiu despir-se das cores partidárias. No lugar de proferir uma palestra académica, o presidente honorário da Frelimo promoveu a imagem da Frelimo e tentou denegrir a imagem dos demais partidos e candidatos às eleições gerais e das assembleias provinciais de 28 de Outubro.
A palestra teve lugar no Centro de Conferências Joaquim Chissano, e contou com a presença, de entre diversas personalidades, do vice-reitor da UEM, Leopoldo Nhampossa.
Um discurso para intimidarNo seu inconfundível jeito de diplomata, o ex-estadista moçambicano, começou por não ir directamente ao pedido do voto para Armando Guebuza e a Frelimo. Mas mais adiante acabaria por deixar inequívoco que a palestra foi para fazer propaganda partidária.
Orquestrada pela AEU em parceria com a Organização da Juventude Moçambicana (OJM), uma organização social da Frelimo, na palestra Chissano foi subtil. Começou por contar a história da formação da Frelimo (como movimento de libertação), a sua integração nela como membro, para mostrar aos estudantes a importância daquele do movimento de libertação de que se separariam muitos milhares de moçambicanos que hoje integram outras organizações políticas. Após ter contado a história de muitos camaradas “corajosos” e do sucesso da Frelimo desde a luta de libertação até aos dias de hoje, Chissano disse que tudo o que os estudantes das diversas instituições de ensino superior que estiveram a participar da palestra, vêm ou têm, é graças “à boa obra” da Frelimo.
No seu discurso que foi depois visto como de intimidação aos estudantes, Chissano disse que se eles hoje estão no ensino superior, foi o seu partido quem tornou possível o facto. “Todos vocês são produto da Frelimo. Hoje podem estar numa universidade, isso tudo é graças a Frelimo”. Chissano punha assim de lado a importância dos impostos que contribuintes até sem partido têm feito para que o Estado disponha de verbas para manter as instituições do ensino superior.
De seguida o “orador”, que já não era palestrante, nem académico, mas sim político, fez uma pergunta que assustou os estudantes. “Quem não vai votar na Frelimo nesta sala levanta a mão para eu poder ver”. Era o fim de que se supunha académico para aquilo se tornar um comício. Criou com aquilo mais indignação do que o efeito que pretendia.
Chissano explicou depois que as bolsas que os estudantes têm também são do Governo da Frelimo. “Algumas pessoas têm dito que as bolsas são de impostos dos seus pais, mas se a Frelimo não soubesse usá-los não haveriam bolsas, por isso vocês só têm de votar na Frelimo e em Guebuza, assim como eu farei”disse a terminar.
“A AEU traiu-nos”
Mesmo durante a palestra, do lado onde se encontrava a nossa equipa de reportagem, foi notória a insatisfação de muitos estudantes que tinham ido àquela cerimónia com intuito de ouvir Chissano a falar da história como um académico. Acabaram ouvindo Chissano apenas a pedir votos para a Frelimo e Guebuza e manifestavam-se insatisfeitos.
Os estudantes estavam decepcionados com a atitude da AEU na pessoa do seu presidente, João Jobe Fazenda, pois segundo disseram, teria sido melhor se os tivesse avisado que Chissano lhes queria pedir votos ao invés de inventar palestras. “Estamos decepcionados com a própria universidade, porque isto é uma instituição de ensino e não do partido”. “Não se compreende como é que uma universidade organiza campanha para um partido”. “Temos a certeza que nenhum outro partido poderá vir falar para outros estudantes”. Foram algumas frases que ouvimos em comentário ao que ali tinha acontecido.
AEU foi usada pela OJM da FrelimoDe acordo com o comunicado que tivemos acesso, a pseudo-palestra era organizada pela Associação dos estudantes da UEM. Mas, quando chegámos ao local verificámos que todos os preparativos estavam a ser feitos pela Organização da Juventude Moçambicana, OJM, um organização sócio-política do Partido Frelimo. Ninguém da AEU estava no local como organizador, o que mostra que a palestra não passava de uma iniciativa orquestrada para a Frelimo formatar a mente dos estudantes.
Aliás, mesmo a água que se bebeu no encontro foi trazida pela caravana da Frelimo, facto que conjugado com outros mostra mais uma vez a que OJM assaltou a AEU para fins partidários. Este facto foi muito criticado pela maioria dos estudantes que abertamente se diziam indignados com a atitude da AEU.
Ouvimos ainda salientar que a própria OJM goza de uma reputação deplorável no seio da classe juvenil. Alegava-se que esta organização não tem interesses inclusivos a defender. E ouvimos também que “a exclusiva tarefa da OJM é reproduzir o discurso dos governantes”.
A pseudo-palestra serviu para atacar outros partidosJá destapado o véu da pseudo-palestra, facto que fez com que o ambiente de campanha tomasse conta da sala, os ataques a outros partidos vieram a cima. E a principal vítima foi o líder do Movimento Democrático de Moçambique, MDM, Daviz Simango.
Afinal, o fenómeno Daviz Simango está a incomodar mesmo muito a Frelimo, como se pode verificar no decorrer dos acontecimentos. Num discurso caracterizado por muitas indirectas atacando Daviz Simango e o MDM, o ex-estadista moçambicano, Joaquim Chissano, disse a certa altura deixando isso de forma clara: “Nestes dias de campanha anda aí um partido que se diz ser de jovens, e que vai promover muitos jovens, pois a sua aposta é a juventude…Não se deixem enganar, esse partido. Não vos vai levar a lugar nenhum. Esses não têm agenda” disse Chissano.
A Renamo também na mira de Chissano
Houve também tempo para falar da Renamo. Chissano disse que aquele partido vive na desorganização, daí que sempre adiaram os seus congressos. “ Que partido é esse que não consegue realizar os seus congressos, durante vários anos”, questionou.
Chissano disse ainda que a alegação da Renamo quando diz que não organiza congressos por razões financeiras é um falso argumento. Joaquim Chissano acabaria por afirmar em conclusão que o facto da Renamo não organizar regularmente congressos mostra a falta de comprometimento político com o povo.
(Matias Guente)Fonte: CanalMoz (2009-10-06 08:34:00)